{"id":34,"date":"2009-12-16T03:38:36","date_gmt":"2009-12-16T03:38:36","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=34"},"modified":"2009-12-16T03:38:36","modified_gmt":"2009-12-16T03:38:36","slug":"obama-em-oslo-o-discurso-da-hipocrisia-imperial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/34","title":{"rendered":"OBAMA EM OSLO: O DISCURSO DA HIPOCRISIA IMPERIAL"},"content":{"rendered":"\n<p>Nove dias antes, o cidad\u00e3o &#8211; presidente Obama decidira enviar para o Afeganist\u00e3o mais 30.000 soldados , elevando para 100.000 os efectivos do ex\u00e9rcito norte-americano que invadiu aquele pais h\u00e1 8 anos.<\/p>\n<p>Consciente de que o discurso da paz era na circunst\u00e2ncia incompat\u00edvel com o envolvimento actual dos EUA em m\u00faltiplas guerras de agress\u00e3o, o novo Pr\u00e9mio Nobel tentou justific\u00e1-las em nome de valores eternos da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Apresentou o apocalipse afeg\u00e3o como um &#8220;guerra necess\u00e1ria&#8221; travada em defesa da humanidade. Falou de &#8220;promessa de trag\u00e9dia&#8221;, reconhecendo, pesaroso, que nas guerras &#8220;uns matam, outros morrem&#8221;. Omitiu que a trag\u00e9dia desencadeada no cora\u00e7\u00e3o da \u00c1sia n\u00e3o \u00e9 promessa, mas monstruosa realidade. E omitiu tamb\u00e9m que \u00e9 a sua gente, cumprindo ordens criminosas, quem mata e os &#8220;outros&#8221; quem morre.<\/p>\n<p>N\u00e3o disse que no Afeganist\u00e3o morreram, at\u00e9 fim de Novembro, somente 849 soldados americanos, os agressores, mas mais de 100.000 entre os agredidos, metade dos quais de fome.<\/p>\n<p>Tra\u00e7ando uma fronteira entre as &#8220;guerras necess\u00e1rias&#8221; e aquelas que o n\u00e3o s\u00e3o, Obama afirmou que &#8220;um movimento n\u00e3o violento n\u00e3o teria podido deter os ex\u00e9rcitos de Hitler&#8221;. Mas enunciou essa evidencia para estabelecer um paralelo grotesco entre a Al Qaeda e o III Reich nazi. Identifica na invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o uma exig\u00eancia da defesa do povo dos EUA porque &#8220;os l\u00edderes da Al Qaeda (organiza\u00e7\u00e3o inexpressiva num pais onde o \u00e1rabe \u00e9 uma l\u00edngua desconhecida do povo) n\u00e3o aceitam depor as armas&#8221;.<\/p>\n<p>Fica impl\u00edcito que o Estado mais rico e poderoso do mundo considerou imprescind\u00edvel \u00e0 sua seguran\u00e7a que as For\u00e7as Armadas norte-americanas atravessassem um oceano e dois continentes para irem combater num dos pa\u00edses mais atrasado e pobres do mundo o l\u00edder de uma seita de fan\u00e1ticos. Pela primeira vez na Hist\u00f3ria um governo declarou a guerra n\u00e3o um Estado, mas a um terrorista, guindando-o \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de interlocutor. Com a peculiaridade de que, sendo desconhecido o seu paradeiro, o alvo e a v\u00edtima dessa guerra irracional foi e continua a ser o povo entre o qual supostamente se ocultaria Ben Laden.<\/p>\n<p>No mesmo dia em que Obama recebia o Nobel da Paz na Noruega , o general Stanley McCrhystal fazia perante o Congresso dos EUA de gala, com o peito constelado de condecora\u00e7\u00f5es &#8211; as medalhas dos guerreiros agressores s\u00e3o tradicionalmente atribu\u00eddas em fun\u00e7\u00e3o da quantidade de massacres que cometeram pela &#8220;salva\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria&#8221;- o comandante supremo na \u00e1rea Afeganist\u00e3o -Paquist\u00e3o reafirmou a sua certeza na vitoria de uma &#8221; guerra justa e necess\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p>S\u00e3o complementares o seu discurso e o de Obama.<\/p>\n<p>A VIOLENCIA NA HIST\u00d3RIA<\/p>\n<p>Enquanto Obama lutou pela Presid\u00eancia e nos primeiros meses de Governo, o seu discurso, embora ret\u00f3rico, apresentou matizes humanistas.<\/p>\n<p>Mesmo entre advers\u00e1rios ideol\u00f3gicos, perdurou durante algum tempo uma duvida: seria o jovem presidente um estadista fiel a princ\u00edpios e valores \u00e9ticos e que somente n\u00e3o iria mais longe por ser travado pela engrenagem do sistema de poder?