{"id":344,"date":"2010-03-22T00:49:23","date_gmt":"2010-03-22T00:49:23","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=344"},"modified":"2010-03-22T00:49:23","modified_gmt":"2010-03-22T00:49:23","slug":"o-socialismo-na-e-para-a-bolivia-da-vitoria-eleitoral-a-construcao-da-nova-ordem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/344","title":{"rendered":"O Socialismo na e para a Bol\u00edvia (da vit\u00f3ria eleitoral \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da nova ordem)"},"content":{"rendered":"\n<p>O triunfo permitiu chegar ao controlo de importantes alavancas do poder pol\u00edtico, particularmente em ambas as c\u00e2maras legislativas. Isto possibilita a aprova\u00e7\u00e3o das leis e c\u00f3digos, e a nomea\u00e7\u00e3o de autoridades que facilitar\u00e3o uma aplica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e efectiva da nova Constitui\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do Estado (NCPE). Deu-se uma situa\u00e7\u00e3o sui generis, agora \u00e9 poss\u00edvel fazer profundas transforma\u00e7\u00f5es estruturais e super-estruturais pelo mandato da Constitui\u00e7\u00e3o e das leis. Anteriormente, a revolu\u00e7\u00e3o, o povo em armas ou o que lhe queiram chamar, executavam medidas revolucion\u00e1rias sem outra delibera\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da lubrificada vontade popular. E se a\u00ed radicava a sua legitimidade, havia o melindre de n\u00e3o serem \u00ablegais\u00bb, mais ainda, estra\u00e7alhavam a velha legalidade que outra coisa n\u00e3o era que a lei formulada, como obra de alfaiate, exactamente \u00e0 medida dos interesses dos patr\u00f5es e dos monop\u00f3lios. Hoje \u00e9 poss\u00edvel a mudan\u00e7a leg\u00edtima e completamente legal. Na verdade consumou-se uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pac\u00edfica e que at\u00e9 tem a sua pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es bolivianas t\u00eam uma dupla projec\u00e7\u00e3o: uma exterior e outra interior. Isso entende-se melhor se falarmos de alguns proleg\u00f3menos das elei\u00e7\u00f5es. A emin\u00eancia do \u00eaxito da candidatura de Evo determinou que a reac\u00e7\u00e3o nativa e o imperialismo espremessem os c\u00e9rebros a imaginar as maneiras de perturbar o processo eleitoral; como se disse, deram mil e uma voltas na tentativa de as invalidar. A experi\u00eancia hist\u00f3rica diz-nos como se move uma direita em transe de sofrer uma derrota que, no caso das elei\u00e7\u00f5es bolivianas de Dezembro, marcam para ela e para os seus sustent\u00e1culos a possibilidade de uma derrota estrat\u00e9gica. Derrota estrat\u00e9gica quer dizer que o processo de mudan\u00e7as continuar\u00e1 a sua marcha ascendente que inclusive poder\u00e1 transformar-se num processo revolucion\u00e1rio, com tudo o que esta defini\u00e7\u00e3o significa. E aqui est\u00e1 o cerne da quest\u00e3o. \u00c0s classes dominantes apavora-as a possibilidade da sua extin\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Entre as medidas perturbadoras estava a tentativa de impedir o voto de cerca de 400.000 cidad\u00e3os. Depois tentaram invalidar cerca de 250.000 votos presumivelmente a favor do MAS, de acordo com sondagens confi\u00e1veis. Outro objectivo era o de impedir que o futuro Parlamento boliviano contasse com uma maioria de deputados e senadores do MAS, sobretudo na c\u00e2mara de senadores. O seu sonho esfumou-se e a direita elegeu apenas 10 senadores face aos 26 dos MAS. Percebe-se agora a consigna do voto cruzado. Queriam for\u00e7ar a diminui\u00e7\u00e3o de deputados da bancada do MAS. No final este partido obteve 86 deputados contra 36 do seu imediato seguidor.