{"id":356,"date":"2010-03-24T15:08:04","date_gmt":"2010-03-24T15:08:04","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=356"},"modified":"2010-03-24T15:08:04","modified_gmt":"2010-03-24T15:08:04","slug":"antonio-carlos-mazzeo-o-voo-de-minerva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/356","title":{"rendered":"Antonio Carlos Mazzeo &#8211; O V\u00f4o de Minerva"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"justify\">A quest\u00e3o est\u00e1 no que devemos fazer para avan\u00e7ar na representatividade e na legitimidade de nossos parlamentares. Ter\u00edamos que pensar em a\u00e7\u00f5es e medidas pol\u00edticas que garantissem o avan\u00e7o de uma <em>democracia substantiva<\/em>, a partir de uma ampla participa\u00e7\u00e3o popular nos processos decis\u00f3rios do pa\u00eds e onde as elei\u00e7\u00f5es fossem o resultado de uma efetiva presen\u00e7a dos trabalhadores na vida nacional. Devemos criar condi\u00e7\u00f5es para ampliar os espa\u00e7os na midia para os debates das quest\u00f5es de interesse nacional, dever\u00edamos optar pelo financiamento p\u00fablico das campanhas eleitorais e refor\u00e7ar o amplo debate das propostas program\u00e1ticas dos partidos pol\u00edticos. Se a vota\u00e7\u00e3o fosse nos partidos em listas partid\u00e1rias flex\u00edveis, refor\u00e7ando os compromissos program\u00e1ticos a representa\u00e7\u00e3o parlamentar sairia muito mais fortalecida e legitimada. Devemos pensar numa reforma pol\u00edtica de fundo, optar pelo unicameralismo, acabar com exist\u00eancia anacr\u00f4nica do senado e refor\u00e7ar a C\u00e2mara dos Deputados, dando a ela qualidade, fortalecendo o elemento program\u00e1tico do processo eleitoral.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>2- Em que ponto o conceito de democracia que surge com os gregos ainda se assemelha ao conceito de democracia que temos hoje? E em que ponto eles divergem?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">O <em> ser-precisamente-assim<\/em> dos fen\u00f4menos hist\u00f3rico-sociais, como dizia Luk\u00e1cs, n\u00e3o \u00e9 meramente um problema de ant\u00edteses metodol\u00f3gicas, mas o resultado de uma indivis\u00edvel e contradit\u00f3ria unidade dial\u00e9tica, do modo como se apresentam as contradi\u00e7\u00f5es entre as for\u00e7as s\u00f3cioecon\u00f4micas que operam em um determinado momento hist\u00f3rico. Ent\u00e3o, mesmo que possam haver identidades entre o conceito antigo e o contempor\u00e2neo de democracia, <em> eles s\u00e3o produtos de fen\u00f4menos historico-ontol\u00f3gicos diversos<\/em>. A democracia ateniense resultou de uma sociedade agr\u00e1ria e do trabalho escravo que emancipou o extrato dirigente da p\u00f3lis e possibilitou a ele pensar e a fazer pol\u00edtica. Da\u00ed o forte v\u00ednculo entre escravid\u00e3o e democracia. Tamb\u00e9m h\u00e1 o fato dessa democracia ser restrita aos que eram considerados cidad\u00e3os: os homens e excluia os escravos, as mulheres, as crian\u00e7as e os estrangeiros. A democracia contempor\u00e2nea, por sua vez, \u00e9 mais gen\u00e9rica e mais ampla, resultado da Revolu\u00e7\u00e3o Burguesa e da sociedade civil, definida por Marx como <em>burgerliche Geselschaft \u2013 <\/em> sociedade burguesa. Por outro lado, o que h\u00e1 de semelhante entre as duas democracias \u00e9 que ambas regem a desigualdade, s\u00e3o produtos de sociedades desiguais. Os processos de participa\u00e7\u00e3o popular foram resultado de press\u00f5es populares; na Gr\u00e9cia, do campesinato, e no capitalismo moderno, ela \u00e9 produto das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas, das lutas do proletariado e do conjunto dos trabalhadores. A democracia cria no plano formal uma igualdade perante o Estado e \u00e0s leis. No plano legal ou abstrato todos as pessoas s\u00e3o iguais. Mas no plano concreto das rela\u00e7\u00f5es sociais, s\u00e3o desiguais. Tamb\u00e9m no Mundo