{"id":3617,"date":"2012-09-27T22:47:23","date_gmt":"2012-09-27T22:47:23","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3617"},"modified":"2012-09-27T22:47:23","modified_gmt":"2012-09-27T22:47:23","slug":"entrevista-com-carlos-nelson-coutinho-1943-2012-a-filosofia-da-praxis-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3617","title":{"rendered":"Entrevista com Carlos Nelson Coutinho (1943-2012): a filosofia da pr\u00e1xis no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Morre um grande amigo e companheiro, o pensador marxista brasileiro Carlos Nelson Coutinho, introdutor de Gramsci no Brasil e interlocutor de Gyrgy Luk\u00e1cs (com quem trocou uma s\u00e9rie de cartas). Com um sorriso ir\u00f4nico costumava repetir que \u201ceu n\u00e3o me desloquei \u00e0 esquerda, sigo sendo o mesmo. Os demais \u00e9 que caminharam para a direita\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Carlos Nelson era muito ir\u00f4nico. L\u00facido, erudito, am\u00e1vel, fraternal, terno, divertido. Gostava de conversar e beber em companhia. Apesar de profundamente brasileiro, n\u00e3o gostava de dan\u00e7ar. Se sentia comunista, e manteve a coer\u00eancia em torno dos ideais comunistas, ainda que tenha ido mudando de organiza\u00e7\u00e3o na medida em que estas se \u201cendireitavam\u201d. Come\u00e7ou militando no PCB, depois se incorporou ao PT e finalmente ajudou a fundar o PSoL. Apoiava com entusiasmo o MST.<\/p>\n<p>\u00c9 bem sabido que Coutinho introduziu os Cadernos do C\u00e1rcere de Antonio Gramsci no Brasil. Menos conhecido \u00e9 seu papel como introdutor de Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs.<\/p>\n<p>No Brasil, os primeiros livros de Luk\u00e1cs aparecem em idioma portugu\u00eas a partir de 1965:\u00a0<em>Ensaios sobre literatura <\/em>[1965];\u00a0<em>Literatura e humanismo<\/em> [1967];<em> Os marxistas e a arte<\/em>[1967];\u00a0<em>Introdu\u00e7\u00e3o a uma est\u00e9tica marxista<\/em> ;\u00a0<em>Marxismo e teoria da literatura<\/em> e\u00a0<em>Existencialismo ou marxismo?<\/em> (Deve-se destacar que n\u00e3o se conta entre eles o melhor de todos:<em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em>).<\/p>\n<p>Dois dos principais introdutores de Luk\u00e1cs no Brasil s\u00e3o Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder, ent\u00e3o militantes da corrente cultural do Partido Comunista. Ambos jovens, mantinham naquela \u00e9poca fort\u00edssimas simpatias por\u00a0<em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em>. N\u00e3o obstante, sua correspond\u00eancia com Luk\u00e1cs \u2013 na qual lhe iam propondo nomes de livros seus para serem traduzidos e publicados no Brasil \u2013 os foi apartando deste rumo.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo da Hungria tratava de convenc\u00ea-los de que \u201c<em>este livro est\u00e1 inteiramente superado em seus problemas fundamentais<\/em>\u201d (Carta de G. Luk\u00e1cs a L. Konder de 9 de junho de 1963). No mesmo sentido, o pensador h\u00fangaro insistia: \u201c<em>Gostaria, sobretudo, de advertir contra uma leitura acr\u00edtica de \u2018Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe\u2019<\/em>\u201d (Carta de G. Luk\u00e1cs a Carlos Nelson Coutinho de 31 de agosto de 1963). Mais tarde, uma vez que o jovem Coutinho reconhece haver seguido seus conselhos e haver abandonado a concep\u00e7\u00e3o \u201chistoricista\u201d do marxismo pr\u00f3pria de Lucien Goldmann, J. P. Sartre, Antonio Gramsci e do jovem Luk\u00e1cs, o mesmo Luk\u00e1cs responde o seguinte: \u201c<em>Me alegro com o que voc\u00ea me conta, ou seja, que superou o historicismo abstrato-subjetivista sem cair na grande moda atual do estruturalismo<\/em>\u201d (Carta de G. Luk\u00e1cs a C. N. Coutinho de 18 de outubro de 1967. As 34 cartas trocadas entre os dois jovens intelectuais brasileiros e o fil\u00f3sofo marxista da Hungria est\u00e3o reproduzidas no volume coletivo\u00a0<em>Luk\u00e1cs e a atualidade do marxismo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2002, pp. 133-156).<\/p>\n<p>Dali em diante Coutinho ir\u00e1 tecendo uma s\u00edntese sutil entre a concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Gramsci e a concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do Luk\u00e1cs maduro. Ambos ressignificados de acordo com a realidade social e pol\u00edtica brasileira na qual Coutinho militou durante toda a sua vida.