{"id":34300,"date":"2026-09-21T22:12:36","date_gmt":"2026-09-22T01:12:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=34300"},"modified":"2026-09-21T22:12:36","modified_gmt":"2026-09-22T01:12:36","slug":"apontamentos-sobre-a-crise-economica-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/34300","title":{"rendered":"Apontamentos sobre a crise econ\u00f4mica do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-attachment-id=\"34301\" data-permalink=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/34300\/unnamed-82\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/unnamed.png?fit=768%2C835&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"768,835\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;,&quot;alt&quot;:&quot;&quot;}\" data-image-title=\"unnamed\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/unnamed.png?fit=747%2C812&amp;ssl=1\" class=\"alignnone size-full wp-image-34301\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/unnamed.png?resize=747%2C812&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"747\" height=\"812\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/unnamed.png?w=768&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal2\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/unnamed.png?resize=276%2C300&amp;ssl=1 276w\" sizes=\"auto, (max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><!--more--><\/p>\n<p>Prabhat Patnaik [*]<\/p>\n<p>Existem, pelo menos, dois aspetos econ\u00f4micos importantes da atual crise estrutural do capitalismo. O primeiro \u00e9 a estagna\u00e7\u00e3o geral e o aumento do desemprego com que o capitalismo mundial, na sua fase neoliberal, vem se confrontando. O aumento do desemprego, em muitos casos, como nos Estados Unidos, \u00e9 camuflado por uma redu\u00e7\u00e3o da taxa de participa\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, mas a sua realidade \u00e9 ineg\u00e1vel. A estagna\u00e7\u00e3o j\u00e1 se manifestava mesmo antes da pandemia: a taxa de crescimento decenal da economia mundial na d\u00e9cada de 2010 foi inferior \u00e0 de qualquer d\u00e9cada anterior desde a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Aumento da cota de excedente e da superprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A raz\u00e3o para esta estagna\u00e7\u00e3o reside na pr\u00f3pria natureza do capitalismo neoliberal, que tem assistido a um aumento maci\u00e7o da desigualdade de rendimentos e de riqueza no seio de cada pa\u00eds. Uma vez que o capital, incluindo o financeiro, goza de uma mobilidade global mais ou menos livre sob o regime neoliberal, enquanto os trabalhadores permanecem confinados aos seus respectivos pa\u00edses (exceto quando lhes \u00e9 especificamente permitido migrar), os trabalhadores dos pa\u00edses avan\u00e7ados competem, na pr\u00e1tica, com os trabalhadores com sal\u00e1rios mais baixos do Sul Global, para onde o capital pode sempre ser deslocalizado. Consequentemente, os trabalhadores dos pa\u00edses avan\u00e7ados quase n\u00e3o registram quaisquer aumentos nos seus sal\u00e1rios reais, mesmo em termos absolutos: de fato, Joseph Stiglitz estimou que o sal\u00e1rio real m\u00e9dio de um trabalhador americano do sexo masculino em 2011 era ligeiramente inferior ao de 1968.[1]<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, independentemente da relocaliza\u00e7\u00e3o da atividade que ocorra do Norte para o Sul, as grandes reservas de m\u00e3o-de-obra do Sul \u2014 um legado do seu passado colonial \u2014 n\u00e3o se esgotam. Pelo contr\u00e1rio, estas aumentam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 for\u00e7a de trabalho, devido ao aumento substancial da produtividade do trabalho que ocorre em todo o mundo, resultante da ado\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas mais r\u00e1pidas \u2014 estas \u00faltimas uma consequ\u00eancia da intensifica\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia no mercado mundial sob o regime neoliberal. A n\u00e3o diminui\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o relativa das reservas de m\u00e3o-de-obra implica que os sal\u00e1rios reais no Sul Global permane\u00e7am mais ou menos ligados ao n\u00edvel da mera subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>Assim, tanto no Norte como no Sul, a evolu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios reais mal aumenta, mesmo com a produtividade do trabalho crescendo a um ritmo acelerado, o que d\u00e1 origem a um aumento da cota-parte do excedente econ\u00f4mico na produ\u00e7\u00e3o mundial, bem como no seio de cada pa\u00eds[2]. Uma vez que, em m\u00e9dia, uma propor\u00e7\u00e3o maior do rendimento \u00e9 consumida pelos trabalhadores do que por aqueles que vivem do excedente econ\u00f4mico, um aumento da cota-parte do excedente econ\u00f4mico tem o efeito de conter a procura de consumo e, consequentemente, a procura agregada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Isto, por sua vez, d\u00e1 origem a uma tend\u00eancia projetada para a superprodu\u00e7\u00e3o, da qual a estagna\u00e7\u00e3o e o aumento do desemprego efetivamente observados s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es[3].