{"id":3674,"date":"2012-10-08T20:05:20","date_gmt":"2012-10-08T20:05:20","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3674"},"modified":"2012-10-08T20:05:20","modified_gmt":"2012-10-08T20:05:20","slug":"farc-lusamos-as-armas-para-que-nos-escutemr","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3674","title":{"rendered":"FARC: \u00abusamos as armas para que nos escutem\u00bb"},"content":{"rendered":"\n<p>Cr\u00e9dito: Patricia Grogg\/IPS<\/p>\n<p>Sandra Ram\u00edrez em frente al Malec\u00f3n de La Habana<\/p>\n<p>LA HABANA, 28 set. 2012, Tribuna Popular TP\/IPS.- \u00c9 dif\u00edcil imagin\u00e1-la vestida de guerrilheira, carregando uma mochila de 25 kg, repelindo a tiros o ataque inimigo ou buscando ref\u00fagio para escapar dos bombardeios a\u00e9reos. Ela \u00e9 conhecida como Sandra Ram\u00edrez e deixou o cen\u00e1rio de guerra colombiano para viajar rumo \u00e0 capital cubana e falar de paz.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora \u00e9 a \u00fanica mulher conhecida publicamente, envolvida nas conversa\u00e7\u00f5es explorat\u00f3rias entre delegados das insurgentes For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (FARC) e o governo desse pa\u00eds, encabe\u00e7ado por Juan Manuel Santos, para iniciar um di\u00e1logo destinado \u201c\u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma paz est\u00e1vel e duradoura\u201d.<\/p>\n<p>Quando ela foi vista chegando ao primeiro encontro com a imprensa, organizado por representantes das FARC, ocorrido em agosto, em La Habana, nem todos os jornalistas sabiam quem era. Logo as d\u00favidas sobre esta presen\u00e7a se dissiparam: entre os negociadores iniciais figura a companheira de \u201cManuel Marulanda\u201d, nome de guerra de Pedro Antonio Mar\u00edn, fundador e l\u00edder da guerrilha mais longeva da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Uma das interpreta\u00e7\u00f5es sobre sua presen\u00e7a nestas negocia\u00e7\u00f5es \u00e9 que se reafirma a continuidade de um processo iniciado por Marulanda, morto ap\u00f3s uma parada card\u00edaca, em mar\u00e7o de 2008.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 seu legado o que est\u00e1 presente. Durante seus 60 anos de luta esteve buscando uma sa\u00edda pol\u00edtica para o conflito e essa sempre foi nossa voca\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Ram\u00edrez em uma entrevista exclusiva com IPS.<\/p>\n<p>\u201cAo lado do comandante Marulanda aprendi a amar esta causa, a qual, definitivamente, implica um compromisso muito maior. Trabalhamos juntos durante muitos anos e compartilhamos muitas coisas\u201d, acrescentou em um momento da conversa\u00e7\u00e3o em que as emo\u00e7\u00f5es colocaram em risco o seu falar pausado e tranquilo.<\/p>\n<p>Ram\u00edrez \u00e9 filha de uma fam\u00edlia camponesa numerosa \u2013 \u201csomos 15 irm\u00e3os. As op\u00e7\u00f5es de vida eram escassas, sobretudo para n\u00f3s mulheres\u201d, \u2013 e se uniu \u00e0 guerrilha com 17 anos. Em maio completou 48 anos e ainda n\u00e3o se arrepende do caminho escolhido. Na montanha, aprendeu enfermagem e comunica\u00e7\u00e3o e integrou o corpo de guarda dos \u201ccamaradas\u201d da dire\u00e7\u00e3o nacional das FARC.<\/p>\n<p>Aparentemente, \u00e9 dessa maneira que se cercou sentimentalmente de Marulanda, a quem acompanhou e cuidou nos \u00faltimos anos de sua vida.<\/p>\n<p>A imprensa colombiana recorda t\u00ea-la visto junto a ele, 10 anos atr\u00e1s, nas conversa\u00e7\u00f5es de paz entre as FARC e o governo de Andr\u00e9s Pastrana (1998-2002), no munic\u00edpio sulista de San Vicente del Cagu\u00e1n.<\/p>\n<p>Comandante Manuel Marulanda e sua companheira, Sandra Ram\u00edrez<\/p>\n<p><strong>IPS: Aqueles di\u00e1logos fracassaram. Qual \u00e9 a sua expectativa com estes que come\u00e7ar\u00e3o em Oslo, em 15 de outubro e que se prev\u00ea que continue em La Habana?<\/strong><\/p>\n<p>SANDRA RAM\u00cdREZ: Estamos iniciando este novo processo de conversa\u00e7\u00f5es. Com o esfor\u00e7o de todos, da guerrilha, o governo e o povo colombiano, obteremos uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para o conflito.<\/p>\n<p>As possibilidades de \u00eaxito (neste empenho) sempre estiveram presentes. O problema \u00e9 que a oligarquia colombiana sempre se negou a ceder um mil\u00edmetro de seu status de poder, a partir do qual elimina a tiros o opositor.<\/p>\n<p><strong>IPS: Voc\u00ea acredita ser poss\u00edvel falar sobre a paz sem cessar as hostilidades?<\/strong><\/p>\n<p>SR: O governo de \u00c1lvaro Uribe (2002-2010) se caracterizou por exercer a viol\u00eancia extrema, n\u00e3o abrindo as portas para a paz. Agora, a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 diferente, tanto dentro do pa\u00eds como no entorno latino-americano da Col\u00f4mbia, com os governos democr\u00e1ticos da Venezuela, Bol\u00edvia e Equador.<\/p>\n<p>Os povos est\u00e3o adquirindo outras formas de luta e isso incide no povo colombiano. A decis\u00e3o \u00e9 iniciar a conversa, por\u00e9m a l\u00f3gica e mesmo o cen\u00e1rio nos dir\u00e1 se existe ou n\u00e3o o cessar-fogo que, em dado momento, ter\u00e1 de ser bilateral.