{"id":33933,"date":"2026-06-05T15:34:29","date_gmt":"2026-06-05T18:34:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33933"},"modified":"2026-06-05T15:34:29","modified_gmt":"2026-06-05T18:34:29","slug":"o-teatro-da-punicao-a-criminalizacao-da-solidariedade-a-gaza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33933","title":{"rendered":"O teatro da puni\u00e7\u00e3o: a criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade a Gaza"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33934\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33933\/unnamed-70\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/unnamed.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"705,470\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"unnamed\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/unnamed.jpg?fit=705%2C470&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-33934\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/unnamed.jpg?resize=705%2C470&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"705\" height=\"470\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/unnamed.jpg?w=705&amp;ssl=1 705w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/unnamed.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 705px) 100vw, 705px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Cr\u00e9ditosAbir Sultan \/ EPA<\/p>\n<p>Por Vijay Prashad<br \/>\nABRIL ABRIL<\/p>\n<p>Para compreender Ben-Gvir, \u00e9 preciso ir al\u00e9m da fic\u00e7\u00e3o reconfortante de que ele \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o \u00e9 uma interrup\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria pol\u00edtica israelense, mas um dos seus desfechos l\u00f3gicos.<\/p>\n<p>O tratamento dispensado aos ativistas da flotilha pelo ministro da Seguran\u00e7a Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, foi chocante apenas para aqueles que continuam a encobrir a viol\u00eancia colonial com a linguagem branda da seguran\u00e7a. H\u00e1 agora uma montanha de evid\u00eancias diante da humanidade: Gaza tornou-se n\u00e3o apenas um lugar sitiado, mas uma geografia de desespero calculado, onde a fome e os bombardeios foram transformados em instrumentos de gest\u00e3o pol\u00edtica. Os ativistas a bordo da flotilha n\u00e3o eram combatentes armados, nem soldados amea\u00e7ando uma invas\u00e3o. Eram volunt\u00e1rios internacionais, defensores dos direitos humanos, m\u00e9dicos, parlamentares e organizadores tentando romper o cerco imposto a Gaza. A sua jornada era pol\u00edtica, moral e humanit\u00e1ria. No entanto, o Estado israelense recebeu-os com humilha\u00e7\u00e3o, deten\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia teatral.<\/p>\n<p>Ben-Gvir compreendeu com precis\u00e3o a fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica das suas a\u00e7\u00f5es. A pol\u00edtica da extrema-direita israelense n\u00e3o se resume apenas \u00e0 seguran\u00e7a; trata-se de pedagogia. A viol\u00eancia deve ser vista e a humilha\u00e7\u00e3o deve circular publicamente. A domina\u00e7\u00e3o deve reproduzir-se constantemente por meio do espect\u00e1culo. A degrada\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos palestinos e dos seus aliados \u00e9 central para a maquinaria ideol\u00f3gica da extrema-direita israelense. Cada pris\u00e3o torna-se uma li\u00e7\u00e3o de obedi\u00eancia, cada espancamento torna-se uma mensagem, cada deten\u00e7\u00e3o torna-se uma declara\u00e7\u00e3o de que a resist\u00eancia, mesmo a resist\u00eancia simb\u00f3lica, ser\u00e1 recebida com for\u00e7a avassaladora.