{"id":345,"date":"2010-03-22T00:53:11","date_gmt":"2010-03-22T00:53:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=345"},"modified":"2010-03-22T00:53:11","modified_gmt":"2010-03-22T00:53:11","slug":"o-deficit-da-esquerda-e-organizacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/345","title":{"rendered":"O d\u00e9ficit da esquerda \u00e9 organizacional"},"content":{"rendered":"\n<p>Em poucas palavras: nunca foram t\u00e3o amea\u00e7adoras as perspectivas imediatas da vida da humanidade e, simultaneamente, nunca o movimento revolucion\u00e1rio inspirado em Marx viu-se diante de tantas dificuldades. Precisamente por isto, vale a pena provocar a imagina\u00e7\u00e3o com um breve exerc\u00edcio de pol\u00eamica: nosso \u2013 dos revolucion\u00e1rios \u2013 <em>d\u00e9ficit <\/em>n\u00e3o \u00e9 te\u00f3rico, \u00e9 organizacional.<\/p>\n<p><strong>A potencialidade te\u00f3rica do marxismo <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 enorme a bibliografia sobre as crises do marxismo e, sem preju\u00edzo de observa\u00e7\u00f5es pertinentes que nela se encontram, quase toda possui um denominador comum: identifica a crise de uma ou outra vertente da tradi\u00e7\u00e3o marxista (que, de fato, \u00e9 um acervo \u00eddeo-te\u00f3rico e pol\u00edtico muito diferenciado) com <em>a crise do marxismo<\/em>. Se houve, e de fato houve, uma paralisia no desenvolvimento da tradi\u00e7\u00e3o marxista no segundo ter\u00e7o do s\u00e9culo XX \u2013 aqui, as hipotecas derivadas do stalinismo foram decisivas -, paralisia que compeliu Luk\u00e1cs a reclamar, nos anos 1960, um \u201crenascimento do marxismo\u201d, o que os anos posteriores a 1970 revelaram foi a crise terminal de uma vertente particular (certamente relevante) daquela tradi\u00e7\u00e3o: o <em>marxismo-leninismo <\/em>oficial, prolongamento do \u201cmarxismo vulgar\u201d dominante na Segunda Internacional<sup>1<\/sup><em>. <\/em><\/p>\n<p>Mas, marginalmente ao <em>marxismo-leninismo <\/em>e ap\u00f3s a den\u00fancia do \u201cculto \u00e0 personalidade\u201d (1956), outras vertentes marxistas se desenvolveram (ou continuaram se desenvolvendo) e constitu\u00edram um ac\u00famulo \u00eddeo-te\u00f3rico capaz de propiciar um conhecimento social adequado. Um exame cuidadoso da documenta\u00e7\u00e3o produzida por marxistas de diferentes matizes, a partir dos anos 1950, revela a emers\u00e3o de um estoque cr\u00edtico que, depois dos anos 1970, s\u00f3 fez crescer. Ao contr\u00e1rio do que sustenta o senso comum das ci\u00eancias sociais acad\u00eamicas e do que \u00e9 veiculado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, a elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de extra\u00e7\u00e3o marxista tem se revelado capaz de an\u00e1lises extremamente corretas (ou seja: validadas pela din\u00e2mica social real) dos processos hist\u00f3rico-sociais dos \u00faltimos trinta anos. N\u00e3o \u00e9 este o lugar para oferecer provas bibliogr\u00e1ficas desta afirma\u00e7\u00e3o, mas basta cotejar, por exemplo, a vis\u00e3o da din\u00e2mica econ\u00f4mico-social do sistema capitalista nos \u00faltimos vinte e cinco anos oferecida por diferentes te\u00f3ricos marxistas (Mandel, M\u00e9sz\u00e1ros, Chesnais, Husson <em>et alii<\/em>) com aquela tra\u00e7ada pelos apologistas do capital para aquilatar da atualidade e da atualiza\u00e7\u00e3o da capacidade heur\u00edstica do referencial anal\u00edtico elaborado originalmente por Marx.