{"id":3649,"date":"2012-10-03T18:58:29","date_gmt":"2012-10-03T18:58:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3649"},"modified":"2012-10-03T18:58:29","modified_gmt":"2012-10-03T18:58:29","slug":"qe-sempre-perigoso-dialogar-debaixo-de-fogoq","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3649","title":{"rendered":"&#8220;\u00c9 sempre perigoso dialogar debaixo de fogo&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>por cmte. Rodrigo Granda*<\/p>\n<p>entrevistado por Carlos Azn\u00e1rez**<\/p>\n<p>A poucos dias das conversa\u00e7\u00f5es de paz entre o governo colombiano e as FARC, o Comandante Ricardo T\u00e9llez (Rodrigo Granda), integrante da direc\u00e7\u00e3o dessa organiza\u00e7\u00e3o guerrilheira, observou que &#8220;a convic\u00e7\u00e3o do governo de Juan Manuel Santos de que n\u00e3o podia ganhar a guerra de forma r\u00e1pida o levou a dialogar&#8221;. \u00a0 Granda, tamb\u00e9m conhecido como o &#8220;Chanceler das FARC&#8221; est\u00e1 na insurg\u00eancia desde 1980. Confessou que um momento muito dif\u00edcil das conversa\u00e7\u00f5es explorat\u00f3rias iniciadas em 2010 se verificou quando foi assassinado o comandante Jorge Brice\u00f1o (Mono Jojoy) e a seguir caiu em combate o dirigente m\u00e1ximo das FARC, Alfonso Cano. &#8220;Nessa altura fomos obrigado a avaliar se tom\u00e1vamos a decis\u00e3o de continuar ou vir\u00e1vamos o tabuleiro. Contudo, percebemos que o objectivo era a paz, como sempre havia defendido o nosso Comandante Manuel Marulanda V\u00e9lez, e decidimos continuar a tentar&#8221;. Esta entrevista foi realizada em Havana.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Foi muito dif\u00edcil chegar ao momento actual? Como foram as primeiras conversa\u00e7\u00f5es explorat\u00f3rias? <\/strong><\/p>\n<p>Este caminho n\u00e3o foi simples, porque viemos de uma guerra bastante dura, de oito anos do senhor Uribe e dois anos de Juan Manuel Santos. Uma vez que o presidente Santos assumiu o mandato, enviou uma carta ao Secretariado das FARC dizendo que o que n\u00f3s prop\u00fanhamos na agenda da Nova Col\u00f4mbia bolivariana podia ser discutido, mas que o fazia mal ao pa\u00eds eram as formas de luta que utiliz\u00e1vamos. De qualquer forma, ele reconhecia que na Col\u00f4mbia havia um conflito, o que era algo que Uribe n\u00e3o aceitava.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed come\u00e7ou um interc\u00e2mbio epistolar, que concluiu numa reuni\u00e3o que se fez na Col\u00f4mbia, ao que se seguiram alguns encontros em outros territ\u00f3rios n\u00e3o colombianos, para depois terminar em Cuba, em reuni\u00f5es que denominamos &#8220;discretas e secretas&#8221; durante seis meses, at\u00e9 chegar ao momento actual.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Voc\u00eas durante longo tempo insistiram, ao contr\u00e1rio do ELN, em que as conversa\u00e7\u00f5es tinham de ser na Col\u00f4mbia. O que os fez mudar de opini\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>Repare que desde tempos atr\u00e1s, no governo de Gaviria, dialog\u00e1mos em Caracas e a seguir no M\u00e9xico. Para n\u00f3s o lugar nunca foi uma quest\u00e3o de princ\u00edpios e sim que o importante \u00e9 ter a fundamenta\u00e7\u00e3o e a confian\u00e7a para encarar os di\u00e1logos.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Quanto tempo ir\u00e3o deliberar em Oslo? <\/strong><\/p>\n<p>Em Oslo ser\u00e1 somente a instala\u00e7\u00e3o da mesa, l\u00e1 deliberaremos dois ou tr\u00eas dias no m\u00e1ximo e a seguir o que \u00e9 importante ser\u00e1 discutido em Havana. Tamb\u00e9m acord\u00e1mos que poder\u00e3o igualmente realizar-se reuni\u00f5es em outros pa\u00edses (NR: n\u00e3o est\u00e1 descartado que uma dessas sedes possa ser a Argentina ou o Brasil) conforme decorram as discuss\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Quais s\u00e3o as raz\u00f5es que os levam a pensar que o establishment colombiano tem necessidade de encarar a paz precisamente neste momento? <\/strong><\/p>\n<p>Eles avan\u00e7aram com todas as suas for\u00e7as, o Plano Col\u00f4mbia. A ideia era exterminar-nos em quatro anos, de forma f\u00edsica. Ou seja, demonstrar ao mundo que a guerrilha podia ser derrotada por essa via militar. Esses primeiros quatro anos do senhor Uribe n\u00e3o frutificaram como ele pretendia. Conseguiu outros quatro anos com a sua reelei\u00e7\u00e3o e nesse per\u00edodo investiram-se mais de 12 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares na guerra na Col\u00f4mbia. Al\u00e9m da presen\u00e7a norte-americana, h\u00e1 pessoal israelense, do Reino Unido e outras pot\u00eancias metido na guerra contra o povo colombiano. Eles haviam falado do p\u00f3s conflito e verifica-se que isso que pretendiam n\u00e3o se v\u00eam lado algum. Temos