Antigo acontecia isso: os camponeses podiam votar na Agor\u00e1, mas na realidade concreta, da inser\u00e7\u00e3o social e na produ\u00e7\u00e3o, havia desigualdade, camponeses com mais ou menos dinheiro e poderosas oligarquias. No capitalismo, a democracia aparece como resultado de um \u201cc\u00e9u pol\u00edtico\u201d constru\u00eddo pelo Estado burgu\u00eas onde tamb\u00e9m ali, h\u00e1 uma igualdade gen\u00e9rica, mas onde no plano das rela\u00e7\u00f5es sociais engendradas pela divis\u00e3o social do trabalho e pelas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o, o indiv\u00edduo aparece como cidad\u00e3o de vida p\u00fablica e burgu\u00eas ou prolet\u00e1rio de vida privada.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>3- \u00c9 poss\u00edvel dizer por que o conceito de democracia surge naquele momento na Gr\u00e9cia? E por que vai ser um conceito com tamanha difus\u00e3o e longevidade?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Havia uma intensa e permanente luta pol\u00edtica, a <em>stasis<\/em>. Antes disso, desde a emerg\u00eancia do campesinato como forca pol\u00edtica e econ\u00f4mica, no per\u00edodo arcaico, essa classe pressiona a aristocracia a ponto de derrubar a monarquia. E desta emerg\u00eancia camponesa surgem novas formas de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Desse processo surgem as tiranias (que n\u00e3o tinham o sentido dos governos opressores de hoje) que preparam a Gr\u00e9cia, particularmente Atenas, para a presen\u00e7a permanente dos camponeses na vida pol\u00edtica e social da p\u00f3lis. Nesses governos ocorrem v\u00e1rias mudan\u00e7as importantes, tanto no plano econ\u00f4mico como no social, entre elas a forma de organiza\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito que passa de aristocr\u00e1tico para \u201cpopular\u201d, surge o ex\u00e9rcito dos hoplitas, os camponeses que participam militarmente do ex\u00e9rcito da p\u00f3lis, desde que possam comprar suas armas, seu escudo, seu capacete e suas cora\u00e7as de guerra e que lutam coletivamente. Com esta forma de organiza\u00e7\u00e3o, refor\u00e7a-se a no\u00e7\u00e3o de igualdade, de solidariedade e de isonomia, a id\u00e9ia de \u201cesp\u00edrito comunal\u201d Mas a democracia antiga s\u00f3 pode eclodir quando o campesinato perde for\u00e7a econ\u00f4mica, a escravid\u00e3o emerge como elemento central e a p\u00f3lis ateniense torna-se uma talassocracia imperialista. Assim, p\u00f3lis passa a ter um car\u00e1ter aristocr\u00e1tico mais forte, centrada nos que possuem escravos. Quando a burguesia aparece como classe ela vai buscar refer\u00eancias na hist\u00f3ria, em sociedades onde existiram formas sociais desiguais, reguladas por leis ison\u00f4micas. A burguesia, quando volta ao passado e \u201colha\u201d a experi\u00eancia dos antigos gregos, <em> n\u00e3o copia, mas recria outra democracia<\/em>, mais adaptada aos seus interesses.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas essa democracia tamb\u00e9m se esfuma na vida material j\u00e1 que o <em>ser-precisamente-assim<\/em> do capitalismo n\u00e3o \u00e9 igualit\u00e1rio. E a\u00ed, qualquer ilus\u00e3o idealista de identidade com a experi\u00eancia hist\u00f3rica vivida na antiguidade cai por terra exatamente no plano da realidade, pois jamais no capitalismo o trabalhador foi dono dos meios de produ\u00e7\u00e3o, como o eram os camponeses atenienses, quer dizer, o ser social que emerge da estrutura capitalista \u00e9 aquele que vende sua for\u00e7a de trabalho ao dono dos meios de produ\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pode ser o campon\u00eas da p\u00f3lis que troca suas mercadorias com a liberdade igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>4- A no\u00e7\u00e3o de igualitarismo surge na Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica, com a Filosofia?