{"id":3721,"date":"2012-10-18T21:34:13","date_gmt":"2012-10-18T21:34:13","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3721"},"modified":"2012-10-18T21:34:13","modified_gmt":"2012-10-18T21:34:13","slug":"introducao-ao-manifesto-comunista-de-marx-a-engels","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3721","title":{"rendered":"Introdu\u00e7\u00e3o ao MANIFESTO COMUNISTA* de Marx &#038; Engels"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>\u201cIntrodu\u00e7\u00e3o ao Manifesto Comunista\u201d<\/strong>, Ed. Verso, NY, 2012 (abril)<\/p>\n<p>(indica\u00e7\u00e3o de Nicol\u00e1s Alberto Gonz\u00e1lez Varela, e-mail, de 3\/10\/2012)<\/p>\n<p>Traduzido pelo pessoal da\u00a0<strong>Vila Vudu<\/strong><\/p>\n<p>Em homenagem a Eric Hobsbawm, renomado intelectual e historiador marxista, recentemente falecido, a Editora Verso, NY, decidiu distribuir pela rede, para proveito de todos, a<em>Introdu\u00e7\u00e3o ao Manifesto Comunista<\/em>, de autoria de Hobsbawm, \u00e0 sua nova edi\u00e7\u00e3o do Manifesto Comunista*(pode ser lido em ingl\u00eas, em:\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/www.versobooks.com\/blogs\/1137\">Eric Hobsbawm\u2019s Introduction to the 2012 Edition of Marx &amp; Engels \u201cThe Communist Manifesto<\/a>\u201d<\/strong>).<\/p>\n<p><strong>Aten\u00e7\u00e3o:<\/strong><strong> Essa \u00e9 tradu\u00e7\u00e3o dif\u00edcil e importante. Todos os coment\u00e1rios, sugest\u00f5es e corre\u00e7\u00f5es s\u00e3o bem-vindos (Vila Vudu)<\/strong><\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Na primavera de 1847, Karl Marx e Frederick Engels concordaram em unir-se \u00e0 chamada \u201cLiga dos Justos\u201d [<em>Bund der Gerechten<\/em>], desdobramento da \u201cLiga dos Proscritos\u201d [<em>Bund der Ge\u00e4chteten<\/em>], que existira antes, sociedade revolucion\u00e1ria secreta formada em Paris nos anos 1830s influenciada pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, de trabalhadores alem\u00e3es \u2013 a maioria alfaiates e marceneiros \u2013 e ainda constitu\u00edda, principalmente, de artes\u00e3os radicais exilados. A Liga, seduzida pelo \u201ccomunismo cr\u00edtico\u201d dos dois, ofereceu-se para publicar um<em>Manifesto<\/em> rascunhado por Marx e Engels como sua plataforma pol\u00edtica e, tamb\u00e9m, para modernizar a organiza\u00e7\u00e3o acompanhando aquelas novas orienta\u00e7\u00f5es. De fato, o movimento foi reorganizado no ver\u00e3o de 1847. Passou a chamar-se \u201cLiga dos Comunistas\u201d [<em>Bund der Kommunisten<\/em>], comprometida com o objetivo de \u201cderrubar a burguesia\u201d, promover \u201co governo do proletariado\u201d, por fim \u201c\u00e0 velha sociedade que repousa sobre contradi\u00e7\u00f5es de classe [<em>Klassengegens\u00e4tzen<\/em>] e estabelecer \u201cuma nova sociedade sem classes ou propriedade privada\u201d. Um segundo congresso da Liga, tamb\u00e9m realizado em Londres, em novembro-dezembro de 1847, aceitou formalmente os objetivos e os novos estatutos, e convidou Marx e Engels a redigir o novo Manifesto, em que se exporiam os objetivos e pol\u00edticas da Liga.<\/p>\n<p>Embora ambos, Marx e Engels tenham preparado rascunhos e o documento claramente manifeste pontos de vista comuns, o texto final, quase com certeza, foi redigido por Marx \u2013 pressionado duramente pela Comiss\u00e3o Executiva, porque Marx, como outras vezes, praticamente s\u00f3 conseguia concluir seus escritos se pressionado por prazo rigidamente demarcado e relembrado. A aus\u00eancia virtual de rascunhos sugere que tenha sido redigido rapidamente\u00a0<strong>[i]<\/strong>. O documento resultante, de 23 p\u00e1ginas, intitulado\u00a0<em>Manifesto of the Communist Party<\/em> [Manifesto do Partido Comunista] (mais conhecido, a partir de 1872, como\u00a0<em>O Manifesto Comunista<\/em>), foi \u201cpublicado em fevereiro de\u00a01848\u201d, impresso na sede da\u00a0<em>Workers\u2019 Educational Association<\/em> [Associa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores da Educa\u00e7\u00e3o] (mais conhecida como\u00a0<em>Communistischer Arbeiterbildungsverein<\/em>, que sobreviveu at\u00e9 1914), na casa n. 46 da\u00a0<em>Liverpool Street<\/em> no centro de Londres.<\/p>\n<p>Esse pequeno panfleto \u00e9, de longe, a pe\u00e7a mais influente de escritura pol\u00edtica desde a\u00a0<em>Declara\u00e7\u00e3o dos Revolucion\u00e1rios Franceses, dos Direitos do Homem e dos Cidad\u00e3os<\/em>. Por sorte, chegou \u00e0s ruas apenas uma ou duas semanas antes de eclodirem as revolu\u00e7\u00f5es de 1848, que se espalharam como fogo em mato seco, de Paris para todo o continente europeu. Embora tivesse horizonte firmemente internacional \u2013 a primeira edi\u00e7\u00e3o anunciava, esperan\u00e7osa, mas infelizmente erradamente, que se seguiriam edi\u00e7\u00f5es do\u00a0<em>Manifesto<\/em> em ingl\u00eas, franc\u00eas, italiano, flamengo e escoc\u00eas \u2013 o documento s\u00f3 teve impacto inicial exclusivamente na Alemanha. Por pequena que fosse a Liga Comunista, teve papel n\u00e3o insignificante na Revolu\u00e7\u00e3o Alem\u00e3, no m\u00ednimo atrav\u00e9s do jornal<em>Neue Rheinische Zeitung<\/em> [Nova Gazeta Renana] (1848\u201349), editado por Karl Marx. A primeira edi\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Manifesto<\/em> teve tr\u00eas reimpress\u00f5es em poucos meses, foi publicada\u00a0em cap\u00edtulos no\u00a0<em>Deutsche Londoner<\/em><em> Zeitung<\/em>, revista, corrigida e reformatada para 30 p\u00e1ginas em abril ou maio de 1848, mas desapareceu de circula\u00e7\u00e3o com o fracasso das revolu\u00e7\u00f5es de 1848. Quando Marx estabeleceu-se para ex\u00edlio que seria de toda uma vida, na Inglaterra, em 1849, o\u00a0<em>Manifesto<\/em> tornara-se pe\u00e7a suficientemente rara para que Marx cogitasse de reimprimir a Se\u00e7\u00e3o 3 (\u2018<em>Socialistische und kommunistische Literatur<\/em>\u2019) no \u00faltimo n\u00famero de sua revista londrina,\u00a0<em>Neue Rheinische Zeitung, politisch-\u00f6konomische Revue<\/em> (nov. 1850), que tivera bem poucos leitores.<\/p>\n<p>Nos anos 1850s e in\u00edcio dos 1860s, ningu\u00e9m preveria que o\u00a0<em>Manifesto<\/em> teria futuro glorioso. Uma pequena nova edi\u00e7\u00e3o foi lan\u00e7ada privadamente em Londres por um impressor alem\u00e3o emigrado, provavelmente em 1864, e outra edi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pequena em Berlim, em 1866 \u2013 a primeira que, de fato, foi realmente publicada na Alemanha. Entre 1848 e 1868, parece n\u00e3o ter havido tradu\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de uma vers\u00e3o sueca, publicada provavelmente no final de 1848, e uma vers\u00e3o em ingl\u00eas, em 1850, que s\u00f3 \u00e9 importante para a hist\u00f3ria bibliogr\u00e1fica do\u00a0<em>Manifesto<\/em> porque a tradutora parece ter consultado Marx \u2013 ou (dado que ela vivia em Lancashire), mais provavelmente, Engels. Essas duas vers\u00f5es sumiram sem deixar tra\u00e7o. Em meados dos anos 1860s, praticamente j\u00e1 n\u00e3o havia, impressa, sequer uma linha do que Marx escrevera at\u00e9 ali.<\/p>\n<p>O destaque de Marx na Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Trabalhadores [ing.<em>International Working Men\u2019s Association<\/em>] (a chamada \u201c1\u00aa Internacional\u201d, 1864-72) e a emerg\u00eancia, na Alemanha, de dois importantes partidos da classe trabalhadora, ambos fundados por ex-membros da Liga Comunistas, que o tinha em alta conta, levaram a um ressurgimento do interesse pelo Manifesto, e pelos outros escritos de Marx. Em especial, uma eloquente defesa da Comuna de Paris de 1871 (mais conhecida como\u00a0<em>A Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em> [ing.