<\/p>\n<p>Os ativistas da flotilha entraram numa geografia j\u00e1 transformada pelo bloqueio e pela devasta\u00e7\u00e3o. Gaza, hoje, n\u00e3o \u00e9 apenas um territ\u00f3rio ocupado; \u00e9 um laborat\u00f3rio de puni\u00e7\u00e3o. Durante anos, Israel controlou a entrada de alimentos, medicamentos, combust\u00edvel, eletricidade e pessoas na Faixa. O bloqueio n\u00e3o produziu seguran\u00e7a, mas sufocamento social. Organiza\u00e7\u00f5es internacionais alertaram repetidamente sobre condi\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias catastr\u00f3ficas. No entanto, o cerco continua porque serve a um prop\u00f3sito pol\u00edtico: fragmentar a vida palestina e quebrar o moral coletivo.<\/p>\n<p>Quando os ativistas tentaram desafiar essa ordem por meio da flotilha, Ben-Gvir e seus aliados responderam como as pot\u00eancias coloniais costumam fazer quando confrontadas por testemunhos morais. Os ativistas foram apresentados n\u00e3o como seres humanos motivados pela consci\u00eancia, mas como inimigos do Estado. A sua deten\u00e7\u00e3o foi acompanhada de provoca\u00e7\u00f5es e intimida\u00e7\u00f5es. O objetivo n\u00e3o era apenas deter a flotilha, mas desencorajar futuros atos de solidariedade. Esse padr\u00e3o \u00e9 mais antigo do que a crise atual. Os sistemas coloniais sobrevivem n\u00e3o apenas por meio da superioridade militar, mas tamb\u00e9m por meio de rituais de domina\u00e7\u00e3o. O Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico praticou isso na \u00cdndia e no Qu\u00e9nia, as autoridades coloniais francesas empregaram isso na Arg\u00e9lia e o apartheid sul-africano institucionalizou isso com precis\u00e3o burocr\u00e1tica. A humilha\u00e7\u00e3o torna-se parte da governan\u00e7a.<\/p>\n<p>A ret\u00f3rica de Ben-Gvir revela a profundidade dessa cultura pol\u00edtica. Ele fala dos palestinos n\u00e3o como um povo com direitos, mas como uma amea\u00e7a demogr\u00e1fica a ser controlada e contida. Nessa vis\u00e3o de mundo, a pr\u00f3pria solidariedade se torna criminosa. O humanitarismo \u00e9 reclassificado como terrorismo. O direito internacional se torna um inconveniente. Os ativistas da flotilha eram, portanto, perigosos n\u00e3o porque portavam armas, mas porque portavam testemunhos. Eles amea\u00e7avam expor a arquitetura do cerco diante de uma audi\u00eancia global. A sua mera presen\u00e7a minava a narrativa cuidadosamente fabricada de que o sofrimento de Gaza \u00e9 um dano colateral inevit\u00e1vel, e n\u00e3o uma escolha pol\u00edtica. O que Ben-Gvir mais teme n\u00e3o \u00e9 a resist\u00eancia armada por si s\u00f3. Ele teme a imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a possibilidade de que pessoas comuns em todo o mundo possam ver os palestinos, n\u00e3o atrav\u00e9s da linguagem dos relat\u00f3rios de seguran\u00e7a, mas atrav\u00e9s da linguagem da humanidade compartilhada. E, por isso, a brutalidade dirigida aos ativistas da flotilha n\u00e3o foi uma aberra\u00e7\u00e3o. Foi inteiramente consistente com o mundo ideol\u00f3gico em que Ben-Gvir habita: um mundo em que a domina\u00e7\u00e3o deve reproduzir-se constantemente por meio da for\u00e7a, da humilha\u00e7\u00e3o e do medo.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica do apagamento<br \/>\nMuito antes de os ativistas da flotilha serem detidos e brutalizados, Ben-Gvir direcionou a sua f\u00faria contra um dos mais importantes presos pol\u00edticos palestinos da era moderna: Marwan Barghouti (nascido em 1959).<\/p>\n<p>Marwan Barghouti ocupa um lugar singular na vida pol\u00edtica palestina, n\u00e3o porque seja imune a contradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mas porque encarna a continuidade de uma luta nacional que muitos atores poderosos desejam apagar. Para muitos palestinos, ele representa uma figura capaz de unificar tend\u00eancias pol\u00edticas fragmentadas. Emergindo das fileiras da Fatah durante a Primeira Intifada, Barghouti tornou-se associado \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de base e \u00e0 exig\u00eancia de liberta\u00e7\u00e3o nacional. Mesmo entre aqueles que discordam de aspectos de sua estrat\u00e9gia pol\u00edtica, h\u00e1 