<\/p>\n<p>O balan\u00e7o da sua pol\u00edtica em onze meses n\u00e3o lhe favorece a imagem. N\u00e3o obstante o massacre medi\u00e1tico promovido para o erigir no &#8220;salvador&#8221; de que o capitalismo em crise estrutural necessitava, a ideia de que o Presidente dos EUA n\u00e3o concretizou compromissos assumidos por que o grande capital e o Pent\u00e1gono o impediram \u00e9 negada pela realidade da vida.<\/p>\n<p>Por si s\u00f3, a escalada no Afeganist\u00e3o fez ruir o mito do eticismo do presidente. Sobra apenas a ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>O discurso de Oslo tripudia sobre a raz\u00e3o e a \u00e9tica. Sob o manto do &#8220;poder moral&#8221;, Obama, movendo-se num labirinto de hipocrisia e de contradi\u00e7\u00f5es, pretende persuadir os povos de que o poder imperial dos EUA est\u00e1 ao servi\u00e7o da humanidade quando, dolorosamente, recorrem \u00e0 viol\u00eancia para defender, segundo ele, a liberdade, a democracia, a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx captou a realidade ao afirmar que a viol\u00eancia tem funcionado como parteira da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Pouco mudou em milhares anos. No nosso tempo a humanidade nada num oceano de viol\u00eancia. Nos \u00faltimos 60 anos em guerras e outros flagelos, cuja responsabilidade no fundamental cabe ao imperialismo morreram ou foram feridas 60 milh\u00f5es de pessoas, quase tantas como na II Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Num livro maravilhoso [1], Georges Labica &#8211; um dos grandes fil\u00f3sofos do s\u00e9culo XX e um dos rar\u00edssimos intelectuais contempor\u00e2neos que fez da cultura integrada o cimento de uma obra luminosa pela intelig\u00eancia e saber &#8211; lembra-nos que o capitalismo \u00e9 a p\u00e1tria de um sistema que escraviza (e emancipa atrav\u00e9s da revolta) e que a globaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia reflecte afinal o estado da sociedade modelada e oprimida pelas suas engrenagens.<\/p>\n<p>As guerras &#8220;necess\u00e1rias&#8221; n\u00e3o s\u00e3o, porem, as que os EUA travam na \u00c1sia contra povos mis\u00e9rrimos cujas riquezas saqueiam.<\/p>\n<p>Essas, as &#8220;justas&#8221;, s\u00e3o insepar\u00e1veis do direito \u00e0 sobreviv\u00eancia de povos agredidos por outros, as que op\u00f5em a viol\u00eancia libertadora \u00e0 viol\u00eancia opressora. J\u00e1 dizia Maquiavel que &#8220;os levantamentos de um povo livre s\u00e3o raramente perniciosos \u00e0 sua liberta\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria apresenta-nos ao longo dos s\u00e9culos exemplos expressivos, por vezes comovedores, de tais guerras , autenticas epopeias nacionais. A resist\u00eancia armada \u00e9 ent\u00e3o nelas o desembocar da vontade colectiva.<\/p>\n<p>Isso aconteceu no combate \u00e0 barb\u00e1rie do III Reich Alem\u00e3o; na luta do Vietnam contra os EUA, na saga argelina, no batalhar multissecular pela independ\u00eancia dos povos da \u00c1sia, da Am\u00e9rica Latina e da \u00c1frica contra o colonialismo e pelo direito a constru\u00edrem o seu pr\u00f3prio futuro como sujeitos da Hist\u00f3ria, acontece hoje na luta \u00e9pica do povo palestiniano contra o sionismo neonazi, na resist\u00eancia dos povos do Iraque e do Afeganist\u00e3o \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o imperial norte-americana.<\/p>\n<p>O discurso farisaico de Obama em Oslo, aclamado pelos sacerdotes do sistema opressor, seus c\u00famplices, configurou uma ofensa \u00e0 intelig\u00eancia e dignidade dos povos agredidos, explorados e humilhados pelo imperialismo.<\/p>\n<p>[1] Georges Labica, &#8221; Th\u00e9orie de la Violence&#8221;, Ed.La Cita del Sole, Napoles, e Librairie Philosophique J.Vrin, Paris, Dezembro de 2007.<\/p>\n<p>V.N de Gaia, 12 de Dezembro de 2009<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Latuff\n\n\n\n\nPor: Miguel Urbano Rodrigues\nTalvez nenhum outro Pr\u00e9mio Nobel da Paz tenha suscitado t\u00e3o ampla e justa pol\u00e9mica a n\u00edvel mundial como o atribu\u00eddo a Barack Obama.\nAdmito que pelo tempo adiante o discurso que ele pronunciou em Oslo, a 10 de Dezembro p.p., ao recebe-lo ser\u00e1 recordado como o discurso da hipocrisia imperial.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/34\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-34","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-y","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}