{"id":3462,"date":"2012-09-01T23:02:15","date_gmt":"2012-09-01T23:02:15","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3462"},"modified":"2012-09-01T23:02:15","modified_gmt":"2012-09-01T23:02:15","slug":"o-desmembramento-do-mundo-arabe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3462","title":{"rendered":"O DESMEMBRAMENTO DO MUNDO \u00c1RABE"},"content":{"rendered":"\n<p><em><strong>De fato, o processo de reforma iniciado na S\u00edria \u00e9 mais avan\u00e7ado que o de qualquer outro estado \u00e1rabe. Inclui o fim das leis de emerg\u00eancia, a implanta\u00e7\u00e3o de leis partid\u00e1rias, eleitorais, de imprensa, e a aprova\u00e7\u00e3o de uma nova constitui\u00e7\u00e3o que incluiu o fim da lideran\u00e7a eterna do Partido al-Ba\u2019ath. Essas reformas s\u00e3o parte de um genu\u00edno processo pol\u00edtico que exigir\u00e1 tempo. Mas esse \u00e9 o processo contra o qual lutam hoje, para min\u00e1-lo e destru\u00ed-lo, tantas for\u00e7as, entre as quais governos ocidentais tidos como progressistas, que hoje se erguem contra o estado s\u00edrio.<\/strong> <\/em><\/p>\n<p>O comportamento do bloco da OTAN, anti-s\u00edrio, \u00e9 hoje suficientemente claro, para que se entenda o que est\u00e1 acontecendo na S\u00edria. De um lado, h\u00e1 operadores pol\u00edticos, como o grupo ad-hoc \u201cAmigos da S\u00edria\u201d; de outro lado, duas personalidades, ambos ministros de dois emirados do Golfo.<\/p>\n<p>No primeiro grupo est\u00e3o os chefes de Estado comandados pela OTAN, que operam sob um mal disfar\u00e7ado plano concebido por Israel e seus \u2018c\u00e9rebros\u2019, a maioria dos quais do quilate de Bernard-Henri L\u00e9vy. Mais do que \u2018amigos da S\u00edria\u2019, essas personalidades trabalham a favor de seus pr\u00f3prios interesses financeiros na, em torno da e mediante a S\u00edria. Os dois pol\u00edticos \u00e1rabes s\u00e3o os dois ministros de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, da Ar\u00e1bia Saudita e do Qatar. Ambos declararam que as for\u00e7as que lutam contra o estado s\u00edrio deveriam ser armadas e receber apoio financeiro. Em resumo, as reuni\u00f5es dos chamados \u201cAmigos da S\u00edria\u201d n\u00e3o passam de vis\u00e3o \u2018moderna\u2019 das reuni\u00f5es promovidas e presididas pelo vice-rei Lord Curzon, que, em 1903, falou aos \u2018Chefes da Costa \u00c1rabe\u2019, a bordo do \u201cHMS Argonaut\u201d em Sharjah (Emirados \u00c1rabes Unidos).<\/p>\n<p>Os qataris e sauditas d\u00e3o apoio financeiro aos \u2018rebeldes\u2019 para comprar armas, pagar combatentes, mercen\u00e1rios e supervis\u00e3o log\u00edstica dos ataques contra a S\u00edria. Isso, al\u00e9m do apoio para servi\u00e7os de telecomunica\u00e7\u00f5es, t\u00e1ticas de combate e aconselhamento estrat\u00e9gico militar. N\u00e3o surpreendentemente, os conselheiros militares ocidentais, que trabalham clandestinamente para os grupos armados, jamais aparecem nos jornais e televis\u00f5es. Estados vizinhos tamb\u00e9m prov\u00eam assist\u00eancia local aos grupos armados: a Jord\u00e2nia garante direitos de passagem a mercen\u00e1rios que v\u00eam da L\u00edbia; e a Turquia age como base, ao norte, de opera\u00e7\u00f5es militares.<\/p>\n<p>A Turquia est\u00e1 envolvida, porque deseja alinhar-se com os sunitas sauditas, a linha apoiada pela OTAN, e tamb\u00e9m porque teme que o desmembramento da S\u00edria leve \u00e0 autonomia dos curdos. Aos olhos da Turquia, a crise s\u00edria pode levar a uma eventual uni\u00e3o dos curdos turcos com curdos iraquianos e s\u00edrios, o que rapidamente levaria a guerra civil na Turquia e a uma eventual emancipa\u00e7\u00e3o do Curdist\u00e3o turco, com cria\u00e7\u00e3o de um estado curdo.<\/p>\n<p>Por seu lado, Israel planeja h\u00e1 anos, como parte de sua estrat\u00e9gia para dominar o Oriente M\u00e9dio e o Mediterr\u00e2neo, enfraquecer a S\u00edria, para prosseguir a ocupa\u00e7\u00e3o das colinas s\u00edrias do Golan, e dominar as fontes de \u00e1gua ali existentes. Essencialmente, Israel quer ser a principal pot\u00eancia econ\u00f4mica e militar na regi\u00e3o \u2013 e, pelo menos no curto prazo, \u00e9 poss\u00edvel, sim, que Israel surja da atual crise, depois de destru\u00edda a S\u00edria, como principal pot\u00eancia regional.<\/p>\n<p>Mediante campanha de propaganda incans\u00e1vel, ao longo de d\u00e9cadas, Israel construiu para a opini\u00e3o p\u00fablica a ideia de que a S\u00edria seria a principal amea\u00e7a \u00e0 exist\u00eancia do estado judeu, no mundo \u00e1rabe. O v\u00e1cuo de governo que se pode criar na S\u00edria pode, muito provavelmente, ser preenchido pela al-Qaeda e grupos assemelhados, o que daria suficiente justificativa para as a\u00e7\u00f5es b\u00e9licas dos israelenses, al\u00e9m de ajudar a promover a ideia de uma Israel \u2018civilizada e democr\u00e1tica\u2019 em luta contra islamistas \u2018selvagens\u2019.