\u00a0<em>The Civil War in France<\/em>) deu a Marx consider\u00e1vel notoriedade na imprensa, como um perigoso l\u00edder da subvers\u00e3o internacional, temido pelos governos. Mais especificamente o julgamento por crime de trai\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes da Social- Democracia Alem\u00e3, Wilhelm Liebknecht, August Bebel e Adolf Hepner em mar\u00e7o de 1872, deu ao\u00a0<em>Manifesto<\/em> publicidade inesperada. A acusa\u00e7\u00e3o leu o texto do\u00a0<em>Manifesto<\/em> para registro nos autos do julgamento e, assim, deu aos Sociais-Democratas a primeira oportunidade para public\u00e1-lo legalmente, em grande tiragem, como parte dos documentos do processo. Quando j\u00e1 n\u00e3o havia d\u00favidas de que o documento publicado antes da Revolu\u00e7\u00e3o de 1848 tinha de ser atualizado e precisava de coment\u00e1rio explicativo, Marx e Engels escreveram o primeiro de uma s\u00e9rie de Pref\u00e1cios, que, desde ent\u00e3o, acompanharam, quase sempre, novas edi\u00e7\u00f5es do\u00a0<em>Manifesto<\/em> <strong>[ii]<\/strong>. Por impedimentos de lei, o pref\u00e1cio n\u00e3o pode ser amplamente distribu\u00eddo naquele momento, mas, de fato, a edi\u00e7\u00e3o de 1872 (baseada na edi\u00e7\u00e3o de 1866) tornou-se base para todas as edi\u00e7\u00f5es subsequentes. Entre 1871 e 1873, surgiram pelo menos nove edi\u00e7\u00f5es do\u00a0<em>Manifesto<\/em>, em seis l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Nos quarenta anos seguintes, o\u00a0<em>Manifesto<\/em> conquistou o mundo, levado avante pelo nascimento de novos partidos (socialistas) trabalhistas, nos quais a influ\u00eancia marxista aumentou rapidamente nos anos 1880s. Nenhum daqueles escolheu chamar-se Partido Comunista, at\u00e9 que os russos bolcheviques retornaram \u00e0 designa\u00e7\u00e3o original depois da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, mas o t\u00edtulo<em>Manifesto do Partido Comunista<\/em> permaneceu inalterado. J\u00e1 antes da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917 houve v\u00e1rias centenas de edi\u00e7\u00f5es em cerca de 30 idiomas, inclusive tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es em japon\u00eas e uma em chin\u00eas. Mesmo assim, a principal regi\u00e3o de influ\u00eancia ainda era o centro da Europa, da Fran\u00e7a a oeste, \u00e0 R\u00fassia a leste. N\u00e3o surpreendentemente, o maior n\u00famero de edi\u00e7\u00f5es foram em russo (70) al\u00e9m de outras 35, nos idiomas do imp\u00e9rio czarista \u2013 11 em polon\u00eas; sete em i\u00eddiche; seis em finland\u00eas; cinco em ucraniano; quatro em georgiano; duas em arm\u00eanio. Houve 55 edi\u00e7\u00f5es em alem\u00e3o a mais, para o Imp\u00e9rio Habsburgo; outras nove em h\u00fangaro e oito em tcheco (mas apenas tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es croatas, uma em eslovaco e uma em esloveno), 34 em ingl\u00eas (cobrindo tamb\u00e9m os EUA, onde a primeira tradu\u00e7\u00e3o apareceu em 1871), 26 em franc\u00eas e 11 em italiano \u2013 a primeira das quais s\u00f3 apareceu em 1889\u00a0<strong>[iii]<\/strong>. Teve pequeno impacto no sudoeste da Europa \u2013 seis edi\u00e7\u00f5es na Espanha (inclu\u00eddas as para a Am\u00e9rica Latina); uma em portugu\u00eas. O impacto no sudeste da Europa foi pequeno (sete edi\u00e7\u00f5es em b\u00falgaro, quatro em s\u00e9rvio, quatro em romeno, e uma \u00fanica edi\u00e7\u00e3o em ladino, publicada, provavelmente,\u00a0em Salonica). O\u00a0norte da Europa aparece moderadamente bem representado, com seis edi\u00e7\u00f5es em holand\u00eas, cinco em sueco e duas em noruegu\u00eas\u00a0<strong>[iv]<\/strong>.<\/p>\n<p>Essa distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica desigual n\u00e3o reflete s\u00f3 o desenvolvimento desigual do movimento socialista, e da influ\u00eancia de Marx, especificamente diferente de outras ideologias revolucion\u00e1rias, como o anarquismo. Deve fazer-nos lembrar tamb\u00e9m de que n\u00e3o havia qualquer correla\u00e7\u00e3o forte entre o tamanho e o poder dos partidos social-democratas e trabalhistas, e a circula\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Manifesto<\/em>. At\u00e9 1905, o Partido Social-Democrata Alem\u00e3o [ing.\u00a0<em>German Social-Democratic Party<\/em> (SPD)], com suas centenas de milhares de membros e milh\u00f5es de eleitores, publicou novas edi\u00e7\u00f5es do\u00a0<em>Manifesto <\/em>que n\u00e3o ultrapassavam 2.000, 3.000 c\u00f3pias. O\u00a0<em>Erfurt Programme<\/em>, programa do Partido de 1891 foi publicado com 120 mil c\u00f3pias; mas n\u00e3o se editaram mais de 16 mil c\u00f3pias do\u00a0<em>Manifesto<\/em>nos onze anos entre 1895 e 1905, ano em que a circula\u00e7\u00e3o do jornal te\u00f3rico do Partido,\u00a0<em>Die Neue Zeit<\/em>, era de 6.400 exemplares\u00a0<strong>[v]<\/strong>. N\u00e3o se esperava que o membro m\u00e9dio de um partido social-democr\u00e1tico marxista de massa tivesse de ser \u201caprovado\u201d em \u201cexames\u201d te\u00f3ricos. Mas as 70 edi\u00e7\u00f5es na R\u00fassia pr\u00e9-revolucion\u00e1ria representaram uma combina\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es, ilegais durante a maior parte do tempo, cujo n\u00famero total de membros n\u00e3o pode ter ultrapassado uns poucos milhares. Assim tamb\u00e9m as 34 edi\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas foram publicadas por e para as m\u00faltiplas seitas marxistas que se distribu\u00edam pelo mundo anglo-sax\u00e3o, que operavam no flanco esquerdo de quantos partidos socialistas e trabalhistas existiram. Esse era o\u00a0<em>milieu<\/em> no qual \u201ca clareza de um camarada podia ser aferida invariavelmente pelo n\u00famero de anota\u00e7\u00f5es em seu<em>Manifesto<\/em>\u201d\u00a0<strong>[vi]<\/strong>. Em resumo, os leitores do\u00a0<em>Manifesto<\/em>, embora fossem parte dos novos e crescentes partidos e movimentos trabalhistas e socialistas, praticamente com certeza n\u00e3o eram amostra representativa do corpo de membros dos partidos. Eram homens com algum especial interesse na teoria subjacente \u00e0queles movimentos. Provavelmente, ainda \u00e9 assim.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o mudou depois da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro \u2013 tamb\u00e9m nos Partidos Comunistas. Diferentes dos partidos de massa da 2\u00aa Internacional (1889-1914), os da 3\u00aa Internacional (1919-43) esperavam que todos os seus membros compreendessem a \u2013 ou, no m\u00ednimo, que mostrassem algum conhecimento da \u2013 teoria marxista. A dicotomia entre os l\u00edderes pol\u00edticos efetivos, desinteressados de escrever livros, os \u2018te\u00f3ricos\u2019 como Karl Kautsky \u2013 conhecido e respeitado como tal, mas n\u00e3o como decisor pol\u00edtico pr\u00e1tico \u2013 desapareceu.<\/p>\n<p>Seguindo L\u00eanin, todos os l\u00edderes deviam ent\u00e3o ser te\u00f3ricos importantes, porque todas as decis\u00f5es pol\u00edticas eram justificadas por argumentos da teoria marxista \u2013 ou, mais provavelmente, por refer\u00eancia \u00e0 autoridade textual dos \u201ccl\u00e1ssicos\u201d: Marx, Engels, L\u00eanin e, na sequ\u00eancia, St\u00e1lin. A publica\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o popular de textos de Marx e Engels tornaram-se, portanto, de longe, mais centrais para o movimento do que haviam sido nos dias da 2\u00aa Internacional. Iam de s\u00e9ries de escritos curtos, dos quais o pioneiro parece ter sido provavelmente o alem\u00e3o\u00a0<em>Elementarb\u00fccher des Kommunismus<\/em> durante a Rep\u00fablica de Weimar, e comp\u00eandios correspondentemente selecionados de leituras, como os inestim\u00e1veis\u00a0<em>Selected Correspondence of Marx and Engels<\/em>[Correspond\u00eancia Selecionada de Marx e Engels], os\u00a0<em>Selected Works of Marx and Engels<\/em> [Obras Selecionadas de Marx e Engels] em dois \u2013 adiante em tr\u00eas \u2013 volumes, e a prepara\u00e7\u00e3o de suas\u00a0<em>Obras Selecionadas<\/em> [<em>Gesamtausgabe<\/em>]; todas essas publica\u00e7\u00f5es patrocinadas pelos ilimitados \u2013 para esses objetivos \u2013 recursos do Partido Comunista Sovi\u00e9tico e, muitas vezes, impressos na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em v\u00e1rios idiomas.