{"id":3638,"date":"2012-10-02T03:37:48","date_gmt":"2012-10-02T03:37:48","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3638"},"modified":"2012-10-02T03:37:48","modified_gmt":"2012-10-02T03:37:48","slug":"o-general-frances-que-foi-professor-de-tortura-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3638","title":{"rendered":"O general franc\u00eas que foi professor de tortura na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"\n<p>(Enviado de Paris) Acabo de ler o \u00faltimo livro que o general franc\u00eas Paul Aussaresses escreveu: &#8220;Eu n\u00e3o contei tudo. \u00daltimas revela\u00e7\u00f5es a servi\u00e7o da Fran\u00e7a&#8221; (Je n&#8217;ai pas tout dit. Ultimes r\u00e9v\u00e9lations au service de la France, Editions du Rocher, 2008). Depois disso, tentei entrevist\u00e1-lo, sem sucesso, atrav\u00e9s de contato com Jean-Philippe Bertrand, assessor de comunica\u00e7\u00e3o da editora. Soube que o general est\u00e1 com 94 anos, quase cego, e que n\u00e3o mora em Paris, reside na Als\u00e1cia. Mas n\u00e3o d\u00e1 entrevistas.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, ele concedeu, pelo menos, duas entrevistas pol\u00eamicas: uma ao Le Monde, em novembro de 2000; outra, publicada pela Folha de S. Paulo, em maio de 2008, feita pela jornalista brasileira Leneide Duarte-Plon, que vive na Fran\u00e7a. Paul Aussaresses falou com ela e deu sua opini\u00e3o sobre os militares brasileiros. Disse que o general Ernesto Geisel era &#8220;uma homem racional de uma profunda moralidade&#8221;, que o general Jo\u00e3o Figueiredo era &#8220;um ador\u00e1vel sedutor&#8221; e que guardou boas lembran\u00e7as do general Garrastazu M\u00e9dici, a quem conheceu na embaixada da Fran\u00e7a e com quem conversou em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Tentei arrancar agora uma entrevista para o Di\u00e1rio do Amazonas, consciente de que seria dif\u00edcil. Diante da impossibilidade, s\u00f3 me resta compartilhar com o leitor minhas impress\u00f5es sobre o livro que li, onde o general conta suas andan\u00e7as pelo Brasil, suas atividades como adido cultural da Fran\u00e7a em Bras\u00edlia, de 1973 a 1975, e suas muitas passagens por Manaus, onde foi professor de tortura no Centro de Instru\u00e7\u00e3o de Guerra na Selva (CIGS).<\/p>\n<p><strong>Um predestinado<\/strong><\/p>\n<p>Logo no primeiro cap\u00edtulo, Paul Aussaresses revela que sempre foi um babaca, desde que nasceu. Quer dizer, ele n\u00e3o diz que era babaca, \u00e9 claro, sou eu que estou dizendo pelas coisas que ele narrou. Ele conta, por exemplo, que na sua inf\u00e2ncia, em Paris, olhava de sua janela os soldados desfilando no Campo de Marte e ficava fascinado:<\/p>\n<p>&#8211; Eu dizia a mim mesmo: quando eu crescer, vou ser militar. Minha querida av\u00f3, em cuja casa meus pais me deixavam muitas vezes, me olhava e dizia orgulhosa: &#8220;Cad\u00ea o generalzinho da vov\u00f3&#8221;? Na fam\u00edlia, todo mundo dizia que minhas primeiras palavras foram: &#8220;Posi\u00e7\u00e3o, sentido! Avan\u00e7ar!&#8221;. Mas eu n\u00e3o amava apenas os desfiles militares e a m\u00fasica marcial. Era eu um predestinado?<\/p>\n<p>Paul Aussaresses cresceu, se tornou militar e atuou no Servi\u00e7o de Documenta\u00e7\u00e3o Exterior e de Contra-Espionagem (SDECE). Participou da guerra da Indochina. Confessa, na maior cara de pau, que este \u00f3rg\u00e3o do governo franc\u00eas decidiu montar uma rede para o tr\u00e1fico de \u00f3pio:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s compr\u00e1vamos \u00f3pio no Laos por 14 centavos o grama e revend\u00edamos aos intermedi\u00e1rios por 18 francos. Esse tr\u00e1fico rendeu muito \u00e0 Rep\u00fablica Francesa e dessa forma n\u00f3s pudemos financiar atividades de repress\u00e3o&#8221;. Chefe do Batalh\u00e3o de Paraquedistas franc\u00eas, al\u00e9m de combater na Indochina, lutou na Segunda Guerra Mundial e recebeu a medalha de her\u00f3i. Foi um dos respons\u00e1veis pela sistematiza\u00e7\u00e3o da tortura durante a guerra da Arg\u00e9lia, instrutor das for\u00e7as especiais norteamericanas em Fort Bragg, e se distinguiu nos anos 1970 como professor de tortura no CIGS, em Manaus, criado pelo marechal Castelo Branco no in\u00edcio da ditadura militar, em 1964. Teve alunos brasileiros, chilenos, argentinos, uruguaios e paraguaios, entre outros.