uma guerrilha forte, bem equipada, que obviamente sofreu alguns golpes duros mas que soube adaptar-se, com muita facilidade, \u00e0s novas formas que assume a guerra na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Esse aspecto, de n\u00e3o poder ganhar a guerra de forma r\u00e1pida, levou ao convencimento do senhor Santos e dos seus patrocinadores, os EUA, de que era melhor dialogar. A nossa bandeira \u00e9 a paz e o di\u00e1logo. E levant\u00e1mo-nos em armas precisamente porque nos foram fechados esses caminhos. Pois bem, o estabelecimento colombiano pensa aumentar ao m\u00e1ximo todas as pol\u00edticas neoliberais, uma vez que t\u00eam 52 tratados de livre com\u00e9rcio firmados com diferentes pa\u00edses do mundo, uma boa quantidade de projectos agro-industriais e mineiros, mais projectos energ\u00e9ticos multimilion\u00e1rios. N\u00e3o nos esque\u00e7amos que a Col\u00f4mbia \u00e9 um dos pa\u00edses mais ricos do continente: temos ouro, prata, esmeraldas, a que \u00e9 preciso somar costas nos dois mares e a selva amaz\u00f3nica. Todos estes projectos que as transnacionais promovem chocam-se contra uma resist\u00eancia armada. A partir da\u00ed, nossos inimigos deduzem que \u00e9 melhor solucionar este conflito pela via dialogada. Al\u00e9m disso, em fun\u00e7\u00e3o da crise em que vive o mundo, e especialmente a Europa, temem que as suas consequ\u00eancias poderiam gerar um caldo de cultura para que, a partir da experi\u00eancia que t\u00eam as FARC, surjam outras guerrilhas no continente.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Contudo, Juan Manuel Santos insiste em que as FARC est\u00e3o contra as cordas, que os \u00faltimos golpes a debilitaram e que precisamente por isso voc\u00eas se sentam para dialogar. <\/strong><\/p>\n<p>De modo algum. Um dos princ\u00edpios da guerra \u00e9 que com os derrotados nunca se dialoga. Se eu ganho a guerra e submeto o inimigo, para que me vou por a dialogar? Isso n\u00e3o tem nenhum sentido. Essas suposi\u00e7\u00f5es existem na cabe\u00e7a deles pr\u00f3prios, mas a realidade lhes demonstra dia a dia que est\u00e3o equivocados. A confronta\u00e7\u00e3o armada hoje, e isto sabem-no os altos comandos militares e disseram-no em reuni\u00f5es, podem durar outros 20 ou 30 anos mais. Por isso \u00e9 que tiveram de reflectir sobre a necessidade de buscar outros caminhos para terminar com a guerra. Em fun\u00e7\u00e3o disso, n\u00f3s nos atrevemos a insinuar ao governo que o importante seria parar a mortandade que provoca a contenda, nosso interesse \u00e9 construir a paz, mas uma paz com dignidade, com justi\u00e7a social, que encare os problemas do povo colombiano.<\/p>\n<p><strong>&#8211; O que a guerrilha est\u00e1 a pedir com urg\u00eancia? <\/strong><\/p>\n<p>A guerrilha n\u00e3o est\u00e1 a pedir nada para si pr\u00f3pria, n\u00e3o precisamos nada do estabelecimento. A n\u00f3s movem-nos quest\u00f5es altru\u00edstas e que o pa\u00eds e o continente possam viver em paz.<\/p>\n<p>Se estes 48 anos de luta armada permanente conseguirem que se canalize uma abertura democr\u00e1tica, que na Col\u00f4mbia se alterem as formas de fazer pol\u00edtica e se respeitem os direitos humanos e a integridade das pessoas, e que o nosso pa\u00eds se insira na nova realidade latino-americana, e que contribua para a paz nacional e do mundo, creio que cumpriu uma miss\u00e3o muito importante. H\u00e1 que recordar que n\u00f3s, num certo momento, quisemos mudar esta forma de luta. Pois bem, se agora se abrirem as comportas que nos fecharam em 1964 e se nos permitirem em pleno plano de igualdade com outras for\u00e7as ir \u00e0 pra\u00e7a p\u00fablica, estar\u00edamos dispostos a fazer isso, mas nossos inimigos devem convencer-se que n\u00e3o v\u00e3o dialogar com uma guerrilha vencida. Esse foi o erro dos sucessivos governos colombianos, acreditar que cada vez que se abria a possibilidade de um di\u00e1logo era porque a insurg\u00eancia estava derrotada. Isso \u00e9 uma estupidez e sabem que no momento actual \u00e9 insustent\u00e1vel para eles.<\/p>\n<p><strong>&#8211; N\u00e3o cr\u00eaem que possa haver outra maneira de ver isto? Explico-lhe: o presidente Santos enfrentar a possibilidade de uma reelei\u00e7\u00e3o dentro em breve e ele sabe que se estas conversa\u00e7\u00f5es frutificarem poder\u00e1 converter-se num porta-bandeira da paz e desta maneira revalidar sua ideia de continuar a governar. <\/strong><\/p>\n<p>A paz tem muitos amigos e \u00e9 indubit\u00e1vel que na Col\u00f4mbia nasceu um fervor extraordin\u00e1rio para com ela. Respira-se o fervor de um verdadeiro plebiscito internacional que avan\u00e7ar\u00e1 com estes di\u00e1logos. Tenhamos em conta que este \u00e9 o conflito mais longo do hemisf\u00e9rio ocidental. \u00c9 indubit\u00e1vel que quem tiver as bandeiras da paz neste momento pode aspirar n\u00e3o s\u00f3 a uma reelei\u00e7\u00e3o como passar \u00e0 hist\u00f3ria como um homem que fez tudo o que estava ao seu alcance para que o seu povo pudesse viver melhor. Esse \u00e9 um desafio do Presidente. Se ele quiser fazer hist\u00f3ria, tem a grande oportunidade, mas o estabelecimento no seu conjunto tem que estar preparado para fazer algumas das concess\u00f5es que as FARC sempre buscaram, porque se trata de duas partes em que nenhuma delas ainda derrotou a outra.