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em> foi beneficiado por essa nova situa\u00e7\u00e3o, por tr\u00eas vias. A circula\u00e7\u00e3o sem d\u00favida aumentou muito. A edi\u00e7\u00e3o barata publicada em 1932 pelas editoras oficiais dos Partidos Comunistas Americano e Brit\u00e2nico, \u201ccentenas de milhares\u201d de c\u00f3pias, foi descrita como, \u201cprovavelmente a maior edi\u00e7\u00e3o de massa jamais lan\u00e7ada em ingl\u00eas\u201d\u00a0<strong>[vii]<\/strong>. O t\u00edtulo j\u00e1 n\u00e3o era sobreviv\u00eancia hist\u00f3rica, mas aparecia ent\u00e3o ligada diretamente \u00e0 pol\u00edtica corrente. Dado que j\u00e1 havia um Estado que declarava representar a ideologia marxista, o status do\u00a0<em>Manifesto<\/em> como texto de ci\u00eancia pol\u00edtica foi refor\u00e7ado, e, nesses termos, foi admitido nos programas de ensino de universidades, destinado a expandir-se rapidamente depois da 2\u00aa Guerra Mundial; o marxismo para leitores intelectuais encontraria seu p\u00fablico mais entusiasmado nos anos 1960s e 1970s.<\/p>\n<p>A URSS emergiu da 2\u00aa Guerra Mundial como uma das duas superpot\u00eancias, liderando vasta regi\u00e3o de estados comunistas e agregados. Os Partidos Comunistas Ocidentais (com a not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o do Partido Alem\u00e3o) emergiram mais fortes da 2\u00aa GM do que jamais haviam sido ou poderiam ser. Embora a Guerra Fria j\u00e1 estivesse em curso, quando completou cem anos o\u00a0<em>Manifesto<\/em> j\u00e1 n\u00e3o era editado exclusivamente por editores comunistas ou marxistas, mas recebia grandes edi\u00e7\u00f5es de empresas editoras comerciais n\u00e3o pol\u00edticas, com introdu\u00e7\u00f5es de intelectuais ilustres. Em resumo, j\u00e1 n\u00e3o era documento cl\u00e1ssico marxista; tornara-se documento cl\u00e1ssicopol\u00edtico.<\/p>\n<p>Assim continua, mesmo depois do fim do comunismo sovi\u00e9tico e do decl\u00ednio dos partidos e movimentos marxistas em muitas partes do mundo. Em Estados sem censura, qualquer pessoa que tenha acesso a uma boa livraria ou a uma boa biblioteca, tem acesso f\u00e1cil a ele. O objetivo de uma nova edi\u00e7\u00e3o, em 2012, portanto, n\u00e3o \u00e9 tanto tornar acess\u00edvel o texto dessa espantosa obra-prima nem, menos ainda, voltar a um s\u00e9culo de debates de doutrina sobre a interpreta\u00e7\u00e3o \u2018correta\u2019 desse documento fundamental do marxismo. O objetivo \u00e9, isso sim, lembrar-nos que o\u00a0<em>Manifesto<\/em> ainda tem muito a dizer ao mundo nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>E o que o\u00a0<em>Manifesto<\/em> ainda tem a dizer? \u00c9, \u00e9 claro, documento escrito para um momento particular na hist\u00f3ria. Parte dele tornou-se obsoleta quase imediatamente \u2013 por exemplo, as t\u00e1ticas recomendadas para os Comunistas na Alemanha, que n\u00e3o foram as aplicadas por eles durante a Revolu\u00e7\u00e3o de 1848 e depois. Outras partes tamb\u00e9m se tornaram obsoletas, conforme aumentava o tempo que separava o escrito e os leitores. Guizot e Metternich h\u00e1 muito tempo aposentaram-se dos postos de governos-l\u00edderes nos livros de hist\u00f3ria; o Czar j\u00e1 n\u00e3o existe (embora o Papa, sim). E quanto \u00e0 discuss\u00e3o de \u201cLiteratura Socialista e Comunista\u201d, os pr\u00f3prios Marx e Engels admitiram em 1872 j\u00e1 estava fora de moda.<\/p>\n<p>Mais diretamente ao ponto: com o passar do tempo, a linguagem do\u00a0<em>Manifesto<\/em>foi deixando de ser a linguagem dos seus leitores. Por exemplo, muito j\u00e1 se disse sobre a frase segundo a qual o avan\u00e7o da burguesia teria arrancado \u201cuma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o \u00e0 idiotia\u00a0<strong>[1]<\/strong> [<em>Idiotismus<\/em>] da vida rural\u201d\u00a0\u00a0<strong>[2]<\/strong>. Mas, embora j\u00e1 ningu\u00e9m duvide de que Marx naquele momento partilhava o desprezo habitual dos citadinos pelo \u2013 tanto quanto a ignor\u00e2ncia sobre \u2013 o mundo campon\u00eas, a frase em alem\u00e3o, real e analiticamente mais interessante (\u201c<em>dem Idiotismus des Landlebens entrissen<\/em>\u201d) n\u00e3o fala de \u201cidiotia\u201d [ing.<em>stupidity<\/em>], mas de \u201chorizontes estreitos\u201d ou \u201co isolamento, o afastamento da sociedade mais ampla\u201d, no qual viviam as pessoas do campo. A palavra em alem\u00e3o ecoa o significado de\u00a0<em>idiotes<\/em> grego, do qual deriva\u00a0<em>idiot<\/em> [ing.] de onde<em>idiocy<\/em> [ing.]: \u201cpessoa interessada s\u00f3 nos pr\u00f3prios assuntos privados, n\u00e3o nos interesses da comunidade mais ampla\u201d. Ao longo das d\u00e9cadas desde os anos 1840s \u2013 e em movimentos cujos membros, diferentes nisso de Marx, n\u00e3o tinham educa\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica \u2013 o significado original evaporou e a interpreta\u00e7\u00e3o desviou-se.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 ainda mais evidente no vocabul\u00e1rio pol\u00edtico do\u00a0<em>Manifesto<\/em>. Termos como \u201c<em>Stand<\/em>\u201d <strong>[3]<\/strong>, \u201c<em>Demokratie<\/em>\u201d ou \u201cNa\u00e7\u00e3o\/nacional\u201d ou pouco se aplicam \u00e0 pol\u00edtica do final do s\u00e9culo 20 ou j\u00e1 n\u00e3o conservam o significado que tiveram no discurso pol\u00edtico ou filos\u00f3fico dos anos 1840s. Para oferecer um exemplo \u00f3bvio: o \u201cPartido Comunista\u201d que apresentava nosso texto como seu Manifesto nada tinha a ver com os partidos da moderna pol\u00edtica democr\u00e1tica, ou com os \u201cpartidos de vanguarda\u201d do Comunismo Leninista, muito menos com os partidos de Estado de tipo sovi\u00e9tico ou chin\u00eas. Nem com qualquer dos partidos que existiam. \u201cPartido\u201d ainda significava essencialmente uma tend\u00eancia ou corrente de opini\u00e3o ou pol\u00edtica. Mas, sim, Marx e Engels reconhecem que, quando encontrou express\u00e3o em movimentos de classe, desenvolveu-se um tipo de organiza\u00e7\u00e3o (\u201c<em>diese Organisation der Proletarier zur Klasse, und damit zur politischen Partei<\/em>\u201d).<\/p>\n<p>Da\u00ed que a distin\u00e7\u00e3o, na Se\u00e7\u00e3o IV, entre \u201cpartidos existentes da classe trabalhadora (&#8230;) os Cartistas na Inglaterra e os reformadores agr\u00e1rios nos EUA e os outros\u201d, ainda n\u00e3o havia\u00a0<strong>[viii]<\/strong>. Como o texto esclarece, naquele est\u00e1gio o Partido Comunista de Marx e Engels n\u00e3o era nenhum tipo de organiza\u00e7\u00e3o, nem tentava criar alguma organiza\u00e7\u00e3o \u2013 muito menos uma organiza\u00e7\u00e3o com programa espec\u00edfico diferente do de outras organiza\u00e7\u00f5es\u00a0<strong>[ix]<\/strong>. Vale lembrar que n\u00e3o aparece no corpo do documento, sequer uma vez, sequer o nome da Liga Comunista, a organiza\u00e7\u00e3o para a qual o\u00a0<em>Manifesto<\/em> fora redigido.