<\/p>\n<p><strong>IPS: No in\u00edcio dos anos 90, o l\u00edder cubano Fidel Castro, que comandou a insurrei\u00e7\u00e3o armada que o conduziu ao poder em 1959, come\u00e7ou a desaconselhar esse caminho e insistiu nas possibilidades da luta de massas, especialmente do \u201cpovo unido, o povo coordenado, o povo lutando em uma mesma dire\u00e7\u00e3o\u201d. O que pareceu para voc\u00ea esta declara\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>SR: As condi\u00e7\u00f5es na Col\u00f4mbia s\u00e3o muito diferentes. N\u00e3o existe liberdade para a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Apegada ao poder, a ultradireita elimina fisicamente seus opositores. Fecharam todas as vias e n\u00e3o nos deixaram outra op\u00e7\u00e3o que o uso das armas para que nos escutem. Porque se trata disso: usamos as armas para sermos escutados.<\/p>\n<p><strong>IPS: Dizem que as FARC querem negociar porque est\u00e3o enfraquecidas.<\/strong><\/p>\n<p>SR: As FARC buscam a paz desde a sua funda\u00e7\u00e3o e esta \u00e9 uma nova oportunidade. Claro, como uma organiza\u00e7\u00e3o que enfrenta toda a tecnologia de ponta fornecida pelos Estados Unidos, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel negarmos que fomos golpeados e perdemos quadros valiosos. Por\u00e9m, isso n\u00e3o significa debilidade.<\/p>\n<p><strong>IPS: Voc\u00ea considera que existem condi\u00e7\u00f5es para que o povo colombiano acompanhe este processo?<\/strong><\/p>\n<p>SR: Claro que sim. Este di\u00e1logo responde ao desejo de ind\u00edgenas, afrodescendentes, de todos os movimentos e setores sociais do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 um capricho do governo de Santos e nem das FARC.<\/p>\n<p><strong>IPS: Nos acordos que voc\u00eas consideram as pautas das negocia\u00e7\u00f5es de paz, n\u00e3o \u00e9 mencionada a situa\u00e7\u00e3o da mulher. Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>SR: A situa\u00e7\u00e3o da mulher na Col\u00f4mbia \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil como a de todo o povo colombiano, por isso n\u00e3o \u00e9 mencionada.<\/p>\n<p><strong>IPS: Em torno de 40% da tropa das FARC \u00e9 composta por mulheres. No entanto, elas n\u00e3o est\u00e3o no Secretariado da organiza\u00e7\u00e3o\u2026<\/strong><\/p>\n<p>SR: N\u00f3s avaliamos que neste momento somos mais de 40%. N\u00e3o existem mulheres na dire\u00e7\u00e3o nacional, mas sim no Estado Maior Central e em escal\u00f5es intermedi\u00e1rios. J\u00e1 nas companhias, as mulheres integram os comandos de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IPS: Na Col\u00f4mbia, as mulheres sofrem viol\u00eancia dom\u00e9stica e com a discrimina\u00e7\u00e3o do machismo. Existem esses problemas na guerrilha?<\/strong><\/p>\n<p>SR: Nossa organiza\u00e7\u00e3o nasceu das entranhas da sociedade colombiana e n\u00e3o est\u00e1 alheia a essas realidades. Por\u00e9m, em seu seio, se contribui para a prepara\u00e7\u00e3o das combatentes, para que se expressem, participem, tomem decis\u00f5es e fa\u00e7am valer seus direitos. Temos normas disciplinares e n\u00e3o s\u00e3o permitidas brigas e, menos ainda, viol\u00eancia contra a mulher.<\/p>\n<p><strong>IPS: \u00c9 verdade que existem crian\u00e7as na guerrilha?<\/strong><\/p>\n<p>SR: Existem casos excepcionais, como filhos ou filhas de guerrilheiros e guerrilheiras mortos em combate. \u00c0s vezes, os av\u00f3s n\u00e3o possuem condi\u00e7\u00f5es de cuidar deles ou s\u00e3o muito vigiados e perseguidos pela pol\u00edcia e pelo ex\u00e9rcito. Assim, n\u00e3o tem outro rem\u00e9dio sen\u00e3o lev\u00e1-los conosco. Damos educa\u00e7\u00e3o, designamos algum combatente para atend\u00ea-los e damos a melhor aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IPS: O que acontece se esse menino ou menina quiser sair da organiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>SR: A situa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 analisada. Geralmente optam por permanecer por uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a. Existiram muitos casos de meninos que hoje s\u00e3o excelentes combatentes e at\u00e9 comandantes.<\/p>\n<p><strong>IPS: Existe press\u00e3o ou coa\u00e7\u00e3o sobre os jovens para que ingressem na guerrilha?<\/strong><\/p>\n<p>SR: De maneira alguma. O ingresso \u00e9 pela vontade pr\u00f3pria de cada pessoa, seja homem ou mulher. A idade m\u00ednima para ingressar \u00e0s FARC \u00e9 de 15 anos.<\/p>\n<p>(FIN\/2012)<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pcv-venezuela.org\/index.php\/en\/entrevistas\/internacional\/1471-las-farc-usamos-las-armas-para-que-nos-escuchen\" target=\"_blank\">www.pcv-venezuela.org<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCV\n\n\n\n\n\n\n\n\nEntrevista com SANDRA RAM\u00cdREZ, guerrilheira colombiana.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3674\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-3674","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Xg","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3674","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3674"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3674\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3674"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3674"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3674"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}