<\/p>\n<p>A campanha da oposi\u00e7\u00e3o baseava-se numa ac\u00e7\u00e3o dissuasora, mentirosa e provocadora, utilizando a poderosa bateria de meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas ao seu servi\u00e7o. Todos tocavam pela mesma partitura. O efeito que procurava era deteriorar a imagem dos candidatos oficiais, da esquerda, atribuir-lhe as piores inten\u00e7\u00f5es. Chegou-se a tergiversa\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis como no caso do comando mercen\u00e1rio dirigido por R\u00f3sza Flores. Apesar de estar h\u00e1 muito referenciado, inclusivamente denunciado perante a ONU, de ser encontrado com explosivos na sua pr\u00f3pria casa em Budapeste, pretendiam apresent\u00e1-lo como um contratado, um agente do governo de Morales.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o externa \u00e9 a projec\u00e7\u00e3o do \u00eaxito do povo boliviano na Am\u00e9rica Latina. Com o retumbante triunfo de Evo Morales, a chamado \u00abvolta \u00e0 esquerda\u00bb continua e pesar\u00e1 nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es e ac\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e diplom\u00e1ticas. Jos\u00e9 Mujica, da Frente Ampla uruguaia, derrotou inapelavelmente o direitista branco La Calle. [N. do T.: os partidos tradicionais, que se revezavam no poder, os Blancos e os Colorados]<\/p>\n<p>O caso do Chile \u00e9 diferente e exige uma profunda reflex\u00e3o. Trata-se claramente de uma falta de unidade das for\u00e7as de esquerda e chama a aten\u00e7\u00e3o atitudes como a do ex-deputado da Concerta\u00e7\u00e3o, Enriquez-Ominami.<\/p>\n<p>Face \u00e1 sucess\u00e3o de vit\u00f3rias das candidaturas democratas, progressistas e de esquerda, h\u00e1 j\u00e1 uma d\u00e9cada, o imperialismo continuar\u00e1 a procurar por todos os meios &#8211; incluindo os mais il\u00edcitos \u2013 trav\u00e1-la e impedir a passagem a novos escal\u00f5es. Para os seus objectivos, \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o que em cada nova elei\u00e7\u00e3o prossiga o \u00eaxito do progressismo sobre o conservadorismo, da esquerda sobre a direita. H\u00e1 provas do que o imperialismo pretende e as Honduras \u00e9 o exemplo mais claro. H\u00e1 mais pa\u00edses em que chovem as den\u00fancias de maquina\u00e7\u00f5es conspirativas do imp\u00e9rio: Venezuela, Equador, Nicar\u00e1gua, Argentina e outros est\u00e3o debaixo de mira. At\u00e9 as cat\u00e1strofes naturais como a do Haiti s\u00e3o pretextos para ensaiar ocupa\u00e7\u00f5es militares. Obviamente, os governos servis tipo Uribe e as suas sete bases concedidas ao Pent\u00e1gono s\u00e3o pe\u00e7as importantes da tram\u00f3ia contra-revolucion\u00e1ria do imperialismo.<\/p>\n<p>Mas no conjunto h\u00e1 uma circunst\u00e2ncia que se levanta contra os planos imperialistas: em Canc\u00fan nasceu um novo agrupamento dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, a Comunidade de Estados da Am\u00e9rica Latina e do Caribe. O imperialismo n\u00e3o v\u00ea com bons olhos a emerg\u00eancia de uma nova organiza\u00e7\u00e3o inter-estatal e integracionista de que n\u00e3o fazem parte nem os EUA nem o Canad\u00e1. Os povos, os governos progressistas, devem desenvolver os maiores esfor\u00e7os para que esta obra de unidade, de integra\u00e7\u00e3o e de soberania atinja o seu ponto mais alto.<\/p>\n<p>Com este panorama devem fixar-se algumas premissas que balizem a actividade da esquerda, da ampla representa\u00e7\u00e3o parlamentar sob a sigla do MAS e at\u00e9 do pr\u00f3prio governo. Em primeiro lugar imp\u00f5e-se uma atitude da m\u00e1xima responsabilidade e coer\u00eancia pol\u00edtica, de uma consci\u00eancia precisa das tarefas, do rumo e das metas que h\u00e1 que atingir no processo de constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade.<\/p>\n<p>Ainda que escassa, do mal o menos, haver\u00e1 uma representa\u00e7\u00e3o parlamentar totalmente confi\u00e1vel pela sua firmeza pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, pela sua forma\u00e7\u00e3o e compromisso com a causa da liberta\u00e7\u00e3o nacional e social na perspectiva da supera\u00e7\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 uma atitude arrogante ou de satisfa\u00e7\u00e3o plena pelo rotundo triunfo de Dezembro e dos que j\u00e1 se avizinham para Abril. A direita, que perdeu possibilidades no campo da confronta\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, voltar\u00e1 ao caminho anterior e cada vez com mais f\u00faria, fruto da sua impot\u00eancia pol\u00edtica. Com a facilidade que lhe conhecemos, h\u00e1 que temer a sua passagem ao terreno do complot, da resist\u00eancia organizada e da assump\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia social, inclusive do terrorismo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se deve pensar que a reac\u00e7\u00e3o, e sobretudo esse amplo diapas\u00e3o social chamado conservadorismo, tem outras formas de ac\u00e7\u00e3o na base dos elementos de atraso e da contamina\u00e7\u00e3o da revers\u00e3o sobre a consci\u00eancia social. O m\u00eas de Fevereiro caracterizou-se pela subida dos pre\u00e7os do a\u00e7\u00facar, da carne de frango e outros. Certos sectores como os transportes provocaram s\u00e9rios problemas com greves que n\u00e3o t\u00eam qualquer fundamento. Noutros sectores h\u00e1 reivindica\u00e7\u00f5es de tipo an\u00e1rquico e nocivo que, contudo, se podem combater e controlar. Por fim, as medidas oportunas do governo resolveram os transtornos, mas ainda n\u00e3o h\u00e1 uma organiza\u00e7\u00e3o vigilante do povo, das organiza\u00e7\u00f5es sociais, dos sindicatos e dos partidos de esquerda. At\u00e9 agora houve uma esp\u00e9cie de converg\u00eancia, n\u00e3o propriamente acordada, entre as organiza\u00e7\u00f5es e os sectores referidos. Do que se trata agora \u00e9 converter a converg\u00eancia em organiza\u00e7\u00e3o dotada de objectivos, programa e estruturas definidas. A consigna da unidade continua a ser a mais importante desta etapa hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Ainda que de forma n\u00e3o calculada nos seus detalhes, emergiu de forma espont\u00e2nea o bloco hist\u00f3rico capaz de levar por diante a sua tarefa hist\u00f3rica da constru\u00e7\u00e3o da nova sociedade. Camponeses e camponesas, oper\u00e1rios e oper\u00e1rias, povos origin\u00e1rios, camadas m\u00e9dias, intelectualidade avan\u00e7ada e at\u00e9 pequeno empresariado constituem a mat\u00e9ria-prima desse bloco a que h\u00e1 que infundir consci\u00eancia revolucion\u00e1ria. No bloco hist\u00f3rico, ainda se deve trabalhar muito, e muito arduamente, pela unidade pol\u00edtica e pelo esclarecimento ideol\u00f3gico. Tarefa que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil quando se trata de v\u00e1rios componentes de classe e de diversidade de povos que, at\u00e9 agora, n\u00e3o s\u00f3 eram marginalizados e discriminados, como em boa medida eram invisibilizados.<\/p>\n<p>Por outro lado n\u00e3o se pode esquecer e passar por alto sobre as manifesta\u00e7\u00f5es que priorizam o \u00e9tnico nacional como a pedra fundamental da nova constru\u00e7\u00e3o social e at\u00e9 adquirem uma matriz excluente que n\u00e3o estabelece diferen\u00e7as no seio do outro p\u00f3lo. Tende-se a ignorar que para o capitalismo n\u00e3o h\u00e1 muralhas da China e ele penetrou em todos os resqu\u00edcios da sociedade e dos povos.