{"id":33989,"date":"2026-06-27T11:49:58","date_gmt":"2026-06-27T14:49:58","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33989"},"modified":"2026-06-27T11:49:58","modified_gmt":"2026-06-27T14:49:58","slug":"a-resistencia-iraniana-e-seu-significado-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33989","title":{"rendered":"A resist\u00eancia iraniana e seu significado pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33990\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33989\/no-war-on-iran\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/NO-WAR-ON-IRAN.webp?fit=633%2C328&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"633,328\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"NO WAR ON IRAN\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/NO-WAR-ON-IRAN.webp?fit=633%2C328&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-33990\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/NO-WAR-ON-IRAN.webp?resize=633%2C328&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"633\" height=\"328\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/NO-WAR-ON-IRAN.webp?w=633&amp;ssl=1 633w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/NO-WAR-ON-IRAN.webp?resize=300%2C155&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 633px) 100vw, 633px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Imagem: Al Jazeera<\/p>\n<p>Edmilson Costa*<\/p>\n<p>A recente agress\u00e3o dos Estados Unidos e de Israel contra o Ir\u00e3 representou uma derrota pol\u00edtica e militar do governo Trump e do sionismo diante da determina\u00e7\u00e3o iraniana e, ao mesmo tempo, demonstrou que o imperialismo n\u00e3o \u00e9 invenc\u00edvel quando um povo decide tomar o destino de sua hist\u00f3ria em suas m\u00e3os e enfrentar com valentia o inimigo militarmente mais forte. Os sistemas militares do imperialismo estadunidense e do sionismo, viciados em agredir e destruir v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es impunemente e ainda se proclamarem defensores da liberdade e dos direitos humanos, foram surpreendidos com a estrat\u00e9gia militar e pol\u00edtica do Ir\u00e3, que desenvolveu uma t\u00e1tica de guerra assim\u00e9trica, incluindo a luta econ\u00f4mica e geopol\u00edtica, o que proporcionou \u00e0s suas for\u00e7as militares aplicar duros golpes ao esquema militar imperial, muito mais poderoso.<\/p>\n<p>Surpreendentemente, as For\u00e7as Armadas do Ir\u00e3 conseguiram destruir a maioria das bases militares dos Estados Unidos no Oriente M\u00e9dio, cegando seus equipamentos militares e radares, dificultando sua a\u00e7\u00e3o militar e impedindo que os dois agressores destru\u00edssem o Ir\u00e3 como ocorreu em Gaza. E mesmo Israel, tamb\u00e9m acostumado a destruir cidades inteiras e praticar genoc\u00eddio contra os palestinos, recebeu duros golpes dos m\u00edsseis iranianos. Isto representou uma desmoraliza\u00e7\u00e3o da propaganda sionista segundo a qual Israel possu\u00eda um Domo de Ferro impenetr\u00e1vel, que nessa guerra se transformou muito mais numa peneira do que num escudo contra os m\u00edsseis iranianos. Ocorreu assim uma derrota dupla imperial, num espa\u00e7o de tempo muito r\u00e1pido, muito embora a propaganda da Casa Branca tente apresentar essa derrota como uma vit\u00f3ria de Trump.<\/p>\n<p>Essa confronta\u00e7\u00e3o tornou-se um dos acontecimentos mais importantes da geopol\u00edtica contempor\u00e2nea. Mais do que uma disputa militar localizada, o conflito colocou em evid\u00eancia as profundas transforma\u00e7\u00f5es que v\u00eam ocorrendo na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as internacional e revelou que o mundo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo que emergiu ap\u00f3s o fim da Guerra Fria, quando os Estados Unidos ditavam as regras do jogo internacional na parte capitalista do mundo ap\u00f3s a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Independentemente das interpreta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas sobre esse epis\u00f3dio militar, uma conclus\u00e3o pol\u00edtica parece inevit\u00e1vel: a capacidade de resist\u00eancia do Ir\u00e3 demonstrou que o poder imperialista encontra hoje obst\u00e1culos muito maiores do que aqueles que enfrentava h\u00e1 algumas d\u00e9cadas, e suas for\u00e7as armadas, mesmo ainda sendo as mais poderosas do mundo, n\u00e3o conseguem mais atingir os objetivos imperiais como no passado.