{"id":3403,"date":"2012-08-22T14:28:37","date_gmt":"2012-08-22T14:28:37","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3403"},"modified":"2012-08-22T14:28:37","modified_gmt":"2012-08-22T14:28:37","slug":"os-museus-da-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3403","title":{"rendered":"OS MUSEUS DA RESIST\u00caNCIA"},"content":{"rendered":"\n<p>Domingo, 19 de agosto de 2012<\/p>\n<p>OS MUSEUS DA RESIST\u00caNCIA<\/p>\n<p>Combatia a ditadura militar. Quando foi preso e torturado, em 1973, tinha 22 anos, o porte franzino e uma cara de menino. Seu paradeiro foi criminosamente ocultado pelas autoridades. Foi ai que o nome de Ramires Maranh\u00e3o do Valle passou a figurar na lista dos &#8220;desaparecidos pol\u00edticos&#8221;. Mas na \u00faltima segunda feira, ele apareceu, redivivo, numa defesa de mestrado na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e nos observou, com seu olhar t\u00edmido, cheio de candura, a partir de uma foto sua que permaneceu projetada num tel\u00e3o durante todo o evento. Juro que sua voz emergia do texto impresso e ouvimos at\u00e9 o palpitar do seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem insistiu para que ele estivesse l\u00e1, conosco, foi seu sobrinho, Carlos Beltr\u00e3o do Valle, autor da disserta\u00e7\u00e3o defendida no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Mem\u00f3ria Social (PPGMS). Afinal, ningu\u00e9m com mais legitimidade do que Ramires para avaliar o trabalho que discute a proposta de transformar os locais de tortura em museus, com o objetivo de ativar mem\u00f3rias reprimidas e silenciadas, seguindo a li\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Chagas: &#8220;o museu, como institui\u00e7\u00e3o, pode servir tanto para tiranizar como para libertar&#8221;.<\/p>\n<p>O foco escolhido foi o pr\u00e9dio do DEOPS de S\u00e3o Paulo, onde funciona o Memorial da Resist\u00eancia, inaugurado em 2009. Esse \u00e9 o primeiro centro de tortura do Brasil que foi musealizado. Por suas celas passaram o escritor Monteiro Lobato, a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e o ex-governador de S\u00e3o Paulo Jos\u00e9 Serra. Recentemente outro memorial foi erguido no Cemit\u00e9rio de Ricardo de Albuquerque, no Rio, onde Ramires foi sepultado, clandestinamente, numa cova rasa, com outros militantes.<\/p>\n<p>Carlos Beltr\u00e3o n\u00e3o era nem nascido quando o tio foi assassinado. Aprendeu a am\u00e1-lo atrav\u00e9s das narrativas familiares contadas pelo av\u00f4 Francisco, o pai Romildo e a m\u00e3e S\u00f4nia &#8211; todos eles militantes. Dedicou a ele sua pesquisa de mestrado, para a qual entrevistou ex-presos do Rio, de S\u00e3o Paulo e de Recife, consultou jornais e documentos em arquivos, leu depoimentos em livros autobiogr\u00e1ficos cujos autores relatam experi\u00eancias na pris\u00e3o, analisou pe\u00e7as de teatro e filmes sobre o tema e acompanhou visitas ao Memorial da Resist\u00eancia para avaliar a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong>Lugares de Mem\u00f3ria <\/strong><\/p>\n<p>A disserta\u00e7\u00e3o compara a musealiza\u00e7\u00e3o dos centros de tortura no Brasil com a experi\u00eancia de s\u00edtios de consci\u00eancia e de mem\u00f3ria em outros pa\u00edses como Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, destacando o Museu do Apartheid na \u00c1frica do Sul e o Museu da Resist\u00eancia em Amsterd\u00e3. A an\u00e1lise de todo esse material foi feita com ajuda dos te\u00f3ricos que refletiram sobre a mem\u00f3ria e o patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>Foram muitos os centros de tortura que funcionaram no Brasil entre 1964 e 1985. Recente pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)\u00a0 mapeou 82 deles, dos quais 13 se localizavam no Rio. Mas a disserta\u00e7\u00e3o registra 212 listados por Rubim Aquino, muitos at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidos, outros destru\u00eddos na inten\u00e7\u00e3o de apagar a mem\u00f3ria do local. O pr\u00f3prio pr\u00e9dio do DEOPS de S\u00e3o Paulo apagou marcas e registros relevantes, entre as quais as inscri\u00e7\u00f5es feitas pelos presos nas paredes das celas, que tiveram de ser reconstitu\u00eddas.