<\/p>\n<p>O que \u00e9 not\u00e1vel no capitalismo neoliberal, no entanto, n\u00e3o \u00e9 apenas esta tend\u00eancia para a estagna\u00e7\u00e3o e para um maior desemprego; ainda mais impressionante \u00e9 o fato de que a contramedida mais potente contra isso \u2014 nomeadamente, um aumento da despesa p\u00fablica \u2014 se torna mais ou menos completamente ineficaz no \u00e2mbito do capitalismo neoliberal. Para que um aumento da despesa p\u00fablica eleve o n\u00edvel da procura agregada de forma a combater a estagna\u00e7\u00e3o, tal aumento deve ser financiado quer atrav\u00e9s de um d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio (caso em que ningu\u00e9m \u00e9 tributado adicionalmente e, por conseguinte, o consumo de ningu\u00e9m diminui, mesmo que a procura por parte do Estado aumente), ou atrav\u00e9s de impostos mais elevados sobre os ricos (que poupam uma parte dos seus rendimentos, pelo que o seu consumo n\u00e3o diminui na totalidade do montante dos impostos adicionais, o que faz com que a despesa da receita fiscal d\u00ea origem a um aumento l\u00edquido da procura). Se um aumento das despesas do Estado for financiado atrav\u00e9s de impostos sobre os trabalhadores, que consomem praticamente a totalidade do seu rendimento, ent\u00e3o a procura gerada pelas despesas adicionais do Estado seria compensada pela redu\u00e7\u00e3o da procura resultante da diminui\u00e7\u00e3o do consumo por parte dos trabalhadores, de modo que n\u00e3o haveria aumento l\u00edquido da procura agregada, nem al\u00edvio da estagna\u00e7\u00e3o e do aumento do desemprego.<\/p>\n<p>No entanto, ambas as formas de financiar maiores despesas p\u00fablicas, para que essas despesas sejam expansionistas, s\u00e3o contestadas pelo capital financeiro. O capital financeiro op\u00f5e-se a impostos mais elevados sobre os ricos, uma vez que os grandes financistas figuram proeminentemente entre os ricos; e op\u00f5e-se a d\u00e9ficits or\u00e7ament\u00e1rios mais elevados, raz\u00e3o pela qual a maioria dos pa\u00edses na era neoliberal possui legisla\u00e7\u00e3o de &#8220;responsabilidade fiscal&#8221;, que limita a propor\u00e7\u00e3o do d\u00e9ficit em rela\u00e7\u00e3o ao produto interno bruto (normalmente a cerca de 3 por cento). E uma vez que o capital financeiro est\u00e1 globalizado, enquanto o Estado continua a ser um Estado-na\u00e7\u00e3o, a influ\u00eancia do primeiro tem de prevalecer em quest\u00f5es de pol\u00edtica estatal, pois, de outro modo, o pa\u00eds estaria sujeito a uma sa\u00edda de capitais, precipitando uma crise. O neoliberalismo, portanto, n\u00e3o s\u00f3 d\u00e1 origem a uma superprodu\u00e7\u00e3o prevista desde antes, causando estagna\u00e7\u00e3o e aumento do desemprego, como tamb\u00e9m frustra as contramedidas mais poderosas contra ela. N\u00e3o h\u00e1 como escapar, no \u00e2mbito do neoliberalismo, da estagna\u00e7\u00e3o e do aumento do desemprego gerados pelo pr\u00f3prio neoliberalismo. Por outras palavras, o neoliberalismo conduz o capitalismo mundial a um beco sem sa\u00edda do qual n\u00e3o h\u00e1 como escapar, a menos que o pr\u00f3prio sistema capitalista seja superado. \u00c9 esta a situa\u00e7\u00e3o em que o capitalismo mundial se encontra hoje.[4]<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o do neofascismo<\/p>\n<p>A resposta do capitalismo mundial a este beco sem sa\u00edda tem sido, at\u00e9 agora, a promo\u00e7\u00e3o do neofascismo. Existem elementos neofascistas em todas as sociedades modernas, promovendo o \u00f3dio na maioria da popula\u00e7\u00e3o contra alguma minoria \u00e9tnica ou religiosa desfavorecida, mas geralmente como um fen\u00f4meno marginal. S\u00f3 passam para o centro das aten\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 para os cargos de poder, quando obt\u00eam o apoio financeiro e midi\u00e1tico do capital monopolista em geral e especialmente de um segmento dentro deste, composto por novos elementos do capital monopolista. E isto s\u00f3 acontece quando h\u00e1 uma crise econ\u00f4mica cujos efeitos nefastos sobre a pequena burguesia, a classe trabalhadora e at\u00e9 os pequenos empres\u00e1rios criam descontentamentos entre eles que amea\u00e7am a hegemonia do capital monopolista.<\/p>\n<p>Surge ent\u00e3o uma alian\u00e7a corporativista-neofascista que suprime os direitos e as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas; recorre a uma combina\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o estatal e repress\u00e3o por parte de capangas fascistas contra opositores pol\u00edticos, intelectuais, artistas e a esquerda; tenta construir um culto \u00e0 personalidade em torno do &#8220;l\u00edder&#8221; que supostamente simboliza a &#8220;na\u00e7\u00e3o&#8221; e procura criar e propagar um discurso descritivo que incita ao \u00f3dio, com o objetivo de dividir a classe trabalhadora e impedir qualquer desafio \u00e0 hegemonia do capital monopolista.[5]<\/p>\n<p>O ressurgimento do neofascismo em todo o mundo hoje em dia \u00e9 sintom\u00e1tico da atual crise estrutural do capitalismo mundial. Em alguns pa\u00edses, como a Argentina, a \u00cdndia, a It\u00e1lia e os Estados Unidos, os neofascistas chegaram ao poder; noutros, como a Fran\u00e7a e a Alemanha, est\u00e3o prestes a faz\u00ea-lo; mas em todo o lado \u00e9 claramente vis\u00edvel uma guinada para a extrema-direita.