{"id":3622,"date":"2012-09-28T18:49:13","date_gmt":"2012-09-28T18:49:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3622"},"modified":"2012-09-28T18:49:13","modified_gmt":"2012-09-28T18:49:13","slug":"venezuela-os-dilemas-de-outubro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3622","title":{"rendered":"Venezuela: os dilemas de outubro"},"content":{"rendered":"\n<p>A esquerda n\u00e3o pode perder o rumo, nem se paralisar diante das incompreens\u00edveis pequenas coisas, nem se confundir com as limita\u00e7\u00f5es do processo bolivariano. A alternativa \u00e9 clara e n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo virar as costas a ela. H\u00e1 que se apoiar Ch\u00e1vez e o processo bolivariano, aprofundando as transforma\u00e7\u00f5es em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo.<\/p>\n<p>Mas a urg\u00eancia das elei\u00e7\u00f5es de outubro e a necessidade imperiosa da vit\u00f3ria eleitoral n\u00e3o devem nos confundir. A luta na Venezuela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 eleitoral. O imperialismo estadunidense (sob o disfarce sorridente e \u201cmulticultural\u201d do presidente Obama, belicoso como os mandat\u00e1rios ianques anteriores), a grande burguesia venezuelana e os seus s\u00f3cios pol\u00edticos est\u00e3o desenvolvendo um plano extraeleitoral destinado a sabotar o processo e\/ou a desconhecer os resultados. Planejam desestabilizar at\u00e9 conseguir os mesmos objetivos intervencionistas praticados na L\u00edbia ou na S\u00edria. Por isso mesmo, a solidariedade com a revolu\u00e7\u00e3o bolivariana deve se expressar em todos os cen\u00e1rios de luta at\u00e9 garantir a derrota definitiva desses esfor\u00e7os sediciosos e o aprofundamento e a amplia\u00e7\u00e3o definitiva da marcha para o socialismo.<\/p>\n<p>Os dilemas de outubro inscrevem-se num n\u00f3 geopol\u00edtico condensado. O imperialismo e as suas subservientes burguesias querem varrer completamente do mapa a insol\u00eancia de um militar latino-americano, mesti\u00e7o e bolivariano, anti-imperialista e admirador do Che Guevara, que n\u00e3o lhes obedece e os desafia h\u00e1 duas d\u00e9cadas. Precisam imperiosamente recuperar a renda petroleira e &#8220;p\u00f4r ordem&#8221; no norte da Am\u00e9rica do Sul, deslocando Ch\u00e1vez, neutralizando e desarmando definitivamente as FARC-EP e espalhando pelo continente novas bases militares que garantam o seu monop\u00f3lio sobre os recursos naturais.<\/p>\n<p>Frente a essa ofensiva imperial, a geopol\u00edtica bolivariana n\u00e3o deveria se contentar com a UNASUL e com a unidade institucional dos Estados. Em longo prazo, o que definir\u00e1 a queda-de-bra\u00e7o ser\u00e1 a unidade dos povos (incluindo suas express\u00f5es sociais e insurgentes), e n\u00e3o apenas os pactos entre os Estados. Os apertos de m\u00e3o com Santos, presidente corrupto e assassino, n\u00e3o frear\u00e3o o paramilitarismo e a lumpesinagem da burguesia colombiana, nem garantir\u00e3o uma estabilidade duradoura na regi\u00e3o, enquanto as for\u00e7as armadas colombianas sigam mantendo meio milh\u00e3o de soldados \u2013 dirigidos diretamente por generais ianques e assessores israelenses \u2013 que amea\u00e7am invadir a Venezuela na eventualidade de se aprofundar a marcha ao socialismo. A continuidade do bolivarianismo das FARC-EP como ponta de lan\u00e7a do movimento popular colombiano \u00e9 a melhor garantia para que a Venezuela n\u00e3o seja invadida pelos Estados Unidos atrav\u00e9s do ex\u00e9rcito colombiano, que est\u00e1 nas proximidades.