{"id":3388,"date":"2012-08-20T21:15:19","date_gmt":"2012-08-20T21:15:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3388"},"modified":"2012-08-20T21:15:19","modified_gmt":"2012-08-20T21:15:19","slug":"torturador-conta-pela-1o-vez-rotina-da-casa-em-petropolis-de-onde-na-ditadura-so-um-saiu-vivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3388","title":{"rendered":"Torturador conta pela 1\u00aa vez rotina da casa em Petr\u00f3polis de onde, na ditadura, s\u00f3 um saiu vivo"},"content":{"rendered":"\n<p>(<a href=\"mailto:marcelo.remigio@oglobo.com.br\" target=\"_blank\">marcelo.remigio@oglobo.com.br<\/a>) | Ag\u00eancia O Globo \u2013 24\/06\/2012.<\/p>\n<p>RIO &#8211; Depois de cinco horas de conversa, o velho oficial estava livre de um dos mais bem guardados segredos do regime militar: o prop\u00f3sito e a rotina do aparelho clandestino mantido nos anos 1970 pelo Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE) em Petr\u00f3polis, conhecido na literatura dos anos de chumbo como &#8220;Casa da Morte&#8221;, onde podem ter sido executados pelo menos 22 presos pol\u00edticos. Passados quase 40 anos, um dos agentes que atuaram na casa, o tenente-coronel reformado Paulo Malh\u00e3es, de 74 anos, o &#8220;Doutor Pablo&#8221; dos por\u00f5es, quebrou o sil\u00eancio sobre o assunto.<\/p>\n<p>No jarg\u00e3o do regime, revelou Malh\u00e3es, a casa era chamada de centro de conveni\u00eancia e servia para pressionar os presos a mudar de lado e virar informantes infiltrados, ou RX, outra g\u00edria dos agentes. O oficial n\u00e3o usa a palavra tortura, mas deixa clara a crueldade dos m\u00e9todos usados para convencer os presos:<\/p>\n<p>&#8211; Para virar algu\u00e9m, tinha que destruir convic\u00e7\u00f5es sobre comunismo. Em geral no papo, quase todos os meus viraram. Claro que a gente dava sustos, e o susto era sempre a morte. A casa de Petr\u00f3polis era para isso. Uma casa de conveni\u00eancia, como a gente chamava.<\/p>\n<p>As equipes do CIE, afirmou, trabalhavam individualmente, cada qual levando o seu preso, com o objetivo de coopt\u00e1-lo. O oficial disse que a liberta\u00e7\u00e3o de In\u00eas Etienne Romeu, a \u00fanica presa sobrevivente da casa, foi um erro dos agentes, que teriam sido enganados por ela, acreditando que aceitara a condi\u00e7\u00e3o de infiltrada.<\/p>\n<p>Malh\u00e3es s\u00f3 n\u00e3o contou o que era feito com os que resistiram \u00e0 press\u00e3o para trair. Diante da pergunta, ficou em sil\u00eancio e, em seguida, lembrou que nada na casa de Petr\u00f3polis era feito \u00e0 revelia dos superiores. As equipes relatavam e esperavam pela voz do comando:<\/p>\n<p>&#8211; Se era o fim da linha? Podia ser, mas n\u00e3o era ali que determinava.<\/p>\n<p>At\u00e9 ter\u00e7a-feira, quando o militar abriu a porteira do s\u00edtio na Baixada Fluminense aos rep\u00f3rteres, nenhum dos agentes da casa havia falado sobre ela. O que se sabia era o testemunho de In\u00eas Etienne, colhido em 1971 mas s\u00f3 divulgado em 1979, ap\u00f3s o per\u00edodo em que cumpriu pena por envolvimento com a guerrilha da VAR-Palmares. Outras refer\u00eancias ao local apareceram em entrevistas e livros de colaboradores do regime, como o oficial m\u00e9dico Amilcar Lobo, o sargento Marival Chaves (CIE-DF) e o delegado da Pol\u00edcia capixaba Cl\u00e1udio Guerra.<\/p>\n<p>Sentado ao lado da mulher no alpendre da casa maltratada pelo tempo, Malh\u00e3es revelou que j\u00e1 pertencia ao Movimento Anticomunista (MAC) quando ingressou nos quadros da repress\u00e3o. Sua ascens\u00e3o, iniciada com um curso de t\u00e9cnicas para abrir cadeados, fazer escuta, aprender a seguir pessoas, foi r\u00e1pida. Ap\u00f3s o golpe militar, passou pela 2 Se\u00e7\u00e3o (Informa\u00e7\u00f5es) e pelo Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es (DOI) do I Ex\u00e9rcito (RJ) antes de ingressar no Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE), onde passou a perseguir as organiza\u00e7\u00f5es da luta armada pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8216;Eu organizei o lugar&#8217;<\/p>\n<p>A casa de Petr\u00f3polis, na Rua Arthur Barbosa 668, Centro, teria sido um trabalho espec\u00edfico de Malh\u00e3es j\u00e1 dentro do CIE. Ele afirmou que o im\u00f3vel, emprestado \u00e0 repress\u00e3o pelo ent\u00e3o propriet\u00e1rio, Mario Lodders, n\u00e3o era o \u00fanico aparelho com esse prop\u00f3sito:<\/p>\n<p>&#8211; Tinha outras. Eu organizei o lugar. Quem eram as sentinelas, a rotina e quando se dava festa para disfar\u00e7ar, por exemplo. Tinha que dar vida a essa casa. Eu era um fazendeiro que vinha para Petr\u00f3polis de vez em quando &#8211; contou Malh\u00e3es, que se recusou a revelar o nome das sentinelas e n\u00e3o se deixou fotografar.