um reconhecimento generalizado de sua import\u00e2ncia simb\u00f3lica. Israel compreende bem esse simbolismo. \u00c9 por isso que a pris\u00e3o de Barghouti desde 2002 nunca foi meramente judicial. \u00c9 profundamente pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A hostilidade de Ben-Gvir em rela\u00e7\u00e3o a Barghouti reflete uma estrat\u00e9gia israelense mais ampla: a destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da lideran\u00e7a pol\u00edtica palestina. Os sistemas coloniais frequentemente tentam criminalizar as lideran\u00e7as porque a consci\u00eancia pol\u00edtica organizada representa uma amea\u00e7a maior do que a agita\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea. Um povo sem lideran\u00e7a pode ser fragmentado. Um povo sem mem\u00f3ria pol\u00edtica pode ser controlado.<\/p>\n<p>A pris\u00e3o de Barghouti tornou-se um palco atrav\u00e9s do qual a extrema-direita israelense p\u00f4de executar a sua pol\u00edtica de vingan\u00e7a. Ben-Gvir defendeu repetidamente condi\u00e7\u00f5es prisionais mais severas para os detidos palestinos. Sob a sua influ\u00eancia pol\u00edtica, intensificaram-se as repress\u00f5es aos direitos dos prisioneiros, as restri\u00e7\u00f5es \u00e0s visitas familiares e as medidas punitivas destinadas n\u00e3o apenas a encarcerar, mas a degradar. Relatos de prisioneiros palestinos e de organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos descreveram condi\u00e7\u00f5es marcadas por isolamento, superlota\u00e7\u00e3o, abuso f\u00edsico e press\u00e3o psicol\u00f3gica. As incurs\u00f5es nas pris\u00f5es tornaram-se espet\u00e1culos de domina\u00e7\u00e3o. Livros foram confiscados. A puni\u00e7\u00e3o coletiva intensificou-se. A pris\u00e3o, nesse sistema, n\u00e3o \u00e9 apenas um local de deten\u00e7\u00e3o; \u00e9 um instrumento de gest\u00e3o colonial.<\/p>\n<p>O caso de Barghouti revela algo essencial sobre a vis\u00e3o de mundo de Ben-Gvir. O ministro israelense n\u00e3o se op\u00f5e apenas aos grupos armados palestinos, mas \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia pol\u00edtica palestina. \u00c9 por isso que figuras como Barghouti s\u00e3o t\u00e3o amea\u00e7adoras. Barghouti fala a linguagem da liberta\u00e7\u00e3o nacional. Ele invoca tradi\u00e7\u00f5es anticoloniais familiares na \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina. O seu simbolismo pol\u00edtico conecta a Palestina a uma hist\u00f3ria mais ampla de luta contra a ocupa\u00e7\u00e3o e a domina\u00e7\u00e3o racial. Para Ben-Gvir, tais figuras devem ser quebradas psicologicamente. A sua dignidade deve ser destru\u00edda publicamente. A sua imagem deve ser transformada, de l\u00edder pol\u00edtico em detento criminoso.<\/p>\n<p>No entanto, a hist\u00f3ria oferece muitos exemplos de l\u00edderes presos que se tornaram s\u00edmbolos ainda mais poderosos por meio do encarceramento. Nelson Mandela passou 27 anos na pris\u00e3o sob o apartheid na \u00c1frica do Sul. Os Estados prendem aqueles que temem politicamente. A resist\u00eancia de Barghouti tornou-se, portanto, profundamente simb\u00f3lica. N\u00e3o se trata apenas da pris\u00e3o de um homem. Ela representa a condi\u00e7\u00e3o palestina mais ampla sob ocupa\u00e7\u00e3o: confinamento, fragmenta\u00e7\u00e3o e a tentativa de apagar a ag\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em 2025, Ben-Gvir postou um v\u00eddeo de 13 segundos em que provocava um Barghouti muito abatido na pris\u00e3o e disse: \u00abVoc\u00ea n\u00e3o vai vencer. Quem quer que se meta com a na\u00e7\u00e3o de Israel\u2026 n\u00f3s vamos extermin\u00e1-lo\u00bb. Um Barghouti digno tentou intervir v\u00e1rias vezes para se manter firme. O v\u00eddeo mostrava o desespero de Ben Gvir, tentando dominar o homem que ajudou a redigir o Documento dos Prisioneiros em 2006, que clamava pela revitaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica palestina e que continua a circular at\u00e9 hoje. A cela da pris\u00e3o pode tornar-se uma escola de resist\u00eancia. A tentativa de apagar a mem\u00f3ria pode, ao contr\u00e1rio, fortalec\u00ea-la. Barghouti permanece, apesar dos anos de pris\u00e3o, como um lembrete de que a identidade pol\u00edtica palestina sobreviveu a todas as tentativas de fragmenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A longa hist\u00f3ria da pol\u00edtica fascista israelense<br \/>\nPara compreender Ben-Gvir, \u00e9 preciso ir al\u00e9m da fic\u00e7\u00e3o reconfortante de que ele \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o \u00e9 uma interrup\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria pol\u00edtica israelita, mas um dos seus desfechos l\u00f3gicos. Ben-Gvir n\u00e3o surgiu do nada. Ele \u00e9 o produto de d\u00e9cadas de radicaliza\u00e7\u00e3o em setores da sociedade israelense moldados pelo colonialismo de povoamento, pela militariza\u00e7\u00e3o e pela ideologia etnonacionalista.<\/p>\n<p>Quando jovem, Ben-Gvir esteve associado ao movimento banido Kach, fundado pelo rabino Meir Kahane. O kahanismo defendia abertamente a supremacia judaica e a expuls\u00e3o dos palestinos da Palestina hist\u00f3rica. At\u00e9 mesmo o Estado israelense j\u00e1 considerou o Kach como extremista demais, banindo-o como organiza\u00e7\u00e3o terrorista. Mas ideias antes consideradas marginais migraram gradualmente para a corrente pol\u00edtica dominante. Ben-Gvir construiu a sua carreira atrav\u00e9s da provoca\u00e7\u00e3o. Ele ficou conhecido pela sua ret\u00f3rica inflamada, incita\u00e7\u00e3o p\u00fablica e apari\u00e7\u00f5es confrontadoras em bairros palestinos. Durante anos, ele cultivou a imagem de um ativista de rua militante que via o compromisso como fraqueza.<\/p>\n<p>Um epis\u00f3dio infame ocorreu em 1995, quando Ben-Gvir apareceu na televis\u00e3o israelense segurando o emblema do carro do primeiro-ministro Yitzhak Rabin. \u00abCheg\u00e1mos ao carro dele\u00bb, declarou, \u00abe chegaremos a ele tamb\u00e9m\u00bb. Semanas depois, Rabin foi assassinado por um extremista israelense de extrema-direita que se opunha aos Acordos de Oslo.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria \u00e9 importante porque revela a atmosfera pol\u00edtica da qual Ben-Gvir emergiu: uma cultura na qual o \u00f3dio contra os palestinos, e muitas vezes contra os pr\u00f3prios defensores da paz, se tornou normalizado. Com o tempo, a pol\u00edtica israelense deslocou-se progressivamente para a direita. A expans\u00e3o dos assentamentos acelerou-se. A ocupa\u00e7\u00e3o militar endureceu. O processo de paz desmoronou-se numa diplomacia ritualizada, desconectada das realidades no terreno. Nesse ambiente, figuras como Ben-Gvir ganharam legitimidade. A sua ascens\u00e3o tamb\u00e9m reflete realidades estruturais mais profundas.<\/p>\n<p>Os sistemas coloniais geram frequentemente forma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas extremistas porque a domina\u00e7\u00e3o requer justifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. A viol\u00eancia deve ser moralizada e a desigualdade deve ser racionalizada. Ben-Gvir desempenha exatamente essa fun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Ele transforma a viol\u00eancia estrutural em virtude nacionalista. A sua linguagem pol\u00edtica baseia-se fortemente no medo. Os palestinos s\u00e3o retratados n\u00e3o como uma popula\u00e7\u00e3o colonizada, mas como inimigos existenciais. Organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos s\u00e3o retratadas como traidoras. As cr\u00edticas internacionais tornam-se evid\u00eancia de conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade de Israel. Padr\u00f5es pol\u00edticos semelhantes podem ser observados globalmente. Do nacionalismo Hindutva de Narendra Modi