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, os Estados Unidos acostumaram-se a exercer uma posi\u00e7\u00e3o de supremacia praticamente incontest\u00e1vel no cen\u00e1rio mundial. O colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica fortaleceu a percep\u00e7\u00e3o de que Washington havia se tornado o centro \u00fanico da hegemonia no sistema pol\u00edtico internacional. Como pot\u00eancia arrogante, multiplicaram-se as interven\u00e7\u00f5es militares, as opera\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7a de regime, as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e as press\u00f5es diplom\u00e1ticas contra pa\u00edses considerados advers\u00e1rios. O Oriente M\u00e9dio transformou-se em uma das principais arenas dessa estrat\u00e9gia porque concentra algumas das maiores reservas energ\u00e9ticas do planeta e ocupa uma posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica fundamental para o com\u00e9rcio mundial.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, para consolidar sua hegemonia no Oriente M\u00e9dio, os Estados Unidos procuraram fortalecer Israel como principal aliado regional do Ocidente. Com amplo apoio financeiro, militar e tecnol\u00f3gico, o Estado israelense construiu uma poderosa m\u00e1quina de guerra e passou a desempenhar papel central na estrat\u00e9gia geopol\u00edtica estadunidense para a regi\u00e3o. Durante d\u00e9cadas, a superioridade militar israelense alimentou a ideia de que nenhum advers\u00e1rio regional seria capaz de desafiar seriamente seu poderio militar. Consequentemente, o Ir\u00e3, consciente da impossibilidade de competir diretamente com o gigantesco or\u00e7amento militar dos EUA, optou por desenvolver mecanismos de defesa baseados na guerra assim\u00e9trica. Em vez de reproduzir o modelo convencional das grandes pot\u00eancias, buscou construir instrumentos capazes de elevar significativamente os custos de qualquer agress\u00e3o externa.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia do Ir\u00e3 consistiu em preparar, ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas, uma estrutura militar que proporcionasse condi\u00e7\u00f5es para se defender diante de inimigos mais poderosos militarmente. Dessa forma, aproveitando a geografia do pa\u00eds, construiu dezenas de instala\u00e7\u00f5es subterr\u00e2neas, verdadeiras cidades militares, onde conseguiu armazenar suas armas e oper\u00e1-las fora do alcance do inimigo. Essa estrat\u00e9gia inclu\u00eda investimentos em sistemas de m\u00edsseis, drones, equipamentos de defesa \u00e1rea, intelig\u00eancia militar e formas alternativas de proje\u00e7\u00e3o de poder. O objetivo central n\u00e3o era alcan\u00e7ar superioridade militar absoluta, mas criar condi\u00e7\u00f5es para dificultar que qualquer inimigo que atacasse o pa\u00eds pudesse obter uma vit\u00f3ria r\u00e1pida contra suas for\u00e7as armadas e, dessa forma, teria condi\u00e7\u00f5es de desenvolver uma guerra prolongada que desgastasse seu advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>A recente ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel demonstrou a import\u00e2ncia dessa estrat\u00e9gia: com for\u00e7as militares superiores, os ex\u00e9rcitos dos Estados Unidos e de Israel, mesmo bombardeando severamente o Ir\u00e3, foram surpreendidos com a resist\u00eancia iraniana e com sua capacidade de responder e golpear militarmente as bases militares dos Estados Unidos na regi\u00e3o e ainda atingir o territ\u00f3rio Israelense. Essa estrat\u00e9gia de guerra assim\u00e9trica tamb\u00e9m adquiriu uma dimens\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica, quando no meio da guerra o Ir\u00e3 decidiu fechar o Estreito de Ormuz e, assim, interromper o fluxo de um quinto do com\u00e9rcio internacional de petr\u00f3leo e g\u00e1s, levando a infla\u00e7\u00e3o para v\u00e1rias regi\u00f5es do mundo, especialmente para os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em outras palavras, unindo diversas t\u00e1ticas militares e pol\u00edticas, o Ir\u00e3 demonstrou que uma guerra n\u00e3o pode