<\/p>\n<p>Apesar das imensas diferen\u00e7as entre S\u00edria e L\u00edbia, o destino da S\u00edria pode ser semelhante ao da L\u00edbia, em termos de interven\u00e7\u00e3o externa direta, n\u00e3o fossem R\u00fassia e China, que se opuseram firmemente contra tais a\u00e7\u00f5es na ONU, onde tem havido coopera\u00e7\u00e3o consistente entre os dois pa\u00edses. Apesar de as rela\u00e7\u00f5es sino-sovi\u00e9ticas terem ra\u00edzes nos primeiros dias da Revolu\u00e7\u00e3o Comunista de 1917, parece que, mesmo duas d\u00e9cadas depois do desmonte do Bloco Oriental, a Federa\u00e7\u00e3o Russa e a Rep\u00fablica da China seguem, mais do que nunca, o que Mao Tse-tung aconselhou em seu discurso \u201cSer um Verdadeiro Revolucion\u00e1rio\u201d, de 23\/6\/1950: \u201cna esfera internacional temos de nos unir firmemente com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u201d (ver Selected Works of Mao Tsetung, vol. V, p. 39[1]). Ideias, vis\u00e3o de mundo, interesses econ\u00f4micos e objetivos no campo da energia novamente aproximaram R\u00fassia e China, mais do que nunca antes, no caso do conflito na S\u00edria.<\/p>\n<p>No primeiro lugar da produ\u00e7\u00e3o mundial de petr\u00f3leo est\u00e1 a Ar\u00e1bia Saudita, R\u00fassia em segundo, EUA em terceiro, Ir\u00e3 em quarto e China em quinto. Em termos de reservas, os dez principais estados s\u00e3o: 1) Venezuela, 2) Ar\u00e1bia Saudita, 3) Canad\u00e1, 4) Ir\u00e3, 5) Iraque, 6) Kuwait, 7) Emirados \u00c1rabes Unidos, 8) R\u00fassia, 9) Cazaquist\u00e3o e 10) L\u00edbia. A R\u00fassia \u00e9 o maior produtor de g\u00e1s do mundo, e a Europa depende dessa fonte de g\u00e1s. Na produ\u00e7\u00e3o mundial de g\u00e1s, se, por causa da dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica, excluem-se EUA e Canad\u00e1, o Ir\u00e3 aparece em segundo lugar e o Qatar em terceiro. Em termos de reservas de g\u00e1s, a R\u00fassia \u00e9 n\u00famero um, com Ir\u00e3 e Qatar quarto lugar e a Ar\u00e1bia Saudita em sexto. Com a vizinha Ar\u00e1bia Saudita como um dos dez principais produtores de g\u00e1s do mundo, \u00e9 evidente que os interesses de exporta\u00e7\u00e3o do Qatar e da Ar\u00e1bia Saudita s\u00e3o especialmente importantes; esse ranking ajuda a entender as alian\u00e7as que se formaram \u00e0 luz do conflito s\u00edrio.<\/p>\n<p>Ar\u00e1bia Saudita e Qatar (que noutras circunst\u00e2ncias poderiam ser estado \u00fanico e ainda podem passar por reorganiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica) s\u00e3o, ambos, \u00e1rabes mu\u00e7ulmanos sunitas e ambos t\u00eam interesses econ\u00f4micos em jogo. A ansiosa busca, pelo Qatar, de contratos de marketing para o g\u00e1s e o petr\u00f3leo l\u00edbios explica o acordo com a OTAN para atacar a L\u00edbia; sua participa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica nos ataques a\u00e9reos; e o apoio aos rebeldes para que constru\u00edssem capacidade de a\u00e7\u00e3o comunicacional midi\u00e1tica.<\/p>\n<p>O objetivo do Qatar \u00e9 exportar seu g\u00e1s para a Europa, competir com os russos e ganhar importante capacidade de barganha pol\u00edtica. Para que a exporta\u00e7\u00e3o do g\u00e1s qatari para a Europa seja vi\u00e1vel e competitiva, \u00e9 indispens\u00e1vel construir um gasoduto que atravesse territ\u00f3rio s\u00edrio. Sendo a R\u00fassia tradicional aliada da S\u00edria, e considerados os muitos neg\u00f3cios anteriores, que datam dos anos da URSS, dificilmente a S\u00edria admitiria qualquer tipo de acerto que desestabilizasse os interesses da R\u00fassia na sua \u00faltima fortaleza estrat\u00e9gica dentro do mundo \u00e1rabe. Essa \u00e9 a principal raz\u00e3o pela qual o Qatar e a Ar\u00e1bia Saudita apoiam a luta dos grupos que querem derrubar o atual governo s\u00edrio.<\/p>\n<p>A S\u00edria est\u00e1-se convertendo, muito rapidamente, numa caixa de Pandora, da qual come\u00e7am a reemergir todas as crises hist\u00f3ricas dos \u00faltimos 120 anos. Come\u00e7am com a guerra russo-turca em 1877-8; a guerra russo-japonesa em 1904, as duas guerras mundiais e a Guerra Fria. Normalmente, a emerg\u00eancia de uma superpot\u00eancia demora 2, 3 d\u00e9cadas. Os EUA precisaram de 25 anos para emergir como superpot\u00eancia, de 1890 at\u00e9 o final da I Guerra Mundial. Depois da morte de L\u00eanin, em 1924, a URSS era a parte mais doente do \u2018corpo\u2019 europeu. Em 1945, depois da II Guerra Mundial, e sob o governo de St\u00e1lin, emergiu como superpot\u00eancia. Depois de Gorbachev, a R\u00fassia deixou de ser superpot\u00eancia e, aparentemente, acabou a Guerra Fria. Em apenas duas d\u00e9cadas, Putin p\u00f4s fim ao sistema unipolar e, hoje, est\u00e1 emergindo um novo mundo bipolar \u2013 como se a Guerra Fria n\u00e3o tivesse acabado.