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Que diferen\u00e7a h\u00e1 entre estas conversa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o come\u00e7ar e as anteriores que se verificaram em outros momentos da confronta\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p>O Presidente tem neste momento um suporte muito grande a n\u00edvel nacional e no entorno latino-americano, diferente do que havia nos di\u00e1logos do Cagu\u00e1n. Ao mesmo tempo, v\u00ea-se que h\u00e1 um apoio muito maior por parte dos Estados Unidos para evitar que continue a guerra na Col\u00f4mbia. N\u00e3o esque\u00e7amos que eles foram os promotores desta guerra e, se pararem de lan\u00e7ar lenha \u00e0 fogueira, certamente tamb\u00e9m se poder\u00e1 avan\u00e7ar. Outra das situa\u00e7\u00f5es que se pode ver \u00e9 que o senhor Presidente j\u00e1 envolve o alto comando militar, incluindo nas conversa\u00e7\u00f5es alguns oficiais de alta patente. A\u00ed tamb\u00e9m h\u00e1 representantes dos gr\u00e9mios econ\u00f3micos, que sabem que com um esfor\u00e7o que se fa\u00e7a, e reconhecendo toda a quantidade de factores que originaram o conflito e solucionando essas causas, pode-se avan\u00e7ar rumo a um processo de paz. Da\u00ed que consideremos que h\u00e1 algumas varia\u00e7\u00f5es que nos permitem que fa\u00e7amos uma experi\u00eancia muito maior que em outras ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>Em nenhum dos processos anteriores houve uma vontade real de paz por parte do governo colombiano. Se o senhor Santos vai utilizar essa bandeira para a pequena pol\u00edtica\u00a0<em>(politiqueria), <\/em>ele dever\u00e1 pagar esse custo hist\u00f3rico frente ao pa\u00eds. Hoje verifica-se uma oportunidade, n\u00f3s como FARC temos a vontade pol\u00edtica de avan\u00e7ar, sempre e quando isto for encarado com seriedade e que se possa ir demonstrando que h\u00e1 vontades para solucionar o conflito.<\/p>\n<p>Nestas conversa\u00e7\u00f5es de agora dissemos ao governo que viemos \u00e0 mesa sem arrog\u00e2ncia, dispostos a por m\u00fasculo, nervo, pensamento, ideias, mas tamb\u00e9m somos conscientes de que, tratando-se de resolver um problema t\u00e3o grave, quem mais tem mais tem que contribuir.<\/p>\n<p>O governo, o Estado, t\u00eam muito para dar ao povo da Col\u00f4mbia. As FARC, pelo nosso lado, temos ideias para arrimar a constru\u00e7\u00e3o de uma Col\u00f4mbia digna, soberana e em paz, mas aqui quem tem o dinheiro \u00e9 o governo&#8230;<\/p>\n<p><strong><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/colombia\/imagens\/relatorio_dia_23set91_b.jpg?w=747\" border=\"0\"  align=\"right\" \/>&#8211; Que grau de influ\u00eancia pode ter neste contexto o discurso que \u00c1lvaro Uribe vem lan\u00e7ando, em oposi\u00e7\u00e3o a estas conversa\u00e7\u00f5es? <\/strong><\/p>\n<p>Este sector \u00e9 minorit\u00e1rio, no momento actual tem cerca de uns 18% de representa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um discurso exageradamente retardat\u00e1rio, cheio de \u00f3dio, vingan\u00e7a e retalia\u00e7\u00e3o. S\u00e3o fan\u00e1ticos da guerra, mas isso a n\u00f3s n\u00e3o nos preocupa demasiado porque a cada dia que passa o povo colombiano vai tomando consci\u00eancia de quem foram os promotores desta viol\u00eancia. Com Uribe est\u00e3o a relocalizar-se esses sectores que s\u00e3o perigos\u00edssimos. Os Estados Unidos, ao apoiarem os di\u00e1logos \u2013 pelo menos isso \u00e9 o que disse o Departamento de Estado \u2013 d\u00e3o a entender que se afastam um pouco do senhor Uribe V\u00e9lez, e quem melhor do que os gringos para darem esse sinal. Eles t\u00eam todos os expedientes do que foi o prontu\u00e1rio de Uribe desde que se iniciou na pol\u00edtica colombiana. Ele figura na posi\u00e7\u00e3o n\u00famero 82 de uma lista que o DEA tem em seu poder.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Voltando ao tema do cessar-fogo. Se isto n\u00e3o se verificasse, e se aumentassem as ac\u00e7\u00f5es militares por parte do governo Santos, n\u00e3o cr\u00eaem que se p\u00f5em em perigo estas conversa\u00e7\u00f5es? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 sempre perigoso dialogar debaixo de fogo. Tentar falar sob as balas e os bombardeios \u00e9 um risco muito grande. N\u00f3s n\u00e3o estamos a pedir neste momento um cessar-fogo, s\u00f3 sugerimos que dever\u00edamos evitar mais mortos para o pa\u00eds. O governo respondeu que n\u00e3o, que eles v\u00e3o continuar com os bombardeios e as opera\u00e7\u00f5es militares. Ent\u00e3o, \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o da guerrilha defender-se. N\u00f3s insistimos em que desejar\u00edamos evitar mais dor, mas parece que o governo considera que assim vamos ter uma vantagem militar. Se n\u00e3o fosse pela trag\u00e9dia que isto representa para o povo colombiano, isto despertaria o riso. Mas \u00e9 indubit\u00e1vel que no estabelecimento parecem n\u00e3o se importar muito com a vida dos seus pr\u00f3prios soldados, e da gente do povo, que toda a guerra afecta. Eles consideram que o cessar-fogo deve verificar-se no fim e n\u00f3s pensamos que a mobiliza\u00e7\u00e3o permanente do povo e a pr\u00f3pria press\u00e3o internacional poderia ajudar a que as partes cessassem o enfrentamento armado, sem benef\u00edcios de car\u00e1cter estrat\u00e9gico para nenhuma das duas partes.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Outro tema dif\u00edcil \u00e9 o dos tempos. O Presidente Santos diz que o mais tardar em Junho ou Julho de 2013 o conflito j\u00e1 deveria ter solu\u00e7\u00f5es, ao passo que Timochenko considerou que isto vai ser um processo longo. <\/strong><\/p>\n<p>Timochenko o disse, e n\u00e3o haveria que por a isto conclus\u00f5es fatais. S\u00f3 para chegar agora a preparar uma agenda demor\u00e1mos dois anos. Esta guerra j\u00e1 vai em 60 anos, por isso parece-nos que \u00e9 muito precipitado o que foi dito pelo Presidente, que considera que o conflito se possa dirimir da noite para a manh\u00e3. A vida \u00e9 muito mais rica que qualquer quest\u00e3o que se proponha na agenda. Os melhores planos falham. Ent\u00e3o, vamos olhar cada um dos pontos da agenda, vamos indo constru\u00ed-la, sem pausas mas sem pressas, como disse um ex presidente da Rep\u00fablica. Aqui o importante n\u00e3o s\u00e3o as corridas de cem metros e sim que se v\u00e3o chegando a acordos e que o pa\u00eds e o mundo vejam que vale a pena continuar a dialogar. N\u00f3s n\u00e3o estamos dispostos a trabalhar contra rel\u00f3gio, n\u00e3o fazemos parte das Olimp\u00edadas que acabam de terminar.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Que significado d\u00e3o \u00e0 frase &#8220;desist\u00eancia de armas&#8221;\u00a0<em>(&#8220;dejaci\u00f3n de armas&#8221;), <\/em>que figura no Acordo marco para come\u00e7ar os di\u00e1logos? <\/strong><\/p>\n<p>A frase tem muitas interpreta\u00e7\u00f5es. N\u00f3s temos dito que se se abrirem as portas da paz, se se fizerem um monte de mudan\u00e7as, se se respirarem novos ares, as armas, ao fim de ao cabo, s\u00e3o simples ferros que num momento dado se podem silenciar. O que n\u00e3o se podem ocultar s\u00e3o as ideias que cada combatente tem na cabe\u00e7a. As armas, enquanto n\u00e3o houver homens dispostos a dispar\u00e1-las, por si s\u00f3 n\u00e3o cumprem nenhum papel. Elas servem para defender o povo da tirania, para evitar a escravid\u00e3o. Essas armas possibilitaram que agora o pa\u00eds vislumbre, a ansiada paz.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Voc\u00eas levantaram-se em armas para denunciar uma ordem injusta (assim manifestavam seus comunicadores fundadores). O que lhes faz pensar agora que nesta mesa de negocia\u00e7\u00f5es poder\u00e3o obter o que lhes foi negado em tantos anos de insurg\u00eancia armada? <\/strong><\/p>\n<p>Temos dito que n\u00e3o vamos ao di\u00e1logo para que nos fa\u00e7am a Revolu\u00e7\u00e3o por contrato. N\u00e3o se trata de fazer a Revolu\u00e7\u00e3o numa mesa de negocia\u00e7\u00f5es. Sustentamos que aqui h\u00e1 duas partes confrontadas, com crit\u00e9rios de car\u00e1cter antag\u00f3nico. Tamb\u00e9m dizemos: os senhores nos obrigaram a tomar as armas, procuraram por todos os meios eliminar-nos e n\u00e3o o conseguiram. A ess\u00eancia da guerra \u00e9 submeter a vontade de luta do oponente e isso t\u00e3o pouco p\u00f4de fazer nem vai conseguir o Estado colombiano. Ent\u00e3o dizemos ao presidente Santos: se o senhor abre as comportas e d\u00e1 p\u00e9 a um novo pa\u00eds, as armas podem ser silenciadas e buscar por outras vias que se cumpram nossas reivindica\u00e7\u00f5es. Em 1964 o disseram nossos fundadores, n\u00f3s quer\u00edamos a via pac\u00edfica para a tomada do poder, mas responderam-nos violentamente. Como somos revolucion\u00e1rios, que de uma maneira ou de outra temos que cumprir nosso papel, levantamo-nos em armas at\u00e9 que haja mudan\u00e7as no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se as mudan\u00e7as come\u00e7arem a verificar-se, ent\u00e3o nos inseriremos na pol\u00edtica, porque as armas