na \u00cdndia ao etnonacionalismo autorit\u00e1rio vis\u00edvel em partes da Europa e das Am\u00e9ricas, os movimentos de extrema-direita contempor\u00e2neos baseiam-se em uma pol\u00edtica de medo permanente. As minorias tornam-se bodes expiat\u00f3rios, e a dissid\u00eancia torna-se trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que torna Ben-Gvir especialmente perigoso n\u00e3o \u00e9 apenas a sua ret\u00f3rica, mas o seu acesso ao poder estatal. Como ministro da Seguran\u00e7a Nacional, ele tem influ\u00eancia sobre o policiamento, a administra\u00e7\u00e3o prisional e a repress\u00e3o interna. A pol\u00edtica de rua extremista das d\u00e9cadas anteriores agora entrou na m\u00e1quina de governan\u00e7a.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o traz consequ\u00eancias graves. O tratamento dado aos ativistas da flotilha e a prisioneiros como Marwan Barghouti n\u00e3o s\u00e3o incidentes isolados. S\u00e3o sintomas de uma trajet\u00f3ria pol\u00edtica mais ampla na qual a pr\u00f3pria crueldade se torna pol\u00edtica. No entanto, a hist\u00f3ria tamb\u00e9m nos lembra que sistemas constru\u00eddos sobre domina\u00e7\u00e3o permanente acabam enfrentando crises de legitimidade. Os regimes coloniais muitas vezes parecem invenc\u00edveis at\u00e9 que, de repente, deixam de o ser. A Arg\u00e9lia francesa parecia permanente. O apartheid sul-africano parecia profundamente consolidado. O colonialismo portugu\u00eas na \u00c1frica parecia inabal\u00e1vel. A repress\u00e3o cont\u00e9m contradi\u00e7\u00f5es, a viol\u00eancia gera resist\u00eancia e a humilha\u00e7\u00e3o produz solidariedade.<\/p>\n<p>A indigna\u00e7\u00e3o global em rela\u00e7\u00e3o a Gaza, o poder simb\u00f3lico cont\u00ednuo dos prisioneiros palestinos e a persist\u00eancia dos movimentos de solidariedade internacional indicam que a luta palestina permanece profundamente viva. Ben-Gvir representa a face mais dura de um projeto pol\u00edtico que tenta preservar a domina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do medo. Mas o medo por si s\u00f3 n\u00e3o pode produzir justi\u00e7a, legitimidade ou paz. E essa \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, a trag\u00e9dia do momento atual: uma classe pol\u00edtica incapaz de imaginar a coexist\u00eancia, exceto por meio da linguagem da for\u00e7a. Os ativistas da flotilha compreenderam isso, assim como Marwan Barghouti. Milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo tamb\u00e9m compreendem. A quest\u00e3o agora \u00e9 se o sistema internacional continuar\u00e1 a normalizar tal brutalidade, ou se a opini\u00e3o p\u00fablica global finalmente reconhecer\u00e1 que o que se vem desenrolando n\u00e3o \u00e9 meramente um conflito entre dois lados iguais, mas uma luta pelo significado b\u00e1sico da liberdade, da dignidade e da pr\u00f3pria humanidade.<\/p>\n<p>Artigo republicado no \u00e2mbito de uma parceria com a Globetrotter, editado pelo Abril Abril.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33933\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[65,75,10,78],"tags":[228],"class_list":["post-33933","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional","category-c88-internacionalismo","category-s19-opiniao","category-c91-solidariedade-a-palestina","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Pj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33933","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33933"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33933\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33935,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33933\/revisions\/33935"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33933"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33933"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33933"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}