<\/p>\n<p>Exame detido do sistema pol\u00edtico s\u00edrio revela que o presidente Bashar al-Assad \u00e9, de fato, um reformista. Mas na S\u00edria, como em qualquer outro estado, h\u00e1 fac\u00e7\u00f5es em luta pelo poder, e os processos de socializa\u00e7\u00e3o demorar\u00e3o para mostrar qualquer resultado. De fato, como disse o presidente Assad, demora apenas alguns minutos para assinar leis novas, mas \u00e9 preciso muito mais tempo para educar a popula\u00e7\u00e3o para que absorva e participe na implanta\u00e7\u00e3o dos novos valores que se consagram em novas leis. O movimento das elites ocidentais, que agem como se novas leis brotassem em \u00e1rvores e fossem correspondentemente colhidas e engolidas \u00e9 desservi\u00e7o \u00e0 democracia e ato absolutamente imoral.<\/p>\n<p>A S\u00edria foi o \u00faltimo estado \u00e1rabe secular socialmente coeso, baseado de cima abaixo em ideologia secular. Apesar dos vizinhos altamente vol\u00e1teis, em termos geopol\u00edticos (L\u00edbano, Turquia, Israel, Jord\u00e2nia e Iraque), os cidad\u00e3os s\u00edrios viveram em seguran\u00e7a sob esse secularismo \u00e1rabe. A S\u00edria \u00e9 locus de um espec\u00edfico tipo de pluralismo e multiculturalismo, impregnado de toler\u00e2ncia religiosa e exist\u00eancia pluralista. \u00c9 o que se v\u00ea na conviv\u00eancia de igreja, mesquita, bar em todas as cal\u00e7adas, e no movimento, pelas ruas, de mulheres veladas e sem v\u00e9u.<\/p>\n<p><strong>De fato, o processo de reforma iniciado na S\u00edria \u00e9 mais avan\u00e7ado que o de qualquer outro estado \u00e1rabe. Inclui o fim das leis de emerg\u00eancia, a implanta\u00e7\u00e3o de leis partid\u00e1rias, eleitorais, de imprensa, e a aprova\u00e7\u00e3o de uma nova constitui\u00e7\u00e3o que incluiu o fim da lideran\u00e7a eterna do Partido al-Ba\u2019ath. Essas reformas s\u00e3o parte de um genu\u00edno processo pol\u00edtico que exigir\u00e1 tempo. Mas esse \u00e9 o processo contra o qual lutam hoje, para min\u00e1-lo e destru\u00ed-lo, tantas for\u00e7as, entre as quais governos ocidentais tidos como progressistas, que hoje se erguem contra o estado s\u00edrio.<\/strong> Nas \u00faltimas d\u00e9cadas e, sobretudo, depois do 11\/9, o ocidente s\u00f3 fez divulgar a no\u00e7\u00e3o de que terroristas islamistas amea\u00e7ariam todas as formas de vida secular. Contudo, os sunitas, tecnicamente a maioria religiosa na S\u00edria, inclui v\u00e1rios segmentos e n\u00e3o s\u00e3o menos seculares que qualquer sociedade ocidental.<\/p>\n<p>Assim, apesar de os s\u00edrios terem pleno direito de defender o secularismo \u00e0 sua moda, o objetivo do ocidente \u00e9 desmantelar o estado s\u00edrio, modificar a estrutura de poder que h\u00e1 ali e criar novas entidades demogeogr\u00e1ficas, como uma confedera\u00e7\u00e3o de curdos s\u00edrios e iraquianos, que \u00e9, hoje, o maior dos pesadelos para a Turquia. \u00c1reas espec\u00edficas tamb\u00e9m podem ser despovoadas, a serem usadas, como foi feito com os drusos, para repovoar a S\u00edria com crist\u00e3o s\u00edrios e, talvez, crist\u00e3o vindos do L\u00edbano. Outros crist\u00e3o deixariam o Levante. E os alawitas teriam talvez estado \u00e0 parte, unido, talvez, ao Ir\u00e3.<\/p>\n<p>O plano \u00e9 destruir o moderno estado \u00e1rabe da S\u00edria que emergiu depois da I Guerra Mundial e nos anos 1940s, e, onde seja poss\u00edvel, estabelecer novos estados religiosos (semelhantes ao estado judeu de Israel). Desse modo, o poder \u00e1rabe e, com ele, a ideologia panarabista de Michel Aflaq e Antun Sa\u2019ade (ambos crist\u00e3os \u00e1rabes) e de Nasser do Egito, desapareceria.<\/p>\n<p>Esse processo come\u00e7ou quando, em 1978-9, sob Sadat, o Egito assinou tratado de paz com Israel; em seguida, vieram a destrui\u00e7\u00e3o do L\u00edbano, em 1982, a Segunda Intifada em 1987 e a tomada econ\u00f4mica do Iraque em 2003. Em seguida a L\u00edbia foi destru\u00edda, com o confisco de seu petr\u00f3leo e g\u00e1s, em 2011. Agora, para manter a hegemonia de US-Rael (US-Israel), o ocidente tem de dispor os estados \u00e1rabes em grupos separados por linhas sect\u00e1rias (sunitas versus xiitas), em vez de unidos por crit\u00e9rios do panarabismo. Esse processo, de fato, foi turbinado depois da ocupa\u00e7\u00e3o do Iraque e a derrubada do partido Ba\u2019ath.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o que est\u00e1 hoje acontecendo no mundo \u00e1rabe \u00e9 uma \u2018corre\u00e7\u00e3o\u2019 do acordo Sykes-Picot de 1916, quando os principais poderes coloniais, Gr\u00e3-Bretanha e Fran\u00e7a, definiram as fronteiras dos atuais estados \u00e1rabes e l\u00e1 implantaram seus pr\u00f3prios agentes \u00e1rabes. Esse processo inclui planos neocolonialistas para constituir dois ou mais partidos \u00e1rabes que combatam o regime s\u00edrio e mant\u00ea-los lutando at\u00e9 que o estado s\u00edrio esteja desmembrado e fraturado em 2, 3 outros estados, separados entre eles por linhas sect\u00e1rias. Assim as elites neocoloniais poder\u00e3o continuar a saquear as riquezas locais, porque, bem feitas as contas, a mentalidade imperial n\u00e3o mudou, nem muda.