n\u00e3o v\u00e3o cumprir ali nenhum papel. \u00c9 t\u00e3o estreito este sistema colombiano que d\u00e1 vergonha, em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses do continente e do mundo. Em outras partes n\u00e3o se assassinam uma pessoa porque est\u00e1 contra tal ou qual posi\u00e7\u00e3o do governo, ou simplesmente por reclamar respeito \u00e0 dignidade humana, ou defender a soberania do pa\u00eds. Em outros pa\u00edses n\u00e3o se assassina as pessoas que fazem uma manifesta\u00e7\u00e3o ou uma tomada de terras. Na Col\u00f4mbia, pensar diferente do estabelecimento causou na primeira etapa da viol\u00eancia 300 mil mortos e nesta parte em que estamos j\u00e1 passa dos 250 mil mortos. Onde foi efectuada uma guerra mais cruel e mais b\u00e1rbara contra um povo desarmado? O que n\u00e3o foi empregado contra as FARC neste \u00faltimo tempo? A mais alta tecnologia de ponta, os drones, avi\u00f5es super Tucano, os globos, toda a intelig\u00eancia militar do inimigo, os micro chips, bombas inteligentes, para quebrar a vontade de pessoas que lutam para que no pa\u00eds haja justi\u00e7a social, liberdade e uma verdadeira democracia.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Um dos pontos nodais do acordo marco que ser\u00e1 discutido nas conversa\u00e7\u00f5es \u00e9 o tema da terra. Quais s\u00e3o as propostas das FARC para solucionar a situa\u00e7\u00e3o dos camponeses colombianos? <\/strong><\/p>\n<p>Fizemos um acordo de cavalheiros, h\u00e1 alguns pontos que se v\u00e3o discutir na mesa. Com o tema da terra e o desenvolvimento agr\u00e1rio vamos come\u00e7ar a discuss\u00e3o. Por isso, n\u00e3o vamos dar pelo microfone o que deve ser discutido na mesa de di\u00e1logo. Temos uma vis\u00e3o muito concreta e propostas a fazer, al\u00e9m de recolher o sentimento das organiza\u00e7\u00f5es agr\u00e1rias, camponesas, ind\u00edgenas, de afro-descendentes. Ter\u00e3o igualmente que participar nas discuss\u00f5es e dar-nos orienta\u00e7\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es vinculadas aos problemas do campo, mas n\u00e3o s\u00f3 isso, pois tamb\u00e9m h\u00e1 que ver a quest\u00e3o da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o, da habita\u00e7\u00e3o, da ecologia e toda a quest\u00e3o da terra.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Exigir\u00e3o a reforma agr\u00e1ria? <\/strong><\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia jamais se verificou uma Reforma Agr\u00e1ria. Das melhores terras do pa\u00eds, 87% est\u00e3o nas m\u00e3os dos 4% dos propriet\u00e1rios. As grandes fazendas de mais de 500 hectares foram aumentadas \u00e0 custa dos pequenos camponeses. O problema do latif\u00fandio na Col\u00f4mbia deu origem \u00e0s primeiras guerrilhas. Agora suportamos a investida das transnacionais que querem apoderar-se das terras, com grandes projectos mineiros e agro-industriais. Tenhamos em conta que a terra, neste momento e a n\u00edvel mundial, adquiriu pre\u00e7os exorbitantes.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Como a sociedade colombiana actual pode participar nas conversa\u00e7\u00f5es de paz? <\/strong><\/p>\n<p>Na mesa foram acordados alguns mecanismos. As pessoas que est\u00e3o no pa\u00eds disp\u00f5e de f\u00f3runs, assembleias, encontros,\u00a0<em>mingas <\/em><a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/colombia\/entrev_granda_29set12.html#nt\" target=\"_blank\">[NT]<\/a> , onde podem discutir, por exemplo, o problema da terra. Pode-se igualmente fazer encontros nacionais para que ali se apresentem e se recolham todas as ideias. O problema da terra na Col\u00f4mbia n\u00e3o apareceu de ontem para hoje, \u00e9 um problema hist\u00f3rico e as organiza\u00e7\u00f5es camponesas, ind\u00edgenas e de afro-descendentes t\u00eam tido uma traject\u00f3ria de combate, tal como as FARC. Em 20 de Julho de 1974 as FARC apresentaram o programa agr\u00e1rio dos guerrilheiros. Agora actualizamos tudo isso e levamo-lo \u00e0 mesa para discuti-lo.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Mas o governo Santos afirma que j\u00e1 est\u00e1 a encarar o problema da terra. <\/strong><\/p>\n<p>O governo est\u00e1 interessado em fazer algumas mudan\u00e7as a n\u00edvel da terra, porque tem o interesse de por toda quest\u00e3o do capitalismo no campo. O problema \u00e9 que necessitam integrar essas duas ter\u00e7as partes da Col\u00f4mbia que representam o pa\u00eds esquecido. Ali, nesse territ\u00f3rio, encontra-se a guerrilha e n\u00e3o se regista presen\u00e7a do Estado. Pelo que tudo isso ter\u00e1 que ser discutido quando tocarmos o ponto do desenvolvimento agr\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Al\u00e9m disso, h\u00e1 o problema das \u00e1reas com planta\u00e7\u00f5es de coca e o que significa a n\u00edvel