<\/p>\n<p>Em sua mem\u00f3ria e como maneira de homenagear o amigo, companheiro e querido comunista que tivemos a honra de conhecer, reproduzimos a seguir uma s\u00edntese de sua obra e uma entrevista que fizemos com ele no M\u00e9xico em 1999 para o livro \u00ab<em>De Ingenieros al Che. Ensayos sobre el marxismo argentino y latinoamericano<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p><strong>\u201cA filosofia da pr\u00e1xis no Brasil\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>Entrevista com Carlos Nelson Coutinho<\/strong><\/p>\n<p>Carlos Nelson Coutinho \u00e9 um dos principais especialistas e investigadores brasileiros sobre o pensamento de Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e Antonio Gramsci, cujas obras introduziu no Brasil. De Luk\u00e1cs, com quem manteve correspond\u00eancia (junto com seu companheiro Leandro Konder) durante a \u00faltima d\u00e9cada de vida do fil\u00f3sofo h\u00fangaro, Coutinho traduziu <em>Marxismo e cr\u00edtica liter\u00e1ria; Introdu\u00e7\u00e3o a uma est\u00e9tica marxista; Ontologia do ser social. Hegel <\/em>e <em>Ontologia do ser social. Marx.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, seu primeiro livro de cr\u00edtica liter\u00e1ria, <em>Literatura e humanismo. Ensaios de cr\u00edtica marxista<\/em> (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967) \u00e9 fortemente atravessado por um <em>\u00e9lan<\/em> luk\u00e1csiano.<\/p>\n<p>Poucos anos depois, utilizando amplamente a conceitua\u00e7\u00e3o luk\u00e1csiana madura da <em>Ontologia do ser social<\/em> acerca da \u201craz\u00e3o dial\u00e9tica e da riqueza humanista da pr\u00e1xis\u201d, o pensador brasileiro publicou <em>O estruturalismo e a mis\u00e9ria da raz\u00e3o<\/em> (1971). Nesta obra, precursora de muitas cr\u00edticas posteriores, Coutinho questionou duramente as distintas vertentes do pensamento estruturalista \u2013 principalmente franc\u00eas \u2013 absolutamente em voga nesses anos, personificadas em Claude L\u00e9vi-Strauss, Louis Althusser, Michel Foucault, entre outros. Sua cr\u00edtica foi uma das primeiras desta tradi\u00e7\u00e3o a ser sistematicamente realizada na Am\u00e9rica Latina. De todas estas cr\u00edticas, sobressai a que dirigiu contra Althusser, cujo pensamento caracterizou como \u201cuma posi\u00e7\u00e3o de direita, burocr\u00e1tica e conservadora, express\u00e3o do racionalismo abstrato e da epistemologia neopositivista\u201d. Cabe esclarecer que neste trabalho Coutinho tamb\u00e9m criticava, sempre desde a perspectiva do \u00faltimo Luk\u00e1cs, o \u201csubjetivismo irracionalista do humanismo especulativo\u201d. Ainda militando, nessa \u00e9poca, no PCB (organiza\u00e7\u00e3o com que rompeu no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80 ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de <em>A democracia como valor universal <\/em>[S\u00e3o Paulo: Ci\u00eancias Humanas, 1980]), Coutinho arremeteu fortemente em <em>O estruturalismo e a mis\u00e9ria da raz\u00e3o<\/em> contra \u201ca manipula\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica das consci\u00eancias realizada pelo stalinismo e tamb\u00e9m pelo neostalisnismo\u201d. Tamb\u00e9m acusou estas correntes de haver convertido o marxismo em \u201cuma ideologia da confian\u00e7a e uma sociologia vulgar positivista\u201d.<\/p>\n<p>Junto com a obra de Luk\u00e1cs, Coutinho tamb\u00e9m recebeu a influ\u00eancia de Antonio Gramsci, de quem traduziu em 1966 <em>O materialismo hist\u00f3rico e a filosofia de Bedetto Croce <\/em>(publicado com o t\u00edtulo de <em>Concep\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica da hist\u00f3ria<\/em>, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1966); e em 1968 <em>Os intelectuais e a organiza\u00e7\u00e3o da cultura<\/em> e <em>Literatura e vida nacional <\/em>(tamb\u00e9m pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira). Se durante o per\u00edodo 1961-65 as obras do jovem Luk\u00e1cs e de Antonio Gramsci foram o horizonte central no pensamento filos\u00f3fico de Coutinho, desde aproximadamente 