{"id":3518,"date":"2012-09-11T05:28:09","date_gmt":"2012-09-11T05:28:09","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3518"},"modified":"2012-09-11T05:28:09","modified_gmt":"2012-09-11T05:28:09","slug":"o-sitio-da-tortura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3518","title":{"rendered":"O s\u00edtio da tortura"},"content":{"rendered":"\n<p>Na zona sul de S\u00e3o Paulo um s\u00edtio isolado guarda hist\u00f3rias de terror que podem ajudar a entender um dos pontos obscuros da ditadura, os centros clandestinos de tortura. E a assombrosa colabora\u00e7\u00e3o civil<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea est\u00e1 em poder do bra\u00e7o clandestino da repress\u00e3o. Ningu\u00e9m pode te tirar daqui\u201d, \u00e9 o que voc\u00ea ouve quando chega no s\u00edtio, depois de mais de uma hora metido no banco de tr\u00e1s do fusquinha com um capuz quente na cabe\u00e7a, e a cabe\u00e7a entre as pernas.<\/p>\n<p>Voc\u00ea foi apanhado na Avenida Brigadeiro Luis Ant\u00f4nio, uma das mais movimentadas de S\u00e3o Paulo. Te enfiaram dentro do carro, dois homens grandes, meteram o capuz. Ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 todo ouvidos e corpo, e cada balan\u00e7o ou ru\u00eddo vai se gravando na sua mente t\u00e3o vivo que voc\u00ea se lembrar\u00e1 deles para o resto da vida.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/sitio-v2.png?w=747\" border=\"0\"  \/>Minutos depois, pegam a estrada. Tr\u00e1fego intenso. Saem da cidade, estradinha de terra, passa um trem, devagar. Quando o carro finalmente estaciona, voc\u00ea ouve a frase de boas-vindas e, apavorado, consegue memorizar o ch\u00e3o de cimento, por onde \u00e9 empurrado antes de ser arremessado por escada que leva a um lugar subterr\u00e2neo. Os seus algozes chamam aquilo de \u201cburaco\u201d, com raz\u00e3o. N\u00e3o tijolos, nem paredes, o calor \u00e9 forte\u00e7 cada vez que voc\u00ea apalpa \u00e0 volta, caem blocos de terra molhada. O ch\u00e3o \u00e9 lodoso. Seu cativeiro \u00e9 \u00famido e infinito.<\/p>\n<p>Quando te tiram a roupa \u2013 voc\u00ea vai ficar assim por muito tempo. Primeiro: o pau-de-arara. Trata-se de um invento simples, bem brasileiro. Uma barra de ferro apoiada sobre cavaletes, onde te penduram enrolado, pesando sobre os bra\u00e7os e pernas. Eles te batem, te chutam, d\u00e3o choque el\u00e9tricos; nada de maquininha de Tio Sam, s\u00e3o fios desencapados que chegam diretamente no sovaco, na barriga, na boca.<\/p>\n<p>Se divertem com isso, assim como se divertiram desde sempre aqueles que t\u00eam o poder de torturar. Quando voc\u00ea fraqueja, te levam a outra sala \u2013 piso de taco \u2013 onde perguntam tudo o que sabe, que atordoado voc\u00ea tenta esconder. Eles n\u00e3o v\u00e3o te deixar em paz.<\/p>\n<p>Voc\u00ea se pergunta: por que est\u00e1 ali? \u00c9 1975. J\u00e1 se passaram dez anos desde o golpe militar no Brasil. O novo governo dos milicos (general Ernesto Geisel) prometia uma volta pac\u00edfica \u00e0 democracia, com um governo civil.<\/p>\n<p>Depois de prender centenas de opositores, mandar milhares para o ex\u00edlio e exterminar os grupos de resist\u00eancia armada, a ditadura come\u00e7ava a querer ser vista como \u201cditabranda\u201d. \u00c9 claro que voc\u00ea n\u00e3o acreditava, mas estava em todos os jornais. De qualquer forma, voc\u00ea era conhecido publicamente, n\u00e3o devia temer. Jamais se envolveu na luta armada; advogado, comunista do Partid\u00e3o (PCB), foi vereador e deputado federal, voc\u00ea sempre acreditou na pol\u00edtica. Pela sua atua\u00e7\u00e3o, j\u00e1 havia sido preso. Mas torturado, jamais. At\u00e9 o dia 1 de outubro de 1975.<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 tinha ouvido falar nesse tipo de lugar. O chachoalhar do carro rumo \u00e0 zona rural s\u00f3 confirmou que voc\u00ea iria sofrer mais \u2013 que iria morrer. N\u00e3o estavam te levando para uma delegacia, onde bem ou mal algu\u00e9m poderia te ver e lembrar de voc\u00ea. Estava caindo nos bra\u00e7os clandestinos do horrendo regime militar.