de monocultura. <\/strong><\/p>\n<p>As planta\u00e7\u00f5es de coca n\u00e3o s\u00f3 est\u00e3o nas \u00e1reas da guerrilha como tamb\u00e9m em quase todo o pa\u00eds. Dentro do acordo marco, h\u00e1 um ponto para discutir o tema das monoculturas. Repare que agora, na Cimeira de Cartagena e na Ibero-americana que vai ser efectuada na Espanha, um dos problemas que se discute \u00e9 a luta contra o narcotr\u00e1fico. Em Mar\u00e7o de 1999, nosso comandante Manuel Marulanda V\u00e9lez fez um estudo sobre o Munic\u00edpio de Cartagena del Chair\u00e1. Esse estudo apresentou-o na primeira reuni\u00e3o que se fez sobre cultivos il\u00edcitos e defesa do meio ambiente no Cagu\u00e1n. Trata-se de uma plano totalizador e tem plena vig\u00eancia para toda a Am\u00e9rica Latina, para que se discuta na OEA e tamb\u00e9m na ONU. \u00c9 hora de o Departamento de Estado norte-americano ver que h\u00e1 uma forma diferente de atacar o tema da produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de narc\u00f3ticos no mundo. Para isso n\u00e3o \u00e9 preciso s\u00f3 a repress\u00e3o, uma vez que se trata de um fen\u00f3meno econ\u00f3mico, pol\u00edtico, militar e social. Movem-se ali fortunas milion\u00e1rias. Neste momento o que circula no mundo em narc\u00f3ticos s\u00e3o 670 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares. Para a Am\u00e9rica Latina revertem 20 mil milh\u00f5es e a Col\u00f4mbia, de que se diz que exporta 80% da coca\u00edna, recebe 4,5 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares. Quem est\u00e1 a fazer o grande neg\u00f3cio? Mas, al\u00e9m disso, a coca est\u00e1 ligada ao tema dos precursores qu\u00edmicos, produzidos pelo primeiro mundo. Est\u00e1 ligada ao tema dos armamentos. Quem os fabrica? Tamb\u00e9m eles, o ocidente, o primeiro mundo.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, s\u00e3o temas demasiado s\u00e9rios e o Estado percebeu que j\u00e1 perdeu essa guerra. Por isso, os outros pa\u00edses est\u00e3o a ver como atacam este fen\u00f3meno e nesse ponto tamb\u00e9m as FARC t\u00eam propostas para encontrar solu\u00e7\u00f5es. \u00c9 contradit\u00f3rio, mas nesse aspecto podemos ser aliados dos Estados Unidos. E com a Europa tamb\u00e9m, uma vez que eles est\u00e3o a ser prejudicados na sua juventude e n\u00f3s a pagar os custos de uma guerra que n\u00e3o \u00e9 a nossa.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Imaginemos que as conversa\u00e7\u00f5es de paz funcionem, com base em mudan\u00e7as e algumas concess\u00f5es. O que se faz com as bases norte-americanas? <\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um problema de soberania nacional e n\u00f3s nos temos oposto por princ\u00edpio a que haja bases militares, com tropas estrangeiras, na Col\u00f4mbia. Meteram-se ali com o pretexto da luta contra o narcotr\u00e1fico, fazendo a seguir a guerra contra-insurreccional mais devastadora. N\u00f3s recebemos as bombas. Nenhum narcotraficante morreu por culpa delas, quando supostamente eram o objectivamente destas bases. Tudo o que h\u00e1 na Col\u00f4mbia em fun\u00e7\u00e3o das bases \u00e9 para controlar o continente sul-americano, sen\u00e3o para apontar tamb\u00e9m \u00e0 \u00c1frica. Estamos firmemente convencidos de que essas bases, assessores e tropas norte-americanas fariam um grande favor \u00e0 paz abandonando o territ\u00f3rio colombiano.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Quanto pode influir nestas negocia\u00e7\u00f5es o resultado das elei\u00e7\u00f5es norte-americanas? <\/strong><\/p>\n<p>Especula-se muito com isso, apesar de a pol\u00edtica externa norte-americana ser partilhada pelos dois partidos. Sugerem que o candidato republicano \u00e9 muito mais duro que Obama, ou que este vai mudar de posi\u00e7\u00e3o, mas a realidade \u00e9 que em pol\u00edtica externa marcham como um s\u00f3 homem. Queria, mas s\u00e3o desejos, que o senhor Obama tivesse uma forma diferente de observar a Am\u00e9rica Latina. Que visse que esse bloqueio sobre Cuba \u00e9 obsoleto e que ele como um democrata deveria ajudar a levantar isto. Ou esse c\u00e1rcere de Guant\u00e1namo que ainda mant\u00eam e que deveria desaparecer. O real \u00e9 que em pol\u00edtica externa os EUA tem vindo a apertar cada vez mais o pesco\u00e7o da Am\u00e9rica Latina, por isso est\u00e3o a ficar s\u00f3s no continente.<\/p>\n<p><strong>&#8211; D\u00e3o valor \u00e0s mudan\u00e7as que se v\u00eaem produzindo no continente a n\u00edvel de integra\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses? <\/strong><\/p>\n<p>Claro, surgiu uma nova forma de fazer diplomacia, dos pa\u00edses latino-americanos. O facto de a OEA estar t\u00e3o desprestigiada e que organismos como a CELAC e UNASUL tenham tomado impulso e ali n\u00e3o estejam representados nem gringos nem canadenses significa que a sua pol\u00edtica externa para com a Am\u00e9rica Latina fracassou. Para os povos eles s\u00e3o um perigo, um monstro sedento dos nossos recursos naturais.