{"id":371,"date":"2010-03-31T19:19:25","date_gmt":"2010-03-31T19:19:25","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=371"},"modified":"2010-03-31T19:19:25","modified_gmt":"2010-03-31T19:19:25","slug":"uma-infausta-data-46-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/371","title":{"rendered":"Uma infausta data: 46 ANOS DEPOIS"},"content":{"rendered":"\n<p>Hoje, a quase totalidade das entidades que conspirou, apoiou e promoveu a derrubada do governo democr\u00e1tico de Jo\u00e3o Goulart (1961-1964), n\u00e3o festejar\u00e1 o golpe civil-militar de 1964. A este respeito, tome-se o exemplo dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o; nestes dias, ao contr\u00e1rio do que fizeram durante quase duas d\u00e9cadas, deixar\u00e3o eles de divulgar editoriais e artigos que exaltem os \u201cfeitos\u201d do regime militar.<sup>*<\/sup> A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma s\u00f3: no Brasil contempor\u00e2neo, todos se afirmam \u201camigos\u201d ou amantes da democracia&#8230;<\/p>\n<p>Diante da recorrente quest\u00e3o \u201cGolpe\u201d ou \u201cRevolu\u00e7\u00e3o\u201d, dever\u00edamos lembrar as palavras de um ativo protagonista do movimento de abril. Em celebrado depoimento (1981), , Ernesto Geisel declarou: <em>\u201co que houve em 1964 n\u00e3o foi uma revolu\u00e7\u00e3o. As revolu\u00e7\u00f5es se fazem por uma id\u00e9ia, em favor de uma doutrina\u201d.<\/em> Para o vitorioso de 1964, o movimento se fez \u201c<em>contra Goulart<\/em>\u201d, \u201c<em>contra a corrup\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d, \u201c<em>contra a baderna e a anarquia que destru\u00edam o pa\u00eds<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>As palavras do militar golpista \u2013 pertinentes, pois rejeitam a no\u00e7\u00e3o de \u201cRevolu\u00e7\u00e3o\u201d para caracterizar o 1\u00ba. de abril de 1964 \u2013, no entanto, podem ser objeto de uma outra leitura. Neste sentido, \u00e9 poss\u00edvel \u2013 a partir de uma outra perspectiva te\u00f3rica \u2013 ressignificar todos os \u201ccontras\u201d presentes no depoimento do ex-ditador. Mais correto \u00e9 ent\u00e3o afirmar que 1964 representou: (a) um golpe contra a incipiente democracia pol\u00edtica brasileira; (b) um movimento contra as reformas sociais e pol\u00edticas e (c) uma a\u00e7\u00e3o repressiva contra a politiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e o promissor debate de id\u00e9ias que, de norte a sul, ocorria do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, no pr\u00e9-1964, as classes dominantes e seus aparelhos ideol\u00f3gicos e repressivos \u2013 diante das iniciativas e reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores no campo e na cidade e de setores das camadas m\u00e9dias \u2013 apenas enxergavam \u201ccrise de autoridade\u201d, \u201csubvers\u00e3o da lei e da ordem\u201d, \u201cquebra da disciplina e hierarquia\u201d dentro das For\u00e7as Armadas e a \u201ccomuniza\u00e7\u00e3o<em>\u201d<\/em> do pa\u00eds que, no limite, implicariam a \u201cdissolu\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia\u201d e o \u201cfim propriedade privada\u201d. Embora, por vezes, expressas numa ret\u00f3rica \u201cradical\u201d \u2013 reformas na \u201clei ou na marra\u201d, \u201cforca aos gorilas\u201d etc. \u2013, as demandas por reformas sociais e as consignas pol\u00edticas visavam, fundamentalmente, o alargamento da democracia pol\u00edtica e a realiza\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as no capitalismo brasileiro<em>.<\/em><\/p>\n<p>Contra algumas formula\u00e7\u00f5es \u201crevisionistas\u201d \u2013 presentes no atual debate pol\u00edtico e ideol\u00f3gico (inclusive nos campos da literatura pol\u00edtica e historiografia progressistas) \u2013 que insinuam \u201ctend\u00eancias golpistas\u201d por parte do governo Goulart, deve-se enfatizar que quem planejou, articulou e desencadeou o golpe contra a democracia pol\u00edtica foi a alta hierarquia das For\u00e7as Armadas, incentivada e respaldada pelo empresariado (industrial, rural, financeiro e investidores estrangeiros) bem como por setores das classe m\u00e9dias brasileiras (as chamadas \u201cvivandeiras de quartel\u201d). Bem antes da chamada \u201cagita\u00e7\u00e3o das esquerdas\u201d, alguns desses setores come\u00e7aram a se organizar para inviabilizar o governo Goulart; a mobiliza\u00e7\u00e3o pelas reformas sociais e pol\u00edticas \u2013 apoiada pelo executivo \u2013 ampliou a conspira\u00e7\u00e3o e amadureceu a decis\u00e3o dos golpistas de decretar o fim do regime democr\u00e1tico de 1946.