{"id":3560,"date":"2012-09-18T20:39:13","date_gmt":"2012-09-18T20:39:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3560"},"modified":"2012-09-18T20:39:13","modified_gmt":"2012-09-18T20:39:13","slug":"a-linguagem-da-verdade-na-luta-de-massas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3560","title":{"rendered":"A linguagem da verdade na luta de massas"},"content":{"rendered":"\n<p>Em situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas como a actual os respons\u00e1veis pelas crises optam pelo auto elogio, enquanto se preparam para responder com a repress\u00e3o ao protesto popular. Os Passos, Relvas e Companhia Lda esquecem que no movimento de fluxo e refluxo da Hist\u00f3ria as grandes crises desembocam quase sempre numa contesta\u00e7\u00e3o torrencial quando os povos, atingido um limite, n\u00e3o podem mais suportar a opress\u00e3o da classe dominante e se mobilizam para lhe por termo.<\/p>\n<p>As medidas anunciadas pelo primeiro-ministro no dia 7 de Setembro \u2013 ostensivamente inconstitucionais \u2013 assinalaram uma vertiginosa galopada para a direita do governo mais reaccion\u00e1rio do Pa\u00eds desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 1974.<\/p>\n<p>Passos Coelho pelo que disse, pela hipocrisia e at\u00e9 pelo tom, fez-me recordar falas de ministros de Salazar. Deles se diferencia n\u00e3o pelo conte\u00fado ideol\u00f3gico da &#8220;mensagem&#8221;, mas porque alguns eram inteligentes e porque o que resta da heran\u00e7a de Abril n\u00e3o lhe permite ir t\u00e3o longe quanto desejaria na destrui\u00e7\u00e3o de conquistas hist\u00f3ricas dos trabalhadores e na ofensiva contra direitos e liberdades.<\/p>\n<p>Os novos impostos e a descida da taxa social \u00fanica (800 milh\u00f5es oferecidos na pr\u00e1tica \u00e0s grandes empresas) inserem-se numa estrat\u00e9gia dita de &#8220;austeridade&#8221;, mas que transcende as pr\u00f3prias exig\u00eancias da troika. Foi concebida para favorecer o grande capital e atingir brutalmente os trabalhadores.<\/p>\n<p>O complemento da agress\u00e3o fiscal tornado p\u00fablico pelo ministro V\u00edtor Gaspar, tutor ideol\u00f3gico de Passos, amplia os contornos do pesadelo.<\/p>\n<p>O fracasso do projecto em desenvolvimento \u00e9, por\u00e9m, t\u00e3o transparente \u2013 o d\u00e9fice n\u00e3o desceu, o desemprego disparou, o PIB caiu \u2013 que pela sua irracionalidade e consequ\u00eancias desastrosas ao levar o pais \u00e0 ru\u00edna abriu fissuras nas for\u00e7as da direita que inicialmente o apoiaram maci\u00e7amente.<\/p>\n<p>Destacadas personalidades pol\u00edticas do sistema, tradicionalmente vinculadas ao imperialismo, como Adriano Moreira, Freitas do Amaral, Alberto Jo\u00e3o Jardim, Bag\u00e3o F\u00e9lix, M\u00e1rio Soares, Pacheco Pereira criticaram com maior ou menor clareza o pacote fiscal do governo. At\u00e9 Catroga se distanciou.<\/p>\n<p>O Presidente da Rep\u00fablica, esse, permaneceu mudo at\u00e9 ao momento em que escrevo.<\/p>\n<p>Na hierarquia da Igreja levantam-se vozes condenando aquilo em que identificam o arrogante desprezo do governo pelo povo.<\/p>\n<p>A Sa\u00fade e a Educa\u00e7\u00e3o ser\u00e3o brutalmente golpeadas. Entre os reformados a mar\u00e9 da revolta cresce. N\u00e3o h\u00e1 mentira oficial que possa ocultar a evid\u00eancia: o governo pretende destruir a Previd\u00eancia, arrasar a Seguran\u00e7a Social.<\/p>\n<p>O indigitado secret\u00e1rio-geral da UGT apelou \u00e0 den\u00fancia dos compromissos assumidos pela sua organiza\u00e7\u00e3o com o governo e o patronato e agora exige a rejei\u00e7\u00e3o das medidas anunciadas.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria CIP desaprova a estrat\u00e9gia do Executivo, e Belmiro de Azevedo, o patr\u00e3o da SONAE (que vai poupar muitos milh\u00f5es de euros com a descida da taxa social \u00fanica), demarcou-se do governo. Foi categ\u00f3rico ao afirmar que o brutal aumento da carga fiscal sobre o trabalho, longe de atingir os objectivos fixados, vai contribuir para o agravamento da crise.<\/p>\n<p>Influentes &#8220;analistas&#8221; da burguesia, como Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares, habitualmente prudentes nas cr\u00edticas ao governo, desancaram agora Passos Coelho e a cruel farsa da &#8220;austeridade&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o esperava o Primeiro-ministro que o seu medonho pacote fiscal fosse mal recebido por parlamentares e dirigentes do PSD e do CDS. Mas teve uma surpresa.