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Imaginam-se a participar de alguma forma nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es colombianas? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muito cedo para falar. Ainda n\u00e3o instalamos a mesa de conversa\u00e7\u00f5es. Estamos as 24 horas do dia a pensar como vamos assumir o desafio de tratar de chegar a um acordo final e come\u00e7ar a constru\u00e7\u00e3o de uma paz para a Col\u00f4mbia. N\u00e3o somos politiqueiros de of\u00edcio, h\u00e1 muita gente que gosta disso, temos outra maneira de ver e entender a pol\u00edtica. N\u00e3o nos seduz o sistema eleitoreiro vulgar e menos ainda essa forma que se faz na Col\u00f4mbia, onde para chegar ao Parlamento se n\u00e3o se tiver mil ou dois mil milh\u00f5es de pesos n\u00e3o se tem acesso. Por isso, repare que aqueles que l\u00e1 est\u00e3o [no Parlamento] na maioria est\u00e3o a ser investigados (ou inclusive presos) porque a corrup\u00e7\u00e3o desse Parlamento colombiano \u00e9 assombrosa. O mesmo se passa com as governa\u00e7\u00f5es e os munic\u00edpios. \u00c9 que as classes governantes do nosso pa\u00eds s\u00e3o todas corruptas e abusaram de um povo que \u00e9 bom, simples e trabalhador.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Acreditam que teria sido melhor contar nestas mesas, que est\u00e3o para abrir, com a presen\u00e7a do ELN? <\/strong><\/p>\n<p>Fizemos uma experi\u00eancia com eles na Coordenadora Guerrilheira Sim\u00f3n Bol\u00edvar. Em Tlaxcala esteve o ELN, o EPL e tamb\u00e9m n\u00f3s. Desafortunadamente, isso n\u00e3o prosperou. Com o ELN v\u00ednhamos tendo algumas fric\u00e7\u00f5es h\u00e1 algum tempo atr\u00e1s, isto pelo menos j\u00e1 acabou, e estamos num processo de unidade bastante avan\u00e7ado. Come\u00e7amos este processo com o governo de forma separada, mas de qualquer forma sempre dissemos que as portas est\u00e3o abertas para somarem-se, mas o ELN \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o soberana e eles podem fazer a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia. Se num futuro pudermos coincidir seria muito interessante compartilhar uma mesa com eles.<\/p>\n<p><strong>&#8211; O que se passou com a ideia que manifestaram de que Sim\u00f3n Trinidad fosse incorporado \u00e0 mesa? <\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um ponto que lev\u00e1mos \u00e0 mesa de di\u00e1logo. J\u00e1 h\u00e1 experi\u00eancias. Mandela estava no c\u00e1rcere h\u00e1 sete anos e dali conseguiu contribuir muito para derrotar o apartheid. Sim\u00f3n est\u00e1 condenado por coisas de que o acusam, mas todo o mundo sabe que se trata de uma montagem de uma vingan\u00e7a s\u00f3 pelo facto de pertencer \u00e0s FARC. Consideramos que ele deve estar na mesa e vamos lutar por isso. Sugerimos que os EUA, para remediar em parte tanto do mal causado, devem facilitar as coisas e esta seria uma forma de faz\u00ea-lo, permitindo a sua presen\u00e7a nas negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Quando se encara este tipo de negocia\u00e7\u00f5es aparecem sempre palavras chave como &#8220;reconcilia\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;repara\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;comiss\u00e3o da verdade&#8221;. O que opina acerca disso frente ao processo que v\u00e3o come\u00e7ar? <\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s acreditamos que na Col\u00f4mbia pode haver um governo de reconstru\u00e7\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o nacional. Isso pode acontecer num momento dado, contudo n\u00e3o nos deixamos levar pelo palavr\u00f3rio v\u00e3o nem t\u00e3o pouco precisamos de ir copiar de outras partes. Aqui houve uma guerra, se o governo tem a disposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de acab\u00e1-la, e n\u00f3s a temos, podemos inclusive criar novos conceitos em muitas coisas. Cada conflito tem as suas particularidades e o da Col\u00f4mbia foi extremamente espec\u00edfico. Todos estes temas que coloca ir\u00e3o sendo tratados na mesa de di\u00e1logo no seu devido momento.