<\/p>\n<p>Mais importante que isso, \u00e9 claro n\u00e3o s\u00f3 que o\u00a0<em>Manifesto<\/em> foi redigido em e para uma espec\u00edfica situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, mas, tamb\u00e9m que representou uma fase \u2013 relativamente imatura \u2013 do desenvolvimento do pensamento marxiano. V\u00ea-se bem evidente, nos aspectos econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Embora Marx tenha come\u00e7ado a estudar economia pol\u00edtica seriamente em 1843, s\u00f3 ao chegar a Londres, depois da Revolu\u00e7\u00e3o de 1848, \u00e9 que decidiu desenvolver a an\u00e1lise econ\u00f4mica exposta em\u00a0<em>O Capital<\/em>, depois que conseguiu ter acesso aos tesouros da Biblioteca do Museu Brit\u00e2nico, no ver\u00e3o de 1850. Assim, quando o<em> Manifesto<\/em> foi escrito, muito claramente ainda n\u00e3o existia a distin\u00e7\u00e3o entre (a) a venda do trabalho pelos prolet\u00e1rios aos capitalistas e (b) a venda da for\u00e7a de trabalho \u2013 que \u00e9 essencial na teoria marxiana da mais valia e da explora\u00e7\u00e3o, nem essa distin\u00e7\u00e3o foi operada no\/pelo<em> Manifesto<\/em>. Nem o Marx maduro aceitaria a ideia de que o pre\u00e7o da mercadoria \u201ctrabalho\u201d seria seu custo de produ\u00e7\u00e3o \u2013 i.e, o custo do m\u00ednimo fisiologicamente necess\u00e1rio para manter vivo o trabalhador.\u00a0Em resumo: Marx\u00a0escreveu o\u00a0<em>Manifesto<\/em> mais como comunista ricardiano, que como economista marxiano.<\/p>\n<p>Mesmo assim, embora alertando os leitores de que o\u00a0<em>Manifesto<\/em> era documento de valor hist\u00f3rico, desatualizado em v\u00e1rios aspectos, Marx e Engels promoveram e auxiliaram a publica\u00e7\u00e3o do texto em 1848 \u2013 com m\u00ednimas altera\u00e7\u00f5es, quase todas pequenas corre\u00e7\u00f5es para tornar mais clara a exposi\u00e7\u00e3o original\u00a0<strong>[x]<\/strong>. Mas preservaram, sem qualquer altera\u00e7\u00e3o, a an\u00e1lise hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Assim, Marx e Engels reconhecem que o\u00a0<em>Manifesto<\/em> permanecia como declara\u00e7\u00e3o plena de que a an\u00e1lise ali constru\u00edda continuava a ser o que distinguia o comunismo de ambos, de todos os demais projetos circulantes para criar uma sociedade melhor. O n\u00facleo daquela espec\u00edfica an\u00e1lise estava na demonstra\u00e7\u00e3o do desenvolvimento hist\u00f3rico das sociedades, especificamente da sociedade burguesa, que se imp\u00f4s \u00e0s sociedades anteriores, revolucionou o mundo e, simultaneamente, criou necessariamente as condi\u00e7\u00f5es que levariam \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade burguesa.<\/p>\n<p>Diferente da economia marxiana, a \u201cconcep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria\u201d que embasa essa an\u00e1lise, portanto, j\u00e1 encontrara sua formula\u00e7\u00e3o madura em meados dos anos 1840s. E permaneceu substancialmente inalterada nos anos posteriores\u00a0<strong>[xi]<\/strong>.<\/p>\n<p>Sob esse ponto de vista \u2013 de incorporar a vis\u00e3o hist\u00f3rica \u2013 o\u00a0<em>Manifesto<\/em> j\u00e1 \u00e9 documento de defini\u00e7\u00e3o do marxismo, embora o esbo\u00e7o geral ali apresentado tivesse ainda de ser preenchido com an\u00e1lises mais completas.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p>Como o\u00a0<em>Manifesto<\/em> atingir\u00e1 o leitor que chegue hoje a ele, pela primeira vez? Dificilmente o novo leitor conseguir\u00e1 resistir \u00e0 for\u00e7a da convic\u00e7\u00e3o apaixonada, da s\u00edntese densa, de alt\u00edssima concentra\u00e7\u00e3o, ao vigor intelectual e do estilo desse assombroso panfleto.<\/p>\n<p>D\u00e1 a impress\u00e3o de ter sido escrito numa s\u00f3 explos\u00e3o de criatividade, em senten\u00e7as lapidares que se v\u00e3o juntando para sempre na mem\u00f3ria, como aforismos inesquec\u00edveis que se tornaram conhecidos em todo o mundo, tamb\u00e9m fora dos limites do debate pol\u00edtico: da primeira linha \u201cUm espectro apavora a Europa \u2013 o espectro do Comunismo\u201d, at\u00e9 a \u00faltima \u201cOs prolet\u00e1rios nada t\u00eam a perder, al\u00e9m das cadeias. E t\u00eam um mundo a ganhar!\u201d\u00a0<strong>[xii]<\/strong><\/p>\n<p>O registro lingu\u00edstico do alem\u00e3o do s\u00e9culo 19\u00a0em que o\u00a0<em>Manifesto<\/em> foi escrito tamb\u00e9m \u00e9 espantoso: s\u00f3 frases curtas, par\u00e1grafos com, no m\u00e1ximo, cinco linhas \u2013 regra s\u00f3 quebrada em cinco par\u00e1grafos, das mais de 200 linhas do documento, em que o par\u00e1grafo tem 15 ou mais linhas. Al\u00e9m de tudo mais que tamb\u00e9m \u00e9, o\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em> \u00e9 ret\u00f3rica pol\u00edtica de for\u00e7a quase b\u00edblica. \u00c9 imposs\u00edvel negar o impressionante poder desse documento, tamb\u00e9m como literatura <strong>[xiii] [4]<\/strong>.<\/p>\n<p>Mesmo assim, o que mais perturbar\u00e1 o leitor contempor\u00e2neo \u00e9 o not\u00e1vel diagn\u00f3stico que ali ler\u00e1, do car\u00e1ter revolucion\u00e1rio e do impacto que teve, no mundo a \u201csociedade burguesa\u201d. N\u00e3o se trata s\u00f3 de Marx ter reconhecido e proclamado as extraordin\u00e1rias realiza\u00e7\u00f5es e o dinamismo da sociedade que ele mais detestava \u2013 o que muito surpreendeu e perturbou mais de um defensor posterior do capitalismo contra \u201ca amea\u00e7a vermelha\u201d. O mais espantoso \u00e9 que o mundo transformado pelo capitalismo que Marx descreveu em 1848, em passagens de eloqu\u00eancia lac\u00f4nica, fatal, de cores de chumbo, \u00e9 perfeitamente reconhec\u00edvel hoje, no mundo em que vivemos, 150 anos depois do<em>Manifesto<\/em>, a qualquer leitor sens\u00edvel que o aborde.<\/p>\n<p>Curiosamente, o otimismo pol\u00edtico quase delirante, irrealista, de dois jovens revolucion\u00e1rios (28 e 30 anos) \u00e9, comprovadamente, a segunda for\u00e7a mais poderosa que ainda emana do\u00a0<em>Manifesto<\/em>.<\/p>\n<p>Porque, por mais que o \u201cespectro do Comunismo\u201d apavorasse, sim, os pol\u00edticos, e por mais que a Europa vivesse per\u00edodo de profunda crise econ\u00f4mica e social, e por mais que estivesse a poucos anos da eclos\u00e3o da maior revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que o continente jamais conhecera, n\u00e3o havia suficientes dados de realidade, naquele momento, para a cren\u00e7a do\u00a0<em>Manifesto<\/em> de que se aproximava o momento de derrubar o capitalismo (a revolu\u00e7\u00e3o burguesa na Alemanha n\u00e3o passaria de prel\u00fadio, a ser seguido, imediatamente pela revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria). Nada disso aconteceu assim. Como hoje sabemos, o capitalismo se posicionava, ent\u00e3o, para sua primeira era de avan\u00e7o triunfalista global.<\/p>\n<p>Dois tra\u00e7os d\u00e3o ao\u00a0<em>Manifesto<\/em> a for\u00e7a que ainda tem.<\/p>\n<p><strong>Primeiro<\/strong>, a vis\u00e3o, mesmo na v\u00e9spera de um passo gigantesco na marcha triunfal do capitalismo, de que esse modo de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 permanente, nem est\u00e1vel, nem seria \u201co fim da hist\u00f3ria\u201d; que seria apenas fase tempor\u00e1ria da hist\u00f3ria da humanidade \u2013 a qual, como tudo que antes houve, seria superada por tipo novo de sociedade (at\u00e9 que sobreviesse a desgra\u00e7a comum das duas classes em guerra \u2013 e, essa, uma frase raramente relembrada do\u00a0<em>Manifesto<\/em>).