{"id":33930,"date":"2026-06-05T15:31:45","date_gmt":"2026-06-05T18:31:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33930"},"modified":"2026-06-05T15:31:45","modified_gmt":"2026-06-05T18:31:45","slug":"a-revolucao-e-impossivel-palavras-de-um-morto-irresponsavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33930","title":{"rendered":"A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel (palavras de um morto irrespons\u00e1vel)"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33931\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33930\/image-23-2\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-23.png?fit=960%2C662&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"960,662\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"image-23\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-23.png?fit=747%2C515&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-33931\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-23.png?resize=747%2C515&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"515\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-23.png?resize=900%2C621&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-23.png?resize=300%2C207&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-23.png?resize=768%2C530&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-23.png?w=960&amp;ssl=1 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Imagem: WikiCommons<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, nossa ci\u00eancia n\u00e3o pode ser uma ilus\u00e3o. Ilus\u00e3o seria imaginar que podemos conseguir em outro lugar, o que a ci\u00eancia nos pode dar.\u201d<br \/>\n\u2014 Sigmund Freud, Futuro de uma Ilus\u00e3o<\/p>\n<p>E se a revolu\u00e7\u00e3o for imposs\u00edvel? Como disse amargamente Bertold Brecht um dia, ser\u00e1 que \u201csomos o que restou, lan\u00e7ados para fora da corrente viva\u2026 ficando para tr\u00e1s, por ningu\u00e9m compreendidos e a ningu\u00e9m compreendendo\u201d?<\/p>\n<p>Diante de todas as possibilidades hist\u00f3ricas abertas no devir, essa \u00e9 uma delas e n\u00e3o devemos contorn\u00e1-la pelo inc\u00f4modo que nos causa com bravatas e meras afirma\u00e7\u00f5es de f\u00e9. Em uma instigante provoca\u00e7\u00e3o feita aqui no Blog da Boitempo, com o t\u00edtulo \u201cA irresponsabilidade da esquerda radical e revolucion\u00e1ria no Brasil: um manifesto\u201c, meu colega da UFRJ, Ronaldo Tadeu de Souza, afirma que depois da morte de uma esquerda social-liberal institucional, \u201cestamos a presenciar tamb\u00e9m o fenecimento da esquerda radical e revolucion\u00e1ria (qui\u00e7\u00e1, marxista)\u201d.<\/p>\n<p>Segundo ele, a irresponsabilidade da esquerda radical em processo de fenecimento se expressaria ao n\u00e3o apresentar um projeto alternativo \u00e0 esquerda institucional da ordem, formando uma \u201cmuralha unit\u00e1ria\u201d contra o lulismo e optando pelo \u201cespa\u00e7o da n\u00e3o-exist\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Vamos assumir por um momento tal premissa, em si mesma correta, ainda que possamos discordar de um ou outro aspecto dos argumentos ou conclus\u00f5es do autor. Estamos mortos, ou moribundos, e a classe se divide entre alternativas que n\u00e3o s\u00e3o as suas, como disse em texto recente, entre o que t\u00ednhamos no pesadelo bolsonarista e o que temos nos limites do lulismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o que a esquerda revolucion\u00e1ria n\u00e3o tenha projeto, mas podemos assumir o fato de que ningu\u00e9m se digna a conhec\u00ea-lo para critic\u00e1-lo e fica invis\u00edvel diante do consenso da pequena pol\u00edtica e suas armadilhas. No entanto, devemos nos perguntar o que resulta desse impasse.<\/p>\n<p>Preliminarmente, pensemos um pouco sobre as determina\u00e7\u00f5es que tornariam a revolu\u00e7\u00e3o brasileira imposs\u00edvel. Devemos colocar de imediato um fator localizado nas chamadas condi\u00e7\u00f5es subjetivas, tal como L\u00eanin as define em seu texto sobre a Situa\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria (\u201cA fal\u00eancia da II Internacional\u201d, de 1915). Para nosso querido revolucion\u00e1rio russo, j\u00e1 morto, nem toda situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria torna-se uma revolu\u00e7\u00e3o caso n\u00e3o se some \u00e0s condi\u00e7\u00f5es objetivas (agravamento da mis\u00e9ria e ang\u00fastia das massas, crise nas c\u00fapulas e a\u00e7\u00e3o independente das massas) um fator subjetivo, a saber, a capacidade de a classe revolucion\u00e1ria empreender a\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias de massa que derrubem o regime vigente.