{"id":33741,"date":"2026-03-23T12:20:27","date_gmt":"2026-03-23T15:20:27","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33741"},"modified":"2026-03-23T12:20:34","modified_gmt":"2026-03-23T15:20:34","slug":"33741","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33741","title":{"rendered":"Por que somos contra o vestibular?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33742\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33741\/image-2-23\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-2.png?fit=1600%2C1200&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1600,1200\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"image (2)\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-2.png?fit=747%2C560&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-33742\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-2.png?resize=747%2C560&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"560\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-2.png?resize=900%2C675&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-2.png?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-2.png?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-2.png?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-2.png?w=1600&amp;ssl=1 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Todos os anos, milh\u00f5es de estudantes se prepararam para os vestibulares. Na corrida por uma vaga no ensino superior, estudam noites inteiras, recorrem a cursinhos e simulados e organizam a vida em fun\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica prova. Quando a aprova\u00e7\u00e3o vem, ela \u00e9 celebrada como uma grande vit\u00f3ria, principalmente entre estudantes pobres. O problema \u00e9 que esse modelo de sele\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode garantir o sucesso de poucos na medida que exclui muitos. Ele depende, necessariamente, de uma massa de \u201cderrotados\u201d, que acumulam frustra\u00e7\u00f5es e passam a enxergar como falha individual aquilo que \u00e9 resultado de uma estrutura excludente.<\/p>\n<p>Quando estamos imersos na experi\u00eancia cotidiana, essa competi\u00e7\u00e3o tende a ser naturalizada e tratada como inevit\u00e1vel pela esmagadora maioria das pessoas. No entanto, essa forma de acesso \u00e0 universidade nem sempre existiu e tampouco surgiu por acaso. O surgimento do vestibular est\u00e1 diretamente ligado \u00e0s necessidades de uma sociedade dividida em classes, que precisa filtrar e hierarquizar quem ter\u00e1 acesso ao ensino superior e, consequentemente, aos postos mais valorizados do mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Por isso, antes de abordar o vestibular em si, \u00e9 fundamental entender como chegamos ao atual modelo de educa\u00e7\u00e3o. Esse percurso hist\u00f3rico ajuda a compreender por que somos contra a exist\u00eancia do vestibular e por que, em seu lugar, defendemos uma Universidade Popular, com ingresso universal e sem a l\u00f3gica da competi\u00e7\u00e3o eliminat\u00f3ria, como j\u00e1 ocorre em pa\u00edses como Uruguai, It\u00e1lia, Cuba, Argentina, entre outros que adotam modelos alternativos de acesso ao ensino superior.<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o, sociedade de classes e o surgimento da escola<br \/>\nEm per\u00edodos hist\u00f3ricos anteriores \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das sociedades de classes, o aprendizado n\u00e3o se dava, necessariamente, em espa\u00e7os fechados, com hor\u00e1rios r\u00edgidos, carteiras enfileiradas e separa\u00e7\u00e3o formal entre quem ensina e quem aprende. Antes da expans\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o, em n\u00edvel mundial, do atual modelo estatal de escola, diversos povos do mundo organizavam formas pr\u00f3prias de compartilhamento do saber. \u00c9 somente quando essas formas comunit\u00e1rias de organiza\u00e7\u00e3o social come\u00e7am a ser rompidas, com o surgimento das classes sociais, da propriedade privada e da explora\u00e7\u00e3o do trabalho alheio, que o exerc\u00edcio do saber passa a ser separado do ambiente de trabalho, pois, a partir desse momento, alguns poucos passam a gozar do \u00f3cio e do tempo livre para estudar, enquanto outros s\u00e3o submetidos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da riqueza social.