1965 at\u00e9 1975 este lugar ser\u00e1 ocupado pelo Luk\u00e1cs maduro (n\u00e3o o Luk\u00e1cs de <em>Hist\u00f3ria e Consci\u00eancia de Classe<\/em>, mas o da <em>Est\u00e9tica<\/em> e da <em>Ontologia do ser social<\/em>). Nesse per\u00edodo, sua leitura filos\u00f3fica fortemente luk\u00e1csiana do marxismo remetia tangencialmente a discuss\u00e3o tamb\u00e9m a Antonio Gramsci, cuja filosofia era caracterizada, em <em>O estruturalismo e a mis\u00e9ria da raz\u00e3o<\/em>, como \u201cum historicismo subjetivista cuja raiz remonta ao jovem Benedetto Croce\u201d. N\u00e3o obstante, Coutinho seguia marcando a propriedade do estreito v\u00ednculo pol\u00edtico entre Gramsci e Lenin.<\/p>\n<p>Mais tarde, provavelmente a partir de 1975, de maneira paralela \u00e0 influ\u00eancia pol\u00edtica que recebeu do Partido Comunista Italiano (PCI), principalmente de Palmiro Togliatti, mas n\u00e3o apenas dele, Coutinho reconsideraria estas posi\u00e7\u00f5es sobre Gramsci. A partir de ent\u00e3o, reavaliaria seu legado n\u00e3o s\u00f3 como fil\u00f3sofo, mas principalmente como te\u00f3rico da pol\u00edtica. Publicaria ent\u00e3o a primeira vers\u00e3o de sua <em>Introdu\u00e7\u00e3o a Gramsci<\/em> (1981, logo ampliada e reeditada em diversas ocasi\u00f5es), onde destacaria no autor dos <em>Cadernos do C\u00e1rcere<\/em>\u201c sua ontologia marxista da pr\u00e1xis pol\u00edtica\u201d e sua opera\u00e7\u00e3o de \u201cconserva\u00e7\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica\u201d das categorias leninistas. Nesta obra, absolutamente laudat\u00f3ria do pensamento gramsciano, ainda se ouviriam ecos do per\u00edodo luk\u00e1csiano, como por exemplo quando Coutinho insiste com a tese de que existiriam \u201cres\u00edduos idealistas nas reflex\u00f5es especificamente filos\u00f3ficas de Gramsci\u201d.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos Coutinho buscou repensar o conjunto de sua obra anterior, explorando a fundo a poss\u00edvel articula\u00e7\u00e3o entre seus dois grandes amores filos\u00f3ficos: a obra de Gramsci e a do Luk\u00e1cs maduro, entendendo ambas como duas modalidades diferentes mas complementares de filosofia da pr\u00e1xis. Paralelamente, em termos pol\u00edticos, tratou de fundamentar a consigna de Rosa Luxemburgo, \u201cN\u00e3o h\u00e1 democracia sem socialismo, nem socialismo sem democracia\u201d, mas valendo-se centralmente das categoria gramscianas de \u201csociedade civil\u201d e de \u201cEstado ampliado\u201d. Na Argentina, deram-se a conhecer alguns de seus trabalhos gra\u00e7as \u00e0s tradu\u00e7\u00f5es ao espanhol da editora mexicana ERA.<\/p>\n<p>Entre seus \u00faltimos livros publicados no Brasil se destacam <em>Cultura e sociedade no Brasil. Ensaios sobre ideias e formas <\/em>(Belo Horizonte: Oficina do Livro, 1990); <em>Marxismo e pol\u00edtica. A dualidade de poderes e outros ensaios<\/em> (S\u00e3o Paulo: Cortez, 1994 e 1996); <em>Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento pol\u00edtico<\/em> (Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1999) e <em>Contra a corrente. Ensaios sobre democracia e socialismo<\/em> (S\u00e3o Paulo: Cortez, 2000).<\/p>\n<p>Entre suas tradu\u00e7\u00f5es ao portugu\u00eas, devem ser mencionadas, al\u00e9m das de Gramsci e Luk\u00e1cs, <em>As ideias est\u00e9ticas de Marx<\/em> de Adolfo S\u00e1nchez V\u00e1zquez; <em>L\u00f3gica formal, l\u00f3gica dial\u00e9tica<\/em>, de Henri Lefebvre; <em>Socialismo e democracia. Escritos 1944-1964<\/em>, uma antologia de Palmiro Togliatti e a <em>Hist\u00f3ria do marxismo<\/em> organizada por Eric J. Hobsbawm (publicada originalmente na It\u00e1lia pela Einaudi). A isto dever-se-ia agregar a edi\u00e7\u00e3o dos <em>Cadernos do C\u00e1rcere<\/em> \u2013 ainda em curso [refer\u00eancia ao ano de 2000, quando este texto foi escrito] de Gramsci (tamb\u00e9m pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira), com os quais Coutinho realizou uma esp\u00e9cie de s\u00edntese entre a edi\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica de Togliatti e a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de Valentino Gerratana.