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que este efetivo desenvolvimento de vertentes da tradi\u00e7\u00e3o marxista est\u00e1 longe de significar que in\u00fameros complexos problem\u00e1ticos, que peculiarizam a atual quadra hist\u00f3rica, estejam minimamente equacionados<sup>2<\/sup>. H\u00e1 toda uma s\u00e9rie de n\u00edveis societ\u00e1rios &#8211; no plano da cultura, no espa\u00e7o da vida cotidiana, no campo das rela\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia e \u00e9tica, nos dom\u00ednios da demografia, da territorialidade etc. \u2013 em que se acumulam dilemas e impasses sobre os quais o estoque de conhecimentos \u00e9 extremamente assim\u00e9trico em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 sua magnitude. As lacunas te\u00f3ricas existentes s\u00e3o indiscut\u00edveis e n\u00e3o h\u00e1 por que dissimul\u00e1-las. Mas, ainda aqui, cumpre sublinhar que car\u00eancias cr\u00edtico-cognitivas de monta afetam o conjunto das teorias sociais contempor\u00e2neas e s\u00e3o imensamente mais expressivas no campo dos saberes funcionais \u00e0 ordem do capital \u2013 que, no plano te\u00f3rico-social, mostra-se cada vez menos apta a engendrar concep\u00e7\u00f5es que resistam \u00e0s fortes tend\u00eancias constitutivas do que Luk\u00e1cs, na esteira de Marx, designou como \u201cdecad\u00eancia ideol\u00f3gica\u201d.<\/p>\n<p>Com estas considera\u00e7\u00f5es &#8211; necessariamente breves e esquem\u00e1ticas -, o que pretendo ressaltar, com \u00eanfase, \u00e9 que as dificuldades com que se defrontam hoje os revolucion\u00e1rios que se reclamam vinculados \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o marxista <em>n\u00e3o <\/em>derivam essencialmente de uma \u201ccrise te\u00f3rica\u201d. A potencialidade te\u00f3rica da tradi\u00e7\u00e3o marxista tem resistido \u00e0 prova da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Teoria e pol\u00edtica <\/strong><\/p>\n<p>Em alguma passagem de seus escritos, P. Togliatti anotou: \u201cquem erra na an\u00e1lise, erra na a\u00e7\u00e3o\u201d. A observa\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial para os revolucion\u00e1rios (como, ali\u00e1s, j\u00e1 o sabia Marx): para aqueles que se prop\u00f5em como tarefa a supress\u00e3o da ordem do capital e a ultrapassagem da sociedade burguesa, o conhecimento verdadeiro da realidade social \u00e9, como Luk\u00e1cs esclareceu desde 1923, uma quest\u00e3o de vida ou de morte. Isto equivale a dizer que, para os revolucion\u00e1rios, a formula\u00e7\u00e3o de projetos e o estabelecimento de estrat\u00e9gias no marco das lutas de classes sup\u00f5em o m\u00e1ximo conhecimento poss\u00edvel da din\u00e2mica social concreta.<\/p>\n<p>Esta determina\u00e7\u00e3o, que parece incontest\u00e1vel, requer tr\u00eas nota\u00e7\u00f5es minimamente convalidadas pela experi\u00eancia hist\u00f3rica. A primeira \u00e9 que tal determina\u00e7\u00e3o diz respeito \u00e0queles que se empenham na supera\u00e7\u00e3o da ordem do capital \u2013 a manuten\u00e7\u00e3o e a gest\u00e3o desta ordem reclamam, obviamente, conhecimentos e saberes; entretanto, a natureza destes <em>pode <\/em>ser meramente manipulat\u00f3ria e instrumental; j\u00e1 o empenho exitoso na desarticula\u00e7\u00e3o da sociedade burguesa no rumo das transforma\u00e7\u00f5es socialistas <em>exige <\/em>o conhecimento te\u00f3rico rigoroso da estrutura e da din\u00e2mica da vida social. Em segundo lugar, ela se refere aos segmentos <em>dirigentes <\/em>dos movimentos revolucion\u00e1rios \u2013 a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de consci\u00eancia das massas, sempre potenciado nas lutas e em especial nas conjunturas revolucion\u00e1rias, n\u00e3o elimina a efetiva fronteira distintiva (sempre m\u00f3vel) entre elas e as suas vanguardas. Finalmente, \u00e9 preciso lembrar que <em>nenhum <\/em>processo revolucion\u00e1rio se deflagra contando com um conhecimento te\u00f3rico exaustivo e total das suas possibilidades