<\/p>\n<p>As primeiras institui\u00e7\u00f5es escolares de que se tem registro datam de cerca de 3.238 a.C. (Antiguidade Cl\u00e1ssica), nas civiliza\u00e7\u00f5es sum\u00e9ria e eg\u00edpcia, e estavam voltadas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de escribas, sacerdotes e administradores \u2014 isto \u00e9, dos setores respons\u00e1veis por dirigir, organizar e controlar a sociedade. Na Gr\u00e9cia antiga, essa separa\u00e7\u00e3o ficava ainda mais expl\u00edcita. Desenvolve-se ali a paid\u00e9ia, entendida como a educa\u00e7\u00e3o dos homens livres, voltada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o intelectual, pol\u00edtica e moral daqueles destinados a participar da vida p\u00fablica. No interior da mesma ordem social, existia tamb\u00e9m a dul\u00e9ia, a educa\u00e7\u00e3o dos escravizados, que n\u00e3o ocorria na escola, mas diretamente no processo de trabalho. Enquanto uns eram formados para governar e pensar, outros aprendiam apenas o necess\u00e1rio para produzir.<\/p>\n<p>Com o colapso do modo de produ\u00e7\u00e3o escravista e a ascens\u00e3o do feudalismo, a escola se reorganiza de uma outra forma. Diferentemente da chamada Antiguidade Cl\u00e1ssica, em que o Estado tinha papel central na educa\u00e7\u00e3o, na Idade M\u00e9dia as institui\u00e7\u00f5es escolares passam a ser fortemente controladas pela Igreja. Nessa \u00e9poca, o acesso ao saber letrado permaneceu restrito para poucos e subordinado \u00e0s necessidades da ordem feudal, especialmente para formar intelectualmente os membros do clero e da nobreza, enquanto a grande massa de servos camponeses seguiam aprendendo fora da escola, no interior do pr\u00f3prio trabalho, adquirindo apenas os conhecimentos necess\u00e1rios \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o servil.<\/p>\n<p>\u00c9 apenas com a consolida\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista que o Estado assume novamente o protagonismo na organiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, dessa vez com base na ideia da escola p\u00fablica, obrigat\u00f3ria, laica e formalmente universal. No entanto, essa aparente democratiza\u00e7\u00e3o do acesso n\u00e3o eliminou seu car\u00e1ter funcional para a domina\u00e7\u00e3o de classes, pois a escola passa a ser organizada de modo a atender \u00e0s exig\u00eancias da burguesia, formando uma massa de trabalhadores assalariados, distribuindo o conhecimento de maneira hierarquizada e instituindo a competi\u00e7\u00e3o como crit\u00e9rio de ingresso naquilo que se convencionou chamar de \u201censino superior\u201d.<\/p>\n<p>Vestibular na hist\u00f3ria: a competi\u00e7\u00e3o como pol\u00edtica de estado<br \/>\nNo caso brasileiro, esse processo n\u00e3o ocorreu simultaneamente \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es europeias. Enquanto pa\u00edses centrais do capitalismo estruturavam sistemas nacionais de ensino organizada sob princ\u00edpios de igualdade formal, o Brasil ainda vivia a condi\u00e7\u00e3o de col\u00f4nia portuguesa, inserido numa economia agroexportadora baseada no trabalho escravizado. Aqui, a educa\u00e7\u00e3o permaneceu, por s\u00e9culos, subordinada a um modelo tipicamente colonial e religioso, controlado sobretudo pela Igreja e voltado \u00e0 catequese e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de quadros administrativos da pr\u00f3pria ordem colonial.