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Nos \u00faltimos anos, v\u00e1rios dos seus companheiros do Secretariado foram mortos em combate, resultado da ofensiva do Ex\u00e9rcito. Como estas mortes repercutiram na vossa luta? <\/strong><\/p>\n<p>Os companheiros ca\u00eddos em combate est\u00e3o presentes em cada actividade os homens e mulheres das FARC. Em cada um dos nossos acampamentos h\u00e1 retratos seus, assim como todas as noites s\u00e3o evocados nas obras culturais. Foram nossos guias, nossos professores, s\u00e3o homens \u00fanicos que ofereceram tudo pela paz na Col\u00f4mbia. Homens indobr\u00e1veis que transcenderam o que agora vemos e com o tempo a sua imagem crescer\u00e1 imensamente. S\u00e3o verdadeiros her\u00f3is da P\u00e1tria. Em algum momento haver\u00e1 que lhes dar o reconhecimento que merecem. Em muitos pa\u00edses do mundo foi assim, as pessoas os perseguem, os encarceram, os denigrem e depois, quando as situa\u00e7\u00f5es mudam, verifica-se que eram os homens que traziam a verdade hist\u00f3rica, que ofereceram todo o seu esfor\u00e7o para mudar a realidade de humilha\u00e7\u00f5es que o nosso pa\u00eds vivia.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Como cr\u00ea que as mulheres da Col\u00f4mbia receberam estas conversa\u00e7\u00f5es de paz, essas mulheres que s\u00e3o m\u00e3es, que filhas de guerrilheiros como v\u00f3s, ou essas outras mulheres da sociedade colombiana que sofreram a viol\u00eancia em todos estes anos? <\/strong><\/p>\n<p>As mulheres e todo o povo receberam esta not\u00edcia com muito alvoro\u00e7o. O primeiro inqu\u00e9rito mostra que 80% do povo colombiano \u00e9 pela paz. Quando em Fevereiro nos reunimos pela primeira com o governo, estes praticamente diziam que o pa\u00eds queria uma guerra, que nos detestavam e n\u00f3s lhes diz\u00edamos, n\u00e3o senhores, a paz \u00e9 a [opini\u00e3o] que predomina na Col\u00f4mbia e os senhores t\u00eam uma distor\u00e7\u00e3o total das coisas. Agora tiveram de dar-nos raz\u00e3o e se as coisas funcionarem isto ir\u00e1 em crescendo, e novos actores vir\u00e3o integrar-se, n\u00e3o s\u00f3 na sociedade colombiana como tamb\u00e9m do exterior. Veja que o Papa apoiou os di\u00e1logos de paz, assim como as Na\u00e7\u00f5es Unidas ou a Uni\u00e3o Europeia, a presidente da Argentina, Cristina Fern\u00e1ndez, e a do Brasil. Oxal\u00e1 que aqueles de n\u00f3s que temos a responsabilidade de levar este processo adiante possam cumprir a miss\u00e3o que nos foi dada.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Continuam a ter o socialismo como meta? <\/strong><\/p>\n<p>Claro, esse \u00e9 o \u00fanico sistema que pode salvar o planeta Terra. Temos lutado pelo socialismo com as armas na m\u00e3o porque n\u00e3o nos deixaram outra op\u00e7\u00e3o. Somos, indefectivelmente, pela tomada do poder para o povo. Jamais escondemos isso. Ou se nos permitia fazer pol\u00edtica para expor nossos ideais e alcan\u00e7ar nossos objectivos pela via legal ou nos fechavam o caminho violentamente como fizeram todo este tempo. N\u00e3o negamos nossa condi\u00e7\u00e3o de socialistas. As revolu\u00e7\u00f5es fazem-nas os povos e n\u00f3s somos parte desse povo. Podemos tratar de organizar militarmente o nosso povo, mas tamb\u00e9m o podemos organizar politicamente. O que n\u00e3o podemos repetir \u00e9 a hist\u00f3ria da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica, o maior genoc\u00eddio da Am\u00e9rica Latina, com 5 mil mortos, quando tent\u00e1vamos abrir um espa\u00e7o pol\u00edtico. Foi um custo extremamente alto para um pa\u00eds como a Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>29\/Setembro\/2012<\/p>\n<p>[NT] Minga: Reuni\u00e3o de amigos e vizinhos para fazer algum trabalho gratuito em comum (palavra de origem quechua utilizada em alguns pa\u00edses hispano-americanos).<\/p>\n<p><strong>Ver tamb\u00e9m: <\/strong><\/p>\n<li><strong><a href=\"http:\/\/www.argenpress.info\/2012\/10\/se-aplaza-inicio-de-proceso-de-paz.html\" target=\"_blank\">Se aplaza inicio de proceso de paz entre gobierno colombiano y FARC por motivos log\u00edsticos<\/a> , 01\/Outubro\/2012\n<p>[*] Do Secretariado das FARC e seu representante nas negocia\u00e7\u00f5es de paz<\/p>\n<p>[**] Director do jornal\u00a0<em>Resumen Latinoamericano <\/em><\/p>\n<p> <\/strong> <\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/\" target=\"_blank\">www.resumenlatinoamericano.org<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Esta entrevista encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n<\/li>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\n\u2013 Entrevista do coordenador das FARC nas negocia\u00e7\u00f5es de paz, a uma semana do in\u00edcio\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3649\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-3649","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-WR","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3649","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3649"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3649\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3649"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3649"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3649"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}