{"id":3510,"date":"2012-09-08T21:24:53","date_gmt":"2012-09-08T21:24:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3510"},"modified":"2012-09-08T21:24:53","modified_gmt":"2012-09-08T21:24:53","slug":"as-farc-e-o-governo-da-colombia-as-perspectivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3510","title":{"rendered":"AS FARC E O GOVERNO DA COL\u00d4MBIA: AS PERSPECTIVAS"},"content":{"rendered":"\n<p>O di\u00e1logo de paz levado adiante em Havana, entre o governo colombiano e as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (FARC) \u201c\u00e9 positivo e confirma a posi\u00e7\u00e3o das FARC de que unicamente a partir do di\u00e1logo podem chegar, talvez, a um acordo\u201d, afirmou o soci\u00f3logo norte-americano James Petras. Por\u00e9m, advertiu que \u201ca situa\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa\u201d porque Juan Manuel Santos n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel; \u201cteremos que esperar para ver como evolui o di\u00e1logo\u201d. A seguir, transcrevemos integralmente a opini\u00e3o de nosso destacado comunista.<\/p>\n<p>Efra\u00edn Chury Iribarne: J\u00e1 estamos em contato com James Petras. Bom dia! Como vai?<\/p>\n<p>James Petras: Muito bem. Bom dia!<\/p>\n<p>EChI: Para come\u00e7ar, gostar\u00edamos de conhecer sua an\u00e1lise sobre estes di\u00e1logos de paz ocorridos em Havana (Cuba) , entre o governo de Juan Manuel Santos, da Col\u00f4mbia, e as FARC (For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia).<\/p>\n<p>JP: \u00c9 uma coisa muito complexa j\u00e1 que n\u00e3o temos muitos detalhes, a n\u00e3o ser o an\u00fancio de que o governo aceita negociar com as FARC, o que \u00e9 uma mudan\u00e7a positiva. Em primeiro lugar, reconhecem que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ganhar o conflito simplesmente aplicando a for\u00e7a. Segundo, reconhecem as FARC como leg\u00edtima for\u00e7a beligerante. E, terceiro, aceitam um territ\u00f3rio neutro para as negocia\u00e7\u00f5es, como Cuba e, depois, Noruega.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o coisas positivas e que confirmam a posi\u00e7\u00e3o das FARC de que, unicamente a partir do di\u00e1logo pode-se chegar, talvez, a um acordo.<\/p>\n<p>Agora, a raz\u00e3o pela qual o governo mudou sua pol\u00edtica est\u00e1 relacionada \u00e0 nova estrat\u00e9gia do governo Santos.<\/p>\n<p>Santos deu luz verde aos capitais mineradores e de petr\u00f3leo em grande escala. Vale ressaltar que as regi\u00f5es onde as minas e os po\u00e7os existem s\u00e3o territ\u00f3rios muito conflituosos, tanto historicamentequanto na atualidade. Ent\u00e3o, para a estrat\u00e9gia econ\u00f4mica de Santos, \u00e9 muito importante pacificar esta \u00e1rea, pois espera enormes fluxos de capitais estrangeiros e, este ano \u00e9 um exemplo, triplicaram osinvestimentos em minera\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>Em contraste com \u00c1lvaro Uribe, Santos acredita que o importante \u00e9 a estabilidade, o investimento e a diminui\u00e7\u00e3o da militariza\u00e7\u00e3o. Segundo minha an\u00e1lise, Santos acredita que a guerra e a militariza\u00e7\u00e3o cumpriram sua tarefa de limitar a oposi\u00e7\u00e3o popular; limitar ou dispersar as bases sociais das FARC, a partir dos massacres e das brutalidades da \u00e9poca de Uribe. \u00c9 que Uribe tinha s\u00f3 um projeto militarista, n\u00e3o tinha um projeto econ\u00f4mico. Santos possui um projeto econ\u00f4mico. Por isso, em primeira inst\u00e2ncia, chegou a um acordo com (o presidente venezuelano) Hugo Ch\u00e1vez, em fun\u00e7\u00e3o dos interesses econ\u00f4micos, de interc\u00e2mbio de produtos venezuelanos e produtos colombianos.<\/p>\n<p>Este contexto, de primazia econ\u00f4mica, indica que o senhor Santos est\u00e1 mais disposto a buscar uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sempre que n\u00e3o toque no projeto econ\u00f4mico, que depende muito dos fluxos de capitais estrangeiros, principalmente capitais extrativos.<\/p>\n<p>Por outro lado, as FARC acreditam que agora, com os movimentos populares, com a Marcha Patri\u00f3tica e com outras mobiliza\u00e7\u00f5es populares, est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de apresentar o programa de transforma\u00e7\u00f5es sociais a partir de maior acesso ao grande p\u00fablico.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, estas duas coisas juntas significam que depende muito da agenda. Primeiro, Santos est\u00e1 disposto a desmobilizar os grupos paramilitares, o que j\u00e1 come\u00e7ou a fazer. Segundo, est\u00e1 disposto a terminar ou diminuir, reduzir os massacres generalizados. Terceiro, est\u00e1 disposto a permitir a inser\u00e7\u00e3o das FARC no processo pol\u00edtico eleitoral. Por\u00e9m, o que n\u00e3o est\u00e1 disposto, o que n\u00e3o vai tolerar \u00e9 uma reforma agr\u00e1ria, nem uma renegocia\u00e7\u00e3o de contratos com o capital estrangeiro \u2013 que \u00e9 o modelo extrativo \u2013 nem nenhuma posi\u00e7\u00e3o que permita uma pol\u00edtica que possa estender a participa\u00e7\u00e3o popular no processo pol\u00edtico-social. Ou seja, ele quer manter o processo dentro dos par\u00e2metros existentes.