<\/p>\n<p>Essa capacidade, como sabemos, se expressa na elabora\u00e7\u00e3o de formula\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas e t\u00e1ticas e dos meios organizativos para implement\u00e1-las, assim como &#8211; fator decisivo &#8211; a organicidade junto \u00e0 classe que pode fazer desta inten\u00e7\u00e3o subjetiva uma efetiva a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de massas.<\/p>\n<p>Nossa primeira conclus\u00e3o, portanto, \u00e9 que se n\u00f3s n\u00e3o estivermos por l\u00e1 nesse momento, por morte ou irresponsabilidade, n\u00e3o ocorrer\u00e1 uma revolu\u00e7\u00e3o socialista, mas existem muitos tipos de revolu\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, as situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, por serem objetivas, continuariam se apresentando mesmo sem a nossa presen\u00e7a, de forma a serem capturadas por outras intencionalidades hist\u00f3ricas que n\u00e3o a nossa.<\/p>\n<p>Outra determina\u00e7\u00e3o propalada para compreender a impossibilidade da revolu\u00e7\u00e3o seria a morte n\u00e3o da esquerda, mas da classe, tal como se apresentou na maior ofensiva ideol\u00f3gica da ordem nas d\u00e9cadas finais do s\u00e9culo passado. Autores como Andr\u00e9 Gorz, de Adeus ao proletariado, e todas as facetas dos que afirmaram uma sociedade p\u00f3s-industrial, como Alain Touraine, Daniel Bell, Ralf Dahrendorf e mesmo \u2013 infelizmente \u2013 Jacob Gorender, afirmam, de diferentes modos e com argumentos distintos, o fim da centralidade das classes, ancorado em mudan\u00e7as substanciais no modo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pioneira nessa trilha foi, sem d\u00favida, Hannah Arendt em seu A condi\u00e7\u00e3o humana, de 1958, que vincula a supera\u00e7\u00e3o do trabalho pelo desenvolvimento da tecnologia, no que \u00e9 seguida por Habermas, em seu excerto sobre o fim da sociedade do trabalho em O discurso filos\u00f3fico da modernidade, de 1985.<\/p>\n<p>J\u00e1 tratamos muito desse tema nos livros O dilema de Hamlet (2002), Metamorfoses da consci\u00eancia de classe (2006), Estado, pol\u00edtica e ideologia (2017), Consci\u00eancia e ideologia (2022) e outros. Nesta coluna, devemos resgatar somente que as profundas mudan\u00e7as nos padr\u00f5es de acumula\u00e7\u00e3o, a tecnologia e o crescente parasitismo, segundo nossa an\u00e1lise, n\u00e3o alteram o fato que ainda estamos sob a \u00e9gide do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista fundado numa sociedade de classes e na explora\u00e7\u00e3o do trabalho. As altera\u00e7\u00f5es significativas no capitalismo contempor\u00e2neo, alteraram, certamente, a morfologia da classe trabalhadora, como afirma Ricardo Antunes, mas n\u00e3o o fato de que a atual sociedade \u00e9 uma sociedade de classes e, muito menos, que a din\u00e2mica central de suas contradi\u00e7\u00f5es se apresenta como luta de classes, como foi obrigado a reconhecer, tardiamente, o p\u00f3s-moderno Boaventura de Sousa Santos \u2013 que, dizem, est\u00e1 vivo mas n\u00e3o passa muito bem.<\/p>\n<p>Nossa segunda conclus\u00e3o deriva da\u00ed. A classe existe em sua nova configura\u00e7\u00e3o, pulverizada, serializada e, do ponto de vista pol\u00edtico, sofreu uma derrota hist\u00f3rica sem precedentes. Isso significa que a chamada esquerda s\u00f3 pode ser entendida como express\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora \u2013 e se ela se apresenta morta ou moribunda, fragmentada, n\u00e3o se deve apenas \u00e0 sua tr\u00e1gica tend\u00eancia a se dividir e se recolher \u00e0s catacumbas dos debates fratricidas intermin\u00e1veis. Mas &#8211; esta \u00e9 nossa hip\u00f3tese &#8211; a crise da esquerda revolucion\u00e1ria \u00e9 uma express\u00e3o da derrota dos trabalhadores na arena da luta de classes, assim como, da mesma forma, a \u201cesquerda institucional da ordem\u201d (ou como queiram chamar sua degenera\u00e7\u00e3o) \u00e9 igualmente express\u00e3o e sujeito dessa derrota.