{"id":3507,"date":"2012-09-08T21:05:11","date_gmt":"2012-09-08T21:05:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3507"},"modified":"2012-09-08T21:05:11","modified_gmt":"2012-09-08T21:05:11","slug":"os-velhinhos-assassinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3507","title":{"rendered":"Os velhinhos assassinos"},"content":{"rendered":"\n<p>Na semana passada, ao ler no site da Folha a not\u00edcia \u201c<em>Justi\u00e7a determina abertura de a\u00e7\u00e3o penal contra militares por crimes na ditadura\u201d<\/em>, atravessou o meu esp\u00edrito uma reprova\u00e7\u00e3o. J\u00e1 no primeiro par\u00e1grafo se anunciava:<\/p>\n<p><em>\u201cMilitares que atuaram na repress\u00e3o durante o regime militar (1964-85) responder\u00e3o a a\u00e7\u00e3o penal por supostos crimes cometidos durante a ditadura\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Por que e como\u00a0<strong>supostos <\/strong>crimes? N\u00e3o bastam as seguidas e cumulativas provas,\u00a0 de testemunhas, de documentos, e at\u00e9 entrevistas de r\u00e9us confessos, para retirar o v\u00e9u da d\u00favida? Mas continuava a not\u00edcia:<\/p>\n<p>\u201c<em>A Justi\u00e7a Federal em Marab\u00e1 (685 km de Bel\u00e9m) aceitou den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e determinou a abertura de a\u00e7\u00e3o penal contra o coronel da reserva Sebasti\u00e3o Rodrigues Curi\u00f3<\/em> (foto acima<em>) , 77, e contra o tenente-coronel da reserva L\u00edcio Maciel, 82\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Depois disso, atravessaram o esp\u00edrito dois espantos. O primeiro foi ver o quanto o assunto justi\u00e7a e ditadura havia sido o mais comentado e enviado no site em 30 de agosto. O segundo foi conhecer o g\u00eanero e grau de coment\u00e1rios que sob a reportagem se abrigavam, dos raivosos defensores do golpe de 64 aos mais complacentes e pacifistas,\u00a0 sempre na velha f\u00f3rmula: para\u00a0 qu\u00ea tanta confus\u00e3o, se tudo \u00e9 morto e passado?<\/p>\n<p>N\u00e3o vem ao caso aqui mostrar o paradoxo de quem argumenta que, por um lado, a hist\u00f3ria da ditadura \u00e9 ultrapassada, e\u00a0 por outro, manter a feroz defesa do regime que n\u00e3o mais existe, como se os anos da guerra fria estivessem em uma geladeira. Do necrot\u00e9rio de 1970, talvez. Importa mais agora, entre os coment\u00e1rios cordatos, um apelo que li dirigido aos brasileiros de bons cora\u00e7\u00f5es, nesta esperta frase:<\/p>\n<p><em>\u201cUm deles tem 77 anos, o outro tem 82. N\u00e3o adianta ficar prendendo ex-coronel que fez crimes na ditadura civil-militar. Nossa ditadura foi a mais branda da Am\u00e9rica Latina, n\u00e3o que eu esteja tentando justific\u00e1-la, mas ficar revogando a lei da Anistia pra prender velhinhos \u00e9 no m\u00ednimo covardia. N\u00e3o sabia que a esquerda queria se vingar de vov\u00f4s\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Vov\u00f3s, poderia ser dito, para ser mais forte a fragilidade dos velhos coitadinhos. Ora, tenho junto a mim um precioso depoimento de uma senhora que teve a sorte de morar no mesmo edif\u00edcio do coronel Vilocq, quando ele estava velhinho. Quando ele n\u00e3o mais era uma fortaleza de abuso e viol\u00eancia. Os mais jovens n\u00e3o sabem, mas Vilocq arrastou Greg\u00f3rio Bezerra por uma corda, espancou o bravo comunista sob cano de ferro, e esteve a ponto de enforc\u00e1-lo em pra\u00e7a p\u00fablica em 1964. Quanta for\u00e7a contra um homem rendido e desarmado. Pois bem, assim me contou a privilegiada:<\/p>\n<p>Muitas vezes, viu a conversarem, em voz amena e agrad\u00e1vel, lado a lado, em suas\u00a0 cadeiras de rodas, Darcy Vilocq e Wandenkolk Wanderley, que moravam no mesmo edif\u00edcio e destino. Olhem que feliz coincid\u00eancia, lado a lado, a ferocidade e o terror. Um, Wandenkolk, ex-delegado, que usava alicate para arrancar \u00a0unhas de comunistas no Recife; outro, Vilocq, sobre quem Greg\u00f3rio fala em suas mem\u00f3rias. Pois ficavam os dois companheiros a cavaquear, pelas tardes, na paz do buc\u00f3lico bairro de Casa Forte.<\/p>\n<p>De Vilocq, a minha privilegiada amiga informa um pouco mais, neste brilho de ironia involunt\u00e1ria da cena brasileira: uma empregada dom\u00e9stica, no pr\u00e9dio em que ele morava,\u00a0 dizia que Vilocq parecia um beb\u00ea, de t\u00e3o inofensivo \u00a0e pac\u00edfico na velhice. A ponto de ela brincar, muitas vezes com ele, dizendo: \u201ceu vou te pegar, eu vou te pegar\u201d. O beb\u00eazinho, o velhinho sorria, j\u00e1 sem a for\u00e7a de espancar com ferro e obrigar um homem a pisar em pedrinhas, depois de lhe arrancar a pele\u00a0 dos p\u00e9s a ma\u00e7arico.<\/p>\n<p>Para infelicidade geral, os dois bons velhinhos j\u00e1 n\u00e3o mais existem. O que gostava de unhas com peda\u00e7os de carne foi para o c\u00e9u aos 90 anos, em 2002. O que tentou enfiar no \u00e2nus de Greg\u00f3rio Bezerra um cano seguiu para Deus aos 93, em mar\u00e7o deste ano. Ficou um vazio nas tardes da hist\u00f3ria onde mora a minha amiga. Como poder\u00e1 a justi\u00e7a humana agora alcan\u00e7\u00e1-los? Com quem brincar\u00e1 a boa mo\u00e7a, empregada dom\u00e9stica?<\/p>\n<p>Pensemos neles, por eles e para a justi\u00e7a que n\u00e3o lhes chegou, quando olharmos os idosos e respeit\u00e1veis Carlos Alberto Brilhante Ustra, David dos Santos Araujo, Ariovaldo da Hora e Silva, Maur\u00edcio Lopes Lima, Carlos Alberto Ponzi, Adriano Bessa Ferreira, Jos\u00e9 Armando Costa, Paulo Avelino Reis, Dulene Aleixo Garcez dos Reis. E outros velhos, muitos outros de Norte a Sul do pa\u00eds, que no tempo de poder foram o terror do Estado no Brasil. Eles ficaram apenas mais velhos, os bons velhinhos assassinos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Viomundo\n\n\n\n\n\n\n\n\nUrariano Mota\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3507\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-3507","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Uz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3507","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3507"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3507\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3507"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3507"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3507"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}