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, nesta formula\u00e7\u00e3o de tarefas de conte\u00fado ideol\u00f3gico, n\u00e3o se pode omitir que s\u00f3 a supera\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias \u00abnaturais\u00bb do interesse privado, do seu crescimento e expans\u00e3o, impedir\u00e1 que, mais \u00e0 frente, se convertam num obst\u00e1culo \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o e resgate do verdadeiro sentimento colectivo, solid\u00e1rio, igualit\u00e1rio ou simplesmente comunit\u00e1rio, se se preferir.<\/p>\n<p>\u00c0 luz da an\u00e1lise da actual situa\u00e7\u00e3o boliviana podem inferir-se v\u00e1rias conclus\u00f5es que se traduzir\u00e3o de facto em linhas de ac\u00e7\u00e3o e tarefas a derem executadas neste per\u00edodo. Em primeiro lugar h\u00e1 que procurar a maneira de cumprir uma s\u00e9rie de promessas eleitorais que n\u00e3o t\u00eam esse sentido, mas que na realidade s\u00e3o verdadeiras medidas program\u00e1ticas transcendentais. Entre outras est\u00e1 a industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, com um novo sentido social. Perseguem o fim preciso de desenvolver as for\u00e7as produtivas em todos os seus componentes, o conjunto dos produtores, da classe oper\u00e1ria e dos instrumentos de produ\u00e7\u00e3o. Na agricultura \u2013 al\u00e9m de estimular certos caminhos imprescind\u00edveis para a alimenta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e as necessidades de exporta\u00e7\u00e3o \u2013 est\u00e1 a tarefa de liquidar o latif\u00fandio e libertar as for\u00e7as produtivas superando o despojo mais que centen\u00e1rio dos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros aspectos que fazem parte do processo de mudan\u00e7as que poder\u00e3o, finalmente, ser aplicados depois do apoio popular ter ratificado o governo. A NCPE tem inscritas e legalizadas por referendo popular uma s\u00e9rie de disposi\u00e7\u00f5es constitutivas de um verdadeiro salto qualitativo no plano da politica social, da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade, que tornem a Bol\u00edvia num Estado avan\u00e7ado e moderno. Isto sucede, igualmente, no que se estabelece a nossa pol\u00edtica externa como soberana, pacifista, solid\u00e1ria e de rela\u00e7\u00f5es com todos os pa\u00edses do mundo, baseadas no respeito rec\u00edproco, na n\u00e3o inger\u00eancia nos assuntos internos de cada pa\u00eds e no benef\u00edcio m\u00fatuo e na solidariedade com os povos em luta pela sua emancipa\u00e7\u00e3o e defesa da sua soberania. Este \u00e9 o novo car\u00e1cter da nossa inser\u00e7\u00e3o na comunidade internacional.<\/p>\n<p>Um momento muito importante \u00e9 o conjunto de disposi\u00e7\u00f5es que, mantendo o car\u00e1cter unit\u00e1rio do Estado plurinacional e republicano, estabelece o regime das autonomias departamentais, regionais, municipais e de povos origin\u00e1rios. Este novo ordenamento ter\u00e1 de ser aplicado procurando evitar as poss\u00edveis fric\u00e7\u00f5es entre os factores concorrentes. Ser\u00e1 uma prova \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o e criatividade e sobretudo ao patriotismo dos bolivianos que privilegiar\u00e3o o interesse nacional aos interesses regional ou particular.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 objectivo destas notas referir todos os aspectos do plano de desenvolvimento para refundar o pa\u00eds e efectuar uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o que, libertando a depend\u00eancia, democratizando a sua sociedade, aceitando e promovendo a unidade na diversidade, conduza \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem social. Foi precisamente isto que p\u00f4s na mesa de trabalho e no debate te\u00f3rico o bin\u00f3mio presidencial do discurso de tomada de posse de 22 de Janeiro, para o novo mandato de 5 anos.