<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica deliberada de organiza\u00e7\u00e3o do esquecimento \u00e9 analisada na disserta\u00e7\u00e3o, cujo fio condutor usa a no\u00e7\u00e3o de &#8220;esquecimento ativo&#8221; de Nietzsche, para quem \u00e9 importante esquecer, mas para isso \u00e9 necess\u00e1rio saber. &#8220;A gente s\u00f3 pode esquecer aquilo que a gente sabe&#8221;. O caso do DEOPS ilustra muito bem a luta em busca da mem\u00f3ria perdida. Depois da reforma que destruiu algumas celas, os organizadores do Memorial decidiram mostrar a estrutura original daquele centro de tortura, confeccionando uma maquete. Para isso, por\u00e9m, tiveram de se apoiar no relato oral de ex-presos pol\u00edticos, porque n\u00e3o encontraram sequer uma planta do pr\u00e9dio.<\/p>\n<p>Os documentos s\u00e3o escondidos ou destru\u00eddos, como ocorreu mais recentemente no governo Sarney, quando os militares reprimiram a greve de 1988, invadindo a sede da Companhia Sider\u00fargica Nacional. O saldo foram tr\u00eas metal\u00fargicos mortos e dezenas de feridos. Na semana passada, a Folha de S\u00e3o Paulo tentou consultar a documenta\u00e7\u00e3o e invocou a Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, mas o Ex\u00e9rcito respondeu que ela havia sido eliminada.<\/p>\n<p>Os documentos ou foram destru\u00eddos, ou permanecem inacess\u00edveis ou ainda est\u00e3o em m\u00e3os de particulares, como o &#8220;ba\u00fa do Bandeira&#8221; &#8211; os arquivos da Guerrilha do Araguaia &#8211; que segundo um dos depoimentos est\u00e3o em m\u00e3os da filha do general Bandeira. &#8220;O Governo n\u00e3o tem for\u00e7as pra dizer: entrega esse material, que \u00e9 p\u00fablico&#8221;, disse Cec\u00edlia Coimbra, uma das depoentes, que fez parte da banca.<\/p>\n<p>Contra essa pol\u00edtica do esquecimento \u00e9 que se construiu o Memorial da Resist\u00eancia, com a assessoria do F\u00f3rum Permanente de Ex-Presos e Perseguidos Pol\u00edticos do Estado de S\u00e3o Paulo. A ideia que prevaleceu foi a de n\u00e3o priorizar a tortura, que efetivamente existiu, nem de glorificar os her\u00f3is, individualmente, mas de centrar na luta coletiva, articulando as mem\u00f3rias do passado com o presente. O Memorial deve mostrar que &#8220;apesar de toda a barb\u00e1rie, venceu a humanidade. Derrotamos a ditadura&#8221; &#8211; diz Alipio Freire, um dos ex-presos entrevistados.<\/p>\n<p><strong>Ramires vivo<\/strong><\/p>\n<p>Durante a defesa, foi citado poema de Bertold Brecht. Numa pris\u00e3o italiana, um preso pol\u00edtico com uma faca escreveu na parede de sua cela em letras garrafais: VIVA LENIN! Os guardas viram e mandaram um pintor com um balde de cal apagar a inscri\u00e7\u00e3o. Com um pincel, ele cobriu letra por letra, o que destacou ainda mais as palavras. Um segundo pintor foi ent\u00e3o enviado e cobriu tudo com tinta escura, mas quando secou, horas depois, as letras teimosas apareceram em relevo. Chamaram ent\u00e3o um pedreiro, que com uma talhadeira cavou profundamente, letra por letra, a frase na parede. \u201cAgora, derrubem a parede\u201d \u2013 disse o preso socialista.<\/p>\n<p>Quanto mais tentam apagar, mais destacadas ficam as mem\u00f3rias de presos pol\u00edticos. O depoimento de Cec\u00edlia Coimbra registra o &#8220;trabalho de detetive&#8221; feito pelo Grupo Tortura Nunca Mais (GTNM) do Rio de Janeiro para localizar a sepultura de Ramires quase vinte anos ap\u00f3s sua morte. Seu irm\u00e3o, Romildo, soube da exist\u00eancia de uma vala clandestina no cemit\u00e9rio de Ricardo de Albuquerque, na periferia. Depois de muita luta e muita burocracia, conseguiram autoriza\u00e7\u00e3o para checar os livros do Instituto M\u00e9dico Legal (IML). Quem conta \u00e9 Cec\u00edlia no depoimento dado a Carlos Beltr\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;Fomos abrindo e vimos no livro, em outubro de 1973: um homem desconhecido, outro homem desconhecido e uma mulher (Ran\u00fasia Alves Rodrigues). A\u00ed a gente olhou de onde veio: a pra\u00e7a Sentinela em Jacarepagu\u00e1. A\u00ed o Romildo disse: s\u00e3o eles, Cec\u00edlia! Encontrei meu irm\u00e3o! S\u00e3o eles! Eu disse: calma, Romildo! Vamos pro cemit\u00e9rio de Ricardo de Albuquerque, Romildo, calma! Eu fico arrepiada quando me lembro disso.