<\/p>\n<p>Ao analisar a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o brasileira, o fil\u00f3sofo e pedagogo Dermeval Saviani prop\u00f5e uma periodiza\u00e7\u00e3o que ajuda a compreender as transforma\u00e7\u00f5es da escola, tal como o car\u00e1ter profundamente limitado e excludente do acesso ao ensino ao longo de quase toda a nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O primeiro per\u00edodo, entre 1549 e 1759, \u00e9 marcado pela hegemonia dos col\u00e9gios jesu\u00edtas, respons\u00e1veis pela introdu\u00e7\u00e3o das primeiras institui\u00e7\u00f5es escolares na col\u00f4nia. Tratava-se de uma educa\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 catequese e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de quadros letrados ligados \u00e0 Igreja e \u00e0 administra\u00e7\u00e3o colonial, da qual estavam automaticamente exclu\u00eddos mulheres, pessoas escravizadas, negros livres, pobres e filhos considerados \u201cileg\u00edtimos\u201d.<\/p>\n<p>Com a expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas em 1759, inicia-se um segundo per\u00edodo, que vai at\u00e9 1827, caracterizado pelas chamadas Aulas R\u00e9gias, institu\u00eddas no contexto da reforma pombalina. Embora representassem uma primeira tentativa de organizar uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica estatal, inspirada em ideias iluministas, essas aulas foram incapazes de romper com o car\u00e1ter elitista e racista da escolariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O terceiro per\u00edodo, de 1827 a 1890, corresponde \u00e0s tentativas iniciais de atribuir ao poder p\u00fablico a responsabilidade pela educa\u00e7\u00e3o, primeiro sob administra\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio e, posteriormente, nas prov\u00edncias. Mesmo assim, o ensino permaneceu restrito e profundamente desigual, sem alcan\u00e7ar a maior parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre 1890 e 1931, no quarto per\u00edodo, surgem os grupos escolares nos estados, impulsionados pelo ide\u00e1rio republicano e pela defesa da instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria. Apesar do discurso modernizador, o acesso \u00e0s faculdades era privil\u00e9gio quase exclusivo dos estudantes egressos do Col\u00e9gio Pedro II (antigo Col\u00e9gio Imperial), no Rio de Janeiro \u2013 a institui\u00e7\u00e3o mais elitizada do pa\u00eds na \u00e9poca. Contudo, enquanto os filhos da burguesia tinham acesso garantido para os cursos de Direito e Medicina por meio dessa institui\u00e7\u00e3o, a realidade da juventude negra na ressaca da aboli\u00e7\u00e3o era completamente diferente: meninas eram enviadas a orfanatos para aprender o servi\u00e7o dom\u00e9stico e meninos eram empurrados para o trabalho rural precarizado.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio de profunda segrega\u00e7\u00e3o que Rivad\u00e1via Corr\u00eaa cria o vestibular em 1911. Rivad\u00e1via, jurista e pol\u00edtico ligado \u00e0s reformas educacionais da Primeira Rep\u00fablica, atuou como ministro da Justi\u00e7a e Neg\u00f3cios Interiores e foi um defensor da doutrina positivista, que via a educa\u00e7\u00e3o como instrumento de ordenamento social, racionaliza\u00e7\u00e3o administrativa e progresso sob controle das elites dirigentes. A justificativa oficial propagada \u00e0 \u00e9poca \u2014 o \u2018excesso\u2019 de candidatos por vaga \u2014 escondia o car\u00e1ter pol\u00edtico da medida. Ao acabar com o privil\u00e9gio autom\u00e1tico dos estudantes da Pedro II, o Estado precisava de um novo \u201cfiltro\u201d sociorracial para conter a entrada da popula\u00e7\u00e3o negra, mulheres no geral e outros setores marginalizados. O vestibular nasce, portanto, como um mecanismo de controle de classe, com o Estado burgu\u00eas organizando a entrada dos seus pares enquanto mantinha a massa negra e pobre exclu\u00edda do processo.