e limites \u2013 se assim fosse, certamente a hist\u00f3ria moderna n\u00e3o registraria nenhuma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio acrescentar, por\u00e9m, que aquela determina\u00e7\u00e3o &#8211; <em>quem erra na an\u00e1lise, erra na a\u00e7\u00e3o <\/em>\u2013 est\u00e1 longe de significar <em>que quem acerta na an\u00e1lise tem \u00eaxito na a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria<\/em>. Para os revolucion\u00e1rios, o acerto na an\u00e1lise (vale dizer: um ac\u00famulo cr\u00edtico que garanta o m\u00e1ximo conhecimento poss\u00edvel da realidade social) \u00e9 <em>condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria <\/em>para o \u00eaxito da interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, <em>mas n\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o suficiente<\/em>. A pol\u00edtica (revolucion\u00e1ria) n\u00e3o se reduz \u00e0 teoria (revolucion\u00e1ria) ou, mais exatamente, a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 teoria.<\/p>\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o marxista, foram freq\u00fcentes os equ\u00edvocos derivados de uma interpreta\u00e7\u00e3o simplista da decantada \u201crela\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica\u201d, que n\u00e3o poucas vezes conduziram &#8211; confundindo <em>unidade <\/em>com <em>identidade <\/em>\u2013 a desastres simultaneamente te\u00f3ricos e pol\u00edticos. Por isto mesmo, \u00e9 preciso afirmar com vigor que teoria e pol\u00edtica configuram \u00e2mbitos distintos, mesmo que n\u00e3o divorciados, na totalidade das formas pelos quais os homens e as mulheres procuram compreender e transformar o mundo. No \u00e2mbito da teoria, o conhecimento verdadeiro \u00e9 um <em>fim<\/em>; no \u00e2mbito da pol\u00edtica, o conhecimento \u00e9 um <em>meio <\/em><sup>3<\/sup>. Na teoria, importa a <em>verdade<\/em>; a pol\u00edtica \u00e9 o campo das <em>rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a<\/em>. As conex\u00f5es entre teoria e interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o s\u00e3o un\u00edvocas nem diretas, at\u00e9 porque suas din\u00e2micas s\u00e3o estruturalmente diversas &#8211; a <em>temporalidade <\/em>da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 a da elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica (antes, \u00e9 reiteradamente emergencial).<\/p>\n<p>Nada disso aponta no sentido de <em>subestimar <\/em>o peso do conhecimento te\u00f3rico na interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica revolucion\u00e1ria \u2013 ao contr\u00e1rio, decorre desta linha de argumenta\u00e7\u00e3o a conseq\u00fc\u00eancia da mais exigente qualifica\u00e7\u00e3o das vanguardas e de seus representantes mais destacados, notadamente quando se verifica que, no decurso do tempo, esta qualifica\u00e7\u00e3o veio registrando uma curva descendente<sup>4<\/sup>. Mas, sem qualquer concess\u00e3o a um weberianismo ocasional, se se constata a exist\u00eancia de \u201cduas voca\u00e7\u00f5es\u201d, a te\u00f3rica (cient\u00edfica) e a pol\u00edtica, que n\u00e3o se excluem, mas que, se n\u00e3o coincidem necessariamente nas mesmas figuras (como, para citar tipos diversos, em L\u00eanin, Mari\u00e1tegui, Togliatti, Cunhal), h\u00e1 que dizer que elas podem articular-se no \u201cintelectual coletivo\u201d que as vanguardas organizadas devem estruturar.