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">O \u201csentimento igualit\u00e1rio\u201d \u00e9 t\u00e3o antigo quanto o homem. Mas no sentido ocidental o igualitarismo surge na Gr\u00e9cia arcaica, por volta do s\u00e9culo VIII a.C. e vai at\u00e9 o s\u00e9culo V, na Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica, quando ent\u00e3o subordina-se \u00e0 democracia. O igualitarismo tem um v\u00ednculo estreito com o pensamento filos\u00f3fico j\u00f4nio. Os j\u00f4nios projetam a p\u00f3lis no universo, isto \u00e9, o universo \u00e9 entendido a partir dos elementos igualit\u00e1rios presentes na p\u00f3lis. Verificamos esse v\u00ednculo no pensamento de Anaximandro, para quem a \u201csubst\u00e2ncia \u00fanica\u201d n\u00e3o encontra-se na \u00e1gua nem no ar, mas no infinito, na qualidade infinita da mat\u00e9ria, da qual todas as coisas s\u00e3o origin\u00e1rias e na qual tudo se dissolve quando o c\u00edclo estabelecido por uma lei necessia termina. Para esse fil\u00f3sofo, tal princ\u00edpio que envolve e governa todas as coias \u00e9 imortal e indestrut\u00edvel. Para esse pensador o universo \u00e9 animado por um eterno movimento. Os elementos f\u00edsicos que o comp\u00f5em s\u00e3o igualit\u00e1rios, nenhum \u00e9 maior ou mais importante que o outro, sendo que esses elementos se equilibram contraditoriamente: molhado e seco, escuro e claro, frio e quente. Quer dizer, no plano filos\u00f3fico pensava-se o universo de acordo com o que ocorria na p\u00f3lis &#8211; o igualitarismo surgido das lutas sociais.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>5- O igualitarismo, como pensado pelos gregos, s\u00f3 vale para o contexto social da \u00e9poca ou pode ser aplicado \u00e0 nossa sociedade? <\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A no\u00e7\u00e3o de igualitarismo sempre existiu, mas com formas ideo-hist\u00f3ricas diferentes. Mesmo quando pensamos o mundo na remota antiguidade, por exemplo, o das sociedades palaciais, observamos tentativas de explicar o mundo a partir do igualitarismo, ainda que m\u00edtico, permeado por uma consci\u00eancia m\u00edtico-religiosa, onde o protagonismo desse igualitarismo n\u00e3o era dos homens mas dos deuses em favor dos homens. Esse tipo de <em> consci\u00eancia de si<\/em> existente nessas sociedades ditas palaciais, expressava suas formas s\u00f3cio-metab\u00f3licas de reprodu\u00e7\u00e3o da vida e de aprees\u00e3o da realidade. Essas eram sociedades camponesas, tribut\u00e1rias a um tipo de Estado onde um rei-deus fazia o papel de intermedia\u00e7\u00e3o entre os homens e a deidade. Nesse sentido, a pr\u00f3pria exist\u00eancia de uma sociedade camponesa colocava em sua forma de coes\u00e3o social, o princ\u00edpio igualit\u00e1rio. Mas havia a quest\u00e3o da legitimidade do grupo dirigente, em geral uma nobreza que vivia dos tributos sociais. De modo que era <em> socialmente necess\u00e1rio<\/em> existir uma forma ideo-societal que colocasse a perspectiva da igualdade. Se pegarmos por exemplo, o conjunto de textos sagrados que formam a Tor\u00e1 hebr\u00e1ica\/ Velho Testamento dos crist\u00e3os, verificamos a express\u00e3o de um Deus que toma como iguais todos os judeus, o \u201cpovo eleito\u201d. J\u00e1 com o helenismo, desenvolve-se uma no\u00e7\u00e3o de igualitarismo mais universalizante, como ocorre no cristianismo \u2013 em que um Deus salvador (atrav\u00e9s da imola\u00e7\u00e3o de seu filho) transforma toda a humanidade em \u201cpovo eleito\u201d, redimindo-a coletivamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00e1 o igualitarismo resultante da Revolu\u00e7\u00e3o Burguesa ser\u00e1 baseado tanto na concep\u00e7\u00e3o laica e radical, em geral de origem pequeno-burguesa, como na dos n\u00facleos de prolet\u00e1rios e de camponeses. Se pensarmos na Revolu\u00e7\u00e3o Inglesa de Cromwell, por exemplo, verificamos a presen\u00e7a de um n\u00facleo igualitarista em seu ex\u00e9rcito revolucion\u00e1rio. Portanto, o igualitarismo contempor\u00e2neo nasce com a Revolu\u00e7\u00e3o Burguesa e esse igualitarismo vai dar origem inclusive ao socialismo e ao comunismo.