{"id":3710,"date":"2012-10-17T11:16:35","date_gmt":"2012-10-17T11:16:35","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3710"},"modified":"2012-10-17T11:16:35","modified_gmt":"2012-10-17T11:16:35","slug":"imperio-segue-a-espreita-de-novas-mentiras-para-acossar-chavez-face-a-cabal-lisura-do-processo-eleitoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3710","title":{"rendered":"Imp\u00e9rio segue \u00e0 espreita de novas \u2018mentiras\u2019 para acossar Ch\u00e1vez, face \u00e0 cabal lisura do processo eleitoral"},"content":{"rendered":"\n<p>Na Divina Com\u00e9dia, Dante Alighieri descreve com min\u00facia artesanal os diferentes c\u00edrculos do Inferno. S\u00e3o nove, mas nos interessa o oitavo porque \u00e9 o que est\u00e1 destinado a castigar os mentirosos, entre os quais sobressaem os maus conselheiros, os charlat\u00f5es e os fals\u00e1rios, gente que mente conscientemente e sem escr\u00fapulo algum. Se o grande florentino tem raz\u00e3o em suas descri\u00e7\u00f5es, as recentes elei\u00e7\u00f5es venezuelanas somaram uma enorme quantidade de candidatos a penar para sempre neste c\u00edrculo infernal.<\/p>\n<p>Poucas vezes tivemos de suportar tamanha quantidade de mentiras como as que lemos e escutamos nesses dias. A \u201cditadura chavista\u201d, \u201cataques \u00e0 liberdade de express\u00e3o\u201d na Rep\u00fablica Bolivariana, a \u201cfraude eleitoral\u201d foram algumas das mais recorrentes no ros\u00e1rio de acusa\u00e7\u00f5es descarregadas sobre Ch\u00e1vez, visando impedir sua inexor\u00e1vel vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Por que tanto \u00f3dio, tanta sede de vingan\u00e7a, que fez pol\u00edticos e comunicadores sociais, que supostamente deveriam caracterizar-se por seu equil\u00edbrio e sensatez, se converterem em porta-vozes das piores cal\u00fanias contra esse personagem? A raz\u00e3o \u00e9 bem simples: mentem porque os interesses de classe que representam, associados \u2013 e articulados politicamente com \u2013 aos interesses imperais, exigem varrer o chavismo da face da Terra, e para isso qualquer recurso \u00e9 v\u00e1lido.<\/p>\n<p>A Venezuela, que encerra em suas entranhas as maiores reservas petroleiras da Terra, \u00e9 uma presa que suscita os apetites incontrol\u00e1veis do Imp\u00e9rio, impaciente em se reapropriar do que j\u00e1 foi seu e deixou de ser por obra e gra\u00e7a de Ch\u00e1vez. Como se trata de um prop\u00f3sito inconfess\u00e1vel, por ser um simples ato de latroc\u00ednio, \u00e9 necess\u00e1rio apelar a argumentos contorcionistas, para que assim o delito se apresente como um ato virtuoso.<\/p>\n<p>Por isso os mentirosos t\u00eam de dizer que o chavismo instaurou uma \u201cditadura\u201d em um pa\u00eds que, desde 1999, at\u00e9 este \u00faltimo domingo (7\/10), convocou sua popula\u00e7\u00e3o \u00e0s urnas em quinze oportunidades para eleger autoridades, deputados constituintes, membros da Assembleia Nacional, ou para referendar com o voto popular a nova constitui\u00e7\u00e3o, ou ainda para decidir se seria revogado ou n\u00e3o o mandato do presidente.<\/p>\n<p>Das 15 batalhas eleitorais, Ch\u00e1vez ganhou 14 e perdeu uma, o referendo constitucional de 2007, por menos de 1% dos votos \u2013 e de imediato reconheceu a derrota. Curiosa uma \u201cditadura\u201d que opera dessa maneira, como j\u00e1 recordou Eduardo Galeano h\u00e1 alguns anos. N\u00e3o s\u00f3 isso: acontece que essa \u201cditadura\u201d estendeu os direitos pol\u00edticos (al\u00e9m dos sociais e econ\u00f4micos) como jamais tinham feito os regimes supostamente democr\u00e1ticos que governaram a Venezuela desde o Pacto de Punto Fijo, de 1958, que instauraram uma ins\u00edpida altern\u00e2ncia sem alternativas entre democrata-crist\u00e3os e social-democratas, que morreram de morte natural em 1998.