<\/p>\n<p>Esta argumenta\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, aponta num sentido preciso (e obviamente pol\u00eamico): <em>n\u00e3o s\u00e3o as lacunas te\u00f3ricas que est\u00e3o na raiz das dificuldades pol\u00edticas com que se v\u00eaem a bra\u00e7os os revolucion\u00e1rios de inspira\u00e7\u00e3o marxista. <\/em>A paralisia que enfermou a vertente te\u00f3rica dominante da tradi\u00e7\u00e3o marxista ao tempo do stalinismo (o marxismo-leninismo oficial), bem como outros esclerosamentos, certamente foi um componente ponder\u00e1vel a embara\u00e7ar o desenvolvimento do movimento revolucion\u00e1rio \u2013 que, por outro lado, nunca se reduziu aos processos de transforma\u00e7\u00e3o social substantiva direcionados por vanguardas de corte marxista. O insuficiente conhecimento de que esta tradi\u00e7\u00e3o disp\u00f5e sobre v\u00e1rios dom\u00ednios da vida social contempor\u00e2nea decerto incide negativamente na potencia\u00e7\u00e3o de vetores revolucion\u00e1rios. Nada disto, todavia, \u00e9 o determinante essencial das dificuldades atuais &#8211; at\u00e9 porque, como se referiu, a massa cr\u00edtica produzida nos \u00faltimos trinta anos, no marco da tradi\u00e7\u00e3o marxista, est\u00e1 longe de ser negligenci\u00e1vel. O determinante essencial parece residir na problem\u00e1tica da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>O <em>d\u00e9ficit <\/em>da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica <\/strong><\/p>\n<p>A passagem de Lenin \u00e9 conhecida \u00e0 exaust\u00e3o: \u201csem teoria revolucion\u00e1ria n\u00e3o pode haver tamb\u00e9m movimento revolucion\u00e1rio\u201d \u2013 mas nem sempre se leva em conta que ela vem inscrita num texto (<em>Que fazer?<\/em>) em que o futuro l\u00edder da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro est\u00e1 tematizando, centralmente, o <em>problema da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/em>. N\u00e3o me parece adulterar sua tese interpret\u00e1-la como exigindo a refer\u00eancia te\u00f3rica (que, para ele, estava dada: o marxismo) para que a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (o partido) pudesse direcionar o processo revolucion\u00e1rio na R\u00fassia czarista &#8211; mas a centralidade, no processo revolucion\u00e1rio, cabe \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Recordemos que o texto lenineano (fundante de um partido <em>novo<\/em>) inscreve-se nas pol\u00eamicas que se travaram num arco temporal que pode ser claramente delimitado: o per\u00edodo que vai do <em>Bernstein-Debatte <\/em>(a segunda metade dos anos 1890) at\u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>trotskiana do <em>Programa de transi\u00e7\u00e3o <\/em>(\u00e0s v\u00e9speras da Segunda Guerra Mundial). A\u00ed se compreendem a crise da Segunda Internacional, a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, o fracasso da revolu\u00e7\u00e3o no Ocidente, os giros da Terceira Internacional, a emers\u00e3o do fen\u00f4meno stalinista etc. As riqu\u00edssimas pol\u00eamicas dessas quase quatro d\u00e9cadas tiveram sempre, expl\u00edcita ou tacitamente, a centralidade da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (as vanguardas e sua rela\u00e7\u00e3o com as massas) como elemento constitutivo. Todos os confrontos, colis\u00f5es, diverg\u00eancias etc. &#8211; expressando decerto diferen\u00e7as nas concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas &#8211; relacionavam-se \u00e0 problem\u00e1tica da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Elas s\u00e3o n\u00edtidas nas formula\u00e7\u00f5es (e pr\u00e1ticas) de Kautsky, de R. Luxemburgo, de L\u00eanin e mesmo de Tr\u00f3tski e Bukharin, apenas para referir os seus protagonistas mais conhecidos<sup>5<\/sup>. Depois deste per\u00edodo de pol\u00eamicas, praticamente n\u00e3o se introduziu nada de novo nos elementos nelas contidos.