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>6- O senhor tenta mostrar no livro \u201cO V\u00f4o de Minerva\u201d como a pol\u00edtica aparece como fator de media\u00e7\u00e3o e ordena\u00e7\u00e3o da vida social no mundo antigo. Ela ainda tem este papel hoje? De que maneira?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Sim. Como vimos, a pol\u00edtica resulta da luta social e da desigualdade. A pol\u00edtica s\u00f3 pode nascer porque surge o igualitarismo. Ela regula as lutas sociais, \u00e9 uma forma de organizar a desigualdade e o conflito. A pr\u00f3pria explica\u00e7\u00e3o m\u00edtica do seu surgimento nos da essa dimens\u00e3o, a partir do mito de Prometeu que rouba o fogo e o conhecimento dos deuses para dar aos homens e \u00e9 severamente punido por Zeus. Ele \u00e9 acorrentado a uma montanha nos confins do universo onde todos os dias um abutre devora seu f\u00edgado. Mas ao mesmo tempo em que pune Prometeu por ter amado os homens como deuses, Zeus olha a humanidade e sabe que \u00e9 preciso dar condi\u00e7\u00f5es para que ela se regule, j\u00e1 que tendo o conhecimento e a t\u00e9cnica pode destruir a si mesma. Zeus ent\u00e3o d\u00e1 aos homens a pol\u00edtica, para que possam regular os conflitos e as desigualdades.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tamb\u00e9m no mundo contempor\u00e2neo a pol\u00edtica regula a desigualdade e controla os conflitos, e h\u00e1 nela mais elementos de controle do que de emancipa\u00e7\u00e3o. Regula a desigualdade para manter e n\u00e3o para romper a estrutura da <em> burgerliche Geselschaft. <\/em>Se, de um lado, a pol\u00edtica joga um papel \u201cpositivo\u201d na emancipa\u00e7\u00e3o institucional da sociedade, na emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos homens, por outro lado ela encontra seu limite na sua pr\u00f3pria forma, porque a pol\u00edtica expressa o plano da cidadania (tamb\u00e9m ela burguesa), e que por seu <em>ser-precisamente-assim<\/em>, \u00e9 incompat\u00edvel com um projeto que v\u00e1 para al\u00e9m daquele presente na sociabilidade burguesa.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>7- O senhor escreve, no livro, que para S\u00f3crates e Plat\u00e3o, a democracia destr\u00f3i o igualitarismo. De que forma isto ocorreria?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A democracia tem mais condi\u00e7\u00e3o de regular a desigualdade, ent\u00e3o incorpora o igualitarismo em seu interior. A democracia ateniense realiza uma \u201cinclus\u00e3o excludente\u201d, exclui os escravos, de um lado e de outro, subordinam os camponeses \u00e0s oligarquias. Nesse sentido, a democracia da Gr\u00e9cia Antiga \u00e9 altamente manipulat\u00f3ria. Plat\u00e3o no <em>G\u00f3rgias<\/em> \u00e9 radical em vincular a degrada\u00e7\u00e3o da sociedade ateniense \u00e0 democracia e por meio das \u201cpalavras\u201d de S\u00f3crates acusa P\u00e9ricles como o respons\u00e1vel pela transforma\u00e7\u00e3o dos atenienses em pessoas \u00e1vidas, ociosas e corruptas.<\/p>\n<p align=\"justify\">No caso da democracia moderna, ela incorpora o igualitarismo, mas o coloca no plano abstrato. Na democracia da <em>burgerliche Geselschaft<\/em>, a igualdade de direitos \u2013 inclusive a da distribui\u00e7\u00e3o dos meios de consumo, \u00e9, em todo momento, um corol\u00e1rio da distribui\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, quer dizer, quando o ser-humano esta apartado (alienado) de seu pr\u00f3prio produto, resultado de sua praxis essencial, ele n\u00e3o pratica o igual, mas sim um \u201ctipo\u201d de igualitarismo que aliena o homem de si. A ess\u00eancia humana n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o inerente ao indiv\u00edduo singular, mas sim o conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais, que na sociabilidade burguesa, aparece fragmentada. A democracia na sociedade capitalista \u00e9 a express\u00e3o superestrutural das pr\u00f3prias formas materiais que reproduzem a sociabilidade burguesa. No capitalismo h\u00e1 uma \u201csocializa\u00e7\u00e3o\u201d intr\u00ednseca que \u00e9 posta por um processo produtivo realizado socialmente. Mas esta produ\u00e7\u00e3o social se d\u00e1 no plano de uma produ\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica, j\u00e1 que a apropria\u00e7\u00e3o do que \u00e9 produzido socialmente n\u00e3o \u00e9 realizada plenamente pelos que produzem a riqueza, quer dizer, pelos trabalhadores. Isso significa dizer que no plano material da vida, o trabalhador recebe apenas parte e, diga-se, a menor parte, do que produziu socialmente. Produz-se desse modo, a separa\u00e7\u00e3o entre a vida gen\u00e9rica e a vida material n\u00e3o somente de cada indiv\u00edduo, mas tamb\u00e9m da totalidade dos homens. Ora, vemos a\u00ed, que nessa fragmenta\u00e7\u00e3o ocorre a separa\u00e7\u00e3o entre trabalho e riqueza. Grosso modo, podemos dizer que essa \u00e9 a base material da superestrutura posta pela democracia da <em>burgerliche Geselschaft.<\/em> Tamb\u00e9m essa \u00e9 uma democracia altamente manipulat\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>8- H\u00e1 alguma rela\u00e7\u00e3o entre o pensamento de S\u00f3crates e Plat\u00e3o de que a democracia destr\u00f3i o igualitarismo e os velhos embates entre capitalistas e comunistas, de que o capitalismo n\u00e3o permite a igualdade e o comunismo impossibilita a liberdade (ligada \u00e0 democracia)?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00f3crates e Plat\u00e3o, tinham como refer\u00eancias as velhas leis arcaicas que regulavam a sociedade. S\u00f3crates dizia que a democracia estava corrompendo os valores citadinos. Para ele, os cidad\u00e3os haviam perdido a no\u00e7\u00e3o do \u201cesp\u00edrito coletivo\u201d da p\u00f3lis do qual todos faziam parte. Na vis\u00e3o socr\u00e1tico-plat\u00f4nica, a virtude era produto da vida comunit\u00e1ria, passada pelo conv\u00edvio social e pela apreens\u00e3o dos conte\u00fados emanados pelo \u201cesp\u00edrito da p\u00f3lis\u201d. Nesse sentido, a virtude jamais poderia ser vendida ou comprada. Da\u00ed, na vis\u00e3o socr\u00e1tica, serem os sofistas, fil\u00f3sofos errantes que vendiam seus conhecimentos aos filhos das fam\u00edlhas abastadas, a s\u00edntese da decad\u00eancia, como evidencia Plat\u00e3o no <em>Prot\u00e1goras<\/em>, quando S\u00f3crates chama os sofistas de vendedores varejistas de mercadorias que alimentam a alma.<\/p>\n<p align=\"justify\">E \u00e9 esse o sentido de sua defesa, quando \u00e9 acusado de corromper a juventude. S\u00f3crates vai dizer, em seu julgamento, que nunca vendeu seus conhecimentos, mas sempre os deu como obriga\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que tem consci\u00eancia de ser preciso transmitir os fundamentos que regem a vida coletiva. Nessa vis\u00e3o, vender o conhecimento era vender a pr\u00f3pria virtude. A\u00ed reside a contraposi\u00e7\u00e3o socr\u00e1tica do homem coletivo contra o homem privado, que emerge na democracia. Na <em>Rep\u00fablica<\/em>, Plat\u00e3o ir\u00e1 dizer que todos os males provinham do com\u00e9rcio e da propriedade privada. Para esses fil\u00f3sofos da p\u00f3lis, a educa\u00e7\u00e3o deveria ser a <em> Paid\u00e9ia<\/em> pedag\u00f3gica de um modelo civilizat\u00f3rio, onde o n\u00facleo seria a constru\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica \u00e9tica.