<\/p>\n<p>Seja como for, um momento hist\u00f3rico de derrota dos trabalhadores e de crise dos segmentos que poderiam se tornar uma vanguarda na perspectiva da revolu\u00e7\u00e3o pode de fato tornar imposs\u00edvel a revolu\u00e7\u00e3o, ainda que n\u00e3o possa ser causa que fa\u00e7a desaparecer situa\u00e7\u00f5es e crises revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, voltemos \u00e0 nossa pergunta: o que pode resultar da impossibilidade da revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Devemos come\u00e7ar pelo \u00f3bvio. Se uma ruptura revolucion\u00e1ria se apresenta invi\u00e1vel, o resultado imediato \u00e9 a perman\u00eancia da ordem que podia ser superada, isto \u00e9, do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e da ordem burguesa monopolista e imperialista. Aqui se apresenta um mito sempre revivido e, igualmente, sempre negado pela hist\u00f3ria em seu real devir, isto \u00e9, o capitalismo se apresenta como uma forma hist\u00f3rica progressista que se aperfei\u00e7oa quando mais se expande e mercantiliza a vida, levando com esse progresso ao aperfei\u00e7oamento da democracia e da liberdade. Bom, n\u00e3o precisamos de muito esfor\u00e7o argumentativo para chegarmos \u00e0 conclus\u00e3o de que o mundo atual n\u00e3o \u00e9 prova disto, pelo contr\u00e1rio: o capitalismo j\u00e1 se apresenta em seu pleno desenvolvimento como uma for\u00e7a que pode colocar em risco a exist\u00eancia humana em todos os sentidos, econ\u00f4mico, social, pol\u00edtico, cultural, ecol\u00f3gico e tudo mais que a esta lista se possa agregar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, devemos ponderar que a morte da esquerda revolucion\u00e1ria (ou sua irresponsabilidade) n\u00e3o \u00e9 nosso principal problema, pois estamos diante da possibilidade real da barb\u00e1rie e da inviabiliza\u00e7\u00e3o da vida humana.<\/p>\n<p>Nesse ponto se inscreve um outro mito, aquele segundo o qual \u00e9 poss\u00edvel disciplinar essa for\u00e7a destruidora e dirigir o desenvolvimento capitalista para outra dire\u00e7\u00e3o que n\u00e3o a cat\u00e1strofe. Este \u00e9 o sonho dos senhores que hegemonizaram a dire\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora no \u00faltimo per\u00edodo em nosso pa\u00eds, mas n\u00e3o s\u00f3, assumindo forma de caminho oficial de algumas grandes rep\u00fablicas democr\u00e1ticas do Oriente, que seduzem os mais desavisados com sua bandeira vermelha e estrelas reluzentes.<\/p>\n<p>Caso estejamos corretos em nossas hip\u00f3teses, isto \u00e9, que se trata de uma sociedade capitalista monopolista e imperialista, fundada em uma sociedade de classes cuja contradi\u00e7\u00e3o se expressa numa luta de classes, a morte da esquerda revolucion\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 capaz de eliminar as contradi\u00e7\u00f5es que brotam da particularidade inevit\u00e1vel desta forma social. Isso implica que o sonho gradualista esbarra sempre em crises e rupturas, por vezes, em situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Os gradualistas odeiam crises e abdicaram totalmente das rupturas, n\u00e3o sabem o que fazer diante delas e n\u00e3o podem ser sujeitos de grandes transforma\u00e7\u00f5es pelo fato de que a base de sua estrat\u00e9gia gradualista \u00e9 a pr\u00f3pria economia capitalista, segundo sua cren\u00e7a, domesticada segundo seus interesses.<\/p>\n<p>O que a hist\u00f3ria tem nos demonstrado, tanto a passada como a recente, \u00e9 que a crise sob o comando da ilus\u00e3o reformista \u2013 seja ela social-democrata ou nem isso, como no caso brasileiro \u2013, abre espa\u00e7o para a rea\u00e7\u00e3o de extrema direita e as diversas express\u00f5es do fascismo. Ao contr\u00e1rio do que a consci\u00eancia ing\u00eanua de nossa \u00e9poca sup\u00f5e, o fascismo, na sua forma atual, n\u00e3o \u00e9 um anacronismo, pelo contr\u00e1rio, ele \u00e9 uma express\u00e3o correspondente ao car\u00e1ter destrutivo, parasit\u00e1rio e decadente do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista no m\u00e1ximo de seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>Nossa terceira conclus\u00e3o, portanto, \u00e9 que a morte da esquerda revolucion\u00e1ria n\u00e3o deveria ser saudada pela centro-esquerda reformista, que trata inimigos de classe como amigos e aliados como advers\u00e1rios. A morte da esquerda revolucion\u00e1ria apenas anuncia a sobreviv\u00eancia do capitalismo que atropelar\u00e1 os profetas da concilia\u00e7\u00e3o sem d\u00f3 nem piedade.