<\/p>\n<p>A recorr\u00eancia a tais pol\u00eamicas e, igualmente, \u00e0s solu\u00e7\u00f5es que nelas foram propostas \u00e9, obviamente, de capital import\u00e2ncia para enfrentar as dificuldades atuais. E, sendo procedente a hip\u00f3tese com que aqui se trabalha, segundo a qual o \u201cn\u00facleo duro\u201d dessas dificuldades radica na problem\u00e1tica da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de tanto maior relevo se reveste a an\u00e1lise daquelas pol\u00eamicas e das implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas das solu\u00e7\u00f5es nelas aventadas.<\/p>\n<p>Todavia, e este \u00e9 o ponto que me interessa salientar, a an\u00e1lise cr\u00edtica dessa heran\u00e7a do movimento revolucion\u00e1rio, realizada com o estudo da experi\u00eancia hist\u00f3rica do per\u00edodo que lhe corresponde (que tanto condicionou aquela heran\u00e7a quanto foi por ela modificada), pouco pode contribuir para romper com os n\u00f3s que embara\u00e7am hoje a atividade revolucion\u00e1ria. Com certeza, a meu ju\u00edzo, essa an\u00e1lise reafirmar\u00e1 seja a indispensabilidade do m\u00e1ximo conhecimento poss\u00edvel da realidade social, seja a centralidade da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 mas n\u00e3o nos dir\u00e1 nada acerca das formas concretas dessa organiza\u00e7\u00e3o nem sobre a sua articula\u00e7\u00e3o com inst\u00e2ncias e sujeitos sociais. Para ser bem claro: <em>a an\u00e1lise cr\u00edtica daquele legado haver\u00e1 somente de nos indicar, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o dos dois constitutivos acima mencionados (o conhecimento e a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica), a que heran\u00e7a devemos renunciar. <\/em>Extrairemos, por exemplo, li\u00e7\u00f5es de Rosa Luxemburgo (quando alertava que a ditadura do proletariado poderia se tornar uma pura e simples ditadura) e de Tr\u00f3tski (quando denunciava\/analisava a burocratiza\u00e7\u00e3o) &#8211; mas n\u00e3o extrairemos elementos positivos para uma refunda\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-organizacional.<\/p>\n<p>De fato, os dois constitutivos que dever\u00e3o estar presentes para que se possa promover uma ofensiva socialista expressam os elementos universais do processo revolucion\u00e1rio conducente \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da ordem do capital. Mas a sua particulariza\u00e7\u00e3o conseq\u00fcente com a quadra hist\u00f3rica contempor\u00e2nea sup\u00f5e e implica uma concretiza\u00e7\u00e3o para a qual a experi\u00eancia passada pouco pode contribuir. Os problemas inteiramente novos, a que me referi na abertura desta r\u00e1pida comunica\u00e7\u00e3o, escapam ao \u00e2mbito pr\u00f3prio daquela experi\u00eancia \u2013 que, entretanto, permanece ainda como a refer\u00eancia b\u00e1sica do movimento revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Um mundo novo <\/strong><\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o pode ser acaciana, mas deve ser repetida: as transforma\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias que se explicitaram nos \u00faltimos trinta anos configuraram um <em>mundo novo<\/em>.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise deste mundo revela que a teoria social de Marx \u00e9 completamente atual: o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, em todas as diversas forma\u00e7\u00f5es sociais existentes, obedece \u00e0 din\u00e2mica que foi idealmente (teoricamente) reproduzida n\u2019<em>O capital<\/em>: explora\u00e7\u00e3o do trabalho, crescimento destrutivo e autodestrutivo, concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o de riqueza e poder, contradi\u00e7\u00f5es e antagonismos etc., com toda a sua coorte de conseq\u00fc\u00eancias delet\u00e9rias no plano s\u00f3cio-cultural e humano. A an\u00e1lise marxista do capitalismo contempor\u00e2neo, registrando novos fen\u00f4menos e processos &#8211; e esta an\u00e1lise vem sendo feita -, n\u00e3o infirma nenhuma das descobertas estruturais de Marx; mas revela que elas n\u00e3o d\u00e3o plena conta das determina\u00e7\u00f5es novas desse capitalismo. Esta an\u00e1lise demonstra que as determina\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de Marx, estruturalmente v\u00e1lidas, n\u00e3o s\u00e3o, apenas elas, suficientes para apreender o capitalismo dos nossos dias.