{"id":3559,"date":"2012-09-18T19:27:54","date_gmt":"2012-09-18T19:27:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3559"},"modified":"2012-09-18T19:27:54","modified_gmt":"2012-09-18T19:27:54","slug":"outono-quente-na-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3559","title":{"rendered":"Outono quente na Europa"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;Devemos deixar de ser sujeitos individuais e isolados, e converter-nos em agentes da mudan\u00e7a, em ativistas sociais interligados&#8221; Como se as f\u00e9rias de ver\u00e3o fossem um manto de esquecimento que dissipasse a brutalidade da crise, os meios de comunica\u00e7\u00e3o tentaram distrair-nos com doses massivas de embrutecimento coletivo: Europeu de futebol, Jogos Ol\u00edmpicos, aventuras estivais de &#8216;famosos&#8217;, etc. Tentaram fazer-nos esquecer que uma nova ronda de cortes se avizinha e que o segundo resgate de Espanha ser\u00e1 socialmente mais lament\u00e1vel&#8230; Mas n\u00e3o o conseguiram. Entre outras raz\u00f5es, porque as audazes a\u00e7\u00f5es de Juan Manuel S\u00e1nchez Gordillo e do Sindicato Andaluz de Trabalhadores (SAT) romperam o esquecimento e mantiveram o alerta social. O outono ser\u00e1 quente.<\/p>\n<p>Numa conversa p\u00fablica mantida em agosto passado (1) com o fil\u00f3sofo Zygmunt Bauman coincid\u00edamos na necessidade de romper com o pessimismo que prevalece na nossa sociedade desiludida com o modo tradicional de fazer pol\u00edtica. Devemos deixar de ser sujeitos individuais e isolados, e converter-nos em agentes da mudan\u00e7a, em ativistas sociais interligados. &#8220;Temos o dever de assumir o controlo das nossas pr\u00f3prias vidas \u2013 afirmou Bauman. Vivemos um momento de grave incerteza onde o cidad\u00e3o n\u00e3o sabe realmente quem est\u00e1 no comando, e isso leva-nos a perder a confian\u00e7a nos pol\u00edticos e nas institui\u00e7\u00f5es tradicionais. O efeito sobre a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de constante medo, de inseguran\u00e7a&#8230; Os pol\u00edticos sugestionam os cidad\u00e3os a que tenham sempre medo, para assim poder control\u00e1-los, constranger os seus direitos e limitar as liberdades individuais. Estamos num momento muito perigoso, porque as consequ\u00eancias de tudo isto afeta a nossa vida di\u00e1ria: repetem-nos que devemos ter seguran\u00e7a no trabalho, mant\u00ea-lo apesar das duras condi\u00e7\u00f5es de emprego e de precariedade, porque assim obteremos dinheiro para poder gastar&#8230; O medo \u00e9 uma forma de controlo social muito poderosa&#8221;.<\/p>\n<p>Se o cidad\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o sabe quem est\u00e1 no comando \u00e9 porque se produziu uma bifurca\u00e7\u00e3o entre poder e pol\u00edtica. At\u00e9 h\u00e1 pouco, pol\u00edtica e poder confundiam-se. Numa democracia, o candidato (ou a candidata) que, pela via pol\u00edtica, conquistava eleitoralmente o poder Executivo, era o(a) \u00fanico(a) que podia exerc\u00ea-lo (ou deleg\u00e1-lo) com toda a legitimidade. Hoje, na Europa neoliberal, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim. O sucesso eleitoral de um Presidente n\u00e3o lhe garante o exerc\u00edcio do poder real. Porque, por cima do eleito pol\u00edtico, encontram-se (al\u00e9m de Berlim e Angela Merkel) dois supremos poderes n\u00e3o eleitos que ele n\u00e3o controla e que ditam a sua conduta: a tecnocracia europeia e os mercados financeiros.<\/p>\n<p>Estas duas inst\u00e2ncias imp\u00f5em a sua agenda. Os eurocratas exigem obedi\u00eancia cega aos tratados e mecanismos europeus que s\u00e3o, geneticamente, neoliberais. Pela sua parte, os mercados sancionam qualquer indisciplina que se desvie da ortodoxia neoliberal. De tal modo que, prisioneiro do caudal destas duas r\u00edgidas ribeiras, o rio da pol\u00edtica avan\u00e7a obrigatoriamente na dire\u00e7\u00e3o \u00fanica sem qualquer margem de manobra. Ou seja: sem poder.<\/p>\n<p>&#8220;As institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas tradicionais s\u00e3o cada vez menos criveis \u2013 disse Zygmunt Bauman \u2013 porque n\u00e3o ajudam a solucionar os problemas com que os cidad\u00e3os se viram envolvidos de repente. Produziu-se um colapso entre as democracias (o que as pessoas votaram), e os diktats impostos pelos mercados, que engolem os direitos sociais das pessoas, os seus direitos fundamentais&#8221;.<\/p>\n<p>Estamos a assistir \u00e0 grande batalha do Mercado contra o Estado. Cheg\u00e1mos a um ponto em que o Mercado, na sua ambi\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria, quer controlar tudo: a economia, a pol\u00edtica, a cultura, a sociedade, os indiv\u00edduos&#8230; E agora, associado aos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas que funcionam como o seu aparelho ideol\u00f3gico, o Mercado deseja tamb\u00e9m desmantelar o edif\u00edcio dos avan\u00e7os sociais, aquilo a que chamamos: &#8220;Estado de bem-estar&#8221;.