<\/p>\n<p>Atualmente [refer\u00eancia ao ano 2000], Carlos Nelson Coutinho \u00e9 militante do PT [foi membro-fundador do PSoL a partir de 2004 \u2013 N. do T.] e professor e investigador do Centro de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A entrevista foi realizada especialmente para este livro [\u00ab<em>De Ingenieros al Che. Ensayos sobre el marxismo argentino y latinoamericano<\/em>\u00bb, N. do T.].<\/p>\n<p><strong>N\u00e9stor Kohan:<\/strong> Em sua obra te\u00f3rica dois autores ocuparam o centro da cena: Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e Antonio Gramsci. Por que os tomou como paradigmas e interlocutores privilegiados?<\/p>\n<p><strong>Carlos Nelson Coutinho:<\/strong> Creio que Luk\u00e1cs e Gramsci s\u00e3o os autores que melhor desenvolvem as indica\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas de Marx, adequando-as ao s\u00e9culo XX e garantindo sua perdurabilidade no s\u00e9culo XXI. O \u00faltimo Luk\u00e1cs, ao interpretar o legado filos\u00f3fico de Marx como uma \u201contologia do ser social\u201d \u2013 que, a partir da afirma\u00e7\u00e3o do trabalho como \u201cmodelo de toda a pr\u00e1xis social\u201d, concebe o ser social, ao contr\u00e1rio do ser natural, como uma articula\u00e7\u00e3o org\u00e2nica entre causalidade e teleologia, entre determina\u00e7\u00e3o e liberdade \u2013, me parece haver proposto a mais l\u00facida leitura filos\u00f3fica do marxismo. Gramsci, por sua vez, n\u00e3o s\u00f3 compreendeu a ess\u00eancia da filosofia de Marx ao defini-la como \u201cfilosofia da pr\u00e1xis\u201d, mas sobretudo promoveu a mais l\u00facida e criativa renova\u00e7\u00e3o da teoria pol\u00edtica marxiana, ao formular o conceito de \u201csociedade civil\u201d e, deste modo, ao elaborar sua no\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de \u201cEstado ampliado\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, penso que, n\u00e3o obstante algumas diverg\u00eancias n\u00e3o essenciais, \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel conjugar as reflex\u00f5es destes dois grandes pensadores: por exemplo, \u00e9 muito significativa a fun\u00e7\u00e3o essencial que, em ambos, desempenha o conceito de \u201ccatarse\u201d, que em Luk\u00e1cs tem uma dimens\u00e3o \u00e9tica e est\u00e9tica e que adota, em Gramsci, uma dimens\u00e3o especificamente pol\u00edtica. Mas, em ambos, a \u201ccatarse\u201d aparece como o movimento da pr\u00e1xis onde tem lugar a eleva\u00e7\u00e3o da particularidade \u00e0 universalidade, da necessidade \u00e0 liberdade. Penso que seria um trabalho de inestim\u00e1vel valor para a hist\u00f3ria do marxismo \u2013 e trata-se de uma tarefa que me proponho a tentar \u2013 aprofundar este estudo das semelhan\u00e7as e das diferen\u00e7as entre as reflex\u00f5es de Gramsci e de Luk\u00e1cs.<\/p>\n<p><strong>N.Kohan:<\/strong> No Partido Comunista Brasileiro (PCB), no qual voc\u00ea militou durante vinte anos, os textos de Luk\u00e1cs e Gramsci circulavam livremente ou estavam de algum modo \u201cproscritos\u201d em fun\u00e7\u00e3o dos manuais sovi\u00e9ticos?<\/p>\n<p><strong>C.N.Coutinho:<\/strong> Ingressei no PCB em 1960, isto \u00e9, depois do XX Congresso do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (PCUS), ou seja, depois da den\u00fancia dos crimes de Stalin. A atmosfera cultural j\u00e1 era, ent\u00e3o, mais aberta. O PCB (que, diga-se de passagem, n\u00e3o foi jamais t\u00e3o sect\u00e1rio e dogm\u00e1tico quanto o Partido Comunista Argentino) experimentava neste momento o desafio de outros agrupamentos de esquerda, sobretudo dos crist\u00e3os progressistas, e por isso aceitou que seus intelectuais mais jovens propusessem novos autores marxistas. Nos anos 60, publicamos no Brasil n\u00e3o somente Gramsci e Luk\u00e1cs, mas tamb\u00e9m importantes pensadores da Escola de Frankfurt, como T. Adorno, W. Benjamin e H. Marcuse. J\u00e1 nos anos 60, no Brasil ningu\u00e9m levava a s\u00e9rio os manuais sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Entretanto, existia uma \u201cdivis\u00e3o do trabalho\u201d t\u00e1cita: n\u00f3s, os intelectuais do Partido [PCB], pod\u00edamos apresentar e defender Gramsci e Luk\u00e1cs como \u201cfil\u00f3sofos\u201d, mas a defini\u00e7\u00e3o da linha pol\u00edtica era algo reservado \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do Partido. Por isso, por exemplo, foi muito unilateral a primeira recep\u00e7\u00e3o de Gramsci no Brasil: ele era apresentado por n\u00f3s como o mais brilhante fil\u00f3sofo e cr\u00edtico liter\u00e1rio marxista, mas ficou em sil\u00eancio a ineg\u00e1vel dimens\u00e3o pol\u00edtica de sua obra. Isto \u00e9: o caminho estava aberto para defender Gramsci como o promotor de uma \u201cfilosofia da pr\u00e1xis\u201d, mas n\u00e3o como te\u00f3rico da \u201crevolu\u00e7\u00e3o no Ocidente\u201d, quer dizer, como uma alternativa aos paradigmas etapistas e rupturistas da III Internacional, a Internacional Comunista.