<\/p>\n<p>Dado que as pot\u00eancias ocidentais n\u00e3o podem alcan\u00e7ar seus objetivos por seus pr\u00f3prios meios, precisam de agentes como o Qatar na L\u00edbia, e Ar\u00e1bia Saudita, Qatar e outros na S\u00edria. Esses agentes, preferencialmente monarquias antidemocr\u00e1ticas \u00e1rabes mu\u00e7ulmanas sunitas, usaram o isl\u00e3 sunita para promover o fanatismo contra outros \u00e1rabes, mu\u00e7ulmanos e n\u00e3o mu\u00e7ulmanos (dentre outros, crist\u00e3os \u00e1rabes, xiitas e drusos). Esses \u00e1rabes, com acesso \u00e0 elite (econ\u00f4mica) global (por exemplo, a fam\u00edlia real saudita e os qataris, com elites americanas e europeias) s\u00e3o as elites governantes no Golfo \u00c1rabe, ou proteg\u00e9s daquelas elites. S\u00e3o quem est\u00e1 obrando para semear diferen\u00e7as entre as v\u00e1rias seitas e amplificar e explorar \u2018a carta sunita\u2019 no confronto com a Turquia n\u00e3o \u00e1rabe mu\u00e7ulmana e sunita, contra a S\u00edria. N\u00e3o seria surpresa se estivessem em conluio com as pot\u00eancias ocidentais, tamb\u00e9m fantoches de Israel. Sem isso, seria dif\u00edcil explicar por que o regime mais autorit\u00e1rio do planeta, a Ar\u00e1bia Saudita, age contra a S\u00edria e finge que d\u00e1 li\u00e7\u00f5es de democracia, tema sobre o qual os sauditas n\u00e3o sabem nem se interessam por saber coisa alguma.<\/p>\n<p>As campanhas de propaganda orientalista, negativa, conduzidas contra a S\u00edria ao longo do ano passado, com apoio financeiro de alguns dos pa\u00edses do Golfo intencionalmente encobriram v\u00e1rios tra\u00e7os da S\u00edria, dentre os quais o secularismo \u2013 ponto para o qual as sociedades ocidentais facilmente convergiriam, em movimento de identifica\u00e7\u00e3o com os s\u00edrios. A import\u00e2ncia da ideologia do Partido Ba\u2019ath, principal partido secular s\u00edrio, que assegura direitos individuais, foi atentamente ocultada. Isso, por exemplo, al\u00e9m do fato de Daoud Rajhah, ministro s\u00edrio da Defesa que foi assassinado, ser crist\u00e3o; como crist\u00e3o tamb\u00e9m era o Dr. Nabil Zughaib, tamb\u00e9m assassinado, com toda a sua fam\u00edlia, e diretor do programa s\u00edrio de m\u00edsseis.<\/p>\n<p>Os exemplos acima, de elimina\u00e7\u00e3o deliberada de fatos dever-se-iam, como se diz, \u00e0 alian\u00e7a entre S\u00edria e R\u00fassia, que configuraria o campo \u2018errado\u2019. H\u00e1 firmes rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre S\u00edria e R\u00fassia h\u00e1, no m\u00ednimo, 50 anos. Al\u00e9m disso, a S\u00edria \u00e9 o \u201cbaixo ventre macio\u201d (alawita\/xiita-secular) entre o Ir\u00e3 (xiita refusnik anti-OTAN) e o Hizbollah xiita no L\u00edbano. Apesar de, aos olhos de curto prazo de Israel, a principal oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 sua plena domina\u00e7\u00e3o ser o Ir\u00e3 (al\u00e9m do Hizbollah, da S\u00edria e, antes, do Ham\u00e1s), o alvo, hoje, \u00e9 a S\u00edria. Como tal, a S\u00edria est\u00e1 sendo castigada, antes que seu corpo metaf\u00f3rico seja esquartejado.<\/p>\n<p>Mas qual a import\u00e2ncia do Ham\u00e1s nisso tudo? At\u00e9 ser eleito em elei\u00e7\u00f5es limpas, livres e democr\u00e1ticas em 2006 (quase dois anos depois do assassinato de Yasser Arafat), e depois de, um ano depois, ter tentado um golpe contra a Autoridade Palestina controlada pelo Fatah na Faixa de Gaza, o Ham\u00e1s era grupo de resist\u00eancia apoiado pelo Ir\u00e3, por Damasco e pelo Hizbollah. Se o Ir\u00e3 \u00e9 a \u2018cabe\u00e7a\u2019 metaf\u00f3rica e o Hizbollah e o Ham\u00e1s s\u00e3o as duas pernas, a S\u00edria tem sido o \u2018est\u00f4mago\u2019 ou o \u2018cora\u00e7\u00e3o\u2019 e \u2018pulm\u00f5es\u2019 da resist\u00eancia. Mas desde que o Ham\u00e1s passou a governar a faixa de Gaza, em larga medida deixou de ser movimento de resist\u00eancia e institucionalizou-se. Nisso, Israel (e Sharon, em especial) conseguiu uma vit\u00f3ria t\u00e1tica. Israel retirou-se \u2018oficialmente\u2019 da Faixa de Gaza, embora sem levantar o s\u00edtio e sem p\u00f4r fim aos ataques contra a Faixa; e entregou a chave da pris\u00e3o aos prisioneiros (Ham\u00e1s), para que eles mesmos comandassem a maior pris\u00e3o a c\u00e9u aberto, de todo o mundo. Tudo isso foi feito sem que o Ham\u00e1s sequer se desse conta do que estava acontecendo.<\/p>\n<p><strong>No primeiro semestre de 2012, os l\u00edderes do Ham\u00e1s deixaram Damasco, onde haviam mantido seu quartel-general e, hoje, mant\u00e9m posi\u00e7\u00e3o discreta, sem terem divulgado apoio ao governo s\u00edrio \u2013 governo que os apoiou por mais de 20 anos. Com a vit\u00f3ria da Fraternidade Mu\u00e7ulmana na Tun\u00edsia e no Egito, o Ham\u00e1s hoje procura patrocinadores mais poderosos e em pa\u00edses nos quais possam operar em posi\u00e7\u00e3o de mais poder. Os l\u00edderes do Ham\u00e1s (ambos, na Di\u00e1spora e na Faixa de Gaza) foram convidados pelo rec\u00e9m-eleito novo presidente do Egito, para unir-se \u00e0 Fraternidade Mu\u00e7ulmana (organiza\u00e7\u00e3o m\u00e3e deles todos) como iguais. O que at\u00e9 ontem parecia ser movimento da resist\u00eancia (embora, para v\u00e1rios analistas, o Ham\u00e1s jamais tenha sido partido revolucion\u00e1rio como outras fac\u00e7\u00f5es palestinas como o PFLP, o DFLP e outros), est\u00e1 hoje incorporado ao tecido de uma alian\u00e7a mu\u00e7ulmana sunita, que j\u00e1 come\u00e7ou a agir sob as asas da OTAN.