{"id":33993,"date":"2026-07-01T11:43:21","date_gmt":"2026-07-01T14:43:21","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=33993"},"modified":"2026-07-01T11:43:21","modified_gmt":"2026-07-01T14:43:21","slug":"desespero-e-entropia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33993","title":{"rendered":"Desespero e entropia"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"33994\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33993\/image-20-2\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-20.png?fit=1280%2C853&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1280,853\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"image-20\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-20.png?fit=747%2C498&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-large wp-image-33994\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-20.png?resize=747%2C498&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"498\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-20.png?resize=900%2C600&amp;ssl=1 900w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-20.png?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-20.png?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-20.png?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Imagem: Hosny Salah via Pixabay<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi<\/p>\n<p>BLOG DA BOITEMPO<\/p>\n<p>\u201cQuem cala sobre teu corpo<br \/>\nConsente na tua morte\u201d<br \/>\n\u2014 Milton Nascimento e Ronaldo Bastos<\/p>\n<p>O universo se expande mais r\u00e1pido do que a luz rumo \u00e0 entropia, mas, talvez, seja tarde demais. Um grito surdo ecoa de um pequeno planeta e o universo ignora suas s\u00faplicas.<\/p>\n<p>Corpos de crian\u00e7as destro\u00e7ados, m\u00e9dicos assassinados, mulheres e beb\u00eas estuprados, atletas vendo seus p\u00e9s feitos em uma massa informe de sangue e carne pelas balas de soldados que riem, escolas destru\u00eddas, hospitais bombardeados. Sobre os escombros, a sombra funesta da fome e da doen\u00e7a se prepara para a colheita dos sobreviventes.<\/p>\n<p>Abra\u00e7o o corpo cinza da menina sem vida e meu grito n\u00e3o sai. Apenas o grotesco rosto da dor se contorce naquilo que um dia foi uma face humana e, da boca aberta e seca, o sil\u00eancio explode sem vida\u2026 como a crian\u00e7a palestina.<\/p>\n<p>O universo se expande mais r\u00e1pido do que a luz rumo \u00e0 entropia, mas \u00e9 tarde demais. A humanidade teve sua chance, teve muitas chances; o universo a ignora em sua indiferente massa de mat\u00e9ria e luz, de escurid\u00e3o e energia, de espa\u00e7o e tempo. A humanidade n\u00e3o merece existir na vastid\u00e3o das possibilidades. N\u00e3o apenas pelos assassinos, vermes cru\u00e9is de farda e terno, mas igualmente pela massa daqueles que se calam, se ajoelham, veneram, olham para o outro lado e fingem n\u00e3o sentir o forte cheiro met\u00e1lico do sangue e o odor putrefato dos cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>Enquanto as crian\u00e7as morrem, a humanidade burra ergue novamente seu bra\u00e7o direito em riste e sa\u00fada os criminosos como messias bem-vindos, profetas e santos que lhe prometem o futuro enquanto roubam-lhe o presente; s\u00e3o c\u00famplices, jagun\u00e7os e capangas das tropas do apocalipse. A humanidade se parece com uma doen\u00e7a do planeta, destruindo sua carne, infeccionando seu sangue, tossindo e espalhando sua morte pelo ar escuro e pesado.<\/p>\n<p>Mais uma crian\u00e7a morreu na Palestina, uma fam\u00edlia no sul do L\u00edbano \u00e9 soterrada por sua casa e n\u00e3o existem mais palavras: os pap\u00e9is se queimar\u00e3o nas bibliotecas abandonadas, os arquivos digitais sumir\u00e3o entre as nuvens e as colunas espessas de fuma\u00e7a negra. N\u00e3o haver\u00e1 mem\u00f3ria, s\u00f3 esquecimento, n\u00e3o haver\u00e1 espera, s\u00f3 desespero \u2013 at\u00e9 que n\u00e3o reste nada.<\/p>\n<p>O universo se apressa, mas n\u00e3o h\u00e1 mais tempo. Chegamos antes, nos antecipamos, arrancamos o t\u00edtulo de humanos e vestimos os bestiais trajes do horror e da maldade, abdicamos.<\/p>\n<p>Abra\u00e7o os corpos em decomposi\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as palestinas como se quisesse sentir mais uma vez o calor de suas pequenas vidas ceifadas, mas tudo \u00e9 frio e aus\u00eancia, tudo se foi. As \u00e1guas nos avisaram, os animais nos alertaram, o vento tentou nos acordar com as fortes chuvas\u2026 mas n\u00e3o ouvimos, ocupados demais com frivolidades. O mais novo trilion\u00e1rio come iguarias no banquete da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica; faz parte da comitiva de Sat\u00e3 que discute a quem caber\u00e1 saborear as terras raras\u2026 a terra prometida\u2026 a Terra rara\u2026 um presente do acaso, formado dos restos de uma explos\u00e3o estelar girando em torno de um astro, bombardeado por destro\u00e7os e cometas, at\u00e9 que das cicatrizes se fez a terra e o presente da \u00e1gua mantida pelo escudo eletromagn\u00e1tico\u2026 o tempo e o presente da vida abundante e f\u00e9rtil at\u00e9 que, por fim, a bact\u00e9ria humana se espalhou e agora se pergunta se \u00e9 poss\u00edvel estuprar a terra por mais um tempo antes que tudo acabe para que possa contaminar outro planeta.<\/p>\n<p>N\u00e3o haver\u00e1 dois Estados, tampouco um Estado na terra prometida. Haver\u00e1 uma enorme l\u00e1pide onde se ler\u00e1 a ep\u00edgrafe funesta: aqui jaz a humanidade. Junto aos corpos das v\u00edtimas jazem tamb\u00e9m seus carrascos e c\u00famplices. Ningu\u00e9m levar\u00e1 flores e nenhuma l\u00e1grima cair\u00e1 no solo seco.<\/p>\n<p>O universo se expande mais r\u00e1pido que a luz rumo \u00e0 entropia. Um grito sem voz escapa do planeta que agoniza, n\u00e3o \u00e9 mais um grito humano, n\u00e3o tem o corpo do som, n\u00e3o nasceu de cordas vocais, brotou da dor e do \u00f3dio. No momento em que tudo tornou-se nada.<\/p>\n<p>Nenhuma forma de vida poder\u00e1 ouvir tal grito, mas ele estar\u00e1 l\u00e1 para sempre, mesmo depois das estrelas se apagarem, at\u00e9 que, no meio do vazio absoluto, se poder\u00e1 ouvir: ASSASSINOS\u2026 ASSASSINOS\u2026 ASSASSINOS.<\/p>\n<p>Mauro Iasi professor aposentado da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, professor convidado do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Servi\u00e7o Social da PUC de S\u00e3o Paulo, educador popular e militante do PCB. \u00c9 autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil e Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente. Na TV Boitempo, apresenta o Caf\u00e9 Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradi\u00e7\u00e3o marxista a partir de reflex\u00f5es sobre a conjuntura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/33993\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[65,10],"tags":[221],"class_list":["post-33993","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional","category-s19-opiniao","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Qh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33993","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33993"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33993\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33995,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33993\/revisions\/33995"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}