{"id":3719,"date":"2012-10-18T21:22:34","date_gmt":"2012-10-18T21:22:34","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3719"},"modified":"2012-10-18T21:22:34","modified_gmt":"2012-10-18T21:22:34","slug":"se-ha-alguma-coisa-abundante-em-cuba-sao-as-eleicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3719","title":{"rendered":"SE H\u00c1 ALGUMA COISA ABUNDANTE EM CUBA S\u00c3O AS ELEI\u00c7\u00d5ES"},"content":{"rendered":"\n<p>Ricardo Alarc\u00f3n de Quesada, presidente do Parlamento cubano, ofereceu uma entrevista ao jornalista Carlos Azn\u00e1rez, do jornal\u00a0Tiempo Argentino, na qual analisa o atual per\u00edodo eleitoral em Cuba. Na entrevista, Alarc\u00f3n tamb\u00e9m se refere \u00e0 luta que Cuba e seus amigos solid\u00e1rios realizam pela liberta\u00e7\u00e3o dos cinco cubanos injustamente encarcerados nos EUA h\u00e1 14 anos.<\/p>\n<p>Carlos Asn\u00e1rez \u2013 Fora de Cuba, h\u00e1 uma id\u00e9ia de que aqui as elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o relativas, em fun\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de partido \u00fanico. Como \u00e9 o sistema eleitoral cubano e quais s\u00e3o seus valores, em termos da democracia?<\/p>\n<p>Ricardo Alarc\u00f3n de Quesada \u2013 N\u00f3s estamos agora em um processo eleitoral. Essa \u00e9 uma das diferen\u00e7as fundamentais com o modelo em curso, com o falso paradigma. A ess\u00eancia do sistema de elei\u00e7\u00f5es no mundo ocidental contempor\u00e2neo implica que os eleitores, que n\u00e3o s\u00e3o todos os cidad\u00e3os, mas uma parte deles, s\u00e3o chamados a votar em algum candidato que foi selecionado pelo sistema eleitoral, ou partido pol\u00edtico. Os cidad\u00e3os t\u00eam, portanto, muito pouca participa\u00e7\u00e3o na sele\u00e7\u00e3o dos candidatos. Em Cuba, j\u00e1 se passam v\u00e1rias semanas em um processo pelo qual a popula\u00e7\u00e3o selecionar\u00e1, pelo voto, aquelas pessoas que ser\u00e3o seus candidatos. N\u00e3o creio que isso seja parecido com o que predomina pelo mundo.<\/p>\n<p>Aqui podemos afirmar que milh\u00f5es de cubanos j\u00e1 votaram devido \u00e0s assembl\u00e9ias de elei\u00e7\u00e3o ou de sele\u00e7\u00e3o de candidatos. No dia 21 de outubro, a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 convocada a ir \u00e0s urnas para votar nos v\u00e1rios candidatos que ela mesma escolheu. Os candidatos n\u00e3o s\u00e3o indicados, eles s\u00e3o eleitos. N\u00e3o est\u00e3o ali por decis\u00e3o de um sistema eleitoral.<\/p>\n<p>CA \u2013 Eles s\u00e3o eleitos com base em quais caracter\u00edsticas ou qualidades?<\/p>\n<p>Alarc\u00f3n\u00a0\u2013 Obviamente, a propaganda que se faz em todos os jornais ou na televis\u00e3o fala de apoiar os melhores, os mais capazes. Mas, na realidade, pode acontecer que, por exemplo, um cidad\u00e3o levanta a m\u00e3o nas assembl\u00e9ias que s\u00e3o realizadas em todos os bairros e prop\u00f5e a candidatura de algu\u00e9m que considera representativo, ou, diretamente, ele mesmo se candidata, coisa que tamb\u00e9m pode acontecer e de fato acontece. Se algo \u00e9 abundante em Cuba, s\u00e3o as elei\u00e7\u00f5es. Essa etapa termina no dia 21 deste m\u00eas; a segunda, dia 28, quando concorrem os eleitores daquelas circunscri\u00e7\u00f5es onde nenhum dos candidatos obteve mais de 50% dos votos.<\/p>\n<p>CA \u2013 Porque n\u00e3o abrir as portas a mais partidos?<\/p>\n<p>Alarc\u00f3n\u00a0\u2013 A ideia que associa a democracia com a \u201cpartidocracia\u201d \u00e9 historicamente recente. Nem sempre foi assim. Havia democracia no mundo, como conceito e como pr\u00e1tica, muito antes do surgimento dos partidos pol\u00edticos. A id\u00e9ia do governo, baseado na soberania popular, \u00e9 muito anterior a esses partidos. Al\u00e9m do mais, n\u00e3o somos os \u00fanicos que acreditamos que a democracia n\u00e3o se deve fundamentar na exist\u00eancia dos partidos: entre outros not\u00e1veis cr\u00edticos desse sistema, est\u00e1 o pr\u00f3prio George Washington. Quando ele se despede da vida p\u00fablica, em uma mensagem que se converteu em um testamento pol\u00edtico, insiste para que n\u00e3o se caia no sistema de partidos pol\u00edticos, o que precisamente hoje os estadunidenses exibem como um dogma. Na verdade, Washington foi presidente sem militar em nenhuma estrutura partid\u00e1ria. O conceito de que a sociedade tenha de se organizar e se dividir em partidos e de que essas estruturas ou organiza\u00e7\u00f5es assumam a soberania popular \u00e9 arbitr\u00e1rio.