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/sitiov61.png?w=747\" border=\"0\"  \/><\/p>\n<p>Existiam dezenas de lugares como esse. Eram os centros clandestinos de tortura. Ao mesmo tempo em que o governo militar come\u00e7ava a falar em abertura, os milicos e policiais civis usaram esses lugares para seguir com seu velho m\u00e9todo de fazer as coisas. Em meados da d\u00e9cada de 70, o governo falava em acabar com as torturas, e os \u201cteatrinhos\u201d foram banidos: aquelas cenas de falso tiroteio armadas para encobrir a morte de gente que fora na verdade morta sob tortura (era assim que os policias chamavam a encena\u00e7\u00e3o descarada).<\/p>\n<p>Nos centros clandestinos, torturava-se em segredo, e n\u00e3o raro se sumia com os corpos. Muitos dos desaparecidos da ditadura brasileira passaram por eles.<\/p>\n<p>Ali, fora do aparato oficial, podia-se massacrar ao ar livre. No seu caso, a tortura usava o que o s\u00edtio tinha a oferecer: as \u00e1rvores, o a\u00e7ude, os dois lagos.<\/p>\n<p>Segundo: a sufoca\u00e7\u00e3o. Eles te levam para um c\u00f3rrego raso, com pedras no fundo. Ali, soltam \u00e1gua de uma esp\u00e9cie de reservat\u00f3rio e voc\u00ea \u00e9 jogado para baixo, ralando nas pedras as feridas do corpo. Terceiro: a \u201cpiscina\u201d, como eles chamam, na verdade um po\u00e7o lamacento onde te afogam segurando sua cabe\u00e7a. Quarto: a \u00e1rvore. Pendurado pelos p\u00e9s, voc\u00ea recebe socos, choque el\u00e9tricos. Um qu\u00edmico \u00e9 jogado sobre seu corpo, arde. Seus gritos se misturam ao de outras pessoas, que voc\u00ea ouve estarem sendo torturadas \u2013 homens, mulheres.<\/p>\n<p>Um dia, te tiram dali, apressadamente. Dizem que seu sumi\u00e7o foi denunciado no congresso nacional e na assembl\u00e9ia do Rio de Janeiro. V\u00e3o ter que te liberar. Seu mart\u00edrio acaba numa casa, na periferia de uma cidade. Um m\u00e9dico o visita diariamente, para assegurar que voc\u00ea estar\u00e1 \u201capresent\u00e1vel\u201d quando for solto. No dia 22 de outubro de 1975, finalmente voc\u00ea tira o capuz.<\/p>\n<p>O seu nome \u00e9 Affonso Celso Nogueira Monteiro. Em 2011, aos 89 anos, os olhos ainda ficar\u00e3o opacos quando lembrar daqueles dias e o seu corpo, envelhecido, guardar\u00e1 ainda todas as marcas. Voc\u00ea \u00e9 o \u00fanico prisioneiro que saiu com vida da Fazenda 31 de Mar\u00e7o \u2013 nome do s\u00edtio clandestino de tortura, uma homenagem \u00e0 data do golpe militar de 1964.<\/p>\n<p>Quarenta anos depois, a fazenda continuar\u00e1 l\u00e1, com a mesma cara, esquecida pelo tempo, escondida numa estrada de terra no bairro de Parelheiros, na zona sul de S\u00e3o Paulo, bem na divisa com Itanha\u00e9m e Embu-Gua\u00e7u.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/Nova-Imagem.bmp\" border=\"0\" width=\"100%\" \/><\/p>\n<p>Muitos n\u00e3o tiveram a mesma sorte. Ant\u00f4nio Bicalho Lana e sua companheira S\u00f4nia Moraes, ambos da guerrilha A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), foram assassinados no s\u00edtio em 1973. Depois, foram levados at\u00e9 o bairro de Santo Amaro, onde se encenou um tiroteio \u2013 mais um dos \u201cteatrinhos\u201d. Foram enterrados em vala comum. Ali tamb\u00e9m mataram o l\u00edder estudantil Antonio Benetazzo, em 1972, preso na Vila Carr\u00e3o, norte de S\u00e3o Paulo. A vers\u00e3o oficial, veja, \u00e9 depois de preso ele teria se jogado sob as rodas de um caminh\u00e3o. Foi enterrado como indigente.<\/p>\n<p><strong>Fagundes, o \u201cpacificador\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O s\u00edtio 31 de mar\u00e7o \u00e9 a prova de que existia uma rede de locais clandestinos de tortura no Brasil nos anos 70. Mas, como grande parte da hist\u00f3ria da ditadura militar brasileira, jamais se investigou como e quando foram usados.<\/p>\n<p>No Brasil, diferente de pa\u00edses vizinhos como Chile e Argentina, jamais um \u00fanico militar foi punido pela tortura sistem\u00e1tica adotada pela ditadura. Naqueles pa\u00edses, lugares como esse viraram museus, memoriais \u00e0s v\u00edtimas, marcos hist\u00f3ricos para que o passado n\u00e3o volte.