<\/p>\n<p>O Presidente Morales, sob diversos \u00e2ngulos, afirmou a caducidade do sistema capitalista e o imperativo da constru\u00e7\u00e3o do socialismo. E de imediato surgiu a pergunta leg\u00edtima: Como ser\u00e1 o socialismo na Bol\u00edvia?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 o socialismo real, o do s\u00e9culo XXI, o autogestion\u00e1rio jugoslavo, o modelo chin\u00eas, vietnamita ou cubano? Ou ser\u00e1, por fim, o socialismo comunit\u00e1rio? Como o definiram te\u00f3ricos e analistas pol\u00edticos bolivianos? A nosso ver a procura de aposi\u00e7\u00f5es, de adjectivos, \u00e9 irrelevante para o objectivo final. Desvia a aten\u00e7\u00e3o dos temas centrais, das ess\u00eancias e do car\u00e1cter dos fen\u00f3menos. O Vice-presidente Garcia Linera disse, em algum momento das suas interven\u00e7\u00f5es, \u00abn\u00e3o importa como se chama (o socialismo), o que importa \u00e9 em que consistir\u00e1\u00bb. Estamos de acordo e abordemos como entendemos o conte\u00fado, a ess\u00eancia desse socialismo.<\/p>\n<p>Fique claro que n\u00e3o partimos do vazio te\u00f3rico, de uma esp\u00e9cie de vacuum doutrinal. A nossa concep\u00e7\u00e3o de socialismo, confessamo-lo \u00e0 partida, n\u00e3o \u00e9 nenhuma f\u00f3rmula nova nem um invento. Ela parte da concep\u00e7\u00e3o de Marx, de Engels e de Lenine de uma forma, digamo-lo assim, radical, se isto significa que partimos dos cl\u00e1ssicos e desenvolvemos a aplica\u00e7\u00e3o da teoria do socialismo cient\u00edfico na Bol\u00edvia e para a Bol\u00edvia de agora.<\/p>\n<p>Recorremos a uma cita\u00e7\u00e3o que nos ajuda a aclarar o nosso ponto de partida: \u00abNo materialismo hist\u00f3rico h\u00e1 que continuar a inspirar-se tamb\u00e9m no que diz respeito \u00e0 an\u00e1lise de outras revolu\u00e7\u00f5es que, a partir do Outubro bolchevique, mudaram o rosto do mundo. N\u00e3o se trata de uma viv\u00eancia j\u00e1 encerrada e referida ao passado. Junto dos anticomunistas profissionais e de todos os comunistas ou ex-comunistas que s\u00e3o presa da autofobia, h\u00e1 ainda partidos e pa\u00edses que se consideram empenhados nos projectos de constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade para al\u00e9m do capitalismo.\u00bb Losurdo, Dom\u00e9nico, Fuga da Hist\u00f3ria? p. 60; ed. Cartago, 2007.)<\/p>\n<p>Geralmente fala-se da Revolu\u00e7\u00e3o como de um processo \u00fanico. Na realidade tem duas fases. A primeira \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, em s\u00edntese, consiste na mudan\u00e7a das classes no poder central de um Estado ou de um pa\u00eds. As classes revolucion\u00e1rias \u2013 oper\u00e1rias, camponesas e outras \u2013 substituem as classes dominantes e possuidoras, a oligarquia, a burguesia, etc.. Esta fase, muito din\u00e2mica, \u00e9 vari\u00e1vel no seu prolongamento. Nuns casos a desloca\u00e7\u00e3o do velho poder pol\u00edtico \u00e9 r\u00e1pida, Nalguns casos mais prolongada, em fun\u00e7\u00e3o de numerosos factores que t\u00eam a ver sobretudo com as correla\u00e7\u00f5es de for\u00e7as, nacionais e internacionais, da for\u00e7a, do empenho dos p\u00f3los da contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois vem e por vezes corre paralela \u2013 sobretudo nalguns aspectos \u2013 a fase da revolu\u00e7\u00e3o propriamente social. Esta aponta para a transforma\u00e7\u00e3o, a mudan\u00e7a da base econ\u00f3mica da sociedade, do modo de produ\u00e7\u00e3o e do que habitualmente se conhece como a estrutura econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>Adiantando-nos um pouco, podemos dizer que a fase pol\u00edtica muda, transforma, sobretudo a super-estrutura e o ordenamento jur\u00eddico e pol\u00edtico que se levanta sobre a estrutura e que responde aos interesses das classes dominantes. Demora muito mais transformar a consci\u00eancia social, sobretudo aquele extracto que se denomina consci\u00eancia quotidiana ou habitual. Por isso se fala tanto da super-viv\u00eancia do passado, da conduta e do modo de actuar e pensar das pessoas que se sup\u00f5e j\u00e1 n\u00e3o deveriam continuar a ser como s\u00e3o.