ser ganha apenas porque um pa\u00eds que tem mais avi\u00f5es, navios ou sistemas de bombardeios sofisticados. Essas for\u00e7as encontram uma barreira quando uma na\u00e7\u00e3o e seu povo est\u00e3o determinados a n\u00e3o dobrar os joelhos diante dos imp\u00e9rios. Em vez de uma demonstra\u00e7\u00e3o incontest\u00e1vel de for\u00e7a, o mundo assistiu a uma disputa que evidenciou as contradi\u00e7\u00f5es, limita\u00e7\u00f5es e custos crescentes das estrat\u00e9gias de domina\u00e7\u00e3o imperial estadunidense. Dessa forma, a resist\u00eancia iraniana tornou-se um s\u00edmbolo de uma tend\u00eancia hist\u00f3rica mais ampla: o enfraquecimento gradual da capacidade do imperialismo em determinar os destinos dos povos e das na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma agress\u00e3o onde deu tudo errado<\/p>\n<p>Um aspecto importante para se dimensionar o resultado da agress\u00e3o estadunidense-sionista n\u00e3o pode ser avaliada apenas pelo n\u00famero de equipamentos destru\u00eddos ou pela intensidade dos bombardeios que atingiram o Ir\u00e3 (e n\u00e3o foram poucos), pois o mais importante \u00e9 verificar se o agressor conseguiu atingir seus objetivos estrat\u00e9gicos inicialmente estabelecidos. N\u00e3o se pode esquecer que o discurso das lideran\u00e7as agressoras estava alicer\u00e7ado na convic\u00e7\u00e3o de que seria um passeio, com resultados semelhantes ao que aconteceu com a Venezuela, dada a esmagadora m\u00e1quina militar das duas na\u00e7\u00f5es agressoras, fato que iria produzir um colapso do regime, at\u00e9 porque tamb\u00e9m se apostava na perspectiva de que haveria um levante popular ap\u00f3s os primeiros bombardeios.<\/p>\n<p>A ret\u00f3rica inicial do presidente Trump era um ultimato t\u00edpico dos velhos tempos em que o imperialismo era capaz de impor suas exig\u00eancias sem encontrar resist\u00eancia. Por isso \u00e9 que o presidente dos Estados Unidos exigiu a rendi\u00e7\u00e3o incondicional do Ir\u00e3, sob pena de enfrentar consequ\u00eancias devastadoras, como a destrui\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o persa e de sua ind\u00fastria petroleira. Trump ainda se vangloriava de que tinha afundado toda a marinha iraniana, destru\u00eddo a avia\u00e7\u00e3o persa e seus sistemas de defesa \u00e1rea. No entanto, os acontecimentos mostraram uma realidade no campo de batalha inteiramente diferente: o Ir\u00e3 n\u00e3o se intimidou com as fanfarronices de Trump e os elementos factuais da guerra revelaram que o pa\u00eds estava golpeando severamente as bases dos Estados Unidos na regi\u00e3o, al\u00e9m do territ\u00f3rio de Israel.<\/p>\n<p>A conjuntura real da guerra tornou cada vez mais dif\u00edcil a sustenta\u00e7\u00e3o de uma narrativa apontando vit\u00f3ria iminente da coliga\u00e7\u00e3o imperialista porque os m\u00edsseis iranianos continuavam castigando os agressores, o que n\u00e3o s\u00f3 surpreendeu as lideran\u00e7as imperialistas como tamb\u00e9m mudou a percep\u00e7\u00e3o internacional sobre o poder militar do Ir\u00e3. Essa nova realidade criou um problema pol\u00edtico crescente para os Estados Unidos porque os resultados objetivos do conflito, apesar da censura sobre os impactos das armas iranianas tanto nas bases estadunidenses na regi\u00e3o quanto em Israel, n\u00e3o confirmavam as expectativas inicialmente anunciadas, levando a um desgaste das lideran\u00e7as respons\u00e1veis pela condu\u00e7\u00e3o da guerra.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o Ir\u00e3 desenvolveu uma nova dimens\u00e3o de sua estrat\u00e9gia de guerra assim\u00e9trica ao levar a disputa para o terreno geopol\u00edtico e econ\u00f4mico, anunciando o fechamento do Estreito de Ormuz, um espa\u00e7o que, por sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, tem enorme import\u00e2ncia estrat\u00e9gica porque por esse canal passam cerca de 20% de todo o petr\u00f3leo e g\u00e1s comercializado internacionalmente. E o mais importante: o Ir\u00e3 tamb\u00e9m demonstrou que \u00e9 capaz de manter militarmente o fechamento dessa rota comercial. Essa medida imediatamente passou a influenciar o mercado mundial de energia, os pre\u00e7os do barril de petr\u00f3leo, os custos do transporte e, consequentemente, o aumento dos