<\/p>\n<p align=\"justify\">Quanto ao embate sobre democracia, capitalismo e comunismo, podemos dizer que se <em>inexistem<\/em> \u201cidentidades\u201d reais entre a vis\u00e3o desses fil\u00f3sofos e a dos cr\u00edticos da sociabilidade burguesa. Marx enfatizou a impossibilidade de se analisar as sociedades humanas fora de seu escopo <em>hist\u00f3rico-concreto<\/em>. O capitalismo \u00e9 uma forma econ\u00f4mico-social baseada na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, que tem como pressuposto o trabalho livre e assalariado e a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, a condi\u00e7\u00e3o do trabalho livre e o alto grau da individualidade da pessoa, as rela\u00e7\u00f5es sociais engendradas pela sociabilidade capitalista, a sofistica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e t\u00e9cnica dessa sociabilidade, ir\u00e3o permitir o afloramento de uma consci\u00eancia jamais vista nas formas sociais anteriores. Somente no capitalismo a cr\u00edtica social aparece junto com uma forma de consci\u00eancia que possibilita a constru\u00e7\u00e3o de uma proposta alternativa \u00e0 socialidade burguesa, que vem com as id\u00e9ias socialistas e comunistas.<\/p>\n<p align=\"justify\">O capitalismo apresenta limites para a liberdade em seus aspectos nodais: a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e a expropria\u00e7\u00e3o da <em> mais-valia<\/em> do trabalhador. Essa condi\u00e7\u00e3o gera uma <em>forma superestrutural<\/em> que expressa essa determina\u00e7\u00e3o material de reprodu\u00e7\u00e3o de si do capitalismo, que s\u00e3o as formas de representa\u00e7\u00e3o que emanam da sociabilidade burguesa (democracia, direitos e institui\u00e7\u00f5es, etc), e que constituem os elementos regulat\u00f3rios que fazem parte de seu aparelho ideo-pol\u00edtico. Da\u00ed, a cr\u00edtica de Marx ser nucleada na necessidade de coletiviza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o que garantiria a mais ampla liberdade, pois al\u00e9m desses meios de produ\u00e7\u00e3o, (incluindo-se a\u00ed a propriedade coletiva da terra) e da socializa\u00e7\u00e3o do produto do trabalho de todos, a sociedade comunista estinguiria toda a estrutura do Estado, trazendo-o para o meio da sociedade, quer dizer, a gest\u00e3o social passaria para a pr\u00f3pria sociedade. Ressaltemos que a humanidade n\u00e3o vivenciou ainda a experi\u00eancia do comunismo. O que tivemos at\u00e9 hoje foram experi\u00eancias socialistas que encontraram um enorme gama de problemas em sua aplica\u00e7\u00e3o, um deles, foi exatamente a hipertrofia do aparelho estatal, dadas as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3rias dessas experi\u00eancias e que, pelos limites de uma entrevista, n\u00e3o poderemos aprofundar.<\/p>\n<p align=\"justify\">De qualquer modo, entendo que mesmo com seus graves problemas, sendo que um dos maiores foi a restri\u00e7\u00e3o de liberdades civis, essas experi\u00eancias apresentaram grandes positividades, no \u00e2mbito de conquistas sociais que n\u00e3o podemos desconsiderar, se quisermos pensar ainda o futuro do projeto do socialismo e do comunismo.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>10- No livro, o senhor defende a hip\u00f3tese de que o \u2018Ocidente antigo\u2019 \u00e9 resultado de um longo processo de absor\u00e7\u00e3o da cultura oriental. Que conceitos (ou que comportamentos) orientais foram importados pelo \u2018Ocidente antigo\u2019? De que sociedades, em especial, veio esta influ\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">O conceito inicial \u00e9 de que o Oriente, at\u00e9 por ter constru\u00eddo as primeiras formas de civiliza\u00e7\u00e3o, sempre manteve uma estreita rela\u00e7\u00e3o com o Ocidente. Rela\u00e7\u00e3o interativa e permanente, na medida em que as sociedades palaciais, no per\u00edodo do bronze, surgem e se relacionam com o Ocidente e o influenciam. Se pensarmos naquele per\u00edodo, as sociedades mais importantes eram a eg\u00edpicia e a hitita, e estas sociedades hegem\u00f4nicas criaram um \u201cmodelo\u201d de sociabilidade que ir\u00e1 influenciar tamb\u00e9m o Ocidente. Por exemplo, Creta \u00e9 o resultado direto