{"id":3699,"date":"2012-10-14T21:14:03","date_gmt":"2012-10-14T21:14:03","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3699"},"modified":"2012-10-14T21:14:03","modified_gmt":"2012-10-14T21:14:03","slug":"carta-de-olga-benario-prestes-a-ermelinda-felizardo-avo-de-luiz-carlos-prestes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3699","title":{"rendered":"CARTA DE OLGA BENARIO PRESTES A ERMELINDA FELIZARDO (AV\u00d3 DE LUIZ CARLOS PRESTES)*"},"content":{"rendered":"\n<p>D\u00aa. Ermelinda.<\/p>\n<p>Afetuosos cumprimentos.<\/p>\n<p>Conhecendo-a h\u00e1 bastante tempo, pelas muitas vezes que o Carlos se tem referido a seu nome, resolvi escrever-lhe, n\u00e3o s\u00f3 para lhe dar not\u00edcias nossas, como tamb\u00e9m para iniciarmos as nossas rela\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas, pois tenho a esperan\u00e7a que n\u00f3s ainda nos encontraremos e mesmo que a senhora ir\u00e1 conhecer o seu bisneto.<\/p>\n<p>Quero dar-lhe not\u00edcias nossas, somente as principais, pois ser\u00e1 dif\u00edcil descrever-lhe todos os incidentes dos nossos longos meses de pris\u00e3o. Numa das vezes em que fui chamada \u00e0 Pol\u00edcia Central, o Dr. Belens Porto, encarregado do inqu\u00e9rito, me disse que a Senhora havia escrito uma carta ao Carlos. N\u00e3o sei, por\u00e9m, se tal carta ter\u00e1 chegado \u00e0s m\u00e3os do destinat\u00e1rio, nem se a Pol\u00edcia ter\u00e1 permitido que ele respondesse.<\/p>\n<p>O Carlos continua no quartel da Pol\u00edcia Especial, numa incomunicabilidade completa, que j\u00e1 dura h\u00e1 mais de 5 meses. As autoridades n\u00e3o consentem que ele leia jornais e nem mesmo livros. Ele se encontra isolado, numa sala, a porta daquela ficando sempre aberta, para permitir aos guardas uma vigil\u00e2ncia permanente. \u2013 A Senhora poder\u00e1 bem imaginar quanta energia deve custar ao Carlos enfrentar todas estas torturas morais. \u2013 Talvez os antigos companheiros e amigos do Carlos possam auxiliar no sentido de que pelo menos livros e revistas lhe sejam entregues.<\/p>\n<p>Da Europa, D. Leocadia j\u00e1 me escreveu, mas sob o pretexto de minha incomunicabilidade, a Pol\u00edcia impediu a entrega da carta, como tamb\u00e9m n\u00e3o tive a possibilidade de escrever-lhe. Soube, por\u00e9m, que ela tem desenvolvido uma grande atividade no sentido da defesa do Carlos.<\/p>\n<p>Quanto a mim, estou, nestes \u00faltimos tempos, mais confortada pela presen\u00e7a de v\u00e1rias companheiras de pris\u00e3o, que j\u00e1 se tornaram minhas amigas. No come\u00e7o estive tamb\u00e9m incomunic\u00e1vel. Ultimamente, por\u00e9m, fui transferida para a sala das mulheres, presas pol\u00edticas, na Casa da Deten\u00e7\u00e3o. Assim \u00e9 que vim a conhecer entre outras, a Rosa, irm\u00e3 do Silo, e a Maria Werneck, cujo marido est\u00e1 tamb\u00e9m preso e que descende de uma fam\u00edlia ga\u00facha.<\/p>\n<p>De sa\u00fade, tenho tido bastantes abalos, provocados de um lado pela gravidez (agora j\u00e1 no s\u00e9timo m\u00eas) devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da pris\u00e3o, como ainda mais pelas afli\u00e7\u00f5es que me d\u00e1 a inquietude sobre o estado do Carlos. At\u00e9 hoje e depois da nossa pris\u00e3o n\u00e3o tive a possibilidade de v\u00ea-lo e s\u00f3 recebi algumas cartas dele, em que falava do nosso filho e das provid\u00eancias relativas \u00e0 nossa defesa.<\/p>\n<p>Corre um processo de expuls\u00e3o contra mim, por ter eu nascido no estrangeiro. Numa de suas cartas o Carlos comenta este passo do Governo da seguinte maneira: \u201cTu compreendes que o teu processo de expuls\u00e3o \u00e9 a forma jur\u00eddica encontrada pelo atual governo para tornar efetivo mais um ato de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra mim&#8230; Preciso assistir com coragem aos golpes que, impotentes para assestarem diretamente contra mim, dirigem contra as pessoas a quem dedico o meu maior afeto.\u201d<\/p>\n<p>Enfrentando tais persegui\u00e7\u00f5es absurdas e diante dos golpes da rea\u00e7\u00e3o, asseguro \u00e0 Senhora que, com a mesma coragem com que anteriormente acompanhei o Carlos na luta, mostrar-me-ei, agora, digna do nome dele.<\/p>\n<p>A respeito da minha expuls\u00e3o, estou confiante que a simpatia p\u00fablica impe\u00e7a este ato completamente fora da lei e espero que darei \u00e0 luz ao filho do Carlos aqui em terra brasileira.<\/p>\n<p>Era o que de essencial eu tinha a dizer nessa primeira carta, que lhe escrevo.<\/p>\n<p>Queira receber um afetuoso abra\u00e7o de sua neta<\/p>\n<p>Maria**<\/p>\n<p>*Carta escrita na Casa de Deten\u00e7\u00e3o (RJ), onde Olga estava presa desde mar\u00e7o de 1936, antes de ser extraditada para a Alemanha nazista pelo governo de Get\u00falio Vargas, em setembro daquele ano, no s\u00e9timo m\u00eas de gravidez.<\/p>\n<p>**Olga nunca reconheceu, perante a pol\u00edcia, seu verdadeiro nome e sua verdadeira nacionalidade; com firmeza revolucion\u00e1ria, reafirmou sempre o nome que constava no passaporte &#8211; Maria Vilar.<\/p>\n<p>Arquivo Alfredo Felizardo (RS)<\/p>\n<p><strong>FONTE<\/strong>:<a href=\"http:\/\/www.ilcp.org.br\/prestes\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=249:carta-inedita-de-olga-benario-prestes-a-ermelinda-felizardo-avo-de-luiz-carlos-prestes&amp;catid=29:sobre-olga&amp;Itemid=158\" target=\"_blank\"> Instituto Luiz Carlos Prestes<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nCasa de Deten\u00e7\u00e3o &#8211; Rio de Janeiro, 12\/8\/36\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3699\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-3699","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-XF","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3699","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3699"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3699\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3699"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3699"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3699"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}