<\/p>\n<p><strong>Segundo<\/strong>, o reconhecimento, no\u00a0<em>Manifesto<\/em>, das tend\u00eancias necess\u00e1rias do desenvolvimento hist\u00f3rico do capitalismo. O potencial revolucion\u00e1rio da economia capitalista j\u00e1 era bem evidente \u2013 Marx e Engels nunca pretenderam ser os \u00fanicos a verem isso. Desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, algumas das tend\u00eancias que eles observaram j\u00e1 geravam efeitos substanciais \u2013 por exemplo, o decl\u00ednio de \u201cprov\u00edncias independentes ou frouxamente conectadas, mas com interesses, leis, governos e sistemas de impostos separados, em oposi\u00e7\u00e3o aos estados-na\u00e7\u00e3o, com governo \u00fanico, sistema de leis unificado, um s\u00f3 interesse nacional de classe, fronteira \u00fanica e uma s\u00f3 tarifa aduaneira\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo assim, ao final da d\u00e9cada dos 1840s, o que \u201ca burguesia\u201d conseguira era muito, muito menos do que os milagres a ela atribu\u00eddos no\u00a0<em>Manifesto<\/em>. Afinal, em 1850 o mundo n\u00e3o produziu mais que 71 mil toneladas de a\u00e7o (quase 70% disso, na Gr\u00e3-Bretanha) e construiu apenas 24 mil quil\u00f4metros de estradas de ferro (2\/3 dos quais na Gr\u00e3-Bretanha e nos EUA). N\u00e3o foi dif\u00edcil para os historiadores mostrar que mesmo na Gr\u00e3-Bretanha, a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial (termo usado especificamente por Engels a partir de 1844)\u00a0<strong>[xiv] <\/strong>s\u00f3 conseguira criar um pa\u00eds industrial \u2013 ou, pelo menos, predominantemente urbano) at\u00e9 a d\u00e9cada dos 1850s.<\/p>\n<p>Marx e Engels n\u00e3o descreveram mundo que j\u00e1 tivesse sido transformado pelo capitalismo em 1848: eles previram que o mundo estava logicamente destinado a ser transformado pelo capitalismo.<\/p>\n<p>Hoje, no 3\u00ba mil\u00eanio do calend\u00e1rio ocidental, vivemos em mundo no qual aquela transforma\u00e7\u00e3o j\u00e1 aconteceu, pelo menos\u00a0em grande parte. Em\u00a0v\u00e1rios sentidos, podemos hoje ver mais claramente a for\u00e7a das previs\u00f5es do\u00a0<em>Manifesto<\/em>, do que as muitas gera\u00e7\u00f5es que o leram antes de n\u00f3s, desde a publica\u00e7\u00e3o ou os leitores contempor\u00e2neos do documento. Porque, at\u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o nos transportes e nas comunica\u00e7\u00f5es posteriores \u00e0 2\u00aa Guerra Mundial, havia limites poderosos contra a globaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o; era fisicamente imposs\u00edvel dar \u201cum car\u00e1ter cosmopolita \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e ao consumo em cada pa\u00eds\u201d. At\u00e9 a d\u00e9cada dos 1970s, a industrializa\u00e7\u00e3o manteve-se, em vasta medida, confinada \u00e0s suas regi\u00f5es de origem. Algumas escolas marxianas puderam at\u00e9 argumentar que o capitalismo, pelo menos em sua modalidade imperialista, longe de ter for\u00e7ado \u201ctodas as na\u00e7\u00f5es, \u00e0 beira da extin\u00e7\u00e3o, a adotar o modo burgu\u00eas de produ\u00e7\u00e3o\u201d, estaria por sua pr\u00f3pria natureza perpetuando \u2013 ou, mesmo, criando \u2013 o subdesenvolvimento no chamado Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>Enquanto um ter\u00e7o da esp\u00e9cie humana viveu sob economias do tipo sovi\u00e9tico comunista, pareceu que o capitalismo jamais conseguiria sujeitar todas as na\u00e7\u00f5es e obrig\u00e1-las a \u201ctornarem-se burguesas, elas tamb\u00e9m\u201d. Parecia que o capitalismo n\u00e3o teria pot\u00eancia para \u201ccriar um mundo \u00e0 sua pr\u00f3pria imagem\u201d.<\/p>\n<p>Antes dos anos 1960s, a declara\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>Manifesto<\/em>, de que o capitalismo traria consigo a destrui\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia soava como ideia que jamais se confirmaria. Hoje, estat\u00edsticas dos pa\u00edses ocidentais avan\u00e7ados mostram que quase metade de todas as crian\u00e7as nascem sem pai ou s\u00e3o criadas s\u00f3 pela m\u00e3e; que metade de todos os lares nas grandes cidades s\u00e3o lares mantidos por pessoas solteiras.<\/p>\n<p>Em resumo: o que em 1848 poderia soar como ret\u00f3rica revolucion\u00e1ria oca aos ouvidos de leitores desatentos \u2013 ou, no m\u00e1ximo, como previs\u00e3o plaus\u00edvel \u2013 pode hoje ser lido como caracteriza\u00e7\u00e3o resumida e precisa do capitalismo que todos vimos em casa e \u00e0 volta de casa, no final do s\u00e9culo 20. De que outro documento escrito nos anos 1840s poder-se-ia dizer o mesmo?<\/p>\n<p><strong>IV<\/strong><\/p>\n<p>Contudo, se ao final do mil\u00eanio ainda nos surpreende a precis\u00e3o com que o<em>Manifesto<\/em> anteviu o ent\u00e3o distante futuro de um capitalismo massivamente globalizado, tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o o rotundo fracasso de outra previs\u00e3o do mesmo documento. Salta aos olhos, hoje, que a burguesia n\u00e3o produziu \u201cos seus pr\u00f3prios coveiros: os prolet\u00e1rios\u201d. A queda da burguesia e a vit\u00f3ria do proletariado absolutamente n\u00e3o parecem, hoje, \u201cinevit\u00e1veis\u201d. O contraste entre as duas metades da an\u00e1lise desenvolvida no\u00a0<em>Manifesto<\/em> \u2013 a parte que se l\u00ea na se\u00e7\u00e3o \u201cBurgueses e Prolet\u00e1rios\u201d \u2013 exige ainda mais explica\u00e7\u00e3o hoje, do que quando comemorou o centen\u00e1rio, h\u00e1 150 anos.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 na vis\u00e3o de Marx e Engels de um capitalismo que necessariamente transformaria, como transformou, quase todos que t\u00eam de ganhar a vida nessa economia de homens e mulheres que dependem, para sobreviver de alugarem-se eles mesmo, em troca de sal\u00e1rio ou di\u00e1rias. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que o capitalismo tendia a fazer o que fez, embora os sal\u00e1rios de alguns, tecnicamente empregados, como altos gerentes de corpora\u00e7\u00f5es, impe\u00e7am absolutamente de descrev\u00ea-los como prolet\u00e1rios. O problema n\u00e3o est\u00e1, tampouco, essencialmente, na cren\u00e7a de que a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora seria for\u00e7a de trabalho industrial. Enquanto a Gr\u00e3-Bretanha manteve-se como caso excepcional, no qual os trabalhadores manuais assalariados eram maioria absoluta da popula\u00e7\u00e3o, o desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o industrial exigiu entrada massiva e crescente de trabalhadores manuais por bem mais de um s\u00e9culo depois do\u00a0<em>Manifesto<\/em>. Evidentemente j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim no capitalismo moderno de produ\u00e7\u00e3o de alta tecnologia, que \u00e9 intensivo em capital, n\u00e3o em m\u00e3o de obra \u2013 desenvolvimento que n\u00e3o foi considerado no\u00a0<em>Manifesto<\/em>, embora, em seus estudos econ\u00f4micos da maturidade o pr\u00f3prio Marx tenha antevisto um desenvolvimento poss\u00edvel, de uma economia que exigisse cada vez menos trabalho, pelo menos numa era p\u00f3s-capitalista\u00a0<strong>[xv]<\/strong>.<\/p>\n<p>Mesmo nas velhas economias industriais do capitalismo, a porcentagem de gente empregada em f\u00e1bricas de manufatura j\u00e1 n\u00e3o estava crescendo nos anos 1970s, exceto nos EUA, onde o decl\u00ednio come\u00e7ara um pouco antes. De fato, com pouqu\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es \u2013 como Gr\u00e3-Bretanha, B\u00e9lgica e EUA \u2013 nos anos 1970s os trabalhadores industriais chegaram a ser a maior parte do total da popula\u00e7\u00e3o ocupada no mundo industrial e em industrializa\u00e7\u00e3o de todos os tempos.<\/p>\n<p>Seja como for, a derrubada do capitalismo que o\u00a0<em>Manifesto<\/em> prev\u00ea nunca dependeu de, antes, a maioria da popula\u00e7\u00e3o ter sido proletarizada. A derrubada do capitalismo que o\u00a0<em>Manifesto<\/em> prev\u00ea decorre de assumir-se que a situa\u00e7\u00e3o do proletariado na economia capitalista ser tal que, uma vez organizado como movimento de classe necessariamente pol\u00edtico, poderia liderar a avan\u00e7ada, arregimentar a insatisfa\u00e7\u00e3o de outros grupos e, assim, adquirir poder pol\u00edtico como \u201co movimento independente da vasta maioria, para buscar o interesse da vasta maioria\u201d. Assim o proletariado \u201cse levantar\u00e1 para ser a classe liderante da na\u00e7\u00e3o, constitu\u00eddo, ele mesmo, como a na\u00e7\u00e3o\u201d\u00a0<strong>[xvi]<\/strong>.