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os que o condenaram, incluindo Washington, ou o pr\u00f3prio Rousseau, que investiu, desde sua origem, contra a chamada democracia representativa, como algo fict\u00edcio e irreal.<\/p>\n<p>A \u00fanica forma de democracia, para ele, era a que se exercia de forma direta, em que o eleito dependeria dos eleitores e n\u00e3o se arrogando como representante dos eleitores.<\/p>\n<p>Veja bem o que acabou de acontecer em Madri, quando o Parlamento foi cercado por milhares de cidad\u00e3os, e a pol\u00edcia espanhola apareceu batendo a torto e a direito. Quem estava no interior do Congresso? Representantes que chegaram ali por meio de algum partido pol\u00edtico. Do lado de fora, estavam aqueles que n\u00e3o se consideraram representados por nenhum dos que estavam dentro. Esse \u00e9 um exemplo claro da inutilidade desses partidos.<\/p>\n<p>CA \u2013 Nas elei\u00e7\u00f5es da maioria dos pa\u00edses, se um candidato decepciona seus eleitores, pode por eles ser castigado, n\u00e3o se votando nele novamente em elei\u00e7\u00f5es futuras. Nesse caso, quais s\u00e3o as alternativas dos eleitores cubanos?<\/p>\n<p>Alarc\u00f3n\u00a0\u2013 Muito simples: qualquer pessoa eleita pode ter seu mandato revogado, em qualquer momento, pelo eleitores. Nos \u00faltimos anos, fui deputado pelo munic\u00edpio de Praza de la Revolu\u00e7i\u00f3n. A primeira vez que isso aconteceu, em 1993, me convidaram, assim como aos demais deputados da regi\u00e3o, a participar da assembl\u00e9ia municipal, cujo ponto principal de pauta era a substitui\u00e7\u00e3o do seu presidente. Sentei-me com os demais participantes e aconteceu uma intensa discuss\u00e3o: alguns n\u00e3o estavam a favor da destitui\u00e7\u00e3o do companheiro, e falavam maravilhas de seu trabalho. Outros o criticavam duramente. Subitamente, aparece um velho companheiro trabalhador desse distrito e disse: \u201cSenhores, deixem de drama, neste munic\u00edpio nenhum presidente chegou ao fim de seu mandato, todos foram revogados\u201d. N\u00e3o existe prazo, nem restri\u00e7\u00e3o alguma para revogar cargos. Pode-se fazer isso em qualquer momento, sem que isso obviamente se transforme num caos, a partir do qual estar\u00edamos votando todos os meses.<\/p>\n<p>CA \u2013 Nas imagens que se divulgam no exterior sobre as elei\u00e7\u00f5es cubanas, busca-se ridicularizar as cifras de participa\u00e7\u00e3o, que sempre s\u00e3o altas e, em muitos casos, superam os 90%.<\/p>\n<p>Alarc\u00f3n\u00a0\u2013 Eu tenho uma explica\u00e7\u00e3o para isso. Quando voc\u00ea vota em Cuba para eleger algu\u00e9m entre v\u00e1rias pessoas e sabe que uma delas foi proposta em sua assembl\u00e9ia de escolha de candidatos, que a conhece, sente-se mais pr\u00f3ximo, isso te d\u00e1 confian\u00e7a. \u00c9 muito diferente das elei\u00e7\u00f5es de outros pa\u00edses, na quais o candidato inunda as paredes com cartazes com sua foto, todo sorridente, prometendo de tudo. Em segundo lugar, se existe algo f\u00e1cil em cuba, \u00e9 votar. Os centros eleitorais est\u00e3o a pouca dist\u00e2ncia de onde vivem as pessoas, a uma quadra, no m\u00e1ximo duas. Isso faz que a participa\u00e7\u00e3o das pessoas seja muito maior em compara\u00e7\u00e3o com lugares onde as urnas estejam muito distantes. Outra \u00e9 a lista dos eleitores. Se neste momento percorrermos a ilha, vamos observar, na porta dos edif\u00edcios, nos mercados, nas feiras, a lista dos eleitores submetida ao escrut\u00ednio p\u00fablico e ao controle popular. Eu vou a um desses locais e vejo se meu nome est\u00e1 constando da lista e, se n\u00e3o estiver, exijo que o fa\u00e7am constar. Mas tamb\u00e9m vejo que colocaram voc\u00ea na lista e ent\u00e3o afirmo: este \u00e9 argentino, n\u00e3o mora em Havana e n\u00e3o pode votar aqui. De maneira que, quando vou votar, j\u00e1 sei que votam tantas pessoas identificadas na porta com seu nome e sobrenome. Depois, na hora da apura\u00e7\u00e3o dos votos, a comiss\u00e3o encarregada pede ajuda aos eleitores que est\u00e3o ali presentes. Comparemos isso com situa\u00e7\u00f5es nas quais as pessoas nem sabem quantos podem votar, onde votam, nem quantos votaram, muito menos qual \u00e9 o resultado.