<\/p>\n<p>A unidade continental dos povos \u00e9 a chave do triunfo bolivariano em escala internacional (nenhuma revolu\u00e7\u00e3o pode triunfar isolada, num s\u00f3 pa\u00eds). No \u00e2mbito nacional, por outro lado, a luta de classes se expressa em todos os terrenos, n\u00e3o s\u00f3 no eleitoral (este, sem d\u00favida, o mais vis\u00edvel).<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria segura de Ch\u00e1vez em outubro n\u00e3o deve nos fazer esquecer de que no interior do processo bolivariano tamb\u00e9m h\u00e1 conflito. Um segmento que apoia o l\u00edder hist\u00f3rico da revolu\u00e7\u00e3o bolivariana, ainda que mantendo a ret\u00f3rica oficial, faz todo o poss\u00edvel (e mais) para evitar ou retardar a op\u00e7\u00e3o socialista. Dia a dia \u201cinventa\u201d pseudoalternativas, sempre qualificadas como \u201cpopulares\u201d, \u201cautogestion\u00e1rias\u201d e \u201cbolivarianas\u201d, para n\u00e3o aprofundar o caminho ao socialismo. Como se fosse poss\u00edvel marchar ao socialismo sendo amigo de todo mundo e socializando apenas as margens da sociedade (aquelas que n\u00e3o incomodam o mercado, nem interessam \u00e0s grandes empresas porque n\u00e3o s\u00e3o lucrativas). Como se fosse poss\u00edvel construir a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo sem confrontar os milion\u00e1rios da burguesia e do empresariado.<\/p>\n<p>Um dos grandes desafios do presidente Ch\u00e1vez e de todo o processo bolivariano, posterior \u00e0 vit\u00f3ria eleitoral em outubro, consiste em se apoiar na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das classes populares, exploradas e subalternas (a sua principal e mais leal for\u00e7a de luta) e ir encontrando formas concretas de gest\u00e3o da propriedade estatal ou nacionalizada, que debilitem socialmente o inimigo s\u00f3rdido, e ir assentando as primeiras bases econ\u00f4micas da transi\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p>Deve-se golpear e debilitar os s\u00f3rdidos n\u00e3o apenas na ret\u00f3rica, na comunica\u00e7\u00e3o, nas urnas e na sensibilidade cultural (algo fundamental e imprescind\u00edvel), mas tamb\u00e9m nas colunas vertebrais do mercado capitalista da economia venezuelana. Para vencer o tigre, h\u00e1 que se animar a p\u00f4r sal no seu rabo. Ou se enfrenta a burguesia, debilitando-a socialmente, ou a burguesia terminar\u00e1 por devorar o processo bolivariano, como ocorreu \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o sandinista em 1990. N\u00e3o se pode \u201ccivilizar a burguesia\u201d (express\u00e3o infeliz de Tom\u00e1s Borge em 1986). H\u00e1 que enfrent\u00e1-la e derrot\u00e1-la!<\/p>\n<p>Ch\u00e1vez pode fazer isso. Sobra-lhe energia, projeto, valentia e decis\u00e3o pol\u00edtica. Inclusive, colocou sua pr\u00f3pria vida em risco (recordemos o golpe de Estado e a atitude digna que ent\u00e3o assumiu, t\u00e3o diferente da pusilanimidade e da covardia da maior parte da elite pol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina). A sua decis\u00e3o pessoal n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico ponto importante aqui. A revolu\u00e7\u00e3o bolivariana apoia-se em muitas conquistas que v\u00e3o al\u00e9m da lideran\u00e7a carism\u00e1tica de um indiv\u00edduo:<\/p>\n<p>&#8211; Internacionalizou a disputa pol\u00edtica e cultural a ponto de envolver todo o continente em cada uma das lutas sociais internas da Venezuela.<\/p>\n<p>&#8211; Politizou completamente a sociedade: at\u00e9 o mais indiferente ou alienado hoje deve se pronunciar (a favor ou contra). Ficou para tr\u00e1s a era do \u201cpragmatismo efetivo\u201d e a despolitiza\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna das massas populares que percorreu n\u00e3o s\u00f3 a Venezuela, mas toda a Nossa Am\u00e9rica nos anos de 1990.