<\/p>\n<p>O neofascismo, no entanto, tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de superar a crise econ\u00f4mica; os mesmos fatores que tornam o Estado liberal-burgu\u00eas incapaz de contrariar a tend\u00eancia para a estagna\u00e7\u00e3o e o aumento do desemprego tamb\u00e9m impedem o Estado neofascista. A contradi\u00e7\u00e3o decorrente da globaliza\u00e7\u00e3o das finan\u00e7as num mundo de Estados-na\u00e7\u00e3o afeta o Estado neofascista tanto quanto afeta o Estado liberal-burgu\u00eas. Consequentemente, o neofascismo de hoje n\u00e3o consegue replicar o que o fascismo fez na d\u00e9cada de 1930, nomeadamente, superar o desemprego em massa nos pa\u00edses onde chegou ao poder, atrav\u00e9s de um enorme aumento das despesas p\u00fablicas financiadas pelo d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio destinadas ao rearmamento[6]. Isto confere ao neofascismo menos controle sobre a sociedade do que o fascismo cl\u00e1ssico teve, mas tamb\u00e9m torna o neofascismo um fen\u00f4meno mais persistente. Os neofascistas podem at\u00e9 ser destitu\u00eddos do poder por via eleitoral (pois, embora recorram a todas as artimanhas para sabotar as liberdades democr\u00e1ticas, n\u00e3o abolem necessariamente as elei\u00e7\u00f5es), mas continuariam nos bastidores e poderiam mesmo regressar ao poder (como fez Donald Trump).<\/p>\n<p>No entanto, mesmo os neofascistas t\u00eam de ter alguma agenda econ\u00f4mica, pois o discurso discriminat\u00f3rio da &#8220;outrifica\u00e7\u00e3o&#8221; (&#8220;othering&#8221;) de uma minoria n\u00e3o pode bastar para sempre. As duas formas poss\u00edveis de superar a contradi\u00e7\u00e3o entre o Estado-na\u00e7\u00e3o e as finan\u00e7as globalizadas s\u00e3o ambas invi\u00e1veis para o neofascismo: uma consiste em ter um &#8220;Estado mundial&#8221; substituto ou em imitar um &#8220;Estado mundial&#8221; para controlar o capital internacional e aumentar a procura agregada global. Isto significa, na pr\u00e1tica, um est\u00edmulo fiscal coordenado entre muitos pa\u00edses, em que cada Estado gasta mais, quer aumentando o d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio, quer tributando de forma sincronizada os ricos[7]. A outra via consiste numa dissocia\u00e7\u00e3o total do regime de globaliza\u00e7\u00e3o financeira, atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o de mecanismos de controle sobre os fluxos de capitais em n\u00edvel nacional e do aumento da despesa p\u00fablica por qualquer uma destas vias (aumento dos d\u00e9ficits or\u00e7ament\u00e1rios ou tributa\u00e7\u00e3o dos ricos). O capital monopolista rejeitaria ambas as op\u00e7\u00f5es, pois representam um meio de contornar a sua hegemonia. O programa que o neofascismo pode sugerir neste contexto torna-se, portanto, um ponto de interesse.<\/p>\n<p>Capitalismo do p\u00f3s-guerra: um l\u00edder sem col\u00f4nias<\/p>\n<p>O segundo aspecto econ\u00f4mico da atual crise estrutural do capitalismo tem as suas ra\u00edzes na pr\u00f3pria natureza do capitalismo do p\u00f3s-guerra. O capitalismo do p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial diferia do capitalismo anterior \u00e0 Primeira Guerra Mundial \u2014 deixamos de fora o per\u00edodo de entreguerras, por se tratar de um per\u00edodo de turbul\u00eancia e transi\u00e7\u00e3o excepcionais \u2014 de uma forma crucial. No per\u00edodo do p\u00f3s-guerra, o sistema teve de se desfazer do seu imp\u00e9rio colonial, o que significou duas coisas: em primeiro lugar, perdeu todos os seus &#8220;mercados \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o&#8221;, para utilizar uma express\u00e3o do historiador econ\u00f4mico brit\u00e2nico S. B. Saul; e, em segundo lugar, a &#8220;drenagem anual do excedente&#8221; proveniente das col\u00f4nias deixou de estar dispon\u00edvel para o novo l\u00edder do mundo capitalista, os Estados Unidos [8] . Esta &#8220;drenagem&#8221; significava que a principal pot\u00eancia capitalista do per\u00edodo anterior, a Gr\u00e3-Bretanha, simplesmente se apropriou, sem qualquer contrapartida, do excedente de exporta\u00e7\u00e3o das suas col\u00f4nias face ao resto do mundo. A descoloniza\u00e7\u00e3o significou o fim desta &#8220;drenagem&#8221;[9]. Ambos estes desenvolvimentos decorrentes do fen\u00f4meno da descoloniza\u00e7\u00e3o tiveram um efeito profundo na economia do l\u00edder do mundo capitalista do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>O mundo capitalista sempre teve um l\u00edder sob cuja \u00e9gide o capitalismo se difunde para novas \u00e1reas e que tamb\u00e9m atua como defensor do sistema. A tarefa de lideran\u00e7a exige necessariamente que o l\u00edder registre um d\u00e9ficit da balan\u00e7a corrente face ao mundo n\u00e3o colonial. Isto porque a difus\u00e3o do capitalismo para novos pa\u00edses exige que estes encontrem mercados para os seus bens, e o l\u00edder tem de acomodar essas ambi\u00e7\u00f5es mantendo o seu pr\u00f3prio mercado aberto aos bens desses pa\u00edses, o que implica registar um d\u00e9ficit da balan\u00e7a corrente diante deles. Al\u00e9m disso, a gest\u00e3o do dom\u00ednio global do capitalismo, que \u00e9 uma das tarefas do l\u00edder, exige que este gaste grandes somas de dinheiro, o que tamb\u00e9m implica um d\u00e9ficit da balan\u00e7a corrente. Os Estados Unidos, por exemplo, mant\u00eam mais de 750 bases militares em todo o mundo para defender o sistema (incluindo o seu pr\u00f3prio imp\u00e9rio, que \u00e9 parte integrante do sistema). Isto significa despesas com bens e servi\u00e7os locais em todo o mundo, o que contribui para o seu d\u00e9ficit da balan\u00e7a corrente.