<\/p>\n<p><strong>N.Kohan:<\/strong> Algo semelhante aconteceu na Argentina, quanto a esta \u201cdivis\u00e3o do trabalho\u201d que voc\u00ea menciona, no tocante \u00e0 recep\u00e7\u00e3o gramsciana de Agosti. Voc\u00ea conhecia sua obra? Ela teve influ\u00eancia em sua primeira aproxima\u00e7\u00e3o de Gramsci?<\/p>\n<p><strong>C.N.Coutinho:<\/strong> De Agosti, me lembro de haver lido <em>Defensa del realismo<\/em>; <em>Naci\u00f3n y cultura<\/em>;<em> Cuaderno de Bit\u00e1cora<\/em>; <em>Para una pol\u00edtica de la cultura<\/em> \u2013 todos em espanhol \u2013 e seu \u00fanico livro publicado no Brasil:\u00a0<em>Problemas atuais do humanismo<\/em>. Pelo que me lembro \u2013 pois li Agosti nos anos 60, j\u00e1 faz tempo \u2013 eu estava, no geral, de acordo com suas posi\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o diria que tenha me influenciado. Me interessei por ele por ter lido, em 1961, seu pref\u00e1cio \u00e0 velha edi\u00e7\u00e3o argentina de\u00a0<em>El materialismo hist\u00f3rico y la filosofia de Benedetto Croce<\/em>. Depois, o conheci brevemente quando ele veio ao Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><strong>N.Kohan:<\/strong> Voc\u00ea teve, junto com Leandro Konder, um interc\u00e2mbio epistolar com Luk\u00e1cs, talvez o \u00fanico da Am\u00e9rica Latina. Como aconteceu? Quais foram os temas sobre os quais conversaram? De todas as cartas que Luk\u00e1cs te enviou, qual seria a que te resultou mais interessante?<\/p>\n<p><strong>C.N.Coutinho:<\/strong> Meu amigo Leandro Konder escreveu a Luk\u00e1cs (utilizando o endere\u00e7o do Movimento dos Partid\u00e1rios da Paz), creio que pela primeira vez em 1961, e o fil\u00f3sofo lhe respondeu com muita simpatia e cordialidade. A partir de ent\u00e3o, e at\u00e9 a morte de Luk\u00e1cs, em 1971, trocamos com ele, Konder e eu, umas vinte ou trinta cartas. Certamente, a maioria delas n\u00e3o tem grande interesse te\u00f3rico, tratando por exemplo de edi\u00e7\u00f5es brasileiras de suas obras etc. Mas creio que algumas t\u00eam, sim. Por exemplo, respondendo a Konder, em 1962, Luk\u00e1cs disse que conhecia a obra de Gramsci. Depois disto, tanto em entrevistas quanto no cap\u00edtulo sobre ideologia na Ontologia do ser social, Luk\u00e1cs cita a Gramsci, sempre de modo cr\u00edtico, mas com ineg\u00e1vel simpatia. Chegou a dizer que ele, Korsch e Gramsci, nos anos 20, haviam tentado mas n\u00e3o tiveram \u00eaxito em encontrar solu\u00e7\u00f5es adequadas \u00e0 quest\u00e3o do \u201crenascimento do marxismo\u201d. E conclu\u00eda dizendo: \u201cGramsci era o melhor de n\u00f3s\u201d. Ser\u00e1 que Konder chamou a aten\u00e7\u00e3o de Luk\u00e1cs sobre a import\u00e2ncia de Gramsci? Eu, de minha parte, estava escrevendo nos anos 60 um ensaio sobre F. Kafka, onde tentava \u2013 contra a letra de Luk\u00e1cs, mas, eu acreditava, fiel ao esp\u00edrito de seu m\u00e9todo \u2013 demonstrar que Kafka era um realista. Apresentei em uma carta a Luk\u00e1cs minhas ideias centrais sobre Kafka. Bem, ele me respondeu, em 1968, fazendo uma autocr\u00edtica expl\u00edcita de seu livro <em>La significaci\u00f3n presente del realismo cr\u00edtico <\/em>[publicado no Brasil com o t\u00edtulo <em>Realismo cr\u00edtico hoje<\/em>, N. do T.], no qual, como se sabe, h\u00e1 um cap\u00edtulo absurdamente intitulado \u201cFranz Kafka ou Thomas Mann?