<\/p>\n<p>Quando Ch\u00e1vez chegou ao poder, em fevereiro de 1999, um de cada cinco venezuelanos maiores de 18 anos n\u00e3o existia politicamente: n\u00e3o podiam votar, porque n\u00e3o se inscreviam nos padr\u00f5es e nem sequer possu\u00edam documentos de identidade. Hoje, a \u201cditadura\u201d chavista reduziu essa cifra a 3,5%. Al\u00e9m do mais, com a Quarta Rep\u00fablica (1958-1998), o abstencionismo de quem podia votar flutuava em torno de 30% a 35%, chegando, segundo afirmou Daniel Zovatto, diretor do Observat\u00f3rio Eleitoral Latinoamericano, a picos de 80% na d\u00e9cada de 60.<\/p>\n<p>Na elei\u00e7\u00e3o do \u00faltimo dia 7 de outubro, registrou-se a mais alta taxa de participa\u00e7\u00e3o, com absten\u00e7\u00e3o de apenas 19%. Se isso \u00e9 pouco, enquanto a \u201cexemplar\u201d democracia estadunidense se vota em dia \u00fatil (a primeira ter\u00e7a-feira de novembro) e a taxa de absten\u00e7\u00e3o ronda os 50%, na \u201cditadura\u201d chavista se fazem elei\u00e7\u00f5es aos domingos, com transporte gratuito para que todos possam acudir aos locais de vota\u00e7\u00e3o. Foi por isso que Jimmy Carter assegurou que o sistema eleitoral da Venezuela bolivariana \u00e9 melhor que o dos Estados Unidos e um dos melhores do mundo. Mesmo assim, os condenados ao oitavo c\u00edrculo do Inferno insistem que h\u00e1 uma \u201cditadura\u201d e o que mais falta \u00e9 liberdade.<\/p>\n<p>Sua servil teimosia se reflete tamb\u00e9m em suas constantes cr\u00edticas aos supostos limites \u00e0 liberdade de express\u00e3o na Venezuela: era rid\u00edculo, e at\u00e9 dava um pouco de pena, ver esses severos paladinos da liberdade de express\u00e3o denunciando publicamente as supostas limita\u00e7\u00f5es a um direito t\u00e3o fundamental, sem que ningu\u00e9m na Venezuela interferisse em seu trabalho.<\/p>\n<p>Diziam p\u00fablica e histericamente que n\u00e3o existia liberdade! Diante do olhar meio sarc\u00e1stico, meio perplexo, dos venezuelanos, que n\u00e3o entendiam o que proclamavam esses energ\u00famenos no meio da rua e \u00e0 luz do dia. Basta olhar os peri\u00f3dicos do pa\u00eds para comprovar o teor das ferozes cr\u00edticas e perversas difama\u00e7\u00f5es que disparam diariamente contra Ch\u00e1vez e seu governo. Obviamente, esses homens santos (e mulheres beatas) que foram \u00e0 p\u00e1tria de Bol\u00edvar custodiar a amea\u00e7ada liberdade de express\u00e3o jamais se inquietaram ou manifestaram a menor preocupa\u00e7\u00e3o pelos 25 jornalistas assassinados pelo regime t\u00edtere que o imperialismo estadunidense instalou em Honduras ap\u00f3s o golpe de 2009.<\/p>\n<p>Muito menos se incomodam de informar que, dos 111 canais de televis\u00e3o existentes no pa\u00eds, apenas 13 s\u00e3o p\u00fablicos, tendo uma audi\u00eancia de apenas 5,4%, como demonstraram Jean-Luc M\u00e9lenchon e Ignacio Ramonet em uma mat\u00e9ria recente. Nos meios impressos, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda pior, porque 80% est\u00e3o nas m\u00e3os da oposi\u00e7\u00e3o, radicalmente enfrentada com o governo. Di\u00e1rios que, como os dominantes da Argentina, violaram a veda\u00e7\u00e3o eleitoral venezuelana, propalando sub-repticiamente vers\u00f5es via Twitter nas quais garantiam o triunfo irrevers\u00edvel de Henrique Capriles. Patricia Bullrich, uma deputada argentina, \u2018tuitava\u2019, com base nessas fontes, \u201c52,8 Capriles, 47,2 Ch\u00e1vez\u201d, e Federico Pinedo, outro deputado argentino, escrevia alvoro\u00e7ado \u201cGanhou @Capriles!\u201d. Nenhum deles pediu desculpas por terem enganado milhares de pessoas com tamanhas falsidades. E mais, em declara\u00e7\u00f5es posteriores se orgulham de terem atuado como fizeram, empreendendo um duro combate contra a \u201ctirania chavista\u201d.<\/p>\n<p>Contrastam com essas infames atitudes a seriedade, neutralidade e profissionalismo do Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela, um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico com representa\u00e7\u00e3o multipartid\u00e1ria, que, tal como havia antecipado, s\u00f3 comunicaria os resultados das elei\u00e7\u00f5es quando as tend\u00eancias do voto fossem irrevers\u00edveis. Assim fez poucas horas depois de terminado o pleito, quando cerca de 90% das urnas confirmavam uma vantagem inalcan\u00e7\u00e1vel a favor do presidente Hugo Ch\u00e1vez (com 54% dos votos), chegando a 55% ao fim do escrut\u00ednio. Com uma diferen\u00e7a de mais de 1.600.000 votos, a discuss\u00e3o sobre fraude teve que ser discretamente arquivada. Melhor n\u00e3o pensar como seria se Ch\u00e1vez ganhasse por 2% ou 3% dos votos.