<\/p>\n<p>Historicamente, a &#8220;drenagem&#8221; das col\u00f4nias e a venda dos bens do l\u00edder nos mercados coloniais desempenharam um papel fundamental no financiamento deste d\u00e9ficit, de modo que o l\u00edder n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se endivida, como chega mesmo a ter um excedente global da balan\u00e7a corrente para realizar exporta\u00e7\u00f5es de capital que contribuem para a difus\u00e3o do capitalismo. Como l\u00edder do capitalismo do p\u00f3s-guerra, os Estados Unidos \u2014 por n\u00e3o possu\u00edrem tal imp\u00e9rio colonial \u2014 incorreram numa d\u00edvida externa crescente enquanto desempenhavam o seu papel de lideran\u00e7a. \u00c9 \u00f3bvio que possu\u00edam um imp\u00e9rio no sentido de um territ\u00f3rio econ\u00f4mico que controlavam e de onde obtinham as suas mat\u00e9rias-primas essenciais. Mas n\u00e3o podiam &#8220;drenar um excedente&#8221; atrav\u00e9s da tributa\u00e7\u00e3o desse imp\u00e9rio, ou seja, n\u00e3o podiam obter uma parte substancial dessas mat\u00e9rias-primas gr\u00e1tis; nem podiam vender os seus bens nessas regi\u00f5es sem enfrentar resist\u00eancia tarif\u00e1ria. Assim, embora os Estados Unidos tivessem come\u00e7ado com um grande excedente da balan\u00e7a corrente imediatamente ap\u00f3s a guerra, ca\u00edram num d\u00e9ficit cr\u00f3nico em meados da d\u00e9cada de 1970 e s\u00e3o hoje o pa\u00eds mais endividado do mundo.<\/p>\n<p>A forma como a anterior l\u00edder do mundo capitalista, a Gr\u00e3-Bretanha, evitou este destino, fica claramente patente na obra de Saul. Em 1910, o d\u00e9ficit total da balan\u00e7a corrente e de capital da Gr\u00e3-Bretanha (os d\u00e9ficits da balan\u00e7a de capital referem-se \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es de capital) face aos pa\u00edses com os quais apresentava esse d\u00e9ficit global \u2014 ou seja, a Europa Continental, os Estados Unidos e outras regi\u00f5es temperadas de coloniza\u00e7\u00e3o europeia, como o Canad\u00e1, a Austr\u00e1lia, a Nova Zel\u00e2ndia e a \u00c1frica do Sul \u2014 ascendia a 145 milh\u00f5es de libras; o seu d\u00e9ficit global apenas frente \u00e0 Europa Continental e aos Estados Unidos ascendia a 90 milh\u00f5es de libras. Entretanto, um excedente da balan\u00e7a corrente de at\u00e9 60 milh\u00f5es de libras foi obtido a partir de uma \u00fanica col\u00f4nia, nomeadamente a \u00cdndia.<\/p>\n<p>Este montante de 60 milh\u00f5es de libras dividia-se em tr\u00eas partes: (1) o excedente das exporta\u00e7\u00f5es de mercadorias da Gr\u00e3-Bretanha para a \u00cdndia, numa situa\u00e7\u00e3o em que as suas exporta\u00e7\u00f5es ainda eram dominadas por t\u00eaxteis de algod\u00e3o que tinham tido um impacto &#8220;desindustrializador&#8221; na economia indiana, ao expulsarem os seus produtores pr\u00e9-capitalistas tradicionais, incluindo os tecel\u00f5es manuais; (2) a &#8220;fuga&#8221; da \u00cdndia, consistindo no excedente da exporta\u00e7\u00e3o de mercadorias da \u00cdndia para o resto do mundo, do que a Gr\u00e3-Bretanha se apropriou; e (3) os rendimentos invis\u00edveis l\u00edquidos da Gr\u00e3-Bretanha provenientes da \u00cdndia, sob a forma de transporte mar\u00edtimo, seguros e outros itens comerciais. Estas obriga\u00e7\u00f5es impostas \u00e0 \u00cdndia, que pagavam at\u00e9 dois ter\u00e7os do d\u00e9ficit total da Gr\u00e3-Bretanha face \u00e0 Europa Continental e aos Estados Unidos, e dois quintos do seu d\u00e9ficit total face a todos os pa\u00edses com os quais tinha um d\u00e9ficit global, tornaram-se poss\u00edveis devido ao estatuto colonial da \u00cdndia. Os Estados Unidos, n\u00e3o possuindo quaisquer col\u00f4nias e, consequentemente, n\u00e3o tendo acesso a tais formas de explora\u00e7\u00e3o, endividaram-se cada vez mais. \u00c9 claro que ter col\u00f4nias poderia n\u00e3o ter sido suficiente para evitar o endividamento; mas isso n\u00e3o \u00e9 relevante neste contexto. Simplesmente n\u00e3o possu\u00edam quaisquer col\u00f4nias, ao contr\u00e1rio da Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>Contrair tal d\u00edvida externa n\u00e3o importa, desde que a moeda do pa\u00eds l\u00edder seja considerada &#8220;t\u00e3o boa quanto o ouro&#8221;: institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e indiv\u00edduos em todo o mundo est\u00e3o ent\u00e3o dispostos a deter essa moeda em quantidades ilimitadas. No \u00e2mbito do sistema de Bretton Woods, o d\u00f3lar norte-americano foi, de fato, oficialmente declarado &#8220;t\u00e3o bom quanto o ouro&#8221;, convert\u00edvel em ouro a 35 d\u00f3lares por on\u00e7a. Mesmo depois de a convertibilidade oficial do d\u00f3lar em ouro ter sido encerrada pela administra\u00e7\u00e3o Nixon \u2014 devido, entre outras raz\u00f5es, \u00e0 press\u00e3o da Fran\u00e7a, que se afastava do d\u00f3lar sob a presid\u00eancia de Charles de Gaulle \u2014, a confian\u00e7a no valor do d\u00f3lar foi rapidamente restaurada a uma nova paridade, embora j\u00e1 n\u00e3o fosse oficialmente apoiada.<\/p>\n<p>Embora essa confian\u00e7a tenha sustentado o sistema financeiro internacional, n\u00e3o h\u00e1 como negar a enorme amea\u00e7a ao d\u00f3lar e, consequentemente, a este sistema, decorrente do estatuto dos Estados Unidos como o maior devedor mundial e dos bilh\u00f5es de d\u00f3lares (ou ativos denominados em d\u00f3lares) que circulam pelo mundo. Esta amea\u00e7a \u00e9 normalmente discutida em termos de uma poss\u00edvel mudan\u00e7a dos detentores de riqueza mundiais do d\u00f3lar para alguma outra moeda; e, uma vez que nenhuma outra moeda \u00e9 t\u00e3o importante como o d\u00f3lar na economia mundial atual, esta amea\u00e7a \u00e9 frequentemente subestimada. O que toda esta discuss\u00e3o ignora, no entanto, \u00e9 a amea\u00e7a ao sistema financeiro internacional decorrente de uma poss\u00edvel mudan\u00e7a do d\u00f3lar para mat\u00e9rias-primas, em particular para uma