dessa forma societal posta pelo Oriente, assemelha-se \u00e0s sociedades palaciais orientais, sem ter seu brilho e luxo. Atrav\u00e9s do mar Mediterr\u00e2neo, constr\u00f3i-se uma integra\u00e7\u00e3o onde o Ocidente absorve a civiliza\u00e7\u00e3o oriental sintetizando uma cultura euro-mediterranea, no que chamo, seguindo as formula\u00e7\u00f5es pioneiras de Gordon Childe, de <em>longo processo de mediterraniza\u00e7\u00e3o da cultura oriental<\/em>. Essa intera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica permanente nunca deixar\u00e1 de existir, ao menos at\u00e9 os finais da Idade M\u00e9dia. H\u00e1 um v\u00ednculo umbilical entre Ocidente e Oriente. O que \u00e9 o helenismo a n\u00e3o ser esse processo de permanente integra\u00e7\u00e3o? A cultura Ocidental vai para o Oriente e quando retorna ao Ocidente, como s\u00edntese, enquanto ruptura e continuidade, traz em seu bojo, e pelo Mediterr\u00e2neo, o cristianismo<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>11- A volta ao mundo pol\u00edtico grego foi a forma que o senhor encontrou de embasar uma pesquisa maior, que pretende entender a burguesia que surge no s\u00e9culo XVI. Que rela\u00e7\u00e3o \u00e9 esta que o senhor foi buscar?<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Fui buscar as origens da democracia e do igualitarismo, como se desenvolveram, quais foram suas express\u00f5es hist\u00f3ricas e intelectuais e, mais tarde, como a burguesia revisita essa experi\u00eancia e cria uma nova express\u00e3o cultural tipicamente burguesa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Estou come\u00e7ando a escrever um livro sobre o conceito de <em>Virtus<\/em> como fundamento do igualitarismo burgu\u00eas, exatamente com produto hist\u00f3rico da constru\u00e7\u00e3o de uma <em>cosmologia burguesa<\/em>, mas ainda vai levar um tempinho.<\/p>\n<p align=\"justify\"><a href=\"mailto:acmazzeo@superig.com.br\" target=\"_blank\">acmazzeo@superig.com.br<\/a><\/p>\n<p align=\"justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: www.boitempo.com\n\n\n\n\nENTREVISTA\nAntonio Carlos Mazzeo \/ O V\u00f4o de Minerva \u2013 A constru\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, do igualitarismo e da democracia no Ocidente antigo\n1- O senador Cristovam Buarque (PDT), diante dos recentes esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o e uso indevido de verbas por deputados e senadores, insinuou em entrevista que um plebiscito para fechar o Congresso poderia ser levado adiante por clamor popular. O Congresso, de acordo com o pensamento pol\u00edtico grego, \u00e9 essencial para a manuten\u00e7\u00e3o da democracia? \nNo meu ponto de vista esta \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o perigosa e inconsequente, pois indica uma profunda inconsist\u00eancia te\u00f3rico-pol\u00edtica e demonstra uma grande incompreens\u00e3o do que \u00e9 atuar nas contradi\u00e7\u00f5es onto-negativas da pol\u00edtica e qual o papel da democracia, num Estado de cariz burgu\u00eas. No atual momento pol\u00edtico do pa\u00eds o Congresso garante o funcionamento da vida institucional democr\u00e1tica e dos direitos. Se n\u00e3o h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as onde os trabalhadores possam ter hegemonia para construir uma outra forma societal, uma proposta como esta pressup\u00f5e intrinsecamente um golpe de Estado. Isso deve ser duramente repudiado.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/356\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[65],"tags":[],"class_list":["post-356","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c78-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5K","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/356","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=356"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/356\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}