{"id":349,"date":"2010-03-22T21:08:22","date_gmt":"2010-03-22T21:08:22","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=349"},"modified":"2010-03-22T21:08:22","modified_gmt":"2010-03-22T21:08:22","slug":"o-que-e-o-sionismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/349","title":{"rendered":"O que \u00e9 o Sionismo?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Teoria e Debate \u2013 Em seu livro The Hidden History of Zionism (A Hist\u00f3ria Oculta do Sionismo), voc\u00ea descreve quatro mitos sobre a hist\u00f3ria do sionismo. N\u00f3s gostar\u00edamos que voc\u00ea explicasse um pouco seu livro.<\/strong><\/p>\n<p>Schoenman \u2013 O meu trabalho na Funda\u00e7\u00e3o Bertrand Russel foi importante por me dar a chance de documentar fatos da forma\u00e7\u00e3o do Estado sionista de Israel. Em cursos e palestras que proferi em mais de uma centena de universidades americanas e europ\u00e9ias, pude constatar que as pessoas n\u00e3o sabiam, n\u00e3o tinham conhecimento da hist\u00f3ria do movimento sionista, dos seus objetivos e de v\u00e1rios fatos. Nessas ocasi\u00f5es deparei com concep\u00e7\u00f5es equivocadas sobre a natureza do Estado de Israel e foi isso que impulsionou o meu trabalho de escrever o livro, The Hidden History of Zionism, no qual eu abordo o que chamo de os quatro mitos que t\u00eam moldado a consci\u00eancia nos estados Unidos e na Europa sobre o sionismo e o Estado de Israel.<\/p>\n<p><strong>T &#038; D &#8211; Quais s\u00e3o esses quatro mitos?<\/strong><\/p>\n<p>Schoenman \u2013 O primeiro mito \u00e9 o da \u201cterra sem povo para um povo sem terra\u201c. Os primeiros te\u00f3ricos sionistas, como Theodor Herzl e outros, apresentaram para o mundo a Palestina como uma terra vazia, visitada ocasionalmente por bedu\u00ednos n\u00f4mades; simplesmente, uma terra vazia, esperando para ser tomada, ocupada. E os judeus eram um povo sem terra, que se originaram historicamente na Palestina; portanto, os judeus deveriam ocupar essa terra. Desde o come\u00e7o, os primeiros n\u00facleos de colonos, promovidos pelo movimento sionista, foram caracterizados pela remo\u00e7\u00e3o, pela expuls\u00e3o armada da popula\u00e7\u00e3o palestina nativa do local o\u00adnde essa popula\u00e7\u00e3o vivia e o\u00adnde essa popula\u00e7\u00e3o trabalhava.<\/p>\n<p><strong>T &#038; D &#8211; Quais os outros tr\u00eas mitos?<\/strong><\/p>\n<p>Schoenman \u2013 O segundo mito que o livro pretende discutir \u00e9 o mito da democracia israelense. A propaganda sionista, desde o in\u00edcio da forma\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, tem insistido em caracterizar Israel como um Estado democr\u00e1tico no estilo ocidental, cercado por pa\u00edses \u00e1rabes feudais, atrasados e autorit\u00e1rios. Apresentam ent\u00e3o Israel como um basti\u00e3o dos direitos democr\u00e1ticos no Oriente M\u00e9dio. Nada poderia estar mais longe da verdade.Entre a divis\u00e3o da Palestina e a forma\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, num per\u00edodo de seis meses, brigadas armadas israelenses ocuparam 75% da terra palestina e expulsaram mais de 800 mil palestinos, de um total de 950 mil. Eles os expulsaram atrav\u00e9s de sucessivos massacres. V\u00e1rias cidades foram arrasadas, for\u00e7ando assim a popula\u00e7\u00e3o palestina a refugiar-se nos pa\u00edses vizinhos, em campos de concentra\u00e7\u00e3o e de refugiados. Naquele tempo, no per\u00edodo da forma\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, havia 475 cidades e vilas palestinas, que ca\u00edram sob o controle israelita. Dessas 475 cidades e vilas, 385 foram simplesmente arrasadas, deixadas em escombros, no ch\u00e3o, apagadas do mapa. Nas 90 cidades e vilas remanescentes, os judeus confiscaram toda a terra, sem nenhuma indeniza\u00e7\u00e3o.Hoje, o Estado de Israel e seus organismos governamentais, tais como o da Organiza\u00e7\u00e3o da Terra, controlam cerca de 95% da terra palestina. Pela legisla\u00e7\u00e3o existente em Israel, \u00e9 necess\u00e1rio provar, por crit\u00e9rios religiosos ortodoxos judeus, a ascend\u00eancia judaica por linhagem materna at\u00e9 a quarta gera\u00e7\u00e3o, para poder possuir