<\/p>\n<p>Agora, a que grau as FARC est\u00e3o dispostas a chegar a um acordo sobre as bases de Santos, mantendo o modelo econ\u00f4mico, simplesmente mantendo os camponeses nos territ\u00f3rios fronteiri\u00e7os e n\u00e3o cultivados, e sacrificar a pol\u00edtica nacionalista em rela\u00e7\u00e3o ao capital estrangeiro?<\/p>\n<p>Teremos que ver. Por\u00e9m, de todo modo, eu duvido que as FARC \u2013 pelo menos a maioria dos l\u00edderes e militantes \u2013 possam aceitar estas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias anteriores n\u00e3o s\u00e3o alentadoras. Cada vez que os militantes das FARC entraram no jogo pol\u00edtico foram massacrados, como aconteceu com a Uni\u00e3o Patri\u00f3tica. Tivemos a interven\u00e7\u00e3o militar durante as negocia\u00e7\u00f5es de 1999-2001.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, tamb\u00e9m pode ser uma armadilha de Santos para elimin\u00e1-los.<\/p>\n<p>O outro perigo \u00e9 assinar um acordo como na Am\u00e9rica Central \u2013 El Salvador, Guatemala, etc \u2013, onde, simplesmente, a c\u00fapula guerrilheira conseguiu prerrogativas parlamentares e nada mudou. Inclusive, aumentou a viol\u00eancia, pois, em que pese a desmobiliza\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias, guerrilheiros e paramilitares, agora h\u00e1 mais mortos que antes, durante a guerra civil de El Salvador, por exemplo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, um acordo ao estilo salvadorenho \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o de tudo o que foi a base social da luta e \u00e9 outro ponto de refer\u00eancia que devemos considerar.<\/p>\n<p>Em suma, o fato de que existam movimentos a n\u00edvel pol\u00edtico, o fato de que as FARC tenham agora uma plataforma para articular as mudan\u00e7as necess\u00e1rias \u2013 como a renegocia\u00e7\u00e3o de contratos de investimentos, mudan\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 propriedade de terra, atacar as ra\u00edzes da colabora\u00e7\u00e3o militar paramilitar, etc \u2013, me parece que principalmente o fato de ter essa plataforma agora, de apresentar uma alternativa, \u00e9 muito positivo. \u00c9 preciso dizer tamb\u00e9m que existem perigos em todos os lados. Santos n\u00e3o \u00e9 muito confi\u00e1vel como interlocutor, n\u00e3o s\u00f3 por seu passado como Ministro de Defesa e assassinojunto a Uribe, mas tamb\u00e9m pela defesa desse novo modelo, um modelo que d\u00e1 muita import\u00e2ncia ao capital estrangeiro, \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de riquezas e o deslocamento de camponeses dos centros produtivos da terra.<\/p>\n<p>Reitero: a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa. Por um lado, existe uma abertura com a Venezuela e, por outro, as bases militares norte-americanas permanecem na Col\u00f4mbia. Por um lado, abre negocia\u00e7\u00f5es e di\u00e1logo com as FARC. Ao mesmo tempo, assina um acordo de livre com\u00e9rcio com os Estados Unidos. Por um lado, est\u00e1 disposto a considerar a realoca\u00e7\u00e3o dos refugiados e, por outro lado, est\u00e1 promovendo o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, existe uma combina\u00e7\u00e3o de fatores novos que, pelo menos a partir da perspectiva do passado, s\u00e3o diferentes. No fundo, Santos n\u00e3o vai trair as classes dominantes e nem os seus acordos com os Estados Unidos, ainda que v\u00e1 modificar o grau de militariza\u00e7\u00e3o para favorecer seu projeto econ\u00f4mico, que significa o desenvolvimentismo com amplo espa\u00e7o para o capital estrangeiro. Isto \u00e9 a chave. E a seguran\u00e7a dos investimentos \u00e9 pr\u00e9-requisito. E, para conseguir isto, necessita de um acordo com as FARC. Um acordo que simplesmente permita \u00e0s FARC desmobilizar-se e inserir-se na pol\u00edtica atual.<\/p>\n<p>*Entrevista a R\u00e1dio Centen\u00e1rio, Montevid\u00e9u (Uruguai)<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: CI\n\n\n\n\n\n\n\n\nA an\u00e1lise de James Petras*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3510\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-3510","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-UC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3510","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3510"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3510\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3510"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}