<\/p>\n<p>O desenvolvimento recente deste capitalismo introduziu profundas muta\u00e7\u00f5es na sociabilidade pr\u00f3pria \u00e0 sociedade burguesa. E se n\u00e3o afetou as bases da pertin\u00eancia de classe (a propriedade) e se, menos ainda, reduziu a gravita\u00e7\u00e3o das lutas de classes no processo social, alterou substancialmente as modalidades pelas quais a estrutura e o movimento daquela sociabilidade s\u00e3o tomados pela consci\u00eancia de homens e mulheres. As transforma\u00e7\u00f5es na vida cotidiana (na constela\u00e7\u00e3o familiar, no espa\u00e7o da reprodu\u00e7\u00e3o imediata dos indiv\u00edduos etc.), na distribui\u00e7\u00e3o espacial dos indiv\u00edduos e grupos sociais, na organiza\u00e7\u00e3o e na reparti\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho, no controle do tempo fora do trabalho, os novos mecanismos de manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, seus impactos sobre os costumes \u2013 tudo isto, e muito mais, alterou qualitativamente as condi\u00e7\u00f5es de constitui\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia da massa dos homens e das mulheres.<\/p>\n<p>\u00c9 somente a partir da considera\u00e7\u00e3o desse <em>mundo novo <\/em>&#8211; e os tra\u00e7os dele aqui esbo\u00e7ados j\u00e1 se encontram minimamente estudados &#8211; que se pode intentar, de modo s\u00e9rio, encontrar solu\u00e7\u00f5es conducentes \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de instrumentos de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica eficazes para operar uma ofensiva socialista. Porque, e esta \u00e9 uma determina\u00e7\u00e3o essencial, se as dificuldades que embara\u00e7am a atividade revolucion\u00e1ria s\u00e3o not\u00e1veis, igualmente not\u00e1veis s\u00e3o as <em>motiva\u00e7\u00f5es reais <\/em>que permitem a mobiliza\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o de largos contingentes de homens e mulheres <em>contra a ordem do capital<\/em>. Em todos os quadrantes, do Norte ao Sul, o capitalismo contempor\u00e2neo enfrenta uma insatisfa\u00e7\u00e3o generalizada e uma resist\u00eancia ora difusa, ora ganhando express\u00f5es corporativas e particularistas. Molecularmente, a ordem do capital tem exponenciado os seus coveiros &#8211; mas este movimento real permanece espartilhado nos limites da ordem porque carece de inst\u00e2ncias universalizadoras.<\/p>\n<p>E estas n\u00e3o ser\u00e3o criadas somente a partir da an\u00e1lise cr\u00edtica da experi\u00eancia anterior do movimento revolucion\u00e1rio. O <em>mundo novo <\/em>requer, tamb\u00e9m, inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A inven\u00e7\u00e3o de um novo padr\u00e3o organizacional <\/strong><\/p>\n<p>L\u00eanin n\u00e3o foi citado por acaso nas p\u00e1ginas anteriores. Tamb\u00e9m ele se situa, historicamente, num momento de inflex\u00e3o do capitalismo (a emerg\u00eancia do imperialismo) e tamb\u00e9m para ele se punha um problema espec\u00edfico: encontrar um instrumento que tornasse interventiva a refer\u00eancia te\u00f3rica de Marx. E L\u00eanin <em>inventou <\/em>esse instrumento: o partido <em>novo<\/em>.