pre\u00e7os internacionais, especialmente nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A nova dimens\u00e3o do conflito mudou a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as a favor do Ir\u00e3 porque a conjuntura econ\u00f4mica passou a envolver interesses de v\u00e1rios pa\u00edses e de setores estrat\u00e9gicos da economia mundial e impactar negativamente o governo Trump, cujo processo se refletiu na queda de popularidade do presidente dos Estados Unidos. Isso porque, quanto mais a guerra se prolongava, mais aumentavam os questionamentos internos, uma vez que uma das principais plataformas da campanha presidencial de Trump era acabar com as guerras no exterior. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se pode esquecer que em novembro vai haver elei\u00e7\u00f5es parlamentares nos Estados Unidos e a continuidade da guerra seria fatal para os Republicanos e para a lideran\u00e7a de Trump. Ou seja, o problema deixou de ser apenas militar para se transformar numa quest\u00e3o pol\u00edtica. Por isso mesmo, Trump foi obrigado a jogar a toalha (evidentemente com uma ret\u00f3rica diferente) e buscar um acordo a qualquer custo, mesmo que isso contrariasse o aliado sionista.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, um dos aspectos mais importantes desse conflito \u00e9 o aumento do isolamento pol\u00edtico de Netanyahu e a desmoraliza\u00e7\u00e3o de Israel enquanto pot\u00eancia militar invulner\u00e1vel. Durante d\u00e9cadas o Estado sionista construiu uma narrativa de superioridade militar em rela\u00e7\u00e3o aos seus vizinhos \u00e1rabes, buscando se apresentar como uma pot\u00eancia praticamente invenc\u00edvel e tinha como exemplo as guerras e opera\u00e7\u00f5es militares exitosas na regi\u00e3o. No entanto, a simples capacidade militar n\u00e3o resolve os problemas pol\u00edticos e estrat\u00e9gicos de um Estado e nenhuma for\u00e7a \u00e9 capaz de se manter hegem\u00f4nica para sempre, mesmo que tenha centenas de ogivas nucleares, muito embora n\u00e3o possa utiliz\u00e1-las em fun\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Outro fator importante que emergiu desse conflito foram as tensas rela\u00e7\u00f5es entre Trump e Netanyahu em consequ\u00eancia da diferen\u00e7a de interesses entre Estados Unidos, desesperados por um acordo a qualquer custo em fun\u00e7\u00e3o da conjuntura interna estadunidense, e Netanyahu, que necessita da continuidade da guerra para continuar se mantendo no poder. Ou seja, objetivamente, embora Estados Unidos e Israel mantenham uma alian\u00e7a hist\u00f3rica s\u00f3lida, isso n\u00e3o significa que em situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas como a guerra atual seus interesses sejam sempre id\u00eanticos em todos os momentos.<\/p>\n<p>Esse n\u00edvel de tens\u00e3o entre os dois l\u00edderes chegou a um ponto tal que Trump criticou publicamente Netanyahu porque este, ao continuar o bombardeio no L\u00edbano, estava na pr\u00e1tica boicotando o acordo. Irritado, o presidente dos Estados Unidos fez quest\u00e3o de lembrar ao dirigente sionista que ele s\u00f3 est\u00e1 em liberdade e no poder por interfer\u00eancia de Trump. Do contr\u00e1rio, estaria na cadeia em seu pa\u00eds, em consequ\u00eancia das den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, acrescentou que Israel s\u00f3 existe em fun\u00e7\u00e3o do apoio estadunidense e, numa cr\u00edtica direta aos m\u00e9todos do dirigente sionista, disse que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio demolir um pr\u00e9dio toda vez que estiver procurando algum advers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia da guerra, das promessas n\u00e3o cumpridas e das den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, Netanyahu \u00e9 um dirigente cada vez mais impopular em seu pa\u00eds, bem como junto a governos, movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es internacionais em todo o mundo. Prova disso s\u00e3o as constantes manifesta\u00e7\u00f5es que mobilizam milhares de pessoas contra seu governo. O exemplo desse isolamento \u00e9 o fato de que Netanyahu sequer foi consultado ou teve acesso aos termos do acordo entre Estados Unidos e Ir\u00e3. Isso explica por que Israel continua bombardeando o L\u00edbano: seu l\u00edder pol\u00edtico precisa da continuidade da guerra para a sobreviv\u00eancia pessoal e far\u00e1 tudo para sabotar o acordo.