<\/p>\n<p>Sobre os cinco patriotas cubanos e o terrorismo midi\u00e1tico<\/p>\n<p>Alarc\u00f3n\u00a0\u2013 O julgamento dos cinco her\u00f3is cubanos \u00e9 o mais longo da hist\u00f3ria estadunidense, do qual participaram e compareceram como testemunhas generais, militares, assessores da Casa Branca. Uma lista de pessoa que em qualquer outro caso teria atra\u00eddo a aten\u00e7\u00e3o das pessoas. Em um pa\u00eds como os EUA, onde h\u00e1 dois canais de TV que cobrem temas judiciais 24 horas por dia, jamais se disse palavra alguma sobre o caso. Em troca, em Miami, foi exatamente o contrario.<\/p>\n<p>Outra curiosidade: alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o disseram nada fora de Miami, realizaram uma cobertura local sensacionalista. Recentemente, o advogado de Gerardo Hernandez apresentou um dossi\u00ea com todos os artigos de imprensa publicados em Miami sobre o caso. Desde o dia do in\u00edcio do julgamento at\u00e9 o momento que se conheceu o veredicto, somente em\u00a0Miami Herald e em\u00a0Novo Herald foram publicados 1.111 artigos, que d\u00e1 uma m\u00e9dia de cinco por dia. A isso se somam as emissoras de r\u00e1dio e TV. Foi uma campanha sem precedentes de acusa\u00e7\u00f5es e tergiversa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, varias vezes durante o julgamento, os jurados se queixaram \u00e0 ju\u00edza de que os jornalistas os perseguiam com c\u00e2meras e microfones, pelos corredores, nas portas de suas casas. O resultado era que essas pessoas manifestavam ter medo, pois tinham as placas de seus autom\u00f3veis filmadas e passadas na TV local e isso nos EUA permite identificar todos os dados das pessoas.<\/p>\n<p>Agora, o que n\u00e3o se sabia ent\u00e3o era que, por detr\u00e1s desse comportamento dos jornalistas, estava a press\u00e3o e o dinheiro pago pelo governo aos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2005, se produziu uma das situa\u00e7\u00f5es mais interessantes desse caso, quando no painel dos tr\u00eas ju\u00edzes o julgamento foi declarado nulo e sem valor, um documento hist\u00f3rico de 93 p\u00e1ginas, contendo muitos dados sobre a atividade terrorista contra Cuba. Tr\u00eas ju\u00edzes que n\u00e3o s\u00e3o comunistas nem castristas, mas simplesmente estadunidenses, descreveram a situa\u00e7\u00e3o de Miami como uma \u201ctormenta perfeita de hostilidade\u201d e deram como exemplo os meios de comunica\u00e7\u00e3o locais. Em 2006, um jornalista do\u00a0Herald publicou um artigo que denunciava v\u00e1rios jornalistas do di\u00e1rio que recebiam sal\u00e1rio duplo do governo para tergiversar o tema dos &#8220;Cinco Cubanos&#8221;. O certo \u00e9 que o\u00a0Herald atuou dessa maneira porque a concorr\u00eancia estava investigando esse tema e decidiram adiantar-se. Todos os jornalistas implicados foram demitidos, mas, atualmente, a maioria voltou a seu trabalho, menos o autor da nota que denunciou todo o tipo de censuras e press\u00f5es.<\/p>\n<p>Com esses dados, havia-se conseguido anular totalmente o julgamento e fazer com que os cinco patriotas cubanos recuperassem sua liberdade. Apesar dos avan\u00e7os no caso, o governo continua distorcendo informa\u00e7\u00f5es e assinala que, se for necess\u00e1rio, recorrer\u00e1 \u00e0 seguran\u00e7a nacional para impor sua posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Na hist\u00f3ria do EUA, n\u00e3o existe outro exemplo de inger\u00eancia governamental, usando recursos do or\u00e7amento p\u00fablico nacional, para conseguir a condena\u00e7\u00e3o de cinco pessoas em uma cidade no extremo sul do pa\u00eds. E isso, desgra\u00e7adamente, ainda n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: RLA\n\n\n\n\n\n\n\n\nRicardo Alarc\u00f3n, entrevistado por Carlos Azn\u00e1rez\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3719\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[47],"tags":[],"class_list":["post-3719","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c57-revolucao-cubana"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-XZ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3719","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3719"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3719\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}