<\/p>\n<p>Cuidemos de evitar mal-entendidos. L\u00eanin \u2013 de quem, em 1924, Luk\u00e1cs salientava o realismo e o antiutopismo \u2013 n\u00e3o inventou o <em>partido <\/em>arbitrariamente, mediante simples voli\u00e7\u00e3o individual (tamb\u00e9m esta inven\u00e7\u00e3o respondia a possibilidades hist\u00f3ricas concretas). Ele n\u00e3o s\u00f3 dispunha de uma <em>an\u00e1lise concreta <\/em>da forma\u00e7\u00e3o social para a qual dirigia suas energias (recorde-se <em>O desenvolvimento do capitalismo na R\u00fassia<\/em>) e de um substantivo conhecimento das experi\u00eancias (anteriores e contempor\u00e2neas) dos movimentos revolucion\u00e1rios: incorporava criticamente os desdobramentos da teoria e da ci\u00eancia que lhe eram contempor\u00e2neas<sup>6<\/sup>. E mais: assimilava sem preconceitos o que havia de v\u00e1lido na reflex\u00e3o alheia, desenvolvia pistas referidas por outrem, inscrevia-se num debate coletivo e dava formula\u00e7\u00e3o rigorosa ao que nele emergia.<\/p>\n<p>\u00c9 deste tipo de <em>inven\u00e7\u00e3o <\/em>que o movimento socialista revolucion\u00e1rio de inspira\u00e7\u00e3o marxista necessita hoje. O conhecimento da <em>heran\u00e7a <\/em>j\u00e1 referida (de que L\u00eanin \u00e9 parte importante, mas n\u00e3o \u00fanica) \u00e9, como sublinhei, indispens\u00e1vel para realiz\u00e1-la \u2013 mas est\u00e1 longe de ser o bastante. Essencialmente, a inven\u00e7\u00e3o de um novo padr\u00e3o pol\u00edtico-organizacional e a formula\u00e7\u00e3o de seus par\u00e2metros, que permitam direcionar para um processo revolucion\u00e1rio as generalizadas insatisfa\u00e7\u00f5es e resist\u00eancias em face da ordem do capital ser\u00e1 resultado de uma elabora\u00e7\u00e3o coletiva, capaz de incorporar a massa cr\u00edtica de que j\u00e1 dispomos sobre o capitalismo contempor\u00e2neo e de apreender as\/responder \u00e0s formas atuais da sociabilidade. Ser\u00e1 uma tarefa muito mais complicada que a realizada por L\u00eanin \u2013 devendo conjugar, num registro antes desconhecido, a teoria revolucion\u00e1ria atualmente acess\u00edvel com demandas muito diferenciadas e pulverizadas. Mas \u00e9 esta mesma conjuga\u00e7\u00e3o que poder\u00e1 unificar (sem <em>identificar<\/em>, com a dilui\u00e7\u00e3o das suas especificidades) tais demandas, situando-as numa perspectiva universalizante que supere particularismos e corporativismos. E trata-se de tarefa fact\u00edvel desde que, aproveitando as <em>li\u00e7\u00f5es <\/em>do passado, deixemos de tom\u00e1-las como <em>exemplos <\/em>\u2013 e este \u00e9, como diria o velho Florestan, o buz\u00edlis da quest\u00e3o: a incontorn\u00e1vel refer\u00eancia \u00e0 <em>heran\u00e7a <\/em>n\u00e3o pode hipotecar a experimenta\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Num ensaio de mais de vinte anos, Perry Anderson observava, com a sua conhecida arg\u00facia, que o chamado <em>marxismo ocidental <\/em>tinha como tra\u00e7o pertinente o nunca haver conseguido vincular-se a movimentos de massa. Sem exagero, quer-me parecer que, nos dias correntes, o problema n\u00e3o reside em o marxismo <em>tout court <\/em>estar desvinculado de movimentos de massa &#8211; o problema est\u00e1 em que movimentos de massa s\u00e3o raros.<\/p>\n<p>A inven\u00e7\u00e3o de um novo padr\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, se, de um lado, \u00e9 condicionada pela exist\u00eancia desses movimentos, de outro pode foment\u00e1-los e torn\u00e1-los mais densos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sequer prospectar se e quando uma tal inven\u00e7\u00e3o ter\u00e1 lugar \u2013 ainda que, para ela, estejam dados muitos elementos. Mas, salvo grave erro de avalia\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel concluir assegurando que da ultrapassagem deste nosso d\u00e9ficit organizacional depende, em escala decisiva, a possibilidade de travar e reverter a barb\u00e1rie capitalista.