<\/p>\n<p>A partir de 1930, com a industrializa\u00e7\u00e3o exigindo m\u00e3o de obra para cargos intermedi\u00e1rios (supervis\u00e3o, chefias t\u00e9cnicas, administra\u00e7\u00e3o, burocracia, etc), o sistema se expande, mas se mant\u00e9m voltado para as demandas de um mercado de trabalho racista e sexista. Somente a partir dos anos 1960 h\u00e1 uma expans\u00e3o mais consistente do ensino m\u00e9dio \u2014 e ainda assim, at\u00e9 ent\u00e3o era comum a exist\u00eancia de provas para ingressar no secund\u00e1rio, al\u00e9m do fato de que nem todas as escolas estavam habilitadas a encaminhar seus estudantes ao ensino superior.<\/p>\n<p>Amplia\u00e7\u00e3o do vestibular: a competi\u00e7\u00e3o entre muitos<br \/>\nDesde ent\u00e3o, tanto o ensino b\u00e1sico quanto o superior e seu acesso s\u00f3 passaram a crescer no Brasil na medida em que o mercado interno exigia novos quadros t\u00e9cnicos e profissionais. O Enem, criado em 1998 no governo FHC e posteriormente adotado, a partir de 2009, como crit\u00e9rio de ingresso em diversas universidades federais, contribuiu para unificar o processo seletivo e ampliar o acesso de setores historicamente exclu\u00eddos do ensino superior, sobretudo com as pol\u00edticas de expans\u00e3o e as cotas. Houve, nesse sentido, uma democratiza\u00e7\u00e3o relativa da disputa: se antes a competi\u00e7\u00e3o era restrita a poucos, agora ela passou a envolver muitos. No entanto, a competi\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 o \u00fanico meio de ingresso, e nela os estudantes mais pobres seguem, em grande medida, exclu\u00eddos do ensino superior ou concentrados nas vagas menos prestigiadas, enquanto os cursos de maior status social continuam majoritariamente ocupados pelos setores da classe m\u00e9dia e pelos filhos e filhas da burguesia.<\/p>\n<p>Ainda hoje, os dados educacionais revelam desigualdades gritantes. Entre 2017 e 2018, um estudo da Firjan em parceria com a ONU apontou que apenas 46% dos jovens pertencentes aos estratos mais pobres conclu\u00edram o ensino m\u00e9dio, enquanto entre os mais ricos esse percentual chegou a 94%. Outro levantamento, com base em dados do SISU e do MEC entre 2013 e 2021, mostrou que a probabilidade de um estudante branco oriundo da rede privada alcan\u00e7ar as notas mais competitivas do ENEM \u00e9 de cerca de 33%, ao passo que, entre estudantes pretos, pardos ou ind\u00edgenas da rede p\u00fablica, essa chance cai para aproximadamente 7%.<\/p>\n<p>Em 2019, uma pesquisa conduzida por docentes da Universidade de S\u00e3o Paulo e da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo, com base em mais de 757 mil question\u00e1rios socioecon\u00f4micos do Enem, confirmou a mesma tend\u00eancia: renda familiar, escolaridade dos pais, tipo de escola e regi\u00e3o do pa\u00eds est\u00e3o diretamente associados ao desempenho. Estudantes brancos, com renda per capita de cerca de R$ 5 mil, oriundos de escolas privadas e com pais diplomados no ensino superior, alcan\u00e7aram m\u00e9dias de 130 a 140 pontos acima de estudantes negros, com renda pr\u00f3xima de R$ 1 mil, egressos de escolas estaduais e cujos pais t\u00eam apenas o ensino fundamental. Em uma prova cuja m\u00e9dia gira em torno de 600 pontos, essa diferen\u00e7a diminui muito a possibilidade de ingresso nos cursos mais concorridos.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m demonstrou que, nas faixas de renda mais baixas, um acr\u00e9scimo de R$ 500 per capita pode elevar a nota entre 15 e 20 pontos \u2014 varia\u00e7\u00e3o suficiente para alterar a posi\u00e7\u00e3o na fila de classifica\u00e7\u00e3o. J\u00e1 nas rendas mais altas, o mesmo acr\u00e9scimo tem impacto quase nulo. A nota m\u00e9dia dos filhos de pais com ensino m\u00e9dio completo ficou em torno de 500 pontos, enquanto entre aqueles cujos pais possuem p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o chegou a 600. O desempenho tamb\u00e9m varia regionalmente, com m\u00e9dias mais altas concentradas no Sul e Sudeste e resultados inferiores no Norte.