<\/strong><\/p>\n<p>Orientalistas ocidentais gostam de imaginar o que teria de ocorrer, para atender seus interesses no Oriente. Para come\u00e7ar, batizaram o mundo \u00e1rabe de \u201cOriente M\u00e9dio\u201d, como se fosse um marcador geogr\u00e1fico localizado em rela\u00e7\u00e3o, exclusivamente, ao pr\u00f3prio ocidente. Para por ordem no assalto planejado, criam termos e express\u00f5es para justificar suas opera\u00e7\u00f5es militares, clandestinas ou declaradas. Mas seus servi\u00e7os de seguran\u00e7a\/intelig\u00eancia jamais acertam as previs\u00f5es sobre desenvolvimentos no mundo \u00e1rabe: n\u00e3o previram a Intifada de 1987 nem o golpe do Ham\u00e1s em 2007. <strong>Ainda assim, as elites ocidentais, superficiais e ignorantes, jamais desistem de inventar nomes e processos: o mais recente, dizem eles, teria come\u00e7ado na Tun\u00edsia e foi batizado de \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>O que est\u00e1 acontecendo em alguns pa\u00edses \u00e1rabes e no mundo \u00e1rabe nada tem de \u2018primavera\u2019: \u00e9 movimento reacion\u00e1rio que rapidamente retroceder\u00e1, como os EUA viram acontecer no Afeganist\u00e3o, onde os EUA inventaram e sustentaram os mesmos jihadistas que, adiante, os EUA puseram-se a combater. EUA e Israel t\u00eam tentado construir acertos e neg\u00f3cios com os islamistas que est\u00e3o no poder, com o objetivo de conseguirem controlar as massas e os movimentos sociais. De fato, n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que estrategistas pol\u00edticos tentam usar a religi\u00e3o para evitar o caos e defender seus interesses econ\u00f4micos. O que se v\u00ea hoje \u00e9 semelhante ao processo que Maquiavel comenta (baseado no relato do historiador romano Tito L\u00edvio Patavino, 59 aC-17 dC); o cap\u00edtulo de Maquiavel leva o t\u00edtulo de \u201cComo os romanos usaram a religi\u00e3o para reorganizar a cidade e conseguir levar adiante o plano de p\u00f4r fim aos tumultos\u201d.<\/p>\n<p>As campanhas ocidentais de propaganda contra a S\u00edria buscam convencer o p\u00fablico a mais temer a religi\u00e3o que obedecer aos atuais governantes \u00e1rabes. Eis o porqu\u00ea de continuarem censurados os protestos em tr\u00eas reinos \u00e1rabes (Ar\u00e1bia Saudita, Marrocos e Jord\u00e2nia). O mundo absolutamente n\u00e3o est\u00e1 vendo coisa alguma que se compare (por causa de censura, vigil\u00e2ncia e indiferen\u00e7a da m\u00eddia ocidental) aos protestos que se viram nas rep\u00fablicas \u00e1rabes. Uma das raz\u00f5es \u00e9 que ningu\u00e9m ali tem qualquer interesse em promover campanhas de propaganda, que custam caro. A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o talvez seja o Bahrain, e a poss\u00edvel influ\u00eancia do Ir\u00e3. Mas n\u00e3o h\u00e1 qualquer garantia de que alguma campanha contra-hegem\u00f4nica pudesse ter qualquer sucesso naquelas monarquias \u00e1rabes.<\/p>\n<p>Depois de derrotar o cl\u00e3 rival al-Rashid em 1921, a fam\u00edlia al-Saud governa atualmente em quase toda a Pen\u00ednsula Ar\u00e1bica hist\u00f3rica. Sua proemin\u00eancia regional deve-se tamb\u00e9m ao controle sobre os locais sagrados de Meca e Medina, e a alian\u00e7a que os sauditas mant\u00eam com os wahabistas, que usam tanto quanto usam o petr\u00f3leo e os recursos minerais deles. Esses recursos subsidiam a ind\u00fastria cultural (e midi\u00e1tica) correspondente. Ainda assim, fatores religiosos e econ\u00f4micos s\u00e3o evidentemente complexos e envolvem vasta rede social. Essa combina\u00e7\u00e3o manifesta-se no que chamo \u201ca \u00e9tica saudita do cacife [do ganho] espiritual\u201d \u2013 mais ou menos semelhante \u00e0 tese de Weber sobre a \u2018\u00e9tica protestante\u2019 que serviu como anteparo \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o da riqueza no norte da Europa.<\/p>\n<p>Mediante a acumula\u00e7\u00e3o de capital nos estados do Golfo nos anos 1970s (controlada por interesses anglo-americanos mediante tratados que levaram grandes n\u00fameros de \u00e1rabes a se tornarem ou economicamente dependentes (nos empregos no Golfo) ou espiritualmente dependentes mediante o cerrado controle sobre a m\u00eddia \u00e1rabe), o boom do petr\u00f3leo criou uma nova estratifica\u00e7\u00e3o no mundo \u00e1rabe. Resultado disso, algumas sociedades \u00e1rabes tornaram-se dependentes, e aceitaram a autoridade, da fam\u00edlia saudita reinante e seus cl\u00e3s. Essas elites s\u00e3o parte das elites econ\u00f4micas governantes propriet\u00e1rias de alguns dos mais valiosos projetos de energia, das maiores fortunas e de vasto patrim\u00f4nio no ocidente (equipes de futebol, as lojas Harrods, mans\u00f5es nos Champs \u00c9lys\u00e9es e sociedade nas empresas de Rupert Murdoch, para citar apenas alguns desses bens).