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, resta um mito. N\u00e3o devemos chorar pela morte da esquerda revolucion\u00e1ria, uma vez que ela \u00e9 apenas uma for\u00e7a que ocupa o lugar dos verdadeiros sujeitos da revolu\u00e7\u00e3o: as massas. Essa percep\u00e7\u00e3o tem crescido, pois se apoia em uma manifesta\u00e7\u00e3o inquestion\u00e1vel do real: as grandes rebeli\u00f5es de massa que marcam nosso per\u00edodo. S\u00e3o exemplos desse fen\u00f4meno os Indignados na Espanha, o Occupy Wall Street, as rebeli\u00f5es ind\u00edgenas no Equador e de jovens no Chile, os levantes na Bol\u00edvia e tantos outros, como inclusive cita meu colega Ronaldo.<\/p>\n<p>Muitos pensadores, de distintos matizes, procuraram e procuram teorizar sobre esse fen\u00f4meno, chegando a conclus\u00f5es diferentes, desde Freud em Psicologia de grupo e an\u00e1lise do Ego, de 1921, e a Rebeli\u00e3o das massas, de Ortega y Gasset, em 1926, passando por John Holloway, que quer mudar o mundo sem tomar o poder, ou Toni Negri e suas multid\u00f5es, at\u00e9 as ricas e mais s\u00e9rias contribui\u00e7\u00f5es de Marildo Menegat e Paulo Arantes.<\/p>\n<p>N\u00e3o cabe aqui uma digress\u00e3o profunda nesse campo. Pontuemos apenas um grande ponto de partida em comum: o papel decisivo das massas para qualquer um que pense em ruptura, como sempre defendeu Rosa Luxemburgo e, como vimos, sabia L\u00eanin. Coloquemos as coisas da seguinte maneira: se os sujeitos hist\u00f3ricos s\u00e3o as classes, e as vanguardas t\u00eam, necessariamente, que ser um ente org\u00e2nico com a classe, em algum momento essa intencionalidade de classe tem que ser o cora\u00e7\u00e3o e a mente de toda a sociedade que se levanta contra uma negatividade universal, como afirmava Marx em 1843 em sua introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da filosofia do direito de Hegel. N\u00e3o por outro motivo, L\u00eanin, no texto anteriormente citado, nos fala em a\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias de massa.<\/p>\n<p>Mas voltemos \u00e0 nossa premissa: a esquerda est\u00e1 morta, express\u00e3o de uma classe derrotada politicamente e de volta a um est\u00e1gio de serialidade, como definiu Sartre. Essa dram\u00e1tica condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o impede, como vimos, que as contradi\u00e7\u00f5es objetivas produzam situa\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias e, com elas, a\u00e7\u00f5es independentes de massa. Temos presenciado muitas dessas manifesta\u00e7\u00f5es, notadamente em nosso subcontinente. No entanto, uma constata\u00e7\u00e3o t\u00e3o inquietante e inc\u00f4moda quanto o atestado de \u00f3bito da esquerda revolucion\u00e1ria se imp\u00f5e. Nenhuma dessas experi\u00eancias, seja a radical luta ind\u00edgena do Equador ou Bol\u00edvia, sejam as ininterruptas rebeli\u00f5es de massa na Argentina ou as massivas lutas do Black Lives Matter ou Occupy nos Estados Unidos; explos\u00f5es sociais na Espanha e Fran\u00e7a ou as Jornadas de Junho no Brasil, nenhuma dessas bel\u00edssimas e vigorosas manifesta\u00e7\u00f5es de rebeldia culminou em transforma\u00e7\u00f5es anticapitalistas ou que apontassem para algo al\u00e9m da ordem burguesa.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, temos visto que o p\u00f3s-rebeli\u00e3o de massa \u00e9 marcado pela manuten\u00e7\u00e3o da ordem capitalista e retrocessos no campo da democracia burguesa, como no Brasil de Bolsonaro, nos Estados Unidos de Trump, no Chile de Kast ou na Argentina de Milei. Dir\u00edamos a Holloway, de forma melanc\u00f3lica que n\u00e3o tomamos o poder nem, tampouco, mudamos o mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou entre aqueles que acreditam que o que faltou foi o meu partido, mas somos for\u00e7ados a constatar que algo faltou. Pensemos um pouco mais a respeito.