<\/p>\n<p>Acordo pol\u00edtico ou capitula\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada<\/p>\n<p>Concretamente, Estados Unidos e Israel n\u00e3o atingiram nenhum dos objetivos a que se propuseram quando atacaram o Ir\u00e3, dentre os quais: a) a queda do regime diante dos primeiros bombardeios, que levaria a uma subleva\u00e7\u00e3o popular. Pelo contr\u00e1rio, a guerra uniu o povo contra o imperialismo e fortaleceu o governo; b) os Estados Unidos n\u00e3o conseguiram destruir a estrutura nuclear nem sequestrar o ur\u00e2nio enriquecido do Ir\u00e3, apesar do intensos bombardeios; c) os EUA n\u00e3o puderam se apoderar do petr\u00f3leo persa, como ocorreu na Venezuela, com o qual poderiam dominar o com\u00e9rcio mundial de energia e chantagear a China; d) ao contr\u00e1rio de ampliar sua hegemonia no Oriente M\u00e9dio, os Estados Unidos perderam o prest\u00edgio na regi\u00e3o porque n\u00e3o conseguiram proteger sequer os aliados onde possu\u00eda bases militares.<\/p>\n<p>Numa guerra, quando um pa\u00eds que ataca outro e n\u00e3o pode obter os objetivos a que se prop\u00f4s e o advers\u00e1rio consegue resistir no campo de batalha e impor as condi\u00e7\u00f5es objetivas para a realiza\u00e7\u00e3o de um acordo, n\u00e3o se pode dizer outra coisa sen\u00e3o o fracasso, uma derrota da na\u00e7\u00e3o agressora, apesar do imenso sacrif\u00edcio da na\u00e7\u00e3o agredida. Essa \u00e9 a li\u00e7\u00e3o da recente guerra EUA-Israel contra o Ir\u00e3. Vale lembrar ainda que em v\u00e1rios momentos da hist\u00f3ria os resultados das guerras representaram acontecimentos que produziram consequ\u00eancias profundas que se projetaram no longo prazo sobre a geopol\u00edtica mundial. Sob essa perspectiva, a guerra contra o Ir\u00e3 vai ser lembrada com um desses momentos de inflex\u00e3o hist\u00f3rica que pode se transformar numa mudan\u00e7a de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as internacional e no aumento do decl\u00ednio imperialista.<\/p>\n<p>Essa guerra tamb\u00e9m demonstrou que nenhum pa\u00eds pode manter sua hegemonia apenas pelo poder das armas. Uma longa hegemonia, quando entra em decl\u00ednio, leva o agressor antes poderoso a cometer erros de c\u00e1lculos, em fun\u00e7\u00e3o da arrog\u00e2ncia e da confian\u00e7a excessiva. A hist\u00f3ria registra que muitos imp\u00e9rios, em consequ\u00eancia do exerc\u00edcio prolongado da hegemonia, superestimaram suas capacidades e subestimaram a for\u00e7a dos advers\u00e1rios, terminando por ser surpreendidos pelo polo mais fraco. Isso \u00e9 exatamente o que ocorreu em rela\u00e7\u00e3o ao Ir\u00e3: a longa prepara\u00e7\u00e3o, a determina\u00e7\u00e3o de seus dirigentes e o poder de fogo de suas for\u00e7as armadas surpreenderam o advers\u00e1rio mais poderoso e o levaram \u00e0 derrota. Al\u00e9m disso, o prest\u00edgio dos EUA na regi\u00e3o tamb\u00e9m saiu bastante arranhado, pois seus parceiros regionais, como n\u00e3o foram protegidos, tendem a buscar alternativas e ampliar suas margens de autonomia.<\/p>\n<p>Se analisarmos objetivamente os principais pontos do acordo, poderemos observar as imensas vantagens obtidas pelo Ir\u00e3. O regime permaneceu de p\u00e9, preservou sua soberania, ampliou sua influ\u00eancia no Oriente M\u00e9dio e ainda conseguiu arrancar do imperialismo um conjunto de conquistas econ\u00f4micas e pol\u00edticas impens\u00e1veis por qualquer analista no in\u00edcio dos acontecimentos. Em outros termos, o acordo representa um desfecho muito diferente daqueles que os falc\u00f5es dos Estados Unidos e de Israel imaginavam. Se realmente o acordo for posto plenamente em pr\u00e1tica, se constituir\u00e1 numa mudan\u00e7a profunda na estrutura da geopol\u00edtica internacional e num marco hist\u00f3rico de uma transi\u00e7\u00e3o para uma outra ordem internacional. Vejamos mais detalhadamente cada um de seus principais pontos.