<\/p>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Jos\u00e9 Paulo Netto \u00e9 p<\/em><\/strong><em>rofessor titular da Escola de Servi\u00e7o Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n<p>1 Tratei desta quest\u00e3o no meu ensaio <em>Crise do socialismo e ofensiva neoliberal <\/em>(S. Paulo: Cortez, 2007).<\/p>\n<p>2 Por exemplo: ainda carecemos de an\u00e1lises suficientemente exaustivas sobre a crise do \u201csocialismo real\u201d ou do tipo de desenvolvimento social que se verifica na Rep\u00fablica Popular da China.<\/p>\n<p>3 \u00c9 sempre saud\u00e1vel recordar que o esfor\u00e7o te\u00f3rico \u00e9 dinamizado por <em>d\u00favidas e perguntas<\/em>, ao passo que a dire\u00e7\u00e3o da atividade pol\u00edtica demanda <em>convic\u00e7\u00f5es <\/em>(no caso da atividade revolucion\u00e1ria, preferencialmente fundadas em conhecimento te\u00f3rico).<\/p>\n<p>4 Uma imagem-limite desse decl\u00ednio desolador se obt\u00e9m quando se confronta o Comit\u00ea Central dirigido por L\u00eanin e o Comit\u00ea Central secretariado por Brejnev \u2013 mas o fen\u00f4meno operou universalmente, quase sem o registro de exce\u00e7\u00f5es. E transcendeu o espa\u00e7o da pol\u00edtica revolucion\u00e1ria: ao passo que G. Washington lia Rousseau, L. Johnson deleitava-se com o pato Donald.<\/p>\n<p>5 As important\u00edssimas reflex\u00f5es de Gramsci pertencem a este rico per\u00edodo em que a tradi\u00e7\u00e3o marxista tanto se desenvolveu \u2013 entretanto, s\u00f3 se tornaram conhecidas e influentes muito posteriormente.<\/p>\n<p>6 Ainda que nem sempre tenha sido bem sucedido nesta interlocu\u00e7\u00e3o, como o atesta <em>Materialismo e empirocriticismo<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\nJos\u00e9 Paulo Netto \nPara os revolucion\u00e1rios inscritos na tradi\u00e7\u00e3o marxista colocam-se atualmente problemas inteiramente novos. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que, nos \u00faltimos cento e cinq\u00fcenta anos, uma conjuntura deste tipo se instaura (nem ser\u00e1, talvez, a \u00faltima). Mas, certamente, nenhuma das conjunturas anteriores revestiu-se da dramaticidade com que se apresenta a situa\u00e7\u00e3o atual.\nCom efeito, o exaurimento de todas as possibilidades civilizat\u00f3rias do capital alcan\u00e7a hoje um n\u00edvel tal que a manuten\u00e7\u00e3o, ainda que seja por uns poucos dec\u00eanios, da ordem capitalista implica um grau de viol\u00eancia e barbariza\u00e7\u00e3o que tornar\u00e1 invi\u00e1vel a sobreviv\u00eancia da humanidade (o desastre ecol\u00f3gico \u00e9 apenas um signo, embora crucial, das perspectivas horrorosas que se p\u00f5em a m\u00e9dio, sen\u00e3o a curto, prazo). E isto se d\u00e1 na quadra hist\u00f3rica, emergente na transi\u00e7\u00e3o dos anos 1970 aos 1980, em que o projeto revolucion\u00e1rio fundado em Marx (e, de fato, o processo revolucion\u00e1rio real que tomou sua primeira forma na Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro) registrou derrotas hist\u00f3ricas de larga incid\u00eancia.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/345\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[66],"tags":[],"class_list":["post-345","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c79-nacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5z","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/345","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=345"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/345\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=345"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}