<\/p>\n<p><strong>Sem arrependimento<\/strong><\/p>\n<p>Vale a pena reproduzir aqui alguns trechos do livro. O jornalista Jean-Charles Deniau, autor da entrevista, que deu origem ao livro do general, lhe pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea ia com muita frequ\u00eancia a Manaus?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, ia todos os meses.<\/p>\n<p>&#8211; O que voc\u00ea ia fazer l\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Manobras com os alunos e estagi\u00e1rios do CIGS.<\/p>\n<p>&#8211; Mas voc\u00ea n\u00e3o ia para o cora\u00e7\u00e3o da floresta apenas para realizar manobras\u2026<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Os brasileiros me confiaram outras tarefas. Meu programa consistia em ensinar aos alunos a guerra contra-revolucion\u00e1ria. Para ser bem claro: eu ensinava as t\u00e9cnicas da batalha da Arg\u00e9lia.<\/p>\n<p>&#8211; E em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tortura, como \u00e9 que acontecia?<\/p>\n<p>&#8211; A gente ensinava as t\u00e9cnicas, ensinava como se devia fazer.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 O ensino da tortura era, ent\u00e3o, apenas te\u00f3rico? Ou havia aulas pr\u00e1ticas?<\/p>\n<p>&#8211; Havia aulas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>&#8211; Na realidade, voc\u00eas formavam torturadores brasileiros que, por sua vez, exportavam a t\u00e9cnica para outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina?<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Confirma. Exato.<\/p>\n<p>O general franc\u00eas conta que quando foi adido militar, o general Jo\u00e3o Figueiredo era chefe do SNI e com ele construiu uma s\u00f3lida amizade, assim como com o delegado S\u00e9rgio Fleury. Narra que quando estava em Manaus foi chamado \u00e0s pressas \u00e0 Bras\u00edlia por Figueiredo, que o levou ao por\u00e3o de um pr\u00e9dio onde uma mulher presa, de nome Eva, com quem o franc\u00eas havia tido um caso, estava sendo torturada. Ela morreu sob tortura. Segundo Figueiredo, era uma espi\u00e3.<\/p>\n<p>O professor de tortura franc\u00eas faz uma apologia da viol\u00eancia cometida contra presos indefesos, justificando: &#8220;A tortura \u00e9 eficaz, a maior parte das pessoas n\u00e3o aguenta e fala mesmo. Depois, quase sempre, n\u00f3s os mat\u00e1vamos.\u00a0 Por acaso isso me trouxe problemas de consci\u00eancia? N\u00e3o, essa \u00e9 que \u00e9 a verdade: n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Na entrevista a Leneide Duarte-Plon, ele havia declarado: &#8220;N\u00e3o me arrependo de nada. E recusei uma proposta que me foi feita no tribunal, quando fui acusado de fazer a apologia da tortura, o que n\u00e3o \u00e9 verdade. Meu advogado e meu editor me propuseram declarar que eu me arrependia do que fizera e do que escrevera. N\u00e3o posso, n\u00e3o me arrependo, eu seria desprezado por minha mulher<\/p>\n<p>Enfim, o general franc\u00eas Paul Aussaresses, no seu livro, demonstra que \u00e9 \u2013 usando a linguagem do &#8220;p&#8221; \u2013 um grande fipilhopo daputapa.<\/p>\n<p><em><strong>Jos\u00e9 Ribamar Bessa Freire e professor, coordena o Programa de Estudos dos Povos Ind\u00edgenas (UERJ) e pesquisa no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Mem\u00f3ria Social (UNIRIO)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>http:\/\/www.advivo.com.br\/blog\/luisnassif\/o-general-frances-que-foi-professor-de-tortura-na-amazonia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: CM\n\n\n\n\n\n\n\n\nJOS\u00c9 RIBAMAR BESSA FREIRE\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3638\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-3638","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-WG","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3638","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3638"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3638\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3638"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3638"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3638"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}