<\/p>\n<p>&#8211; Recuperou um olhar hist\u00f3rico (bolivariano) da nossa identidade popular, colocando em crise o individualismo c\u00ednico do p\u00f3s-modernismo, que nos convidava falsamente a desconfiar \u201cdos grandes projetos\u201d e a viver o dia a dia, pensando unicamente em consumir, sem ideais, sem hist\u00f3ria e sem projetos coletivos.<\/p>\n<p>&#8211; Relegitimou os s\u00edmbolos, a cultura e a tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do socialismo, que eram quest\u00f5es demon\u00edacas nos anos de 1990.<\/p>\n<p>&#8211; Redistribuiu a renda do petr\u00f3leo entre os setores populares e em projetos pol\u00edticos regionais, quando antes era um butim de guerra da burguesia venezuelana destinado ao seu consumo fr\u00edvolo e suntuoso.<\/p>\n<p>&#8211; Restabeleceu uma op\u00e7\u00e3o anti-imperialista no n\u00edvel regional e continental \u2013 dir\u00edamos inclusive mundial \u2013 estabelecendo v\u00ednculos com muitos povos e governos do mundo (os \u201cmaus\u201d, na linguagem hollywoodiana das administra\u00e7\u00f5es estadunidenses), desde a Am\u00e9rica Latina at\u00e9 a \u00c1frica e a \u00c1sia.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 vital apoiar determinadamente a continuidade do projeto encarnado por Ch\u00e1vez, ao mesmo tempo que se torna imposterg\u00e1vel o aprofundamento da revolu\u00e7\u00e3o bolivariana, apontando para a expropria\u00e7\u00e3o das grandes fortunas, das grandes casas comerciais, dos grandes bancos e das grandes empresas (nacionais e estrangeiras). Se a revolu\u00e7\u00e3o bolivariana n\u00e3o marchar para o socialismo de uma vez por todas \u2013 socializando concretamente as grandes empresas, nacionalizando as bases fundamentais da economia e estabelecendo, contra a regula\u00e7\u00e3o mercantil, um planejamento socialista de larga escala, para al\u00e9m inclusive do \u00e2mbito nacional, para o regional atrav\u00e9s da ALBA \u2013, necessariamente retroceder\u00e1 e ser\u00e1 derrotada pelos seus inimigos hist\u00f3ricos, internos e externos.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 estendendo a m\u00e3o ao presidente Santos, vizinho perverso, hip\u00f3crita e sinistro, nem dando novamente a face \u00e0s s\u00f3rdidas amea\u00e7as golpistas da direita venezuelana, que amea\u00e7a virar a mesa se n\u00e3o ganharem as elei\u00e7\u00f5es, que se aprofundar\u00e1 a revolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 hora de dar ouvidos ao pacifismo e \u00e0s trapa\u00e7as social-democratas que, em nome do \u201crealismo\u201d, sempre aconselham a pisar no freio \u2013 como fizeram no Chile em 1973, na Nicar\u00e1gua em 1990 e assim por diante \u2013 para terminar, invariavelmente, na derrota. N\u00e3o.<\/p>\n<p>O comandante Ch\u00e1vez e a revolu\u00e7\u00e3o bolivariana devem aproveitar essa crise mundial do capitalismo e a atual debilidade dos EUA e da Europa ocidental para pisar no acelerador. N\u00e3o s\u00f3 o povo venezuelano, mas todos os povos do mundo estamos atentos. O que se joga nessa disputa ter\u00e1, sem d\u00favida alguma, repercuss\u00f5es muito al\u00e9m da terra natal de Sim\u00f3n Bol\u00edvar.<\/p>\n<p>26 de setembro de 2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Kaosenlared\n\n\n\n\n\n\n\n\nN\u00e9stor Kohan\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3622\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[],"class_list":["post-3622","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Wq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3622","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3622"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3622\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}