<\/p>\n<p>Est\u00e1 em jogo algo fundamental: a igualdade de oportunidades. Por exemplo, de forma silenciosa est\u00e1-se a privatizar (ou seja: a transferir para o mercado) a educa\u00e7\u00e3o. Com os cortes, vai-se criar uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de baixo n\u00edvel na qual as condi\u00e7\u00f5es de trabalho v\u00e3o ser estruturalmente dif\u00edceis, tanto para os professores como para os alunos. O ensinamento p\u00fablico vai ter cada vez mais dificuldades para favorecer a emerg\u00eancia de jovens de origem humilde. Em troca, para as fam\u00edlias ricas, o ensinamento privado vai conhecer seguramente um auge maior. V\u00e3o-se criar de novo categorias sociais privilegiadas que aceder\u00e3o aos postos de comando do pa\u00eds. E outras, de segunda categoria, que s\u00f3 ter\u00e3o acesso aos postos de obedi\u00eancia. \u00c9 intoler\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a crise provavelmente atua como o choque, de que fala a soci\u00f3loga Naomi Klein no seu livro A Doutrina do Choque (2): utiliza-se o desastre econ\u00f3mico para permitir que a agenda do neoliberalismo se realize. Criaram-se mecanismos para ter as democracias nacionais vigiadas e sob controlo, para poder aplicar (como est\u00e1 a acontecer em Espanha e aconteceu antes na Irlanda, em Portugal ou na Gr\u00e9cia) ferozes programas de ajustamento vigiados por uma nova autoridade: a troika composta pelo Fundo Monet\u00e1rio Internacional, a Comiss\u00e3o Europeia e o Banco Central Europeu; institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o democr\u00e1ticas cujos membros n\u00e3o s\u00e3o eleitos pelo povo. Institui\u00e7\u00f5es que n\u00e3o representam os cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>E no entanto, estas institui\u00e7\u00f5es \u2013 com o apoio dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas que obedecem aos interesses de grupos de press\u00e3o econ\u00f3micos, financeiros e industriais \u2013 s\u00e3o as encarregadas de criar as ferramentas de controlo que reduzem a democracia a um teatro de sombras e de apar\u00eancias. Com a cumplicidade dos grandes partidos de governo. Que diferen\u00e7a h\u00e1 entre a pol\u00edtica de cortes de Rodr\u00edguez Zapatero e a de Mariano Rajoy? Muito pouca. Ambos se curvaram servilmente aos especuladores financeiros e obedeceram cegamente \u00e0s consignas eurocr\u00e1ticas. Ambos liquidaram a soberania nacional. Nenhum dos dois tomou qualquer decis\u00e3o pol\u00edtica para p\u00f4r um freio \u00e0 irracionalidade dos mercados. Ambos consideraram que, face aos diktats de Berlim e ao ataque dos especuladores, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o consiste \u2013 \u00e0 semelhan\u00e7a de um rito antigo e cruel \u2013 em sacrificar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o como se o tormento infligido \u00e0s sociedades pudesse acalmar a gan\u00e2ncia dos mercados.<\/p>\n<p>Em semelhante contexto, os cidad\u00e3os t\u00eam a possibilidade de reconstruir a pol\u00edtica e de regenerar a democracia? Sem d\u00favida. O protesto social n\u00e3o para de amplificar-se. E os movimentos sociais reivindicativos v\u00e3o-se multiplicar. Por agora, a sociedade espanhola ainda cr\u00ea que esta crise \u00e9 um acidente e que as coisas voltar\u00e3o rapidamente a ser como eram. \u00c9 uma miragem. Quando tomar consci\u00eancia de que isso n\u00e3o ocorrer\u00e1 e de que estes ajustamentos n\u00e3o s\u00e3o &#8220;de crise&#8221; mas que s\u00e3o estruturais, que v\u00eam para ficar definitivamente, ent\u00e3o o protesto social alcan\u00e7ar\u00e1 um n\u00edvel importante.<\/p>\n<p>Que exigir\u00e3o os que v\u00e3o protestar? O nosso amigo Zygmunt Bauman \u00e9 claro: &#8220;Devemos construir um novo sistema pol\u00edtico que permita um novo modelo de vida e uma nova e verdadeira democracia do povo&#8221;. De que estamos \u00e0 espera?<\/p>\n<p>Artigo publicado em Le Monde Diplomatique em espanhol. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Santos para\u00a0<a href=\"http:\/\/esquerda.net\/\" target=\"_blank\">esquerda.net<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/outono-quente-por-ignacio-ramonet\/24626\" target=\"_blank\">http:\/\/www.esquerda.net\/artigo\/outono-quente-por-ignacio-ramonet\/24626<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p>1 No quadro do F\u00f3rum Social organizado durante o Festival Rototom Sunsplash em Benic\u00e0ssim (Castell\u00f3n) de 16 a 23 de agosto de 2012.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.rototomsunsplash.com\/es\" target=\"_blank\">www.rototomsunsplash.com\/es<\/a><\/p>\n<p>2 Naomi Klein,A doutrina do choque. O auge do capitalismo do desastre, Paid\u00f3s, Barcelona, 2007.<\/p>\n<p>Sobre o\/a autor\/a \u00bb<\/p>\n<p>Ignacio Ramonet<\/p>\n<p>Jornalista. Foi director do Le Monde Diplomatique entre 1990 e 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Jornalismob\n\n\n\n\n\n\n\n\n15 Setembro, 2012 | Por Ignacio Ramonet\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3559\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3559","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Vp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3559","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3559"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3559\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3559"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3559"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3559"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}