{"id":3672,"date":"2012-10-08T19:54:24","date_gmt":"2012-10-08T19:54:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3672"},"modified":"2012-10-08T19:54:24","modified_gmt":"2012-10-08T19:54:24","slug":"vitima-esquecida-do-terror","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3672","title":{"rendered":"V\u00edtima esquecida do terror"},"content":{"rendered":"\n<p>O caso da mineira Maria Celia de Mello Lundberg* \u00e9 uma daquelas hist\u00f3rias que a direita brasileira teima em ignorar quando se trata de avaliar as barbaridades cometidas pela ditadura. Celia tinha 27 anos ao ser presa em 1971. Foi torturada e violentada sexualmente. Seu crime: participar de reuni\u00f5es da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), organiza\u00e7\u00e3o clandestina, e dar aulas de alfabetiza\u00e7\u00e3o para adultos. Nunca participou de a\u00e7\u00f5es armadas, assaltos a banco ou sequestros. Nunca \u201cmatou inocentes\u201d, como afirmam os defensores do regime a respeito dos militantes de esquerda que ingressaram na guerrilha. A inocente era ela.<\/p>\n<p>Hoje com 68 anos, Celia Lundberg \u00e9 uma das v\u00edtimas da ditadura, cujo processo ser\u00e1 submetido a julgamento pela Comiss\u00e3o de Anistia na segunda-feira 8. Ela pede do Estado brasileiro uma aposentadoria para que tenha a possibilidade de voltar a viver no Pa\u00eds. Ao sair da pris\u00e3o, e com medo de ser presa novamente, a militante fugiu para o Chile, e de l\u00e1, ap\u00f3s o golpe militar que derrubou Salvador Allende, em 1973, foi para a Su\u00e9cia. Casou-se com um sueco que havia conhecido na capital chilena, Karl Svante Lundberg, e teve dois filhos. Formou-se em Fisioterapia e exerce a profiss\u00e3o como aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>Neste meio tempo, veio algumas vezes ao Brasil, por raz\u00f5es de enfermidade na fam\u00edlia ou para enterrar parentes: a m\u00e3e, o pai. Voltar \u00e0 terra natal sempre significou abrir velhas feridas. Pelo Skype, ela interrompe v\u00e1rias vezes a entrevista, sem conseguir segurar o choro. As lembran\u00e7as ruins v\u00eam \u00e0 tona: os policiais armados com metralhadoras invadindo o apartamento em que ela morava, em Belo Horizonte, com 8 dos 11 irm\u00e3os estudantes. Os pais viviam na cidade de Salinas, norte de Minas Gerais. Celia tinha acabado de se formar na Universidade Cat\u00f3lica. O irm\u00e3o, Herv\u00ea, estava preso no Dops mineiro quando a levaram.<\/p>\n<p><strong>Formada em<\/strong> Geografia e em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, Celia Lundberg tinha entrado na ALN por influ\u00eancia de Herv\u00ea, militante do grupo. Desde pequena, conta, sentia-se indignada com as desigualdades sociais no Brasil. Seu pai, um homem conservador, \u201cmas justo\u201d, como o define, era feminista, e deu oportunidade de estudo igual aos filhos e filhas. A mineira diz que se sentia \u201cdo\u00edda\u201d de ver que alguns pudessem ter tudo, enquanto outros n\u00e3o tinham nada. Entrou para a ALN e acabou presa. Os pais nunca souberam das torturas sofridas nos por\u00f5es da ditadura.<\/p>\n<p>\u201cNo Dops me falavam que eu tinha feito milh\u00f5es de coisas, mas nunca participei de nada pesado\u201d, conta Celia, que tem uma mem\u00f3ria confusa em rela\u00e7\u00e3o ao que ocorreu na cadeia. Lembra-se do tenente que era o chefe da opera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o exatamente de seu rosto. Tampouco recorda a face de seus torturadores. \u201cMuitos de n\u00f3s n\u00e3o somos capazes de reconhec\u00ea-los. \u00c9 como os judeus que sa\u00edram dos campos de concentra\u00e7\u00e3o. Com certeza todos lembram perfeitamente dos maus-tratos que sofreram, mas n\u00e3o do rosto dos algozes.\u201d<\/p>\n<p>As no\u00e7\u00f5es de tempo s\u00e3o inexatas. A ex-militante n\u00e3o sabe se foram dias ou meses trancafiada no Dops. Quando foi promulgada a lei da anistia, em 1979, ela retornou ao Brasil pela primeira vez ap\u00f3s o ex\u00edlio. Com seu primeiro filho com poucos meses de vida, foi ouvida em interrogat\u00f3rio. O marido ficou do lado de fora com a crian\u00e7a. A brasileira saiu aos prantos, com a sensa\u00e7\u00e3o de haver passado horas l\u00e1 dentro. S\u00f3 depois Karl lhe revelaria que, na verdade, tinham sido apenas 30 minutos.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 muito dif\u00edcil<\/strong> perguntar para um ex-torturado os detalhes dos maus-tratos. No depoimento por escrito \u00e0 Comiss\u00e3o de Anistia, ela conta ter sido submetida \u201ca interrogat\u00f3rios, torturas ps\u00edquicas e f\u00edsicas\u201d. Tamb\u00e9m ouvia o irm\u00e3o, Herv\u00ea, ser espancado. \u201cFui removida da minha cela para outro quarto, que, provavelmente, era a sala de \u2018trabalho\u2019 dos nossos torturadores. Em uma parede, pude ler o nome de Dan Mitrione, o americano especialista em torturas que havia estado ali no Dops e depois seguiu para o Uruguai, obviamente com as mesmas incumb\u00eancias.\u201d<\/p>\n<p>*<em>A ex-militante ficou gr\u00e1vida na pris\u00e3o e sofreu um aborto espont\u00e2neo. Fugiu para o Chile e, depois, para a Su\u00e9cia.<\/em><\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/vitima-esquecida-do-terror\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/vitima-esquecida-do-terror\/<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: CM\n\n\n\n\n\n\n\n\nCynara Menezes\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3672\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-3672","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Xe","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3672","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3672"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3672\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3672"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3672"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3672"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}