<\/p>\n<p>O primeiro ponto tem uma import\u00e2ncia estrat\u00e9gica, uma vez que garante a integridade territorial do Ir\u00e3, a preserva\u00e7\u00e3o de sua soberania e o compromisso dos Estados Unidos de n\u00e3o inger\u00eancia nos assuntos internos iranianos, o que significa uma vit\u00f3ria pol\u00edtica, uma vez que o imperialismo estadunidense vinha interferindo na vida iraniana h\u00e1 pelos menos quatro d\u00e9cadas. O segundo ponto complementa o primeiro, pois os Estados Unidos se comprometeram a reduzir sua presen\u00e7a militar nas proximidades do Ir\u00e3. Essa quest\u00e3o tem enorme relev\u00e2ncia porque Washington construiu um sistema de bases militares no Oriente M\u00e9dio, justamente para exercer press\u00e3o sobre o Ir\u00e3. Agora, com essa cl\u00e1usula, os persas ampliam sua margem de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Outro dos principais pontos do acordo \u00e9 o compromisso com um programa de reconstru\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3 no valor de US$ 300 bilh\u00f5es. Neste caso existe at\u00e9 uma quest\u00e3o muito original: geralmente \u00e9 imposto aos pa\u00edses derrotados uma s\u00e9rie de imposi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas como aconteceu com a Alemanha na primeira guerra. No caso do Ir\u00e3 ocorre exatamente o contr\u00e1rio: o Pa\u00eds que resistiu ao agressor vai receber recursos para sua recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e reconstru\u00e7\u00e3o de sua infraestrutura. Mas um dos aspectos mais relevantes \u00e9 o fim das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas contra o Ir\u00e3, que vinha sendo impostas ao Pa\u00eds h\u00e1 pelo menos 40 anos e significavam o principal instrumento de chantagem dos Estados Unidos contra a na\u00e7\u00e3o persa. Ou seja, o fim das san\u00e7\u00f5es rompe com o isolamento, coloca novamente o Ir\u00e3 no mercado mundial e cria condi\u00e7\u00f5es para um novo ciclo de desenvolvimento do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Essa medida se junta a outra tamb\u00e9m de import\u00e2ncia extraordin\u00e1ria, que \u00e9 a libera\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo, g\u00e1s e seus derivados. Como se sabe, o petr\u00f3leo \u00e9 um dos produtos mais importantes da economia iraniana e o pa\u00eds era obrigado a realizar mil perip\u00e9cias para colocar seu produto no mercado. Agora o Ir\u00e3 est\u00e1 livre para recuperar plenamente sua capacidade de suprir o mercado mundial de energia. Al\u00e9m disso, impede que os Estados Unidos controlem o com\u00e9rcio mundial de petr\u00f3leo, o que seria poss\u00edvel ap\u00f3s os acontecimentos na Venezuela. Isso pode representar um novo patamar no desenvolvimento do pa\u00eds, com aumento das receitas, fortalecimento das reservas e amplia\u00e7\u00e3o dos investimentos do Estado.<\/p>\n<p>Ainda com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o econ\u00f4mica, outro ponto de grande relev\u00e2ncia \u00e9 a devolu\u00e7\u00e3o dos ativos financeiros iranianos que estavam congelados h\u00e1 d\u00e9cadas em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais. A devolu\u00e7\u00e3o desses recursos representa n\u00e3o apenas uma gigantesca inje\u00e7\u00e3o de recursos na economia iraniana, como tamb\u00e9m significa uma vit\u00f3ria pol\u00edtica e econ\u00f4mica do Ir\u00e3 e enfraquece juridicamente os argumentos imperiais para congelar recursos de outras na\u00e7\u00f5es. Simbolicamente, esse compromisso representa o reconhecimento dos direitos econ\u00f4micos restringidos por decis\u00f5es unilaterais do sistema imperial dos Estados como forma de asfixiar os pa\u00edses que considera seus advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do Estreito de Ormuz tamb\u00e9m significou uma vit\u00f3ria iraniana. Nos primeiros 60 dias haver\u00e1 tr\u00e2nsito livre para todas as embarca\u00e7\u00f5es, mas a partir da\u00ed haver\u00e1 uma negocia\u00e7\u00e3o sobre o processo de administra\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a do canal. Isso significa que h\u00e1 a possibilidade de Ir\u00e3 e Om\u00e3 estabelecerem um protocolo de controle dessa regi\u00e3o geogr\u00e1fica, com a cobran\u00e7a de servi\u00e7os mar\u00edtimos de administra\u00e7\u00e3o. Finalmente, h\u00e1 ainda a quest\u00e3o nuclear: o Ir\u00e3 se comprometeu a n\u00e3o desenvolver nem possuir armas nucleares, o que j\u00e1 era uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do governo iraniano antes do conflito. Ou seja, as concess\u00f5es iranianas eram posi\u00e7\u00f5es que j\u00e1 estavam sendo praticadas antes do conflito.