<\/p>\n<p>Destruindo as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e reprimindo os movimentos sociais de esquerda e progressistas, a a\u00e7\u00e3o dos golpistas foi saudada pelas associa\u00e7\u00f5es representativas do conjunto das classes dominantes, pela alta c\u00fapula da Igreja cat\u00f3lica, pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o etc. como uma aut\u00eantica \u201cRevolu\u00e7\u00e3o\u201d. Por sua vez, a administra\u00e7\u00e3o norte-americana de Lyndon Johnson (1963-1969) \u2013 que foi poupada de dar apoio material aos golpistas, como est\u00e1 comprovado documentalmente \u2013, congratulou-se com os militares e civis brasileiros pela rapidez e efic\u00e1cia da \u201ca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d. Para al\u00edvio do Pent\u00e1gono, CIA, Embaixada norte-americana etc uma \u201cnova Cuba\u201d ao sul do Equador tinha sido impedida!<\/p>\n<p>Embora tivesse uma simp\u00e1tica acolhida junto aos trabalhadores, \u00e0s classes m\u00e9dias baixas e aos meios sindicais, o governo Jo\u00e3o Goulart ruiu como um castelo de areia. Dois de seus principais pilares de apoio \u2013 como apregoavam os setores nacionalistas \u2013 mostraram ser aut\u00eanticas pe\u00e7as de fic\u00e7\u00e3o. De um lado, o propalado \u201cdispositivo militar\u201d que seria comandado pelos chamados \u201cgenerais do povo\u201d; de outro, o chamado \u201cquarto poder\u201d que estaria representado pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). A rigor, ambos assistiram \u2013 sem qualquer rea\u00e7\u00e3o significativa ou eficaz \u2013 a queda ingl\u00f3ria de um governo a quem juravam fidelidade; inclusive, diziam os mais \u201cradicais\u201d, com o pe\u00e7o da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Desorganizadas e fragmentadas, as entidades progressistas e de esquerda \u2013 muitas delas subordinadas ou tuteladas pelo governo Goulart \u2013 n\u00e3o ofereceram qualquer resist\u00eancia \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos militares. Sabe-se que, \u00e0s v\u00e9speras de abril, algumas lideran\u00e7as de esquerda afirmavam que os golpistas \u2013 caso atrevessem quebrar a ordem constitucional \u2013 teriam as \u201ccabe\u00e7as cortadas\u201d. Mostraram os duros fatos que se tratava de uma cortante met\u00e1fora. Com a a\u00e7\u00e3o dos \u201cvitoriosos de abril\u201d, esta express\u00e3o, no entanto, tornou-se uma aguda e cruel realidade para muitos homens e mulheres durante os longos e sombrios 20 anos da ditadura militar.<\/p>\n<p>46 anos depois, nada h\u00e1, pois, a comemorar. O golpe de 1964 foi um infausto acontecimento pois teve conseq\u00fc\u00eancias perversas e nefastas no processo de desenvolvimento econ\u00f4mico, pol\u00edtico e cultural do Brasil \u2013 que ainda se refletem nos tempos presentes. Decorridos 46 anos do golpe, o conjunto da sociedade brasileira repudia a data, mas os progressistas e socialistas n\u00e3o podem se satisfazer com a derrota sofrida pelos golpistas no plano ideol\u00f3gico. Se os valores da democracia atualmente s\u00e3o diuturnamente exaltados no debate pol\u00edtico e cultural, os progressistas e os socialistas n\u00e3o podem se calar diante do fato de que o regime democr\u00e1tico vigente nos p\u00f3s-1985 ainda n\u00e3o fez plena justi\u00e7a \u00e0s v\u00edtimas da ditadura militar e ainda todos aguardamos que a verdade sobre os fatos ocorridos entre 1964 e 1985 seja plenamente conhecida. Sendo o \u201cdireito \u00e0 justi\u00e7a\u201d e o \u201cdireito \u00e0 verdade\u201d condi\u00e7\u00f5es e dimens\u00f5es relevantes de um regime democr\u00e1tico, n\u00e3o se pode sen\u00e3o concluir que a democracia pol\u00edtica no Brasil contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 ainda uma realidade s\u00f3lida e consistente.<\/p>\n<p>C. de Toledo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: &#8220;Tortura Nunca Mais&#8221;\n\n\n\n\n\u00c0 todos\/as que partiram sem poder dizer adeus.\nCaio N. de Toledo*\nH\u00e1 46 anos \u2013 na data em que o imagin\u00e1rio popular consagra como o \u201cdia da mentira\u201d \u2013 era rompida a legalidade democr\u00e1tica implantada no Brasil com o fim da ditadura do Estado Novo (1937-1945). Nestes dias, apenas os falc\u00f5es da ultradireita brasileira talvez se atrever\u00e3o a lembrar ou comemorar publicamente o 1\u00ba. de abril de 1964; civis e militares que o fizerem, em bizarros cen\u00e1rios, ser\u00e3o uma inexpressiva minoria.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/371\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-371","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5Z","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/371","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=371"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/371\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=371"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=371"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=371"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}