<\/p>\n<p><strong>A recente descoberta de que \u00e1rabes desejam liberdade tem sido promovida, principalmente, por algumas institui\u00e7\u00f5es de m\u00eddia \u00e1rabes e ocidental que s\u00e3o, elas mesmas, extens\u00e3o de pol\u00edticos que t\u00eam objetivo econ\u00f4micos, estrat\u00e9gias e t\u00e1ticas pr\u00f3prias. As campanhas pela m\u00eddia conduzidas por capitalistas neoconservadores sionistas como Bernard-Henri L\u00e9vy, que trabalha agressivamente a favor de Israel e que tem forte afinidade com o juda\u00edsmo fundamentalista visam exclusivamente a separar os \u00e1rabes de seus recursos e riquezas, ao mesmo tempo em que ativamente lhes mentem e os enganam.<\/strong><\/p>\n<p>Isso se faz mediante a dupla estrat\u00e9gia de produzir narrativas separadas para segmentos separados da popula\u00e7\u00e3o. Para os religiosos, a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 associada \u00e0 falta de f\u00e9; e, para a totalidade da na\u00e7\u00e3o \u00e1rabe, vendem o atrativo sonho de liberdade, justi\u00e7a e direitos.<\/p>\n<p>Naturalmente, cada indiv\u00edduo interpretar\u00e1 as narrativas conforme a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o, experi\u00eancia de socializa\u00e7\u00e3o, n\u00edvel de politiza\u00e7\u00e3o, normas e valores. Assim, quando todos se encontram \u2018na pra\u00e7a\u2019, os isl\u00e2micos l\u00e1 est\u00e3o convencidos de que s\u00f3 os livros isl\u00e2micos s\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o; os liberais recordar\u00e3o Jean-Jacques Rousseau, a \u2018separa\u00e7\u00e3o dos poderes\u2019 de Montesquieu e a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa; os marxistas pensar\u00e3o na Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique de 1917 e na luta de classes; e os mao\u00edstas pensar\u00e3o na Revolu\u00e7\u00e3o Cultural de Mao Tse-Tung ou no Nasserismo (afinal, quando um grupo de oficiais do ex\u00e9rcito eg\u00edpcio liderou o golpe e a revolu\u00e7\u00e3o, em 1952, Mao Tse-Tung declarou que \u201ca luta contra a corrup\u00e7\u00e3o e o desperd\u00edcio \u00e9 uma das quest\u00f5es principais que envolve todo o partido\u201d (30\/11\/1951); o que se encaixa bem na miss\u00e3o de combater regimes \u00e1rabes corruptos). Simultaneamente, os que sonham com Castro e Che Guevara correr\u00e3o \u00e0s \u2018barricadas\u2019 nas pra\u00e7as, em disputa contra as for\u00e7as de seguran\u00e7a do Estado.<\/p>\n<p>Na realidade, esses valores pouco significam no mundo \u00e1rabe. E os liberais e sionistas sabem disso. A realidade \u00e9 que, por causa do forte controle social; pelo modo como as sociedades \u00e1rabes organizaram-se no s\u00e9culo passado (incluindo o impacto da heran\u00e7a colonial); e por causa da riqueza do petr\u00f3leo de que usufrui o Isl\u00e3 waabita (e salafistas modernos), exceto a fac\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica, as outras ideologias pouco progresso far\u00e3o, mas, simplesmente, garantir\u00e3o a vit\u00f3ria dos movimentos religiosos.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 verdade, o mundo \u00e1rabe \u00e9 heterog\u00eaneo, mas pouco heterog\u00eaneo. A religi\u00e3o prevaleceu em estados como a Jord\u00e2nia onde, durante d\u00e9cadas, os islamistas controlaram a maior parte dos curr\u00edculos escolares. Assim, em cada estado \u00e1rabe onde houve levantes \u2013 e especialmente no Egito \u2013 h\u00e1 furiosa disputa de poder com vistas \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. A Fraternidade Mu\u00e7ulmana e os salafistas alcan\u00e7aram maioria de votos nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares, e o primeiro presidente democraticamente eleito, Muhammad Mursi (eleito por apenas \u00bc da popula\u00e7\u00e3o), \u00e9 membro da Fraternidade Mu\u00e7ulmana. Os grandes poderes trabalham hoje a favor da promulga\u00e7\u00e3o de uma constitui\u00e7\u00e3o baseada numa importante interpreta\u00e7\u00e3o das leis da Xaria. Em seu Morfologia do Estado, Arist\u00f3teles sugere que \u00e9 preciso \u201cconsiderar n\u00e3o s\u00f3 qual a melhor constitui\u00e7\u00e3o, mas, tamb\u00e9m, qual a mais execut\u00e1vel e mais acess\u00edvel em cada momento\u201d (p. 103). Aos olhos dos fundamentalistas religiosos, podem bem ser as leis da Xaria, enquanto uma solu\u00e7\u00e3o para as elites dominantes ocidentais est\u00e1 em vigor.