<\/p>\n<p>Dado que o capitalismo ainda n\u00e3o foi derrubado, \u00e9 f\u00e1cil dar por fracassada a previs\u00e3o. Contudo \u2013 por altamente improv\u00e1vel que fosse, em 1848 \u2013 a pol\u00edtica de muitos estados capitalistas europeus seria transformada pelo crescimento de movimentos pol\u00edticos organizados baseados, eles mesmos, na classe trabalhadora com consci\u00eancia pol\u00edtica \u2013 que praticamente n\u00e3o existia, naquele momento, fora da Gr\u00e3-Bretanha. Os partidos socialistas e trabalhistas emergiram em v\u00e1rias partes do mundo \u2018desenvolvido\u2019 nos anos 1880s, convertendo-se em partidos de massa em estados em que se criara a franquia democr\u00e1tica que eles mesmos muito lutaram para criar.<\/p>\n<p>Durante e depois da 1\u00aa Guerra Mundial, quando um ramo dos \u201cpartidos prolet\u00e1rios\u201d seguiam a via revolucion\u00e1ria dos bolcheviques, outro ramo passou a operar como pilar de sustenta\u00e7\u00e3o do capitalismo democratizado. O ramo bolchevique j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 muito significativo na Europa, ou os partidos desse tipo foram assimilados \u00e0 social-democracia. A social-democracia, como entendida nos dias de Bebel ou mesmo de Clement Attlee, luta numa a\u00e7\u00e3o de retaguarda. Mas os partidos social-democratas da 2\u00aa Internacional, alguns deles ainda com os nomes originais, ainda s\u00e3o partidos potencialmente de governo em v\u00e1rios pa\u00edses europeus. Embora esses governos sejam menos comuns no in\u00edcio do s\u00e9culo 21 do que foram no final do s\u00e9culo 20, esses partidos mostraram raro curr\u00edculo de continuidade como agentes pol\u00edticos consider\u00e1veis, por mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Em resumo: o que est\u00e1 errado n\u00e3o \u00e9 a previs\u00e3o do\u00a0<em>Manifesto <\/em>de que movimentos pol\u00edticos baseados nos trabalhadores teriam papel central (alguns deles, ainda com \u201ca classe\u201d registrada na denomina\u00e7\u00e3o, como os partidos trabalhistas e de trabalhadores que h\u00e1 na Gr\u00e3-Bretanha, Holanda, Noruega e Austr\u00e1lia <strong>[5]<\/strong>). Isso, eles tiveram. Mas a frase est\u00e1 errada: \u201cDe todas as classes que enfrentam hoje face a face a burguesia, s\u00f3 o proletariado \u00e9 classe realmente revolucion\u00e1ria\u201d, cujo inevit\u00e1vel destino, impl\u00edcito na natureza e no desenvolvimento do capitalismo \u00e9 derrubar a burguesia (\u201cSua queda e a vit\u00f3ria do proletariado s\u00e3o igualmente inevit\u00e1veis\u201d).<\/p>\n<p>J\u00e1 nos notoriamente \u201cfamintos [anos] 40s\u201d, o mecanismo que deveria levar a esse desenlace \u2013 a inevit\u00e1vel pauperiza\u00e7\u00e3o\u00a0<strong>[xvii]<\/strong> dos trabalhadores \u2013 n\u00e3o era plenamente convincente, a n\u00e3o ser que se assumisse, o que j\u00e1 ent\u00e3o era implaus\u00edvel, que o capitalismo enfrentasse naquele momento sua crise final e estivesse a ponto de ser imediatamente derrubado. Era um mecanismo de duas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do efeito de pauperiza\u00e7\u00e3o do movimento dos trabalhadores, viu-se que a burguesia \u00e9 \u201cincapaz de governar, porque n\u00e3o consegue garantir uma exist\u00eancia ao escravo dentro da escravid\u00e3o, porque n\u00e3o se pode deixar afundar em estado tal em que a burguesia tem de alimentar o escravo, em vez de ser alimentada por ele\u201d. Ao contr\u00e1rio de gerar o lucro que serve como combust\u00edvel ao capitalismo, o trabalho drenava o lucro para longe do capitalismo.<\/p>\n<p>Mas \u2013 dado o enorme potencial econ\u00f4mico do capitalismo, t\u00e3o dramaticamente exposto no pr\u00f3prio\u00a0<em>Manifesto<\/em> \u2013 por que seria inevit\u00e1vel que o capitalismo n\u00e3o garantisse sobreviv\u00eancia, miser\u00e1vel, que fosse, para a maior parte de sua classe trabalhadora ou, ent\u00e3o&#8230; por que n\u00e3o poderia manter um sistema de bem-estar social?<\/p>\n<p>A \u201cpauperiza\u00e7\u00e3o\u201dm\u00a0 [em senso estrito. Ver\u00a0nota\u00a0<strong>xvii<\/strong>] desenvolve-se mais rapidamente que a popula\u00e7\u00e3o e a riqueza? [xviii] O capitalismo tivera longa vida antes. Mas, depois de 1848, foi-se tornando \u00f3bvio, muito rapidamente, que, depois, n\u00e3o sobreviveria com a mesma facilidade.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o do\u00a0<em>Manifesto<\/em>, do desenvolvimento hist\u00f3rico da \u201csociedade burguesa\u201d, incluindo a classe trabalhadora que ela gerou, n\u00e3o levou necessariamente \u00e0 derrubada do capitalismo pelo proletariado. Assim, se se abriu caminho para o desenvolvimento do comunismo, porque vis\u00e3o e conclus\u00e3o n\u00e3o derivam da mesma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>O objetivo do comunismo, adotado antes de Marx ter-se tornado \u201cmarxista\u201d, \u00e9 derivado n\u00e3o da an\u00e1lise da natureza e desenvolvimento do capitalismo, mas de um argumento filos\u00f3fico \u2013 na verdade, um argumento escatol\u00f3gico \u2013 sobre a natureza e o destino humano. A ideia, fundamental em Marx a partir dali, de que o proletariado era a classe que n\u00e3o se poderia libertar sem, no mesmo passo, libertar a sociedade como um todo, aparece pela primeira vez como \u201cdedu\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, mais que como produto da observa\u00e7\u00e3o\u201d\u00a0<strong>[xix]<\/strong>. Como George Lichtheim escreveu: \u201co proletariado aparece pela primeira vez nos escritos de Marx como a for\u00e7a social necess\u00e1ria para realizar os objetivos da filosofia alem\u00e3\u201d como Marx a viu em 1843-44\u00a0<strong>[xx]<\/strong>.<\/p>\n<p>A \u201cpossibilidade positiva da emancipa\u00e7\u00e3o alem\u00e3\u201d, escreveu Marx na\u00a0<em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Filosofia do Direito de Hegel <\/em><strong>[6]<\/strong><strong>,<\/strong> est\u00e1:<\/p>\n<p><em>&#8230;na forma\u00e7\u00e3o de uma classe que tenha cadeias radicais, de uma classe na sociedade civil que n\u00e3o seja uma classe da sociedade civil, de uma classe que seja a dissolu\u00e7\u00e3o de todas as classes, de uma esfera que possua car\u00e1ter universal porque os seus sofrimentos s\u00e3o universais, e que n\u00e3o exige uma repara\u00e7\u00e3o particular porque o mal que lhe \u00e9 feito n\u00e3o \u00e9 um mal particular, mas o mal em geral, que j\u00e1 n\u00e3o possa exigir um t\u00edtulo hist\u00f3rico, mas apenas o t\u00edtulo humano; de uma esfera que n\u00e3o se oponha a consequ\u00eancias particulares, mas que se oponha totalmente aos pressupostos do sistema pol\u00edtico alem\u00e3o; por fim, de uma esfera que n\u00e3o se pode emancipar a si mesma nem emancipar-se de todas as outras esferas da sociedade sem as emancipar todas \u2013 o que \u00e9, em suma, a perda total do homem \u2013, portanto, s\u00f3 pode redimir-se a si mesma mediante uma reden\u00e7\u00e3o total do homem. A dissolu\u00e7\u00e3o da sociedade, como classe particular, \u00e9 o proletariado <\/em><strong>[xxi]<\/strong>.