mat\u00e9ria-prima crucial como o petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Na verdade, pode dizer-se que a estabilidade do sistema p\u00f3s-Bretton Woods se baseou na expectativa de um pre\u00e7o do petr\u00f3leo em d\u00f3lares est\u00e1vel (apesar das flutua\u00e7\u00f5es de curto prazo); na realidade, este fator \u00e9 t\u00e3o importante que todo o sistema p\u00f3s-Bretton Woods pode ser designado como um &#8220;padr\u00e3o petr\u00f3leo-d\u00f3lar&#8221;. Em suma, mesmo uma transi\u00e7\u00e3o passageira dos d\u00f3lares para o petr\u00f3leo pode facilmente desestabiliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A amea\u00e7a ao sistema financeiro<\/p>\n<p>Vale a pena recordar aqui um antigo debate. Paul Baran, em The Political Economy of Growth, havia sublinhado os limites da gest\u00e3o keynesiana da procura com o argumento de que manter um d\u00e9fice or\u00e7amental persistente aumenta a vulnerabilidade da economia \u00e0 infla\u00e7\u00e3o. Joan Robinson criticou este argumento e acusou Baran de recorrer a uma teoria quantitativa da moeda desacreditada[10]. O argumento de Baran, no entanto, era bastante diferente do que Robinson tinha entendido. Baran n\u00e3o se referia a &#8220;ler a equa\u00e7\u00e3o da quantidade da esquerda para a direita&#8221;; ou seja, n\u00e3o se referia ao ac\u00famulo de oferta monet\u00e1ria ou de oferta quase-monet\u00e1ria em m\u00e3os privadas por meio de d\u00e9ficits or\u00e7ament\u00e1rios. Referia-se ao ac\u00famulo de riqueza privada sob a forma de cr\u00e9ditos sobre o governo. Mesmo num mundo em que a oferta monet\u00e1ria \u00e9 inteiramente end\u00f3gena, quando se espera que o pre\u00e7o de uma mercadoria suba o suficiente para que a sua compra para fins especulativos valha a pena, o pr\u00eamio de risco marginal associado \u00e0 compra de uma unidade da mesma com fundos pr\u00f3prios \u00e9 inferior ao associado \u00e0 sua compra com fundos emprestados. Esta \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o que decorre diretamente do princ\u00edpio do risco crescente. Assim, quanto maior for a magnitude da riqueza privada sob a forma de cr\u00e9ditos sobre o Estado em rela\u00e7\u00e3o ao produto interno bruto, tanto mais, mantidas inalteradas todas as outras coisas, a economia fica sujeita \u00e0 infla\u00e7\u00e3o devido a uma poss\u00edvel desvio especulativo para as mercadorias.[11]<\/p>\n<p>No caso que estamos discutindo, pode-se utilizar um argumento semelhante para a economia mundial. Ter um imp\u00e9rio colonial, cujas extra\u00e7\u00f5es eliminam a necessidade de recurso a empr\u00e9stimos externos por parte do pa\u00eds l\u00edder, \u00e9 an\u00e1logo, no seio de um pa\u00eds, ao financiamento das despesas p\u00fablicas atrav\u00e9s de impostos, eliminando assim a necessidade de um d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio. Da mesma forma, o aumento da d\u00edvida externa do pa\u00eds l\u00edder para financiar o seu d\u00e9ficit da balan\u00e7a corrente \u00e9 an\u00e1logo a um governo, no seio de uma economia nacional, que recorre ao aumento da d\u00edvida p\u00fablica para financiar as suas despesas. Quanto maior for a magnitude desta d\u00edvida em rela\u00e7\u00e3o ao fluxo de produ\u00e7\u00e3o, mais este sistema estar\u00e1 sujeito \u00e0 infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afirmar isto n\u00e3o significa alegar que um surto inflacion\u00e1rio seja iminente na economia mundial; trata-se apenas de chamar a aten\u00e7\u00e3o para a posi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria em que a economia mundial se encontra atualmente, devido aos d\u00e9ficits persistentes da balan\u00e7a corrente registrados pelo pa\u00eds capitalista l\u00edder ao longo de um longo per\u00edodo. No caso de uma erup\u00e7\u00e3o s\u00fabita de infla\u00e7\u00e3o, a economia mundial, que j\u00e1 enfrenta estagna\u00e7\u00e3o e taxas de desemprego mais elevadas, seria empurrada, pelas medidas anti-inflacion\u00e1rias que a situa\u00e7\u00e3o exigiria, para uma recess\u00e3o aguda.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia econ\u00f4mica de Trump<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia econ\u00f4mica de Donald Trump deve ser vista neste contexto. \u00c9 comum nos c\u00edrculos liberais descartar as suas medidas econ\u00f4micas como a\u00e7\u00f5es de um imbecil ou de uma mente desequilibrada; mas esta \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o demasiado simplista da situa\u00e7\u00e3o. Trump, pelo contr\u00e1rio, tem uma estrat\u00e9gia com dois componentes. Um deles \u00e9 a partilha do papel dos EUA como &#8220;defensor do mundo capitalista&#8221; com outros pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados. A insist\u00eancia de Trump em que os pa\u00edses europeus gastem 5 por cento do seu PIB em despesas militares faz parte desta componente. Tal medida reduziria o d\u00e9ficit da balan\u00e7a corrente dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A outra componente consiste em garantir aos Estados Unidos as mesmas &#8220;vantagens&#8221; que a Gr\u00e3-Bretanha obteve do seu imp\u00e9rio colonial. Esta componente da estrat\u00e9gia equivale a uma recoloniza\u00e7\u00e3o do Sul Global. Se Trump ponderou exaustivamente as implica\u00e7\u00f5es da prossecu\u00e7\u00e3o deste projeto de recoloniza\u00e7\u00e3o, e se o projeto de recoloniza\u00e7\u00e3o conseguiria efetivamente superar a situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil em que o imperialismo norte-americano se encontra atualmente, s\u00e3o quest\u00f5es que n\u00e3o abordamos aqui; o que nos interessa \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o que se pode dar \u00e0 estrat\u00e9gia de Trump.