<\/p>\n<p>Esses dados n\u00e3o indicam qualquer incapacidade individual nem autorizam interpreta\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas, regionalistas, racistas, sexistas ou elitistas. As diferen\u00e7as de notas entre estudantes de diferentes classes, ra\u00e7as e endere\u00e7os n\u00e3o se explicam por talento \u201cnatural\u201d de um grupo, nem de alguma defici\u00eancia \u201cnatural\u201d de outro. As provas medem conhecimentos, mas esses conhecimentos s\u00e3o acumulados sob condi\u00e7\u00f5es materiais desiguais. Nesse cen\u00e1rio a concorr\u00eancia se apresenta como formalmente igual, por\u00e9m se realiza sobre bases sociais desiguais.<\/p>\n<p>Cabe \u201ctodo mundo\u201d no ensino superior?<br \/>\nAinda recentemente, durante o governo Bolsonaro, o ent\u00e3o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Milton Ribeiro, afirmou em entrevista \u00e0 TV Brasil que a universidade deveria ser \u201cpara poucos\u201d, enquanto a maior parte da popula\u00e7\u00e3o deveria se direcionar \u00e0 forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Ao sustentar que a universidade n\u00e3o \u00e9 para todos, o ministro n\u00e3o estava apenas emitindo uma opini\u00e3o pessoal ou defendendo uma pol\u00edtica educacional espec\u00edfica, mas reafirmando uma concep\u00e7\u00e3o de sociedade na qual a produ\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico, a forma\u00e7\u00e3o intelectual e as profiss\u00f5es de maior prest\u00edgio devem permanecer reservados a uma minoria.<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o dessa vis\u00e3o elitista e reacion\u00e1ria, a UJC compreende a quest\u00e3o de forma radicalmente contr\u00e1ria: a universidade deveria ser sim para todas as pessoas, principalmente \u00e0quelas historicamente marginalizadas dela. O fato de, atualmente, n\u00e3o existirem vagas para todos (n\u00e3o \u201ccaber todo mundo\u201d), pode ser superado de maneira muito simples: mais verba para a educa\u00e7\u00e3o, mais universidades p\u00fablicas e estatais, amplia\u00e7\u00e3o dos campi, contrata\u00e7\u00e3o de mais docentes, investindo de verdade em infraestrutura, assist\u00eancia estudantil e perman\u00eancia, dentre outras medidas que contrariem a l\u00f3gica de desmonte neoliberal da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o nutrimos qualquer ilus\u00e3o de que esse programa ser\u00e1 levado adiante por governos rendidos aos interesses do grande capital, seja eles de direita ou da esquerda liberal. A expans\u00e3o radical do ensino superior p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com um Estado orientado para garantir \u2018super\u00e1vit\u2019, pagar juros da d\u00edvida e preservar privil\u00e9gios de classe. Na nossa compreens\u00e3o, a democratiza\u00e7\u00e3o plena da universidade exige uma ruptura com a sociedade capitalista e a constru\u00e7\u00e3o do socialismo rumo ao comunismo, pois somente quando estudantes e trabalhadores assumirem o controle efetivo da sociedade e do Estado, esse \u00faltimo poder\u00e1 operar, de fato, em favor das maiorias e transformar a universidade em direito universal.<\/p>\n<p>Ousar lutar pelo fim do vestibular<br \/>\n\u00c0s pessoas que insistem em se opor a esse programa, cabe uma provoca\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria: a quem interessa limitar o acesso ao conhecimento? Quem de fato ganha, e quem de fato perde com isso? Que mal faria a sociedade se a maioria das pessoas tivessem forma\u00e7\u00e3o superior? Todas essas respostas nos levam a um \u00fanico alvo: os grandes capitalistas.<\/p>\n<p>Os detentores do capital n\u00e3o buscam apenas o lucro imediato, mas a manuten\u00e7\u00e3o de uma estrutura de domina\u00e7\u00e3o que requer a hierarquiza\u00e7\u00e3o do saber. Para eles, o conhecimento t\u00e9cnico e cient\u00edfico deve ser um privil\u00e9gio e \u00e0 classe trabalhadora deve se reservar apenas a instru\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para decorar palavras e fazer contas. O vestibular, portanto, atua como o \u201cporteiro\u201d dessa estrutura, como um mecanismo que, sob o discurso do m\u00e9rito individual, legitima a exclus\u00e3o. Sua real fun\u00e7\u00e3o social \u00e9 filtrar quem acessa os melhores postos do mercado, garantindo ao sistema uma reserva constante de trabalhadores mal remunerados e dependentes dos piores cargos.