\u201d. Na carta me dizia com todas as letras que havia escrito este livro em condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis e que certamente era preciso reavaliar Kafka. Trata-se sem d\u00favida de uma carta importante, tanto que Nicol\u00e1s Tertuli\u00e1n \u2013 um dos principais luk\u00e1csianos de hoje \u2013 j\u00e1 a citou algumas vezes, registrando o fato de que \u00e9 a \u00fanica carta onde Luk\u00e1cs procede a uma autocr\u00edtica expl\u00edcita daquele livro e de suas posi\u00e7\u00f5es negativas sobre Kafka.<\/p>\n<p>Uma investigadora brasileira, Tania Tonezzer, publicou algumas destas cartas em uma revista italiana.<\/p>\n<p><strong>N.Kohan:<\/strong> Em seu trabalho <em>O estruturalismo e a mis\u00e9ria da raz\u00e3o<\/em> (1971), voc\u00ea saiu bem cedo em ataque \u00e0 corrente althusseriana, inclusive quando seus textos causavam furor e eram moda indiscutida na Am\u00e9rica Latina. A quem se deveu esta decis\u00e3o? Foi uma resposta frente \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o dos manuais de Marta Harnecker?<\/p>\n<p><strong>C.N.Coutinho:<\/strong> Quando escrevi <em>O estruturalismo e a mis\u00e9ria da raz\u00e3o<\/em>, em 1971, n\u00e3o conhecia ainda o manual de Marta Harnecker, que certamente n\u00e3o foi um evento positivo na divulga\u00e7\u00e3o do marxismo na Am\u00e9rica Latina. Afortunadamente, este manual n\u00e3o teve no Brasil a mesmo influ\u00eancia que teve em outros pa\u00edses latino-americanos. Quando meu livro foi publicado (simultaneamente no Brasil e no M\u00e9xico), eu era um luk\u00e1csiano quase fan\u00e1tico, que al\u00e9m disso j\u00e1 conhecia Gramsci bastante bem: n\u00e3o me podia satisfazer a leitura althusseriana de Marx, que se contrapunha a uma linha de interpreta\u00e7\u00e3o do marxismo \u2013 digamos, humanista e historicista \u2013 com a cual estava e estou de acordo at\u00e9 hoje. Ademais, naquele momento, quando a ditadura militar havia assumido sua face mais repressiva no Brasil, Althusser paradoxalmente exercia influ\u00eancia entre n\u00f3s no sentido de duas tend\u00eancias d\u00edspares, mas a ambas das quais eu me opunha. Por um lado, por interm\u00e9dio de Regis Debray, Althusser tinha forte presen\u00e7a nas correntes de ultra-esquerda, que, em clara diverg\u00eancia com o PCB, propunham o caminho da luta armada; por outro, tamb\u00e9m tinha ascend\u00eancia sobre setores da intelectualidade que, sobretudo na Universidade, buscavam, em nome de uma supera\u00e7\u00e3o da \u201cideologia\u201d e do \u201chumanismo\u201d, reduzir o marxismo a uma pura metodologia das ci\u00eancias, sem nenhuma dimens\u00e3o pr\u00e1tica. Meu livro tinha assim, n\u00e3o obstante sua dimens\u00e3o te\u00f3rico-filos\u00f3fica, uma clara finalidade de pol\u00edtica cultural. Era parte de uma batalha pol\u00edtico-ideol\u00f3gica, feita (devido \u00e0 censura ditatorial) de forma mais ou menos dissimulada.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se ainda estou de acordo com tudo o que escrevi ali h\u00e1 quase trinta anos. Mas me agrada muito que voc\u00ea, que mal havia nascido quando o livro foi publicado, ainda fale dele.<\/p>\n<p><strong>N.Kohan:<\/strong> Voc\u00ea teve alguma rela\u00e7\u00e3o com o grupo de marxistas ligados nos anos 60 a Jos\u00e9 Arthur Giannotti? Que papel desempenhou este grupo no marxismo brasileiro?<\/p>\n<p><strong>C.N.Coutinho:<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o tive nesta \u00e9poca rela\u00e7\u00e3o alguma com este grupo. Muitos de seus integrantes s\u00e3o hoje em dia meus amigos pessoais, mas havia ent\u00e3o uma clara diferen\u00e7a (quase uma oposi\u00e7\u00e3o!) entre os marxistas do Rio de Janeiro (quase todos vinculados ao PCB) e os marxistas de S\u00e3o Paulo (quase todos professores universit\u00e1rios e sem partido). O grupo que formou o \u201cmarxismo paulista\u201d era j\u00e1 ent\u00e3o muito diversificado, e as diverg\u00eancias entre eles cresceram ainda mais com o tempo. O grupo de S\u00e3o Paulo se estruturou em torno de um famoso semin\u00e1rio sobre <em>O Capital<\/em> do qual fizeram parte \u2013 para que seja poss\u00edvel avaliar as diferen\u00e7as! \u2013 tanto meu amigo Michael L\u00f6wy quanto o atual presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso [refer\u00eancia em 2000, ano da entrevista, N. do T.].