<\/p>\n<p>O irredut\u00edvel Daniel Bensa\u00efd nos traz da Fran\u00e7a, sacudida por rebeli\u00f5es de rua desde sempre, uma reflex\u00e3o que me parece pertinente. Diz ele:<\/p>\n<p>\u201cO radicalismo chic dos ret\u00f3ricos da resist\u00eancia procede de uma tentativa recorrente, em tempos defensivos, de \u2018purificar a contradi\u00e7\u00e3o\u2019 e eliminar toda media\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o. Em face de um sistema onipotente, que parece ser capaz de digerir toda a oposi\u00e7\u00e3o e integrar toda contesta\u00e7\u00e3o, trata-se de fazer como se n\u00e3o pertenc\u00eassemos a esse mundo, como se pud\u00e9ssemos acampar alhures, em uma exterioridade absoluta ao c\u00edrculo vicioso da domina\u00e7\u00e3o, livres para substituir os protagonistas reais da luta hist\u00f3rica por um teatro de sombras, onde se enfrentam n\u00e3o mais classes, partidos ou movimentos sociais, mas massas dissidentes informes (plebes, multid\u00f5es, hordas de cabeludos) e um Estado totalit\u00e1rio concebido \u00e0 imagem de um Gulag gigantesco.\u201d1<\/p>\n<p>Nossa quarta e \u00faltima conclus\u00e3o, portanto, \u00e9 que a morte da esquerda revolucion\u00e1ria e a desconstru\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, se verdade for \u2013 e essa \u00e9 uma possibilidade \u2013, n\u00e3o \u00e9 uma boa not\u00edcia para ningu\u00e9m que n\u00e3o queira jogar sua sorte neste modo de produ\u00e7\u00e3o em decad\u00eancia mergulhado na barb\u00e1rie. \u00c9 verdade, meu partido n\u00e3o vai muito bem, eu estou velho e doente, e pode ser que aqueles que partilhavam de minhas ideias e sonhos estejam mortos; entretanto, por incr\u00edvel que possa parecer, n\u00e3o estou nem desanimado, nem desiludido, caminho certo para a p\u00f3s-modernidade.<\/p>\n<p>Minha convic\u00e7\u00e3o ainda vive porque n\u00e3o \u00e9 um dogma de f\u00e9, nem foi recortada de um manual. O capitalismo, por enquanto, venceu. Por isso, continua vivo parindo suas inevit\u00e1veis contradi\u00e7\u00f5es e retirando a terra sob os p\u00e9s de crentes, iludidos, alienados e de todos n\u00f3s que ainda queremos ser uma humanidade emancipada. Produzir\u00e1 crises como \u00e9 de sua natureza e com elas revoltas e rebeli\u00f5es de onde nascem vanguardas e partidos ou o que quer que seja que encontre o caminho para superar esta merda e inaugurar a verdadeira hist\u00f3ria da humanidade, sem classes e sem Estado.<\/p>\n<p>Morto, junto-me a muitos, \u00e0s legi\u00f5es dos que se foram. Sobre a terra que agora os encobre, seus sonhos e sua rebeldia. Deixo-os com dois mestres de nossa Am\u00e9rica que acreditam nos mortos:<\/p>\n<p>Mas de una mano en lo oscuro me conforta<br \/>\nMas de un paso siento marchar comigo<br \/>\nPero si no tuviera, no importa<br \/>\nSei que hay muertos que alumbram<br \/>\nLos caminos.<br \/>\n\u2014 Silvio Rodrigues<\/p>\n<p>Y as\u00ed seguimos andando<br \/>\nCurtidos de soledad<br \/>\nY en nosotros nuestros muertos<br \/>\nPa que nadie quede atr\u00e1s<br \/>\n\u2014 Atahualpa Yupanqui<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>BENSA\u00cfD, Daniel. Espet\u00e1culo, fetichismo e Ideologia. Fortaleza: Plebeu Gabinete de Leitura, 2013, p. 21-22. \u21a9\ufe0e<\/p>\n<p>Mauro Iasi professor aposentado da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, professor convidado do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social da PUC de S\u00e3o Paulo, educador popular e militante do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33930\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[66,10],"tags":[227],"class_list":["post-33930","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Pg","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33930","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33930"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33930\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33932,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33930\/revisions\/33932"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}