<\/p>\n<p>Afirmar que a tentativa consiste em recolonizar o Sul Global n\u00e3o significa, evidentemente, govern\u00e1-lo com vice-reis enviados de Washington; a ideia \u00e9 ter regimes d\u00f3ceis no Sul adotando as pol\u00edticas econ\u00f4micas ditadas pelos Estados Unidos. A recoloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa uma supera\u00e7\u00e3o do neoliberalismo, que, como vimos, a burguesia monopolista n\u00e3o deseja em lado nenhum. Significa a introdu\u00e7\u00e3o de uma assimetria adicional na ordem neoliberal, em que o Sul Global permanece preso ao neoliberalismo na sua forma pura, enquanto os Estados Unidos (e possivelmente o Norte Global) se afastam do neoliberalismo em quest\u00f5es relacionadas com o com\u00e9rcio, mantendo-se, por\u00e9m, fi\u00e9is a ele no que diz respeito \u00e0 liberdade de movimentos de capitais, incluindo os relacionados com as finan\u00e7as.<\/p>\n<p>Tal assimetria implica necessariamente transferir o fardo da crise para os ombros do Sul Global, o que significa, na pr\u00e1tica \u2014 uma vez que as burguesias monopolistas dos pa\u00edses do Sul teriam de ser c\u00famplices do novo regime econ\u00f4mico que est\u00e1 sendo praticado \u2014, uma intensifica\u00e7\u00e3o da press\u00e3o sobre o campesinato, a pequena burguesia, os pequenos empres\u00e1rios e, evidente, os trabalhadores e os oper\u00e1rios agr\u00edcolas do Sul Global.<\/p>\n<p>Recoloniza\u00e7\u00e3o do Sul Global<\/p>\n<p>Uma parte deste esfor\u00e7o de recoloniza\u00e7\u00e3o consiste na imposi\u00e7\u00e3o, por parte dos Estados Unidos, de tratados comerciais desiguais aos pa\u00edses do Sul Global, dos quais o tratado comercial \u00cdndia-EUA atualmente em negocia\u00e7\u00e3o constitui um exemplo (este j\u00e1 tinha sido finalizado anteriormente, mas a decis\u00e3o do Supremo Tribunal dos EUA contra as tarifas de Trump abriu caminho para a sua renegocia\u00e7\u00e3o, embora a nova vers\u00e3o final n\u00e3o venha a ser muito diferente da anterior)[12]. Na verdade, a agress\u00e3o tarif\u00e1ria de Trump pode ser vista como um instrumento para pressionar os pa\u00edses do Sul a aceitar tais tratados desiguais como o &#8220;mal menor&#8221;, em compara\u00e7\u00e3o com a alternativa de enfrentar tarifas norte-americanas exorbitantes.<\/p>\n<p>O tratado comercial entre a \u00cdndia e os EUA permite que os Estados Unidos imponham tarifas sobre os produtos indianos, enquanto a \u00cdndia pode impor tarifas nulas ou muito mais baixas sobre os produtos norte-americanos. O tratado \u00e9 uma forma de garantir que a \u00cdndia compre mais importa\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos, exatamente da mesma forma que as col\u00f4nias eram obrigadas a comprar \u00e0 Inglaterra sem terem a liberdade de proteger as suas pr\u00f3prias economias.<\/p>\n<p>N\u00e3o contente com isto, o tratado tamb\u00e9m estabelece metas concretas para o volume que a \u00cdndia deve importar dos Estados Unidos em datas espec\u00edficas; e essas metas s\u00e3o muito superiores aos n\u00edveis atuais das importa\u00e7\u00f5es indianas provenientes dos Estados Unidos. Significativamente, n\u00e3o existem metas correspondentes para as importa\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos provenientes da \u00cdndia, o que apenas sublinha a natureza desigual do tratado. A imposi\u00e7\u00e3o de tais metas absolutas vai mesmo al\u00e9m do que prevalecia no per\u00edodo colonial. Enquanto a \u00cdndia colonial, por exemplo, n\u00e3o tinha liberdade para impor tarifas sobre os produtos brit\u00e2nicos, o volume real das importa\u00e7\u00f5es da Gr\u00e3-Bretanha no per\u00edodo colonial era determinado pela procura que prevalecia no mercado indiano. O tratado comercial \u00cdndia-EUA, no entanto, n\u00e3o se contentando apenas com um acordo desta natureza, estipula quanto a \u00cdndia deve comprar aos Estados Unidos durante um determinado per\u00edodo! Uma vez que n\u00e3o h\u00e1 motivos para acreditar que os Estados Unidos sejam particularmente vingativos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00cdndia, \u00e9 de esperar que tratados desiguais semelhantes sejam impostos a outros pa\u00edses do Sul Global.<\/p>\n<p>Tais tratados impostos aos parceiros comerciais t\u00eam o efeito tanto de aumentar o emprego e a produ\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos atrav\u00e9s de uma pol\u00edtica de &#8220;empobrecer o vizinho&#8221; como de reduzir o d\u00e9ficit comercial dos EUA e, consequentemente, o seu d\u00e9ficit da balan\u00e7a corrente. Aumentam a produ\u00e7\u00e3o interna e o emprego ao elevar a procura agregada atrav\u00e9s de um aumento das exporta\u00e7\u00f5es l\u00edquidas (ou seja, de X\u2014M) sem ter de aumentar a despesa p\u00fablica; por isso, a quest\u00e3o de confrontar o capital financeiro internacional, aumentando o d\u00e9ficit or\u00e7ament\u00e1rio ou os impostos sobre os ricos para financiar essas despesas p\u00fablicas mais elevadas, simplesmente n\u00e3o se coloca. As solu\u00e7\u00f5es para ambas as crises que o imperialismo norte-americano enfrenta \u2014 a estagna\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e um d\u00e9ficit da balan\u00e7a corrente abismal \u2014 est\u00e3o, assim, a ser procuradas atrav\u00e9s desses tratados desiguais, sem que, simultaneamente, se lance qualquer desafio \u00e0 hegemonia do capital financeiro internacional.