<\/p>\n<p>Na perspectiva da UJC, ser contra o vestibular n\u00e3o significa ignorar seu papel concreto na vida da juventude trabalhadora. Em alguns estados do pa\u00eds, apoiamos e constru\u00edmos iniciativas de cursinhos populares, grupos de estudo e atividades educativas diversas que ajudam os jovens a enfrentar as barreiras imediatas impostas por esse modelo de sele\u00e7\u00e3o. Essas a\u00e7\u00f5es que realizamos partem do reconhecimento de que, enquanto o vestibular existir, ele continuar\u00e1 definindo o acesso ao ensino superior e, portanto, precisamos disputar essas vagas mesmo sendo contra a pr\u00f3pria disputa. No entanto, essa solidariedade com a luta imediata dos estudantes n\u00e3o se confunde com a aceita\u00e7\u00e3o do vestibular como modelo.<\/p>\n<p>A UJC compreende que \u00e9 lutando pelas pautas imediatas e articulando elas com um horizonte mais amplo, no nosso caso a luta pelo socialismo, que mobiliza a juventude para construir um novo modelo de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o \u00e9 com a luta do movimento estudantil, por maior or\u00e7amento e expans\u00e3o das vagas nas universidades p\u00fablicas, pela estatiza\u00e7\u00e3o das universidades privadas, pelas melhorias de estrutura e curr\u00edculo nas escolas, e sua articula\u00e7\u00e3o com as iniciativas dos trabalhadores e do movimento social, com os cursinhos populares, por exemplo, que faremos essa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Constru\u00edmos nossa luta com a compreens\u00e3o de lutar por uma Educa\u00e7\u00e3o Popular, que se expressa na Universidade e Escola Populares, que s\u00f3 podem se realizar plenamente numa sociedade socialista, mas que, no momento, se fazem presentes em cada luta por condi\u00e7\u00f5es de estudo e trabalho, de acesso e perman\u00eancia. Articulamos ent\u00e3o o Movimento por uma Universidade Popular (MUP) e o Movimento por uma Escola Popular (MEP), buscando fortalecer a luta com todos aqueles que defendem tamb\u00e9m que n\u00e3o basta lutar pelo hoje, mas que \u00e9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m ter em vista o amanh\u00e3. O nosso hoje \u00e9 lutar por uma educa\u00e7\u00e3o que seja p\u00fablica, universal e de qualidade, mas que se articula com o amanh\u00e3 por estar direcionada pelos interesses dos estudantes e da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Estudante, lute conosco, construa o MUP e o MEP!<\/p>\n<p>Coordena\u00e7\u00e3o Nacional da Uni\u00e3o da Juventude Comunista \u2013 UJC Brasil<br \/>\n18 de mar\u00e7o de 2026<\/p>\n<p>Foto: Amanda Braun \/ UJC Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33741\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,134,66,10,27],"tags":[223,247],"class_list":["post-33741","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s5-juventude","category-c139-mup","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","category-c27-ujc","tag-3a","tag-jd"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/s659gw-33741","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33741","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33741"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33741\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33744,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33741\/revisions\/33744"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33741"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33741"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33741"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}