<strong> [7]<\/strong><\/p>\n<p>Nesse tempo, Marx sabia pouco sobre o proletariado, al\u00e9m de que \u201cest\u00e1 vindo a ser na Alemanha s\u00f3 como um resultado do crescente desenvolvimento industrial\u201d, e esse era precisamente seu potencial como for\u00e7a libertadora, uma vez que, diferente das massas pobres da sociedade tradicional, estava nascendo de \u201cuma radical dissolu\u00e7\u00e3o da sociedade\u201d <strong>[8]<\/strong> e, portanto, pela pr\u00f3pria exist\u00eancia, \u201cproclama[va] a dissolu\u00e7\u00e3o da ordem do mundo ent\u00e3o existente\u201d. Menos ainda sabia sobre movimentos trabalhistas, embora soubesse muito sobre a hist\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p>Em Engels, Marx encontrou um parceiro que acrescentou \u00e0 parceria o conceito de \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Industrial\u201d, uma compreens\u00e3o da din\u00e2mica da economia capitalista como existira realmente na Gr\u00e3-Bretanha e os rudimentos de uma an\u00e1lise econ\u00f4mica\u00a0<strong>[xxii]<\/strong>. Tudo isso o levou a prever uma futura revolu\u00e7\u00e3o social, a ser fomentada por uma verdadeira classe trabalhadora sobre a qual, vivendo e trabalhando na Gr\u00e3-Bretanha no in\u00edcio da d\u00e9cada dos 1840s, Engels conhecia muita coisa. As abordagens de Marx e de Engels \u00e0 quest\u00e3o do \u201cproletariado\u201d e do comunismo complementaram-se uma a outra. O mesmo se pode dizer das respectivas concep\u00e7\u00f5es da luta de classes como um motor da hist\u00f3ria \u2013 no caso de Marx largamente derivada do estudo do per\u00edodo da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa; \u00a0no de Engels, da experi\u00eancia dos movimentos sociais na Gr\u00e3-Bretanha p\u00f3s-napole\u00f4nica. N\u00e3o surpreende que se tenham descoberto, nas palavras de Engels, \u201cde acordo em todos os campos te\u00f3ricos\u201d\u00a0<strong>[xxiii]<\/strong>. Engels trouxe a Marx os elementos de um modelo que demonstrou a natureza flutuante e autodesestabilizadora das opera\u00e7\u00f5es da economia capitalista \u2013 muito especialmente os rudimentos de uma teoria das crises econ\u00f4micas<strong>[xxiv]<\/strong> \u2013 e material emp\u00edrico sobre o surgimento do movimento da classe oper\u00e1ria brit\u00e2nica e o papel revolucion\u00e1rio que poderia ter na Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>Nos anos 1840s, a conclus\u00e3o de que a sociedade estava \u00e0s v\u00e9speras de revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o era implaus\u00edvel. Nem era implaus\u00edvel a previs\u00e3o de que a classe oper\u00e1ria, embora imatura, a lideraria. Afinal, semanas depois de publicado o\u00a0<em>Manifesto<\/em>, um movimento dos oper\u00e1rios franceses derrubou a monarquia francesa e deu sinal para revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 metade da Europa. Mesmo assim, a tend\u00eancia de o desenvolvimento capitalista gerar proletariado essencialmente revolucion\u00e1rio continua sem poder ser deduzida da an\u00e1lise da natureza do desenvolvimento capitalista. Foi uma poss\u00edvel consequ\u00eancia de seu desenvolvimento, mas n\u00e3o h\u00e1 como demonstrar que seria a \u00fanica consequ\u00eancia. Tampouco se pode demonstrar que uma derrubada bem-sucedida do capitalismo pelo proletariado necessariamente abre caminho para o desenvolvimento comunista. (O Manifesto s\u00f3 diz que ent\u00e3o se iniciaria um processo muito gradual de mudan\u00e7a).\u00a0<strong>[xxv]<\/strong><\/p>\n<p>A vis\u00e3o de Marx, de um proletariado cuja pr\u00f3pria ess\u00eancia o faria destinado a emancipar toda a humanidade e a por fim \u00e0 sociedade de classes por derrubar o capitalismo representa uma esperan\u00e7a lida em sua an\u00e1lise do capitalismo, mas n\u00e3o \u00e9 conclus\u00e3o que aquela an\u00e1lise imponha necessariamente.<\/p>\n<p>Mas a an\u00e1lise que o\u00a0<em>Manifesto <\/em>faz do capitalismo poderia sem d\u00favida levar a \u2013 especialmente se se inclui a an\u00e1lise marxiana da concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a qual era quase invis\u00edvel em 1848 \u2013 uma conclus\u00e3o mais geral e menos espec\u00edfica sobre as for\u00e7as autodestrutivas que se concentram dentro do desenvolvimento capitalista. E que bem pode ter levado a um ponto \u2013 e, em 2012, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os marxistas a aceitarem isso \u2013 no qual:<\/p>\n<p><em>A moderna sociedade burguesa com suas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, de troca e de propriedade, uma sociedade que concentrou meios t\u00e3o gigantescos de produ\u00e7\u00e3o e de troca, \u00e9 como o feiticeiro que j\u00e1 n\u00e3o consegue controlar os poderes do pr\u00f3prio mundo, poderes que o pr\u00f3prio feiticeiro convocou (&#8230;) As condi\u00e7\u00f5es do arco da sociedade burguesa s\u00e3o estreitas demais para abarcar a riqueza criada por eles.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 perfeitamente racional e razo\u00e1vel concluir que as \u201ccontradi\u00e7\u00f5es\u201d inerentes a um sistema de mercado baseado em \u201cnenhum nexo entre homem e homem que n\u00e3o seja o ego\u00edsmo e o autointeresse mais nus; que s\u00f3 vise ao \u201cpagamento<em>cash<\/em>\u201d; que um sistema de explora\u00e7\u00e3o e de \u201cacumula\u00e7\u00e3o infinita\u201d nunca ser\u00e1 bem-sucedido; que em algum ponto de uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es e reestrutura\u00e7\u00e3o, o desenvolvimento desse sistema que \u00e9 essencialmente autodesestabilizat\u00f3rio levar\u00e1 a um estado de coisas que j\u00e1 ningu\u00e9m poder\u00e1 descrever como \u201ccapitalismo\u201d.<\/p>\n<p>Ou \u2013\u00a0em palavras que Marx\u00a0escreveria adiante \u2013 quando \u201ca centraliza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o e a socializa\u00e7\u00e3o do trabalho afinal atingirem um ponto no qual se tornem incompat\u00edveis com o tegumento <strong>[9]<\/strong> capitalista\u201d e aquele \u201ctegumento rompe-se para sempre\u201d.\u00a0<strong>[xxvi]<\/strong> N\u00e3o importa o nome que se d\u00ea ao subsequente estado de coisas. Mas \u2013 como os efeitos da explos\u00e3o do mundo econ\u00f4mico sobre o ambiente-mundo o demonstram \u2013 esse estado subsequente de coisas ter\u00e1 necessariamente de sinalizar diferen\u00e7a profunda que o separe da apropria\u00e7\u00e3o privada, na dire\u00e7\u00e3o do gerenciamento social numa escala global.<\/p>\n<p>\u00c9 extremamente improv\u00e1vel que essa \u201csociedade p\u00f3s-capitalista\u2019 corresponda aos modelos tradicionais de socialismo; menos prov\u00e1vel ainda que se assemelhe aos socialismos \u201crealmente existentes\u201d da era sovi\u00e9tica. Que formas ter\u00e1 e em que medida incorporar\u00e1 os valores humanistas do comunismo de Marx e Engels, depender\u00e1 da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mediante a qual se promova a mudan\u00e7a. Porque isso, como diz o\u00a0<em>Manifesto<\/em>, \u00e9 central para a modelagem da mudan\u00e7a hist\u00f3rica.<\/p>\n<p><strong>V<\/strong><\/p>\n<p>Na vis\u00e3o marxiana, n\u00e3o importa como se descreva esse momento hist\u00f3rico no qual \u201co tegumento rompe-se para sempre\u201d, a pol\u00edtica sempre ser\u00e1, a\u00ed, elemento essencial.