<\/p>\n<p>No entanto, isto \u00e9 apenas uma parte do esfor\u00e7o no sentido da recoloniza\u00e7\u00e3o do Sul Global. A outra parte do esfor\u00e7o de recoloniza\u00e7\u00e3o reside no facto de os Estados Unidos se apoderarem de fontes de mat\u00e9rias-primas cruciais, especialmente petr\u00f3leo, localizadas no Sul. O ataque \u00e0 Venezuela, que possui as maiores reservas comprovadas de petr\u00f3leo do mundo; o sequestro do presidente da Venezuela e o ataque ao Ir\u00e3, outro grande produtor de petr\u00f3leo, s\u00e3o indicativos deste aspecto do esfor\u00e7o de recoloniza\u00e7\u00e3o. A reivindica\u00e7\u00e3o dos recursos da Gronel\u00e2ndia, que possui dep\u00f3sitos de terras raras \u2014 um insumo essencial para diversas atividades \u2014, tamb\u00e9m se enquadra neste padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos j\u00e1 s\u00e3o o maior produtor mundial de petr\u00f3leo; a apropria\u00e7\u00e3o dos recursos petrol\u00edferos da Venezuela e do Ir\u00e3 (e dos de outros pa\u00edses que viriam a ser alvo posteriormente) daria a Washington um dom\u00ednio absoluto sobre a economia petrol\u00edfera mundial, o que seria refor\u00e7ado pela sua proximidade com a Ar\u00e1bia Saudita e outros produtores de petr\u00f3leo da \u00c1sia Ocidental.<\/p>\n<p>Este dom\u00ednio absoluto ajudaria os Estados Unidos de v\u00e1rias formas a manter a supremacia do d\u00f3lar. Em primeiro lugar, garantiria que o d\u00f3lar continuasse a ser o meio de circula\u00e7\u00e3o na esmagadora maioria das transa\u00e7\u00f5es petrol\u00edferas em n\u00edvel mundial; em segundo lugar, asseguraria que a expectativa de estabilidade no pre\u00e7o do petr\u00f3leo em d\u00f3lares \u2014 que impede qualquer transi\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar para o petr\u00f3leo e, assim, mant\u00e9m o valor &#8220;real&#8221; do d\u00f3lar face ao mundo das mat\u00e9rias-primas \u2014 permanecesse ainda mais firmemente enraizada; e, em terceiro lugar, ao abrir esses recursos petrol\u00edferos \u00e0 explora\u00e7\u00e3o por parte de empresas norte-americanas \u2014 que podem simplesmente apropriar-se de uma parte desses recursos \u2014, permitiria aos Estados Unidos obter uma &#8220;drenagem do excedente&#8221; exatamente da mesma forma que a Gr\u00e3-Bretanha fez com as suas col\u00f4nias; este \u00faltimo aspecto ajudaria a reduzir o d\u00e9ficit da balan\u00e7a corrente dos EUA.<\/p>\n<p>Embora a descoloniza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial tenha sido comparativamente tranquila, seguiu-se-lhe uma descoloniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica muito mais \u00e1rdua, atrav\u00e9s da qual os pa\u00edses do Sul Global procuraram arrancar ao capital metropolitano o controle sobre os seus recursos naturais. A descoloniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica foi ferozmente combatida pelo imperialismo, que orquestrou golpes de Estado para derrubar governos que tentavam a descoloniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e chegou mesmo a fomentar guerras civis para sabotar tais esfor\u00e7os. Os casos de agress\u00e3o contra Jacobo Arbenz na Guatemala, Mohammad Mossadegh no Ir\u00e3, Gamal Abdel Nasser no Egito, Patrice Lumumba no Congo e Salvador Allende no Chile v\u00eam imediatamente \u00e0 mente como tentativas evidentes de impedir a descoloniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica desempenhou um papel crucial na derrota de muitas dessas tentativas imperialistas e no apoio ao processo de descoloniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em v\u00e1rias regi\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p>Trump insiste em reverter a descoloniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica; al\u00e9m disso, est\u00e1 abrindo caminhos totalmente novos ao faz\u00ea-lo. Est\u00e1, de fato, empreendendo a\u00e7\u00e3o militar direta \u2014 em contraste com a instiga\u00e7\u00e3o de golpes de Estado e medidas semelhantes \u2014 para retirar aos pa\u00edses do Sul o controle sobre os seus pr\u00f3prios recursos. O Ir\u00e3 \u00e9 o exemplo cl\u00e1ssico disso. Essa a\u00e7\u00e3o militar direta, sem qualquer raz\u00e3o conceb\u00edvel al\u00e9m da apropria\u00e7\u00e3o dos seus recursos, constitui um cap\u00edtulo totalmente novo na hist\u00f3ria do imperialismo moderno.<\/p>\n<p>Resist\u00eancia do Sul Global<\/p>\n<p>Os povos do Sul Global, no entanto, n\u00e3o aceitar\u00e3o docilmente essa recoloniza\u00e7\u00e3o pelo imperialismo. Em muitos pa\u00edses do Sul, a grande burguesia, frustrada pelos obst\u00e1culos impostos ao seu crescimento pelo regime colonial, juntou-se \u00e0 luta pela independ\u00eancia e integrou a frente anticolonial; a \u00cdndia \u00e9 um exemplo cl\u00e1ssico. O que \u00e9 certamente verdade \u00e9 que a grande burguesia, e at\u00e9 mesmo um segmento da classe m\u00e9dia alta urbana, ansiosa por enviar os seus filhos a se estabelecerem em pa\u00edses metropolitanos, mudou de lado desde ent\u00e3o e abandonou o campo anti-imperialista. Mas as outras classes, que faziam parte da frente anticolonial e que tamb\u00e9m seriam duramente atingidas pelo projeto de recoloniza\u00e7\u00e3o do imperialismo norte-americano, opor\u00e3o uma forte resist\u00eancia contra a recoloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, esta resist\u00eancia ser\u00e1 dirigida n\u00e3o s\u00f3 contra o imperialismo, mas tamb\u00e9m