<\/p>\n<p>&#8220;Sinto uma grande revolta no PSD \u2013 declarou ao jornal\u00a0<em>Publico <\/em>um deputado desse partido \u2013 porque o Primeiro-ministro foi longe demais&#8221;.<\/p>\n<p>No CDS o mal-estar aumenta a cada dia e alguns &#8220;bar\u00f5es&#8221; falam abertamente da necessidade de por termo \u00e0 coliga\u00e7\u00e3o, cimento da maioria parlamentar.<\/p>\n<p><strong>GRANDES LUTAS NO HORIZONTE <\/strong><\/p>\n<p>A presente crise \u2013 \u00e9 uma certeza \u2013 vai aprofundar-se muito. Insepar\u00e1vel da crise global do capitalismo, a actual, que lan\u00e7ou milh\u00f5es de portugueses no desemprego, na pobreza e na mis\u00e9ria, difere de todas as anteriores n\u00e3o apenas pelas seus efeitos sociais e econ\u00f3micos, mas pela ideologia e projecto dos representantes do capital que controlam o governo e o Parlamento.<\/p>\n<p>\u00c9 significativo que o ministro Relvas, envolvido numa cadeia de esc\u00e2ndalos s\u00f3rdidos, tenha aproveitado a sua visita ao Brasil para fazer no Rio declara\u00e7\u00f5es provocat\u00f3rias, de elogio irrestrito \u00e0 devastadora e criminosa pol\u00edtica fiscal de Passos Coelho. Insolente, maltratando inclusive o idioma, sugere aos que dela discordam a apresentar uma alternativa, para concluir que ela n\u00e3o existe e proclamar que a recusa da estrat\u00e9gia do governo seria o caos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 in\u00e9dito o seu arrogante desafio. Em situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas como a actual, os respons\u00e1veis pelas crises optam pelo auto elogio, enquanto se preparam para responder com a repress\u00e3o ao protesto popular.<\/p>\n<p>Os Passos, Relvas e Companhia Lda esquecem que no movimento de fluxo e refluxo da Hist\u00f3ria as grandes crises desembocam quase sempre numa contesta\u00e7\u00e3o torrencial quando os povos, atingido um limite, n\u00e3o podem mais suportar a opress\u00e3o da classe dominante e se mobilizam para lhe por termo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 dois processos iguais. As revolu\u00e7\u00f5es e as transi\u00e7\u00f5es marcadas por reformas revolucion\u00e1rias diferem de sociedade para sociedade, evoluindo em fun\u00e7\u00e3o de factores que n\u00e3o cabe analisar num artigo como este.<\/p>\n<p>Isso ocorreu no 25 de Abril.<\/p>\n<p>Transcorridos 38 anos, frustradas as grandes esperan\u00e7as da Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica e Nacional, uma grande burguesia dependente, mais sofisticada do que a anterior, e mais intimamente ligada ao imperialismo, encontra-se novamente instalada no Poder.<\/p>\n<p>Sob alguns aspectos a luta contra o sistema \u00e9 hoje mais dif\u00edcil do que na \u00e9poca de Salazar e Caetano porque as condi\u00e7\u00f5es subjectivas s\u00e3o menos favor\u00e1veis.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es existentes (deformadas por sucessivas reformas da Constitui\u00e7\u00e3o) levam milh\u00f5es de portugueses, a maioria da cidadania, a crer que o regime portugu\u00eas \u00e9 democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Ora, na pr\u00e1tica vivemos sob uma ditadura da burguesia de fachada democr\u00e1tica. Mas somente uma pequena minoria de portugueses tem consci\u00eancia dessa realidade.<\/p>\n<p>Em Portugal, a resist\u00eancia dos trabalhadores a pol\u00edticas neoliberais de sucessivos governos do PSD e do PS tem sido uma constante. Sobretudo nos \u00faltimos anos. Expressou-se em gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es de protesto, em greves gerais e sectoriais realizadas com \u00eaxito, em lutas de numerosas categorias profissionais, com destaque para as dos professores.<\/p>\n<p>Mas o controle dos media pelo capital e a influ\u00eancia hegem\u00f3nica do imperialismo na Internet dificultam extraordinariamente a compreens\u00e3o pela maioria dos portugueses da complexidade da crise mundial e dos desafios que se colocam ao povo portugu\u00eas. Os mecanismos da aliena\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma fonte de ilus\u00f5es, favorecendo a direita (na qual incluo os dirigentes do PS).<\/p>\n<p>A ilus\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel \u00e0s for\u00e7as progressistas chegar ao governo atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es est\u00e1 muito difundida. Tal convic\u00e7\u00e3o \u00e9 ut\u00f3pica.