terra, trabalhar na terra ou mesmo sublocar terra. Como eu digo sempre, nas palestras em que apresento meus pontos de vista, em qualquer pa\u00eds do mundo (seja Brasil, EUA, o\u00adnde for), se fosse necess\u00e1rio preencher requisitos parecidos com esses, ningu\u00e9m duvidaria do car\u00e1ter racista de tal Estado; seria not\u00f3ria a exist\u00eancia de um regime fascista.A Suprema Corte em Israel tem ratificado que Israel \u00e9 o Estado do povo judeu e que, para participar da vida pol\u00edtica israelense, organizar um partido pol\u00edtico, por exemplo, ou ter uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ou mesmo um clube p\u00fablico, \u00e9 necess\u00e1rio afirmar que se aceita o car\u00e1ter exclusivamente judeu do Estado de Israel. \u00c9 um Estado colonial racista, no qual os direitos s\u00e3o limitados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o colonizadora, na base de crit\u00e9rios raciais.O terceiro mito do qual falo em meu livro \u00e9 aquele criado para justificativa da pol\u00edtica de Israel, que se diz baseada em crit\u00e9rios de seguran\u00e7a nacional. A verdade \u00e9 que Israel \u00e9 a quarta pot\u00eancia militar do mundo. Desde 1948, os EUA deram a Israel US$ 92 bilh\u00f5es em ajuda direta. A magnitude dessa soma pode ser avaliada quando observamos que a popula\u00e7\u00e3o israelense variou entre 2 a 3 milh\u00f5es nesse per\u00edodo. Se o governo americano d\u00e1 algum dinheiro para pa\u00edses como Taiwan, Brasil, Argentina, e a aplica\u00e7\u00e3o desse dinheiro tiver alguma rela\u00e7\u00e3o com fins militares, a condi\u00e7\u00e3o \u00e9 que as compras desse material t\u00eam que ser feitas dos EUA. Mas h\u00e1 uma exce\u00e7\u00e3o: as compras de material b\u00e9lico podem ser feitas tamb\u00e9m de Israel. Israel \u00e9 tratado pelos EUA como parte de seu territ\u00f3rio, em todos os assuntos comerciais.O que motivaria uma pot\u00eancia imperialista a subsidiar tanto um Estado colonial? A verdade \u00e9 que Israel n\u00e3o pode mesmo existir sem a ajuda americana, sem os US$ 10 bilh\u00f5es anuais. Israel \u00e9, portanto, a extens\u00e3o do imperialismo na regi\u00e3o do Oriente m\u00e9dio. Israel \u00e9 o instrumento atrav\u00e9s do qual a revolu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe \u00e9 mantida sob controle. \u00c9, portanto, o instrumento atrav\u00e9s do qual as ricas reservas do Oriente M\u00e9dio s\u00e3o mantidas sob o controle do imperialismo americano. \u00c9 tamb\u00e9m um meio atrav\u00e9s do qual os regimes sanguin\u00e1rios dos pa\u00edses \u00e1rabes s\u00e3o mantidos no governo, gra\u00e7as ao clima de tens\u00e3o gerado por uma poss\u00edvel invas\u00e3o israelense.O quarto mito a que me refiro no livro, que tem influenciado a opini\u00e3o p\u00fablica mundial, refere-se \u00e0 origem do sionismo, \u00e0 origem do Estado de Israel. O sionismo tem sido apresentado como o legado moral do holocausto, das v\u00edtimas do holocausto. O movimento sionista tem como que se \u201calimentado\u201d da mortandade coletiva dos 6 milh\u00f5es de v\u00edtimas da extermina\u00e7\u00e3o nazista na Europa. Esta \u00e9 uma terr\u00edvel e selvagem ironia. A verdade \u00e9 bem o oposto disso. A lideran\u00e7a sionista colaborou com os piores perseguidores dos judeus durante o s\u00e9culo XIX e o s\u00e9culo XX, incluindo os nazistas. Quando algu\u00e9m tenta explicar isso para as pessoas, elas geralmente ficam chocadas, e perguntam: o que poderia motivar tal colabora\u00e7\u00e3o? Os judeus foram perseguidos e oprimidos por s\u00e9culos na Europa e, como todo povo oprimido, foram empurrados, impelidos a desafiar o establishment, o statu quo. Os judeus eram cr\u00edticos, eram dissidentes. Eles foram impelidos a questionar a ordem que os perseguia. Ent\u00e3o, o melhor das mentes da intelig\u00eancia judia foi impelido para movimentos que lutavam por mudan\u00e7as sociais, amea\u00e7ando os governos estabelecidos. Os sionistas exploraram esse fato a ponto de dizer para v\u00e1rios governos reacion\u00e1rios, como o dos mares na R\u00fassia, que o movimento sionista iria ajud\u00e1-los a remover esses judeus de seus pa\u00edses. O movimento sionista fez o mesmo apelo ao kaiser na Alemanha, obtendo dele dinheiro e armas. Eles se reivindicavam como a melhor garantia dos interesses imperialistas no Oriente M\u00e9dio, inclusive para os fascistas e os nazistas.