<\/p>\n<p>Em outros termos, a derrota no Oriente M\u00e9dio representa um fracasso estrat\u00e9gico do imperialismo estadunidense na regi\u00e3o, fato que dever\u00e1 ter consequ\u00eancia de longo prazo na geopol\u00edtica mundial, uma vez que agora ficou evidente que os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o podem impor seus interesses pela for\u00e7a, nem s\u00e3o invenc\u00edveis. Essa agress\u00e3o passar\u00e1 para a hist\u00f3ria como um dos maiores fracassos imperiais desde a guerra do Vietn\u00e3 e representa mais um cap\u00edtulo de uma longa transi\u00e7\u00e3o de hegemonia em curso na conjuntura mundial, processo que poder\u00e1 se consolidar caso a OTAN seja derrotada na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, esperamos que o fracasso da agress\u00e3o imperialista ao Ir\u00e3 contribua para o fortalecimento das lutas populares e para a constru\u00e7\u00e3o de um caminho aut\u00f4nomo do povo iraniano em busca da conquista plena de seus direitos e das liberdades democr\u00e1ticas, que possa superar a pol\u00edtica interna autorit\u00e1ria do regime. Como afirmou o Partido Comunista do Ir\u00e3 (Tudeh) em declara\u00e7\u00e3o emitida em fevereiro deste ano, &#8220;a agress\u00e3o militar do imperialismo estadunidense e do governo israelense, que est\u00e1 sendo processado pelo Tribunal Internacional de Justi\u00e7a em Haia por crimes contra a humanidade, &#8230; \u00e9 uma tentativa de destruir o Ir\u00e3 como pa\u00eds regional capaz e substituir o governo vigente por um regime dependente e desp\u00f3tico, que j\u00e1 anunciou seu programa de repress\u00e3o sangrenta contra seus opositores. O Partido Tudeh do Ir\u00e3 convoca todas as for\u00e7as nacionais e defensoras da liberdade do Ir\u00e3, bem como as for\u00e7as pacifistas e progressistas do mundo todo, a unirem for\u00e7as nestes momentos sens\u00edveis e decisivos, com todas as suas for\u00e7as, para estabelecer a paz e p\u00f4r fim \u00e0 agress\u00e3o de Israel e do imperialismo estadunidense contra nossa p\u00e1tria. A destrui\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3 n\u00e3o \u00e9 o caminho para salvar o pa\u00eds do jugo do atual governo desp\u00f3tico. Isto s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel atrav\u00e9s da luta do povo e das for\u00e7as nacionais e defensoras da liberdade do pa\u00eds.&#8221;<\/p>\n<p>Estamos vivenciando uma conjuntura muito desafiadora, pois o animal ferido se torna muito mais perigoso. A principal hip\u00f3tese \u00e9 a de que, diante desses fracassos, o imperialismo dos EUA priorize sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina, um espa\u00e7o geogr\u00e1fico onde vai tentar impor seus interesses, conforme assinala em sua doutrina de seguran\u00e7a nacional, dada a fragilidade militar da grande maioria dos pa\u00edses da regi\u00e3o. Nessas circunst\u00e2ncias, somente o povo latino-americano, mediante a mobiliza\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 capaz de barrar uma prov\u00e1vel ofensiva imperial na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Edmilson Costa \u00e9 secret\u00e1rio geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33989\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[73,181,75,248,383],"tags":[234],"class_list":["post-33989","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c86-anti-imperialismo","category-asia","category-c88-internacionalismo","category-ira","category-pronunciamentos-da-secretaria-geral","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Qd","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33989","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33989"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33989\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33991,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33989\/revisions\/33991"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33989"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33989"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33989"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}