<\/p>\n<p>Em que consiste a mudan\u00e7a da estrutura, do modo de produ\u00e7\u00e3o; a revolu\u00e7\u00e3o social propriamente dita? Esquematicamente vamos considerar tr\u00eas elementos que consideramos fundamentais: o sistema de propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o que resultam sobretudo da anterior e o modo de distribui\u00e7\u00e3o da riqueza social.<\/p>\n<p>O primeiro elemento \u00e9 o determinante dos outros componentes e acabar\u00e1 reflectindo-se at\u00e9 em elementos t\u00e3o et\u00e9reos como a psicologia das pessoas e a vida espiritual de uma sociedade. Da forma das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Na sua forma estabelece a modalidade com que o propriet\u00e1rio dos meios de produ\u00e7\u00e3o compra, ou mais exactamente ainda, como se apropria do trabalho do que vem a ser o \u00abseu\u00bb dependente, o seu assalariado ou o seu pe\u00e3o. Estas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o as que encarnam a contradi\u00e7\u00e3o entre o possuidor e o despossu\u00eddo e, mais cedo que tarde, revelar-se-\u00e3o como luta de classes.<\/p>\n<p>Finalmente, conforme seja a base econ\u00f3mica, os membros de uma sociedade recolhem a riqueza social (podemos dizer \u00abapropriam-se\u00bb, particularmente do excedente). Marx comparava a riqueza social com uma grande panela na qual os indiv\u00edduos, obrigatoriamente membros de uma classe social, extra\u00edam da panela uma parte dessa riqueza, de acordo com o tamanho da sua colher. \u00cdnfima, min\u00fascula, a dos oper\u00e1rios e da pobreza em geral e enorme, extraordinariamente grande, a do burgu\u00eas. A\u00ed esta com simplicidade em que consiste a injusti\u00e7a social.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode haver socialismo de nenhuma classe se n\u00e3o se transforma essa base econ\u00f3mica. Para falar da constru\u00e7\u00e3o do socialismo com propriedade deve colocar-se a meta hist\u00f3rica da liquida\u00e7\u00e3o da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Isto n\u00e3o acontece da noite para o dia nem significa o desaparecimento de toda a forma de propriedade; mesmo no socialismo integral, o comunismo, n\u00e3o desaparece a propriedade pessoal, ainda que a propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o, a propriedade social, seja universal e completa.<\/p>\n<p>No segundo elemento, muda totalmente o car\u00e1cter das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. O oper\u00e1rio, o trabalhador, o produtor dos bens materiais emancipou-se e vai superando o seu estado de aliena\u00e7\u00e3o, o estado de depend\u00eancia de outra vontade e do estado de separa\u00e7\u00e3o, de perda de si mesmo e do fruto do seu trabalho.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, num processo que n\u00e3o \u00e9 imediato, ir-se-\u00e1 nivelando a distribui\u00e7\u00e3o da riqueza social. O excedente tornar-se-\u00e1 cada vez mais colectivo. Por outras palavras ter\u00e1 aumentado de tamanho a colher dos trabalhadores e dos pobres. Haver\u00e1 mais justi\u00e7a social e ir-se-\u00e1 estabelecendo essa f\u00f3rmula da primeira etapa do socialismo \u00abde cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo o seu trabalho\u00bb. Na terminologia em voga na Bol\u00edvia tornar-se-\u00e1 realidade a aspira\u00e7\u00e3o do \u00absumaj causay\u00bb, quechua, do \u00absumaj k\u2019ama\u00f1a\u00bb, aymara, do \u00abvivir bien\u00bb, casti\u00e7o.