{"id":34064,"date":"2026-07-17T12:58:39","date_gmt":"2026-07-17T15:58:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=34064"},"modified":"2026-07-17T12:58:39","modified_gmt":"2026-07-17T15:58:39","slug":"mobilidade-urbana-a-quem-servem-as-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/34064","title":{"rendered":"Mobilidade Urbana: a quem servem as ruas?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"34065\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/34064\/mobilidadecapa\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/mobilidadeCapa.png?fit=800%2C450&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"800,450\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"mobilidadeCapa\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/mobilidadeCapa.png?fit=747%2C420&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-34065\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/mobilidadeCapa.png?resize=747%2C420&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/mobilidadeCapa.png?w=800&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/mobilidadeCapa.png?resize=300%2C169&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/mobilidadeCapa.png?resize=768%2C432&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Por Maria Guilhermina, Unidade Classista &#8211; Curitiba<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 quase senso comum entre pessoas que estudam urbanismo que a matriz pautada no transporte individual motorizado \u00e9 o modelo mais ineficiente de mobilidade urbana que existe. Considere o espa\u00e7o ocupado por cada carro &#8211; na maior parte das vezes levando apenas uma ou duas pessoas &#8211; al\u00e9m da responsabilidade individual atribu\u00edda a milhares de motoristas por evitar panes e acidentes. N\u00e3o tem como dar certo, e o resultado \u00f3bvio e vis\u00edvel dessa escolha s\u00e3o os imensos engarrafamentos das grandes cidades.<\/p>\n<p>Mais do que modelos de mobilidade, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 uma disputa por hegemonia cultural. Uma cidade planejada para carros, com projetos como vias largas, viadutos e trincheiras para que os ve\u00edculos possam transitar sempre com prefer\u00eancia e em alta velocidade, constr\u00f3i uma subjetividade cultural que p\u00f5e em primeiro lugar o individualismo &#8211; ou o cada um por si &#8211; e educa trabalhadoras e trabalhadores a crer que seu ve\u00edculo sempre poder\u00e1 correr e ser prioridade. Quanto mais infraestrutura se constr\u00f3i para carros, mais se refor\u00e7a uma perspectiva cultural de que o mundo pertence a motoristas, de que os carros devem reinar sobre o solo urbano. \u00c9 claro que isso \u00e9 uma engana\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que no final das contas esses mesmos ve\u00edculos v\u00e3o ficar parados em engarrafamentos e dar voltas e voltas para achar vagas. Mas, em termos de subjetiva\u00e7\u00e3o dos sujeitos, fica sempre refor\u00e7ado o discurso de que a cidade \u00e9 feita para quem dirige.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou negar os m\u00e9ritos do modelo de transporte coletivo inovador que Curitiba inaugurou na d\u00e9cada de 1970, com viagens de \u00f4nibus sendo \u00e0s vezes mais curtas que aquelas de carro &#8211; a depender do trajeto, \u00e9 claro. Nem vou entrar no m\u00e9rito da cont\u00ednua perda de qualidade do sistema ao longo dos anos (quem anda de \u00f4nibus sabe), mas quero sugerir aqui que esse modelo n\u00e3o foi acompanhado de uma disputa pela hegemonia cultural do modelo de transporte. Quando nos deparamos com a forma pela qual a cidade foi planejada e constru\u00edda ao longo das d\u00e9cadas, percebemos que a prioridade continuou sendo dos ve\u00edculos motorizados individuais, de modo que boa parte da classe trabalhadora continua olhando para o \u00f4nibus como um dispositivo que n\u00e3o lhe pertence, quando muito aos segmentos mais vulner\u00e1veis da cidade &#8211; por melhor que seja o \u00f4nibus, n\u00e3o \u00e9 pra mim.<\/p>\n<p>Se existem m\u00e9ritos (cada vez mais question\u00e1veis) no sistema de transporte coletivo, quando olhamos para a mobilidade ativa observamos que quem anda a p\u00e9 e de bicicleta foi colocade sempre em \u00faltimo plano. Cal\u00e7adas da pior qualidade, aus\u00eancia de sinais e faixas de pedestre, infraestrutura ciclovi\u00e1ria quase inexistente (as ciclorrotas s\u00e3o uma piada de mau gosto), entre outros gestos ativos exercidos pela administra\u00e7\u00e3o municipal, refor\u00e7am que quem reina \u00e9 o carro. Se voc\u00ea n\u00e3o tem carro, essa cidade n\u00e3o \u00e9 pra voc\u00ea. Nesse processo retroalimentado, a prioridade dada ao carro torna in\u00f3cuas mesmo as poucas infraestruturas de mobilidade ativa, como ciclofaixas e faixas de pedestres, que tendem a ser escandalosamente desrespeitadas por motoristas ensinades a ter as ruas para si.<\/p>\n<p>A dial\u00e9tica entre a infraestrutura urbana e a hegemonia cultural que ela constr\u00f3i e refor\u00e7a \u00e9 a receita perfeita para desastres. Ciclistas tendo de usar espa\u00e7os nos quais n\u00e3o s\u00e3o bem vindes confrontam diretamente motoristas que foram ensinades a transitar sempre com absoluta prioridade e em alta velocidade. O que pode resultar desse encontro sen\u00e3o o risco permanente \u00e0 vida de quem est\u00e1 mais vulner\u00e1vel?<\/p>\n<p>Essa trag\u00e9dia urbana coloca frente a frente e, como inimigos, diferentes segmentos da classe trabalhadora, ocultando, como sempre ocorre no campo das hegemonias culturais, o arranjo sist\u00eamico que resulta desse confronto. O trabalhador que foi compelido a investir em um carro em uma cidade feita para carros v\u00ea como advers\u00e1rio em uma disputa insana por espa\u00e7o outro trabalhador que ousou se movimentar de outra maneira pela cidade. O primeiro imp\u00f5e seu ve\u00edculo da forma como a cidade lhe ensina cotidianamente, o segundo n\u00e3o tem op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel para se proteger. E assim a cidade desenhada pelo Estado burgu\u00eas amea\u00e7a vidas sem que haja responsabiliza\u00e7\u00e3o de quem ativamente desenha esse modelo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/34064\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[66,10],"tags":[227],"class_list":["post-34064","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional","category-s19-opiniao","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Rq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34064","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34064"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34064\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34066,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34064\/revisions\/34066"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}