<\/p>\n<p>Os s\u00edtios da tortura s\u00f3 eram poss\u00edveis por causa do apoio de civis, gente endinheirada que apoiava a ditadura e emprestava seu im\u00f3veis para a repress\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/Fagundes.png?w=747\" border=\"0\"  \/><\/p>\n<p>Nenhum deles jamais foi levado \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>O \u201cdono\u201d do s\u00edtio 31 de Mar\u00e7o era um empres\u00e1rio mineiro, Joaquim Rodrigues Fagundes. Acusado de grileiro, ele se apossou da terra nos primeiros anos da d\u00e9cada de 70. Chegou tocando o terror: junto com capangas, exibiam armas de uso exclusivo das For\u00e7as Armadas, invadiam a casa de moradores, chegaram a surrar um deles para que \u201cdesse o fora\u201d, como se dizia na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Fagundes se gabava de ser amigo do \u201cpessoal do Doi-Codi\u201d, a central mlitar que comandava a repress\u00e3o. Seu caseiro na \u00e9poca, Alcides de Souza, reconheceu que ele emprestava o s\u00edtio para os milicos fazerem treinamento. &#8220;Tem vez que chegam aqui dois mil homens \u2013 acampam, correm pra c\u00e1, pra l\u00e1, d\u00e3o tiros, cortam a mata\u201d, disse.<\/p>\n<p>Fagundes era dono da Transportes Rimet Ltd, na Mo\u00f3ca. Sua empresa n\u00e3o fazia muita coisa. Tinha um \u00fanico cliente, a estatal Telesp \u2013 Telecomunica\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Paulo, que na \u00e9poca controlada pelos militares do governo paulista. Ali na Mo\u00f3ca, era sempre visto acompanhado pelos bravos amigos de farda, como o coronel Erasmo Dias, conhecido por tere invadido a universidade cat\u00f3lica (PUC) e metido ferro nos estudantes. Ele mesmo ia uma vez por semana at\u00e9 a sede do Doi-Codi, na rua Tut\u00f3ia. \u201cEle tinha autoridade, andava com os milicos\u201d, lembram os vizinhos.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o tinha ningu\u00e9m gemendo ou sufocando, a turminha de Fagundes usava o s\u00edtio para churrascos e almo\u00e7os festivos. Vinham nomes como mesmo Erasmo Dias, bem como o Coronel Brilhante Ustra, cujo comando do Doi-Codi foi marcado por mais de 500 den\u00fancias de tortura, e o delegado da policia civil S\u00e9rgio Paranhos Fleury, que comandava esquadr\u00f5es das morte antes da diutadura, e o massacre dos opositores depois. S\u00f3 a nata da repress\u00e3o. \u201cO Fleury era amig\u00e3o da gente\u201d lembra Alcides, o caseiro.<\/p>\n<p>A ajuda de Fagundes foi reconhecida. Em 30 de junho de 1977, recebeu a Ordem do M\u00e9rito do Pacificador, por \u201cservi\u00e7os prestado ao pa\u00eds\u201d. O mineiro tinha tanto orgulho da sua liga\u00e7\u00e3o com o ex\u00e9rcito que, logo abaixo da placa com o nome da fazenda 31 de Mar\u00e7o colocou outra, dizendo: \u201cpropriet\u00e1rio: pacificador Fagundes\u201d.<\/p>\n<p>Jamais foi militar, jamais teve um cargo oficial. E jamais foi chamado a prestar contas pela sua atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio. Em 1984, recebeu uma comenda do Ex\u00e9rcito, tornando-se, oficialmente, \u201ccomendador\u201d, t\u00edtulo que consta ainda hoje na sua l\u00e1pide no Cemit\u00e9rio da Quarta Parada, zona leste de S\u00e3o Paulo. O pa\u00eds agradece.<\/p>\n<blockquote data-secret=\"AIhxJK5136\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"http:\/\/apublica.org\/2011\/08\/o-sitio-da-tortura\/\">O s\u00edtio da tortura<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"http:\/\/apublica.org\/2011\/08\/o-sitio-da-tortura\/embed\/#?secret=AIhxJK5136\" data-secret=\"AIhxJK5136\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;O s\u00edtio da tortura&#8221; &#8212; P\u00fablica\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: http:\/\/apublica.org\/\n\n\n\n\n\n\n\n\n08.08.11 Por Natalia Viana, da P\u00fablica, com Tony Chastinet e Luiz Malavolta\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3518\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-3518","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-UK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3518","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3518"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3518\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3518"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}