<\/p>\n<p>Conclu\u00edmos, dizendo que s\u00f3 uma revolu\u00e7\u00e3o social completa pode acercar-nos desse ideal, de forma nenhuma uma utopia como era moda dizer h\u00e1 alguns anos. E nenhuma das suas fases pode ser separada da outra. Uma revolu\u00e7\u00e3o, somente pol\u00edtica pode facilmente ser revertida, sobretudo se deixou intacta a base ou se se deixarem intoc\u00e1veis muitas formas de propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o haver\u00e1 nenhuma revolu\u00e7\u00e3o social, nenhuma mudan\u00e7a estrutural se n\u00e3o se tender para a liquida\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o do trabalhador.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, em duas palavras, respondemos \u00e0 premente pergunta de se \u00e9 poss\u00edvel, hoje e na Bol\u00edvia, um pa\u00eds atrasado, pobre, cercado construir uma nova ordem, a sociedade socialista. Sim, acreditamos que \u00e9 poss\u00edvel nas actuais conjunturas nacional e internacional. Ambas s\u00e3o favor\u00e1veis, ainda que \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o boliviana, tal como n\u00e3o acontecer\u00e1 com nenhuma outra, n\u00e3o lhe ser\u00e1 aberta a passagem para uma avenida Nevski, como j\u00e1 sabemos. Ser\u00e1 como disse Mari\u00e1tegui \u00abnem c\u00f3pia nem decalque, cria\u00e7\u00e3o her\u00f3ica\u00bb.<\/p>\n<p><em>Este texto que nos foi enviado pelo autor foi redigido com base no editorial de Marxismo Militante n\u00ba 45, de que Marcos Domich \u00e9 director.<\/em><\/p>\n<p><em>* Marcos Domich, Professor da Universidade de La Paz, \u00e9 amigo e colaborador de odiario.info.<\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em><\/p>\n<p><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PODiario.info\n\n\n\n\nNeste estudo sobre o futuro do processo revolucion\u00e1rio de mudan\u00e7as em curso na Bol\u00edvia, Marcos Domich conclui respondendo \u00e0 pergunta como \u00e9 poss\u00edvel, hoje e na Bol\u00edvia, \u201cum pa\u00eds atrasado, pobre, cercado construir uma nova ordem, a sociedade socialista. Sim, acreditamos que \u00e9 poss\u00edvel nas actuais conjunturas nacional e internacional. Ambas s\u00e3o favor\u00e1veis, ainda que \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o boliviana, tal como n\u00e3o acontecer\u00e1 com nenhuma outra, n\u00e3o se lhe ser\u00e1 aberta a passagem para uma avenida Nevski, como j\u00e1 sabemos. Ser\u00e1 como disse Mari\u00e1tegui \u00abnem c\u00f3pia nem decalque, cria\u00e7\u00e3o her\u00f3ica\u00bb.\u201d\nNingu\u00e9m duvidava do triunfo de Evo Morales. Todos sabiam que venceria com mais de 50 por cento dos votos, mas poucos acertaram na percentagem final. Conseguir 64%, \u00e9 alcan\u00e7ar um cume pouco habitual. No entanto, ratifica o facto de onde h\u00e1 unidade das massas pode-se atingir \u00edndices que se aproximam de uma esp\u00e9cie de unanimidade pol\u00edtica. Para a outra banda \u2013 para a direita e o imperialismo \u2013 o \u00eaxito da candidatura popular foi uma humilha\u00e7\u00e3o nunca vista.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/344\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-344","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c55-bolivia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5y","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/344","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=344"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/344\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=344"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=344"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=344"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}