<\/p>\n<p>A engrenagem montada pelas for\u00e7as do capital foi concebida e funciona de modo a que alternadamente obtenham maioria parlamentar e cheguem ao governo, exibindo uma falsa representatividade popular, ora o PSD (levando a reboque o CDS), ora o PS.<\/p>\n<p>A ruptura com essa engrenagem, para produzir efeitos, para ser real, n\u00e3o pode consumar-se dentro do sistema, tendente \u00e0 sua democratiza\u00e7\u00e3o. Ter\u00e1 de ser uma ruptura contra o sistema. Por outras palavras, \u00e9 imprescind\u00edvel deixar transparente que o inimigo \u00e9 o capitalismo e que este \u00e9 irreform\u00e1vel pela sua natureza desumana. \u00c9 poss\u00edvel em Portugal um governo menos reaccion\u00e1rio, mas n\u00e3o um governo progressista.<\/p>\n<p>A linguagem da verdade \u00e9 uma exig\u00eancia pol\u00edtica e \u00e9tica no di\u00e1logo com as massas.<\/p>\n<p>A ideia de uma volta a Abril \u00e9 tamb\u00e9m rom\u00e2ntica. A Hist\u00f3ria n\u00e3o se repete. Seria negativo confundir os valores de Abril e o respeito que inspiram com a aspira\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria de uma nova Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica e Nacional, no actual contexto.<\/p>\n<p>Qual ent\u00e3o o car\u00e1cter da resposta popular, qual o rumo que a contesta\u00e7\u00e3o ao Poder da burguesia e ao protectorado imperial devem assumir?<\/p>\n<p>A pergunta \u00e9 formulada com frequ\u00eancia por aqueles a quem s\u00e3o dirigidos apelos para a dinamiza\u00e7\u00e3o da luta de massas. E \u00e9 pertinente porque a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na sociedade portuguesa n\u00e3o abre a porta a uma conjuntura pr\u00e9-revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>A menos que se produza a n\u00edvel mundial uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria envolvendo os EUA e a Uni\u00e3o Europeia, o que n\u00e3o est\u00e1 para breve, uma Revolu\u00e7\u00e3o social vitoriosa em Portugal \u00e9 uma impossibilidade.<\/p>\n<p>A luta intensa e permanente contra este governo, que assume j\u00e1 no discurso e na pr\u00e1tica matizes neofascistas, n\u00e3o vai desembocar numa Revolu\u00e7\u00e3o progressista. A serena consci\u00eancia dessa realidade n\u00e3o justifica uma atitude de pessimismo, de passividade alienante. Em Portugal a participa\u00e7\u00e3o nas lutas contra o sistema \u00e9 transversal, abrange j\u00e1 segmentos da pequena e m\u00e9dia burguesias, camadas sociais que ainda h\u00e1 poucos anos afirmavam n\u00e3o se &#8216;interessar pela politica&#8217;.<\/p>\n<p>Ao longo da Hist\u00f3ria, muitas gera\u00e7\u00f5es bateram-se por transforma\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias que n\u00e3o se produziram durante as suas breves exist\u00eancias. Mas o seu compromisso era com as ideias e n\u00e3o com o calend\u00e1rio. Revolu\u00e7\u00f5es t\u00e3o importantes para o progresso da Humanidade como a Francesa de 1789 e a Russa de 1917 n\u00e3o teriam sido vitoriosas sem a luta, a dedica\u00e7\u00e3o, o debate de ideias de uma extensa, maravilhosa cadeia de revolucion\u00e1rios que as imaginaram e para elas viveram.<\/p>\n<p>Afirmar sem rodeios, frontalmente, que a ruptura em Portugal deve ser com o sistema capitalista, rumo ao socialismo distante, esfumado num horizonte de brumas, \u00e9 seguir o exemplo desses revolucion\u00e1rios, caminhar pelas alamedas que eles abriram combatendo.<\/p>\n<p>Acredito que a luta de massas vai adquirir um \u00edmpeto novo, que a repress\u00e3o ser\u00e1 incapaz de travar, um \u00edmpeto vocacionado para abalar os alicerces do Poder ultramontano.<\/p>\n<p>V.N. de Gaia, 11 de Setembro de 2012<\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2612\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2612<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3560\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3560","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Vq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3560","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3560"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3560\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3560"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3560"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3560"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}