<\/p>\n<p>Agora, muitos dos integrantes deste grupo j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o marxistas hoje: este \u00e9 o caso, para n\u00e3o falar de Cardoso, tamb\u00e9m de Giannotti. \u00c9 certo que tiveram uma influ\u00eancia no marxismo brasileiro, inclusive positiva, sobretudo porque criticaram as formula\u00e7\u00f5es err\u00f4neas do PCB, por exemplo a ideia de que existiria uma \u201cburguesia nacional\u201d progressista e anti-imperialista. Cardoso, por exemplo, em um brilhante livro de in\u00edcios dos anos 70, mostrou muito bem que a burguesia brasileira queria a associa\u00e7\u00e3o com o imperialismo. Sustentou ent\u00e3o que a meta de nossa burguesia era um \u201cdesenvolvimento dependente-associado\u201d. Mas quem poderia imaginar nessa \u00e9poca que ele mesmo se converteria mais tarde em executor desta pol\u00edtica?<\/p>\n<p>Em geral, creio que alguns dos expoentes do chamado \u201cmarxismo paulista\u201d tiveram no Brasil o mesmo papel que tiveram os \u201cmarxistas legais\u201d na R\u00fassia: leram <em>O Capital<\/em> para sustentar que dever\u00edamos nos \u201cmodernizar\u201d, desenvolver as for\u00e7as produtivas, mas na pr\u00e1tica fizeram da burguesia o ator desta moderniza\u00e7\u00e3o. Portanto, o itiner\u00e1rio de Cardoso n\u00e3o \u00e9 um raio em dia de c\u00e9u azul.<\/p>\n<p><strong>N.Kohan:<\/strong> Voc\u00ea escreveu um ensaio sobre Caio Prado Jr. Que repercuss\u00f5es teve na cultura de esquerda brasileira sua obra historiogr\u00e1fica questionadora do relato canonizado pelo stalinismo sobre o suposto \u201cfeudalismo\u201d latino-americano?<\/p>\n<p><strong>C.N.Coutinho: <\/strong>Caio Prado J\u00fanior foi o primeiro a tentar seriamente uma interpreta\u00e7\u00e3o do Brasil a partir de categorias marxistas. Seu ensaio\u00a0<em>Evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil<\/em>, de 1933, constitue um marco na cultura brasileira. Ainda mais decisivos s\u00e3o seus livros sobre a\u00a0<em>Forma\u00e7\u00e3o do Brasil Contempor\u00e2neo, Col\u00f4nia<\/em>, de 1943 [o livro foi lan\u00e7ado, na verdade, em 1942, N. do T.], e sua\u00a0<em>Hist\u00f3ria econ\u00f4mica do Brasil<\/em>, de 1945.<\/p>\n<p>Caio Prado J\u00fanior \u2013 tal como Mari\u00e1tegui \u2013 n\u00e3o conhecia muito bem o marxismo. Pode-se ver facilmente que era escassa sua familiaridade n\u00e3o apenas com as obras de Marx, mas tamb\u00e9m com as dos marxistas posteriores. Sem d\u00favida, tal como o Amauta [apelido para Mari\u00e1tegui, derivado do nome dado pelos incas a seus educadores, posteriormente adotado por ele como nome para sua revista de pol\u00edtica, socialismo, arte e cultura, N. do T.], intuiu muito bem os tra\u00e7os principais da evolu\u00e7\u00e3o de nossos pa\u00edses para o capitalismo, isto \u00e9, o fato de que esta evolu\u00e7\u00e3o seguiu uma via \u201cn\u00e3o-cl\u00e1ssica\u201d, caracterizada pela perman\u00eancia de tra\u00e7os pr\u00e9-capitalistas, fortemente autorit\u00e1rios e excludentes, baseados em formas de coer\u00e7\u00e3o extra-econ\u00f4mica sobre os produtores diretos. Como Mari\u00e1tegui, Caio Prado J\u00fanior \u201cinventou\u201d categorias muito semelhantes \u00e0s de \u201cvia prussiana\u201d (L\u00eanin) e de \u201crevolu\u00e7\u00e3o passiva\u201d (Gramsci). Por isso, e neste caso tamb\u00e9m como o Amauta, Caio Prado \u2013 mesmo tendo sido militante do PCB \u2013 sempre se op\u00f4s abertamente \u00e0 \u201cleitura\u201d terceiro-internacionalista do Brasil. Seu \u00faltimo livro significativo, de 1966, intitulado <em>A revolu\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>, \u00e9 uma cr\u00edtica muito dura aos paradigmas da III Internacional utilizados pelo PCB. \u00c9 indiscut\u00edvel sua import\u00e2ncia \u2013 ao lado de outros, como por exemplo Florestan Fernandes, que jamais militou no PCB \u2013 para a constru\u00e7\u00e3o de uma \u201cimagem marxista do Brasil\u201d.<\/p>\n<p><strong>N.Kohan:<\/strong> A publica\u00e7\u00e3o de seu ensaio <em>Introdu\u00e7\u00e3o a Gramsci<\/em> (1981) ocorreu na mesma \u00e9poca do surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT), do qual agora [2000, N. do T.] voc\u00ea \u00e9 militante. Houve alguma rela\u00e7\u00e3o entre ambos os fatos?