<\/strong><\/p>\n<p>Dado que garantem seus interesses econ\u00f4micos mediante institui\u00e7\u00f5es de m\u00eddia controladas pela elite religiosa, eles, por sua vez, beneficiam-se tamb\u00e9m dos pr\u00f3prios centros de poder social, econ\u00f4mico e pol\u00edtico; e, dos c\u00edrculos\/classes das elites religiosas emergir\u00e1 um novo nicho de comerciantes e empres\u00e1rios. Grupos religiosos tamb\u00e9m ampliar\u00e3o a pr\u00f3pria participa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Dado que isso beneficiar\u00e1 sua jihad pol\u00edtica, muitos ver\u00e3o tudo isso como halal, dentro ou fora do contexto do banking isl\u00e2mico. A divis\u00e3o social contudo permanecer\u00e1 ou ser\u00e1 ampliada; e a \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que os nomes ter\u00e3o mudado. Em vez de um \u2018Mubarak\u2019, haver\u00e1 outro (mas, dessa vez, ser\u00e1 algu\u00e9m com barba) e essas aparentes \u2018mudan\u00e7as\u2019 servir\u00e3o, exclusivamente, para manter inalterado o controle pol\u00edtico.<\/p>\n<p>As popula\u00e7\u00f5es afetadas s\u00e3o as definidas como \u2018minorias\u2019 \u2013 principalmente \u00e1rabes crist\u00e3os (cerca de 30 milh\u00f5es no mundo \u00e1rabe), mu\u00e7ulmanos seculares (sunitas e xiitas) e outros. No Egito, Mohammad Zawahiri (irm\u00e3o de Ayman Zawahiri, l\u00edder da al-Qaeda) j\u00e1 declarou que os crist\u00e3os eg\u00edpcios devem pagar um imposto (devido pelos infi\u00e9is, Dhimmi), ou deixar o Egito. E caso se recusem, sugeriu que sejam coagidos.<\/p>\n<p>Exemplo de como se pode mobilizar a popula\u00e7\u00e3o mediante a religi\u00e3o, servindo-se da m\u00eddia \u00e9 o que faz o pr\u00f3prio monarca saudita. Durante o m\u00eas de Ramadan 2012, Abdallah da Ar\u00e1bia Saudita e seu herdeiro<\/p>\n<p>lan\u00e7aram campanha de arrecada\u00e7\u00e3o de fundos, supostamente para ajudar o povo s\u00edrio \u2013 ou, pelo menos, era o que dizia o slogan. A campanha baseava-se em normas morais e no senso de comunidade e uni\u00e3o isl\u00e2micas, as mesmas que s\u00e3o enfatizadas durante o m\u00eas santificado do Ramadan. Ao mesmo tempo em que vendem ao povo mensagens de compaix\u00e3o e uni\u00e3o comunit\u00e1ria, essas campanhas s\u00e3o usadas para objetivos pol\u00edticos locais e regionais. \u00c9 imposs\u00edvel imaginar, por exemplo, a S\u00edria, lan\u00e7ando campanha pela libera\u00e7\u00e3o das mulheres sauditas ou a favor do direito de as sauditas dirigirem autom\u00f3veis.<\/p>\n<p><strong>Liberais com ideias \u00e0 Goebbels que se alinham com esses chefes de emirado t\u00eam tentado, at\u00e9 o presente, enganar a opini\u00e3o p\u00fablica \u00e1rabe e construir um consenso de oposi\u00e7\u00e3o ao governo s\u00edrio, para, assim, fugirem das refregas e do calor de suas pr\u00f3prias \u2018ruas\u2019 e \u2018pra\u00e7as\u2019. Ao mesmo tempo em que aderem \u00e0s normas e cren\u00e7as mais arcaicas sobre liberdade e democracia, instigam o golpe contra a S\u00edria, com discurso sobre liberdades para as mulheres, direitos religiosos das minorias, oportunidades e direitos iguais para todos, etc., em tudo semelhante ao que se v\u00ea em pa\u00edses ocidentais liberais. Mais ou menos como regimes \u00e1rabes gostariam de organizar a opini\u00e3o p\u00fablica em apoio aos palestinos, os regimes do Golfo est\u00e3o usando o falso argumento de que s\u00e3o contra a opress\u00e3o dos s\u00edrios&#8230; mas os pr\u00f3prios governos manobram as pr\u00f3prias \u2018ruas\u2019 contra a S\u00edria. E, isso, apesar do fato de que esses pr\u00f3prios governos e governantes est\u00e3o atrasados anos-luz, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 S\u00edria, em termos de liberdades e democracia.<\/strong><\/p>\n<p>Os governos do ocidente n\u00e3o s\u00e3o aliados das democracias liberais no Terceiro Mundo. Eles inevitavelmente fazem neg\u00f3cios com governos que exibem os piores indicadores de direitos humanos, sempre que vejam possibilidade de ganhos. Exatamente como, em julho de 2008, quando Nicolas Sarkozy e o emir do Qatar, hoje arqui-inimigo da S\u00edria, constitu\u00edram, com o governo s\u00edrio, a \u201cUni\u00e3o do Mediterr\u00e2neo\u201d, alguns governos europeus creem que possam auferir benef\u00edcios da crise no mundo \u00e1rabe. Mais ainda, quando t\u00eam o apoio dos ricos estados do Golfo e creem que eles possam, de algum modo, reduzir as dificuldades das crises econ\u00f4micas que o ocidente esteja enfrentando.<\/p>\n<p>Em algumas \u00e1reas da S\u00edria, as condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a pessoal pioraram depois de mar\u00e7o de 2011 e o governo central nem sempre deu mostras de exemplar conduta moral. Mas, como parte de campanha pol\u00edtica estrat\u00e9gica, a m\u00eddia tem intencionalmente mentido sobre a situa\u00e7\u00e3o na S\u00edria. Insistem em implantar medo crescente no p\u00fablico s\u00edrio e manifestam exagerada preocupa\u00e7\u00e3o com o n\u00famero de mortos e feridos.