<\/p>\n<p>Desiludidos e derrotados, os porta-vozes do imp\u00e9rio tiraram da manga o novo assunto para acossar a Venezuela bolivariana: a sa\u00fade de Ch\u00e1vez. As usinas do imp\u00e9rio se encarregaram de reconfigurar a agenda e seguramente insistir\u00e3o com esse assunto, enquanto buscam novas formas de desestabilizar o governo. J\u00e1 tinham aludido a isso antes, prognosticando como dizia a apresentadora da CNN, Patricia Janiot, que a Ch\u00e1vez lhe restavam 9 ou 12 meses de vida. Essa foi uma das fa\u00e7anhas do presidente: derrotar o c\u00e2ncer. A outra: sustentar um enorme investimento social que mudou para sempre as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia \u2013 tanto objetivas como subjetivas \u2013 das classes populares, apesar da necessidade, reconhecida por Ch\u00e1vez, de melhorar a gest\u00e3o da coisa p\u00fablica.<\/p>\n<p>Derrotados nas elei\u00e7\u00f5es, agora voltam \u00e0 carga porque o l\u00edder bolivariano demonstrou ser um formid\u00e1vel aglutinador da tradicionalmente dispersa dirig\u00eancia latino-americana, o que lhe permitiu neutralizar com efic\u00e1cia a regra de ouro de qualquer imp\u00e9rio: \u201cdividir para reinar\u201d, como ensinavam os romanos. Esse sim \u00e9 um pecado imperdo\u00e1vel, que merece muito mais que a descida ao oitavo c\u00edrculo do inferno para fazer companhia a tantos pseudo-jornalistas (na verdade, publicit\u00e1rios de grandes empresas que utilizam os meios de comunica\u00e7\u00e3o para facilitar seus neg\u00f3cios) e supostos republicanos cuja preocupa\u00e7\u00e3o evidente \u00e9 garantir a continuidade da ditadura \u2013 ainda que com roupagens democr\u00e1ticas \u2013 do capital.<\/p>\n<p>O pecado de Ch\u00e1vez, murmuram por baixo (e \u00e0s vezes vociferam, como faz o lament\u00e1vel Mitt Romney), \u00e9 intoler\u00e1vel e imperdo\u00e1vel, e h\u00e1 de se acabar com ele o quanto antes. Ignorantes das leis que regem a dial\u00e9tica hist\u00f3rica da direita, acreditam que a longa marcha da Am\u00e9rica Latina e do Caribe rumo a sua segunda independ\u00eancia \u00e9 a obra mal\u00e9fica de alguns esp\u00edritos malignos, como Fidel, Che e Ch\u00e1vez. Parafraseando aquele c\u00e9lebre t\u00edtulo do discurso de Fidel no julgamento de Moncada, da direita imperial e seus porta-vozes regionais: \u201cA hist\u00f3ria os condenar\u00e1\u201d.<\/p>\n<p><strong><em>Atilio Bor\u00f3n \u00e9 doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Harvard University,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>professor titular de Filosofia da Pol\u00edtica da Universidade de<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Buenos Aires e ex-secret\u00e1rio-executivo do<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Conselho Latino-Americano de Ci\u00eancias Sociais (CLACSO).<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em><strong>Website:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.atilioboron.com.ar\/\" target=\"_blank\">www.atilioboron.com.ar<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Gabriel Brito, Correio da Cidadania.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: 1.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\npor Atilio Boron, 12.10.12 \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3710\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3710","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-XQ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3710","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3710"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3710\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3710"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3710"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3710"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}