<\/p>\n<p><strong>C.N.Coutinho:<\/strong> Meu livro sobre Gramsci \u2013 que teve v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es, incluindo a mexicana que voc\u00ea cita, a \u00faltima das quais de 1999 com o t\u00edtulo <em>Gramsci, Um estudo de seu pensamento pol\u00edtico<\/em> \u2013 foi escrito no momento de minha ruptura com o PCB. Nessa \u00e9poca, era j\u00e1 mais ou menos consciente de que a proposta gramsciana, que leva \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de um v\u00ednculo org\u00e2nico entre socialismo e democracia, era incompat\u00edvel com a heran\u00e7a te\u00f3rica e pol\u00edtica do PCB, ou, mais precisamente, com a heran\u00e7a pol\u00edtica da III Internacional \u00e0 qual o PCB se mantinha vinculado.<\/p>\n<p>Mas, naquele momento, n\u00e3o me parecia tamb\u00e9m que o neonato PT fosse o leg\u00edtimo herdeiro da li\u00e7\u00e3o gramsciana. O PT surgiu marcado por um forte e soreliano [o termo \u00e9 referente a Georges Sorel, militante e te\u00f3rico franc\u00eas do \u201csindicalismo revolucion\u00e1rio\u201d que exerceu grande influ\u00eancia na virada do s\u00e9culo XIX para o XX, tendo tido ascend\u00eancia inclusive sobre o jovem Luk\u00e1cs pr\u00e9-marxista, N. do T.] \u201cesp\u00edrito de cis\u00e3o\u201d: n\u00e3o fazia alian\u00e7as, parecia preferir, ao frentismo inconsequente do PCB, um completo isolamento pol\u00edtico. Assim, fiquei sem partido at\u00e9 1989, quando finalmente, depois de muitas d\u00favidas, ingressei no PT. Creio que, enquanto isso, mudamos os dois, eu e o PT. E continuamos mudando, talvez o PT mais que eu. Quando ingressei no PT, me diziam que eu estava \u201c\u00e0 direita\u201d, sobretudo porque acreditava, como acredito ainda hoje, que sem democracia n\u00e3o h\u00e1 socialismo. Hoje, dez anos depois, no interior do Partido, estou \u201c\u00e0 esquerda\u201d. E sabe por qu\u00ea? Porque tamb\u00e9m continuo convencido de que sem socialismo n\u00e3o h\u00e1 democracia. N\u00e3o creio que esta seja uma situa\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel, mas me parece que meu destino \u00e9 ser sempre heterodoxo nos partidos nos quais milito. Ainda assim, minha milit\u00e2ncia resulta do fato de que, em minha opini\u00e3o, ainda n\u00e3o se inventou um modo melhor de fazer pol\u00edtica do que os partidos.<\/p>\n<p><strong>N.Kohan:<\/strong> Fazendo um balan\u00e7o retrospectivo de sua obra e de sua atividade militante, o que te trouxe no plano da \u00e9tica o envolvimento desde t\u00e3o jovem com o universo filos\u00f3fico de Karl Marx?<\/p>\n<p><strong>C.N.Coutinho:<\/strong> Uma experi\u00eancia inesquec\u00edvel! Lembro-me de ter lido Marx aos 15 anos. Foi um acaso muito feliz para mim o fato de que meu pai tinha em sua biblioteca o <em>Manifesto Comunista<\/em>. Em minha gera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o creio que ningu\u00e9m tenha lido o <em>Manifesto<\/em> sem consequ\u00eancias definitivas em sua forma\u00e7\u00e3o. Com Marx, n\u00e3o aprendi somente a ver melhor o mundo, a compreend\u00ea-lo de modo mais adequado. Estou seguro de que tamb\u00e9m devo \u00e0 leitura precoce de Marx o melhor de minha forma\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Mais tarde, Gramsci me revelou qual \u00e9 a mais l\u00facida norma de vida para um intelectual marxista: \u201cpessimismo da intelig\u00eancia, otimismo da vontade\u201d. Nesta \u00e9poca dif\u00edcil de refluxo dos objetivos pelos quais temos sempre lutado, n\u00e3o h\u00e1 modo melhor de nos mantermos fi\u00e9is \u00e0 li\u00e7\u00e3o de Marx do que aquele sugerido nesta indica\u00e7\u00e3o de Gramsci: uma an\u00e1lise fria e serena da realidade, mas que deve ser complementada pela conserva\u00e7\u00e3o dos motivos \u00e9ticos e racionais que iluminaram e guiaram nossas vidas.<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Victor Neves, militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nN\u00e9stor Kohan\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3617\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-3617","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Wl","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3617","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3617"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3617\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}