<\/p>\n<p><strong>Assim, constroem uma narrativa que justifica e facilita que se ofere\u00e7a ajuda sempre crescente \u00e0s gangues armadas de separatistas, terroristas e mercen\u00e1rios. A mesma m\u00eddia tamb\u00e9m pinta o governo s\u00edrio como se fosse o \u00fanico respons\u00e1vel pela viol\u00eancia quando, de fato, os verdadeiros respons\u00e1veis s\u00e3o os que recrutam, pagam e armam grupos de indiv\u00edduos desempregados, famintos ou de mercen\u00e1rios manobr\u00e1veis em busca de dinheiro f\u00e1cil.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 dois principais culpados pelos muitos mortos: a mentira e o silenciamento absoluto de qualquer voz de oposi\u00e7\u00e3o. Com seus aliados \u00e1rabes, a OTAN desconectou o sat\u00e9lite de comunica\u00e7\u00e3o que alimentava o canal de televis\u00e3o s\u00edrio al-Dunia, de televis\u00e3o por sat\u00e9lite. Outros atos de terrorismo \u2018comunicacional\u2019 incluem, que se saiba, o sequestro, pela CIA, da conta Twitter da mesma rede al-Dunia \u2013, que passou a ser usada para distribuir not\u00edcias falsas (dentre outras, noticiou a retirada do ex\u00e9rcito s\u00edrio, que n\u00e3o acontecera)<\/p>\n<p>O mesmo sat\u00e9lite \u00e1rabe que a S\u00edria ajudou a implantar depois de destru\u00eddo na Palestina em 1967, est\u00e1 sendo usado hoje contra a S\u00edria, pelos emirados do Golfo \u00c1rabe.<\/p>\n<p><strong>Esse sat\u00e9lite est\u00e1 agora sendo usada no conflito na S\u00edria \u2013 mas contra a S\u00edria \u2013 e inclui desinforma\u00e7\u00e3o sobretudo pelos canais dos quais o Golfo \u00e9 propriet\u00e1rio e que promovem medo e p\u00e2nico da instabilidade econ\u00f4mica na S\u00edria. A m\u00eddia est\u00e1 sendo usada e manipulada para encobrir o incitamento \u00e0 a\u00e7\u00e3o terrorista dirigido \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria e, tamb\u00e9m, para angariar ajuda econ\u00f4mica; e a mesma m\u00eddia exp\u00f5e, ent\u00e3o, as \u2018realiza\u00e7\u00f5es\u2019 saneadas, os \u2018heroicos\u2019 feitos dos \u2018rebeldes\u2019 e, quando necess\u00e1rio, apresentam suas perdas e derrotas como \u2018massacres\u2019.<\/strong><\/p>\n<p>A m\u00eddia dominante no ocidente e dominante tamb\u00e9m no mundo \u00e1rabe praticamente s\u00f3 tem uma op\u00e7\u00e3o: engolir desinforma\u00e7\u00e3o de fontes absolutamente pouco confi\u00e1veis, e desinforma\u00e7\u00e3o que, em seguida, os meios de comunica\u00e7\u00e3o reproduzem e redistribuem para o grande p\u00fablico. Hist\u00f3rias de massacres perpetrados pelo governos s\u00edrios s\u00e3o divulgadas e repetidas incansavelmente para justificar a interven\u00e7\u00e3o estrangeira, e a imagem predominante \u00e9 que o nobre ocidente que se apresenta para salvar uma na\u00e7\u00e3o oprimida do Terceiro Mundo oprimida pela tirania de um macho chovinista opressor. Exatamente o que aconteceu na L\u00edbia. Mesmo assim, uma minoria na m\u00eddia \u00e1rabe, op\u00f5e-se ao plano master; e outra minoria est\u00e1 sentada sobre o muro.<\/p>\n<p>A m\u00eddia \u00e1rabe praticamente toda est\u00e1, direta ou indiretamente na m\u00e3o dos estados do Golfo; praticamente todos os jornalistas est\u00e3o na folha de pagamento desses estados ou seus agentes ou, eficaz e absolutamente iludidos, n\u00e3o encontram meio para compreender e expor as tr\u00e1gicas ramifica\u00e7\u00f5es do que est\u00e1 acontecendo no mundo \u00e1rabe.<\/p>\n<p>Os valores antiguerra de M\u00e3e Coragem de Bertolt Brecht n\u00e3o encontraram absolutamente qualquer espa\u00e7o na agenda dos estados comandados pelo grande petr\u00f3leo. Provavelmente porque s\u00e3o aqueles os valores que mais direta e claramente podem expor a dicotomia entre religi\u00e3o e economia de guerra.<\/p>\n<p>[1] Pode ser lido, em ingl\u00eas, em <a href=\"http:\/\/www.marxists.org\/reference\/archive\/mao\/selected-works\/volume-5\/mswv5_08.htm\" target=\"_blank\">http:\/\/www.marxists.org\/reference\/archive\/mao\/selected-works\/volume-5\/mswv5_08.htm<\/a> [NTs].<\/p>\n<p>_______________________________________________<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.deliberation.info\/dismembering-the-arab-world\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.deliberation.info\/dismembering-the-arab-world\/<\/a><\/p>\n<p>Traduzido pela Vila Vudu<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 3.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor: Dr. Makram Khoury-Machool \u00e9 palestino. Escreve de Cambridge, UK\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3462\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3462","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-TQ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3462","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3462"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3462\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3462"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3462"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3462"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}