<\/p>\n<p><strong>T &#038; D &#8211; Como se deu essa colabora\u00e7\u00e3o dos sionistas com os nazistas?<\/strong><\/p>\n<p>Schoenman \u2013 Em 1941, o partido pol\u00edtico de Itzhak Shamir (conhecido hoje como Likud) concluiu um pacto militar com o 3\u00ba Reich alem\u00e3o. O acordo consistia em lutar ao lado dos nazistas e fundar um Estado autorit\u00e1rio colonial, sob a dire\u00e7\u00e3o do 3\u00ba Reich. Outro aspecto da colabora\u00e7\u00e3o entre os sionistas e governos e Estados perseguidores dos judeus \u00e9 o fato de que o movimento sionista lutou ativamente para mudar as leis de imigra\u00e7\u00e3o nos EUA, na Inglaterra e em outros pa\u00edses, tornando mais dif\u00edcil a emigra\u00e7\u00e3o de judeus perseguidos na Europa para esses pa\u00edses. Os sionistas sabiam que, podendo, os judeus perseguidos na Europa tentariam emigrar para os EUA, para a Gr\u00e3- Bretanha, para o Canad\u00e1. Eles n\u00e3o eram sionistas, n\u00e3o tinham interesse em emigrar para uma terra remota como a Palestina. Em 1944, o movimento sionista refez um novo acordo com Adolf Eichmann. David Ben Gurion, do movimento sionista, mandou um enviado, de nome Rudolph Kastner, para se encontrar com Eichmann na Hungria e concluir um acordo pelo qual os sionistas concordaram em manter sil\u00eancio sobre os planos de extermina\u00e7\u00e3o de 800 mil judeus h\u00fangaros e mesmo evitar resist\u00eancias, em troca de ter 600 l\u00edderes sionistas libertados do controle nazista e enviados para a Palestina. Portanto, o mito de que o sionismo e o Estado de Israel s\u00e3o o legado moral do holocausto tem um particular aspecto ir\u00f4nico, porque o que o movimento sionista fez quando os judeus na Europa tinham a sua exist\u00eancia amea\u00e7ada foi fazer acordos, e colaborar com os nazistas.<\/p>\n<p><strong>Fonte: Revista Teoria &#038; Debate (Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo) n\u00ba 5 \u2013 janeiro\/fevereiro\/mar\u00e7o de 1989, por Stylianos Tsirakis<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: somostodospalestinos.blogspot.com\n\n\n\n\nENTREVISTA COM O AUTOR DO LIVRO &#8220;A HIST\u00d3RIA OCULTA DO SIONISMO&#8221;\nRalph Schoenman\nAUTOR DO LIVRO &#8221; A HIST\u00d3RIA SECRETA DO SIONISMO&#8221;\nO escritor e diretor da Campanha Palestina pede o fim de toda a ajuda ao Estado de Israel e acusa: \u201cA lideran\u00e7a sionista colaborou com os piores perseguidores dos judeus durante o s\u00e9culo XIX e o s\u00e9culo XX, incluindo os nazistas\u201d\nRalph Schoenman foi diretor-executivo da Funda\u00e7\u00e3o pela Paz Bertrand Russel, papel atrav\u00e9s do qual conduziu negocia\u00e7\u00f5es com in\u00fameros chefes de Estado. Com seu trabalho assegurou a liberta\u00e7\u00e3o de prisioneiros pol\u00edticos em muitos pa\u00edses e fundou o Tribunal Internacional dos Crimes de Guerra dos Estados Unidos na Indochina, organiza\u00e7\u00e3o da qual foi secret\u00e1rio-geral. Velho militante na vida pol\u00edtica, fundou o Comit\u00ea dos 100, que organizou a desobedi\u00eancia civil massiva contra as armas nucleares e as bases americanas na Gr\u00e3-Bretanha. Foi tamb\u00e9m fundador e diretor da Campanha de Solidariedade ao Vietn\u00e3 e diretor do Comit\u00ea \u201cQuem Matou Kennedy?\u201d.Tem sido l\u00edder do Comit\u00ea por Liberdade Art\u00edstica e Intelectual no Ir\u00e3 e co-diretor do Comit\u00ea em Defesa dos Povos Palestino e Liban\u00eas e do Movimento de Solidariedade de Trabalhadores e Artistas Americanos. Atualmente \u00e9 diretor executivo da Campanha Palestina, que clama pelo fim de toda ajuda a Israel e por uma Palestina laica e democr\u00e1tica.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/349\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-349","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5D","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=349"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/349\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}