(&#8230;) A\u00ed fizemos todo um levantamento, ano, m\u00eas, dia. Depois, n\u00f3s fomos para os livros de entrada e sa\u00edda, um livro enorme&#8230;e depois pedi as fotos. Teu pai reconheceu o teu tio, carbonizado&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 no cemit\u00e9rio de Ricardo de Albuquerque, outra luta para localizar a sepultura. Conversaram com o coveiro mais antigo, que deu a dica. A vala clandestina estava escondida, coberta por gavetas, mas o GTNM conseguiu, atrav\u00e9s do ent\u00e3o vice-governador Nilo Batista, que as gavetas fossem retiradas e a vala aberta. &#8220;A gente conseguiu autoriza\u00e7\u00e3o, via Minist\u00e9rio Publico, e a Santa Casa j\u00e1 autorizou a construir l\u00e1 um memorial, pequeno, mas que estamos querendo preservar o local e a mem\u00f3ria&#8221; &#8211;\u00a0 conta Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Algumas p\u00e1ginas da disserta\u00e7\u00e3o s\u00e3o dedicadas a repertoriar os &#8220;esculachos populares&#8221;, que come\u00e7aram a ocorrer em onze estados de diferentes cidades do Brasil, a exemplo da Argentina e do Chile. Posto que no Brasil nenhum torturador foi preso pelo crime cometido contra a humanidade, que pelas normas internacionais n\u00e3o prescreve, os &#8220;esculachos&#8221; s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas realizadas diante das resid\u00eancias dos torturadores, denunciando-os aos vizinhos e \u00e0 sociedade. Funcionam como uma puni\u00e7\u00e3o moral. Nesse sentido, a disserta\u00e7\u00e3o serviu para mostrar que o &#8220;esculacho&#8221;, em defesa da mem\u00f3ria, conquistou um espa\u00e7o acad\u00eamico.<\/p>\n<p>No final, quem est\u00e1 vivo \u00e9 Ramires, com seus sonhos alados. Quem foi sepultado no lix\u00e3o da Hist\u00f3ria foram os torturadores apontados nos esculachos, assim como o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ulstra responsabilizado, nesta semana, como torturador, em decis\u00e3o in\u00e9dita do Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Jos\u00e9 Ribamar Bessa Freire<\/strong>:\u00a0Doutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2003). \u00c9 professor da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Mem\u00f3ria Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de mestrado e doutorado, e professor da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Ind\u00edgenas da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o. Ministra cursos de forma\u00e7\u00e3o de professores ind\u00edgenas em diferentes regi\u00f5es do Brasil, assessorando a produ\u00e7\u00e3o de material did\u00e1tico. Assina coluna no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.d24am.com\/\" target=\"_blank\"><strong>Di\u00e1rio do Amazonas<\/strong><\/a> e mant\u00e9m o\u00a0blog\u00a0<a href=\"http:\/\/www.taquiprati.com.br\/index.php\" target=\"_blank\"><strong>Taqui Pra Ti<\/strong><\/a>.\u00a0<strong>Colabora com esta nosssa Ag\u00eancia Assaz Atroz.<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: AIPC &#8211; Atrocious International Piracy of Cartoons<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>PressAA<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/assazatroz.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">http:\/\/assazatroz.blogspot.com\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/santanadoipanema.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">http:\/\/santanadoipanema.blogspot.com\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pressaa.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">http:\/\/pressaa.blogspot.com\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: taquiprati.com.br\n\n\n\n\n\n\n\n\nAssaz Atroz\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3403\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-3403","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-ST","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3403","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3403"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3403\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3403"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3403"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3403"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}