<\/p>\n<p>Cada oficial, informou, contava com sua pr\u00f3pria equipe, que podia incluir cabos, sargentos, policiais federais, delegados ou m\u00e9dicos. De acordo com o coronel, na maioria das vezes, as equipes trabalhavam com um preso de cada vez na casa. Esse seria o motivo alegado por ele para desconhecer o destino de presos citados na lista dos desaparecidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>&#8211; Eu trabalhei uns cinco ou seis. \u00c0s vezes, passava de um m\u00eas com um &#8211; explicou.<\/p>\n<p>O oficial disse que as t\u00e1ticas para cooptar e formar os infiltrados variavam, e cada um deles era detalhadamente estudado antes da abordagem, tanto sua ideologia como a fam\u00edlia. Malh\u00e3es disse que chegou a ficar preso por 30 dias numa cadeia, disfar\u00e7ado, em tentativa de arregimentar um RX. Depois que os presos mudavam de posi\u00e7\u00e3o, eles eram filmados delatando os companheiros. No depoimento sobre os cem dias que passou na casa, In\u00eas Etienne relatou que fingiu ser uma infiltrada e foi filmada contando dinheiro e assinando um contrato com seus algozes.<\/p>\n<p>Sobre o destino de alguns nomes de presos, que arquivos ou testemunhas apontam que estiveram na Casa da Morte, ele disse que o ex-deputado federal Rubens Paiva n\u00e3o passou por l\u00e1, mas admitiu ter visto Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, comandante da VAR-Palmares desaparecido em fevereiro de 1971.<\/p>\n<p>&#8211; O Beto talvez tenha conhecido &#8211; informou.<\/p>\n<p>Questionado novamente se os militantes da luta armada eram assassinados, ele respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Se ele deu depoimento, mas a estrutura (da organiza\u00e7\u00e3o guerrilheira) n\u00e3o caiu, ele pode ter sofrido as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>O coronel reformado disse que, al\u00e9m da garantia de sigilo, era oferecida ajuda financeira aos infiltrados, embora nem todos aceitassem. Uma reuni\u00e3o do PCdoB em S\u00e3o Paulo, afirmou, teria custado R$ 50 mil. Sem fornecer qualquer prova al\u00e9m das declara\u00e7\u00f5es, disse que nem todos os desaparecidos teriam morrido no per\u00edodo.<\/p>\n<p>&#8211; Na lista de desaparecidos tem RX. E muita gente morreu em combate. Desaparecido \u00e9 um termo for\u00e7ado. Em combate, tudo pode acontecer. E voc\u00ea n\u00e3o vai achar desaparecido nunca &#8211; declarou ele, ao negar as formas conhecidas at\u00e9 aqui para desaparecimento dos corpos.<\/p>\n<p>Para o ex-preso pol\u00edtico Ivan Seixas, diretor do N\u00facleo de Preserva\u00e7\u00e3o da Mem\u00f3ria Pol\u00edtica, Malh\u00e3es \u00e9 fundamental para esclarecer o destino dos desaparecidos:<\/p>\n<p>&#8211; Ele foi um dos tr\u00eas coordenadores operacionais da repress\u00e3o, ao lado de Freddie Perdig\u00e3o Pereira e de \u00canio Pimentel Silveira, que j\u00e1 est\u00e3o mortos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/br.noticias.yahoo.com\/torturador-conta-1-vez-rotina-casa-petr%C3%B3polis-onde-120855230.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">http:\/\/br.noticias.yahoo.com\/torturador-conta-1-vez-rotina-casa-petr%C3%B3polis-onde-120855230.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: lh6\n\n\n\n\n\n\n\n\nMarcelo Rem\u00edgio\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3388\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-3388","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-SE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3388","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3388"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3388\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3388"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3388"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3388"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}