contra a burguesia monopolista nacional; ser\u00e1 igualmente dirigida politicamente contra regimes neofascistas, onde quer que estes estejam no poder com o apoio da burguesia monopolista. Ter\u00e1, consequentemente, imensas possibilidades revolucion\u00e1rias. \u00c9, portanto, prov\u00e1vel que os pr\u00f3ximos meses testemunhem lutas ferozes no Sul Global, que ser\u00e3o sem d\u00favida dolorosas, mas de grande import\u00e2ncia hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>O fato de a recoloniza\u00e7\u00e3o pelo imperialismo n\u00e3o ser f\u00e1cil \u00e9 demonstrado pelo que est\u00e1 acontecendo no Ir\u00e3. Na verdade, a resist\u00eancia no Ir\u00e3 constituiu uma grande surpresa para o imperialismo norte-americano. Se o Ir\u00e3 tivesse sucumbido facilmente, o imperialismo ter-se-ia sentido encorajado a prosseguir o seu projeto de recoloniza\u00e7\u00e3o com ainda maior vigor e rapidez, e outros pa\u00edses do Sul Global ter-se-iam sentido enfraquecidos na sua luta anti-imperialista. Existe, por outras palavras, uma dial\u00e9tica da resist\u00eancia, em que a resist\u00eancia firme de um pa\u00eds fortalece a vontade de resistir de outros pa\u00edses; existe tamb\u00e9m uma dial\u00e9tica do enfraquecimento, em que a resposta fraca de um pa\u00eds \u00e0 recoloniza\u00e7\u00e3o imperialista serve para desanimar outros pa\u00edses. A luta intr\u00e9pida travada pelo Ir\u00e3 \u00e9 uma for\u00e7a revigorante para o Sul Global no seu conjunto. \u00c9 evidente que o imperialismo n\u00e3o abandonaria a sua agenda de recoloniza\u00e7\u00e3o do Sul Global por causa da resist\u00eancia do Ir\u00e3, mas ver-se-ia certamente abrandado na prossecu\u00e7\u00e3o dessa agenda.<\/p>\n<p>Joseph Stiglitz, &#8220;Inequality is Holding Back the Recovery&#8221;, New York Times, 13 de janeiro de 2013.<br \/>\nA principal exce\u00e7\u00e3o a estas tend\u00eancias salariais globais \u00e9 a China, onde os sal\u00e1rios t\u00eam aumentado visivelmente, impulsionados pela pol\u00edtica governamental. Isto, no entanto, n\u00e3o invalida a afirma\u00e7\u00e3o de que a parte do excedente econ\u00f4mico na produ\u00e7\u00e3o mundial, no seu conjunto e em cada um dos pa\u00edses do mundo capitalista, est\u00e1 aumentando.<br \/>\nO argumento apresentado no contexto dos Estados Unidos por Paul A. Baran e Paul M. Sweezy em Monopoly Capital (Nova Iorque: Monthly Review Press, 1966) est\u00e1 aqui sendo aplicado ao mundo capitalista no seu conjunto.<br \/>\nEste ponto \u00e9 discutido com maior pormenor em Utsa Patnaik e Prabhat Patnaik, Capital and Imperialism (Nova Iorque: Monthly Review Press, 2021).<br \/>\nPrabhat Patnaik, &#8220;Why Neoliberalism Needs Neofascists&#8221;, Boston Review, 19 de julho de 2021.<br \/>\nO Jap\u00e3o foi o primeiro pa\u00eds a sair da Grande Depress\u00e3o desta forma. A Alemanha seguiu o exemplo depois de Adolf Hitler ter chegado ao poder em 1933.<br \/>\nUm est\u00edmulo fiscal coordenado envolvendo v\u00e1rios pa\u00edses para sair da Grande Depress\u00e3o fora sugerido na d\u00e9cada de 1930 por John Maynard Keynes e tamb\u00e9m por um grupo de sindicalistas alem\u00e3es, mas sem \u00eaxito. Ver Charles P. Kindleberger, The World in Depression, 1929\u20131939 (Berkeley: University of California Press, 1973).<br \/>\nS. B. Saul, Studies in British Overseas Trade (Liverpool: University of Liverpool Press, 1960).<br \/>\nPara uma discuss\u00e3o e estimativa da &#8220;fuga&#8221; da \u00cdndia para a Gr\u00e3-Bretanha, ver Patnaik e Patnaik, Capital and Imperialism.<br \/>\nJoan Robinson, Economic Philosophy (Harmondsworth: Penguin, 1966).<br \/>\nPara uma apresenta\u00e7\u00e3o detalhada deste argumento, ver Prabhat Patnaik, Accumulation and Stability Under Capitalism (Oxford: Clarendon, 1997), 81\u201386.<br \/>\nPara uma cr\u00edtica detalhada a este tratado, ver Biswajit Dhar, &#8220;India Has Accepted Gross Asymmetry&#8221;, Frontline, 23 de fevereiro de 2026; ver tamb\u00e9m Prabhat Patnaik, &#8220;Modi Government\u2019s Gymnastics to Defend the Indo-US Deal&#8221;, MR Online, 4 de mar\u00e7o de 2026.<\/p>\n<p>[*] Professor em\u00e9rito do Centro de Estudos Econ\u00f4micos e Planejamento da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Delhi. Co-autor, com Utsa Patnaik, de Capital and Imperialism: Theory, History, and the Present.<br \/>\nO original encontra-se em <a href=\"http:\/\/monthlyreview.org\/articles\/on-the-economic-crisis-of-capitalism\/\">monthlyreview.org\/articles\/on-the-economic-crisis-of-capitalism\/<\/a>.<br \/>\nEste artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\">resistir.info<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/34300\"> <\/a>","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[385,65,10],"tags":[224],"class_list":["post-34300","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica-da-economia-politica","category-c78-internacional","category-s19-opiniao","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-8Ve","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34300","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34300"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34300\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34302,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34300\/revisions\/34302"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34300"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34300"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34300"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}