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>Manifesto<\/em> come\u00e7ou por ser lido, primariamente, como documento da inevitabilidade hist\u00f3rica e, sim, sua for\u00e7a derivou em boa parte da confian\u00e7a que inspira ao leitor, de que o capitalismo est\u00e1 inevitavelmente destinado a ser enterrado pelos seus pr\u00f3prios coveiros e que hoje \u2013 n\u00e3o antes, em qualquer ponto pr\u00e9vio da hist\u00f3ria \u2013 est\u00e3o presentes as condi\u00e7\u00f5es para a emancipa\u00e7\u00e3o. Contudo, apesar das muito disseminadas \u201cconclus\u00f5es\u201d na dire\u00e7\u00e3o oposta \u2013 e dado que cr\u00ea que as mudan\u00e7a hist\u00f3ricas avan\u00e7am mediante a a\u00e7\u00e3o humana, dos homens fazendo a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, o\u00a0<em>Manifesto <\/em>n\u00e3o \u00e9 documento determinista. As covas t\u00eam de ser cavadas por, ou mediante, a\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Mas, sim, \u00e9 poss\u00edvel fazer leitura determinista do argumento. Sugeriu-se que Engels tenderia mais naturalmente ao determinismo, que Marx, com consequ\u00eancias importantes para o desenvolvimento da teoria marxista e do movimento trabalhista marxista depois da morte de Marx. Contudo, apesar de rascunhos anteriores de Engels terem sido citados como prova\u00a0<strong>[xxvii]<\/strong>, nada disso pode ser lido diretamente do pr\u00f3prio\u00a0<em>Manifesto<\/em>. Quando deixa o campo da an\u00e1lise hist\u00f3rica e entra no presente, \u00e9 documento que fala de escolhas, de possibilidades pol\u00edticas, n\u00e3o de probabilidades nem, e muito menos, de certezas. Entre o \u201cagora\u201d e o tempo futuro imprevis\u00edvel, quando, \u201cno curso do desenvolvimento\u201d haja \u201cuma associa\u00e7\u00e3o, na qual o livre desenvolvimento de cada \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para o livre desenvolvimento de todos\u201d, a\u00ed est\u00e1 o campo da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>No n\u00facleo duro do\u00a0<em>Manifesto<\/em> est\u00e1 a mudan\u00e7a hist\u00f3rica mediante a pr\u00e1xis social, mediante a\u00e7\u00e3o coletiva. O\u00a0<em>Manifesto<\/em> v\u00ea o desenvolvimento do proletariado como a \u201corganiza\u00e7\u00e3o dos prolet\u00e1rios numa classe e, consequentemente, num partido pol\u00edtico\u201d. A \u201cconquista do poder pol\u00edtico pelo proletariado\u201d (conquistar a democracia) \u00e9 \u201co primeiro passo na revolu\u00e7\u00e3o dos trabalhadores\u201d e o futuro da sociedade depende de outras a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas subsequentes do novo regime (como \u201co proletariado usar\u00e1 sua supremacia pol\u00edtica\u201d).<\/p>\n<p>O compromisso com a pol\u00edtica \u00e9, historicamente, o que distinguiu\u00a0<strong>(a)<\/strong> o socialismo marxiano,\u00a0<strong>(b)<\/strong> os anarquistas e\u00a0<strong>(c)<\/strong> os sucessores desses socialistas que rejeitavam toda a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e rejei\u00e7\u00e3o que o Manifesto especificamente condena. Mesmo antes de L\u00eanin, a teoria marxiana j\u00e1 n\u00e3o era s\u00f3 coisa de \u201co que a hist\u00f3ria mostra voltar\u00e1 a acontecer\u201d, mas, tamb\u00e9m, de \u201co que tem de ser feito\u201d.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia sovi\u00e9tica no s\u00e9culo 20 ensinou-nos que pode ser melhor n\u00e3o fazer \u201co que tem de ser feito\u201d sob condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que, virtualmente, localizam o sucesso al\u00e9m de qualquer alcance poss\u00edvel. A mesma li\u00e7\u00e3o se pode aprender tamb\u00e9m, se se consideram as implica\u00e7\u00f5es do\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em>.<\/p>\n<p>Nesse caso, o\u00a0<em>Manifesto<\/em> \u2013 e essa n\u00e3o \u00e9 a menor de suas not\u00e1veis qualidades \u2013 \u00e9 documento que anteviu o fracasso. Esperou, desejante, que o resultado do desenvolvimento capitalista viesse a ser \u201cUma reconstitui\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade em termos amplos\u201d, mas, como j\u00e1 vimos, n\u00e3o excluiu a alternativa: \u201ca ru\u00edna comum\u201d. Anos depois, outro marxiano [de fato, foi uma marxiana: Rosa Luxemburgo, em 1915 <strong>[10]<\/strong>] reformulou a mesma ideia, em termos de escolher entre socialismo e barb\u00e1rie. Qual das vias prevalecer\u00e1 \u00e9 quest\u00e3o que se tem de deixar que o s\u00e9culo 21 responda.<\/p>\n<p>______________________________________________<\/p>\n<p><strong>Notas de rodap\u00e9 <\/strong>(do autor)<\/p>\n<p><strong>[i]<\/strong> S\u00f3 dois itens desse material foi encontrado \u2013 um esquema para a Se\u00e7\u00e3o III e uma p\u00e1gina de rascunho. Karl Marx\u2013Frederick Engels,\u00a0<em>Collected Works<\/em>, vol. 6 (London 1976), pp. 576\u20137.<\/p>\n<p><strong>[ii]<\/strong> Durante a vida dos fundadores, foram: (1) Pref\u00e1cio \u00e0 (segunda) edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3, 1872; (2) Pref\u00e1cio \u00e0 (segunda) edi\u00e7\u00e3o russa, 1882 \u2013 a primeira tradu\u00e7\u00e3o ao russo, de Bakunin, aparecera em 1869, compreensivelmente sem aprova\u00e7\u00e3o de Marx e Engels; (3) Pref\u00e1cio \u00e0 (terceira) edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3, 1883; (4) Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o francesa, 1888; (5) Pref\u00e1cio \u00e0 (quarta) edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3, 1890; (6) Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o polonesa, 1892; e (7) Pref\u00e1cio \u201cAos leitores italianos\u201d, 1893.<\/p>\n<p><strong>[iii]<\/strong> Paolo Favilli,\u00a0<em>Storia del marxismo italiano. Dalle origini alla grande guerra<\/em> (Milan 1996), pp. 252-4.<\/p>\n<p><strong>[iv]<\/strong> Confio aqui nos n\u00fameros do muito valioso Bert Andr\u00e9as,\u00a0<em>Le Manifeste Communiste de Marx et Engels. Histoire et Bibliographie 1848-1918<\/em> (Milan 1963).<\/p>\n<p><strong>[v]<\/strong> Dados dos relat\u00f3rios anuais do\u00a0<em>SPD Parteitage<\/em>. Mas n\u00e3o h\u00e1 dados num\u00e9ricos relativos a publica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas para 1899 e 1900.<\/p>\n<p><strong>[vi]<\/strong> Robert R. LaMonte, \u201c<em>The New Intellectuals<\/em>\u201d,\u00a0<em>New Review II<\/em>, 1914; cited in Paul Buhle,<em>Marxism in the USA: From 1870 to the Present Day<\/em> (London 1987), p. 56.<\/p>\n<p><strong>[vii]<\/strong> Hal Draper,\u00a0<em>The Annotated Communist Manifesto <\/em>(Center for Socialist History, Berkeley, CA 1984), p. 64.<\/p>\n<p><strong>[viii]<\/strong> O original alem\u00e3o come\u00e7a essa sess\u00e3o discutindo \u201c<em>das Verh\u00e4ltniss der Kommunisten zu den bereits konstituierten Arbeiterparteien &#8230; also den Chartisten<\/em>\u201d, etc. A tradu\u00e7\u00e3o inglesa oficial de 1887, revista por Engels, atenua o contraste. Formula\u00e7\u00e3o mais confi\u00e1vel compararia os \u201cpartidos\u201d de trabalhadores j\u00e1 constitu\u00eddos como os Cartistas, etc., e os que ainda n\u00e3o se constitu\u00edram.<\/p>\n<p><strong>[ix]<\/strong> \u201cOs Comunistas n\u00e3o formam partido \u00e0 parte oposto aos partidos de trabalhadores (&#8230;) N\u00e3o trazem princ\u00edpios sect\u00e1rios seus, pelos quais modelar e moldar o movimento prolet\u00e1rio\u201d (Se\u00e7\u00e3o II).<\/p>\n<p><strong>[x]<\/strong> A mais conhecida, destacada por L\u00eanin, foi a observa\u00e7\u00e3o, no Pref\u00e1cio de 1872, de que a Comuna de Paris mostrara \u201cque a classe trabalhadora n\u00e3o pode simplesmente tomar de assalto a maquinaria j\u00e1 pronta do estado e faz\u00ea-la operar para seus pr\u00f3prios objetivos\u201d. Depois da morte de Marx, Engels acrescentou a nota de rodap\u00e9 que modifica a primeira senten\u00e7a da Se\u00e7\u00e3o I, para excluir as sociedades pr\u00e9-hist\u00f3ricas do campo universal da luta de classes. Por\u00e9m, nem Marx nem Engels deram-se o trabalho de comentar ou de modificar as passagens econ\u00f4micas do documento. Pode-se duvidar de que Marx e Engels realmente considerassem uma total \u201c<em>Umarbeitung oder Erg\u00e4nzung<\/em>\u201d [Revis\u00e3o ou altera\u00e7\u00e3o] do\u00a0<em>Manifesto<\/em> (Pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1883), mas n\u00e3o de que a morte de Marx tornou a reescrita imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>[xi]<\/strong> Comparem-se\u00a0<strong>(a)<\/strong> a passagem na Se\u00e7\u00e3o II do\u00a0<em>Manifesto<\/em> (\u201cSer\u00e1 preciso intui\u00e7\u00e3o profunda para compreender que as ideias, vis\u00f5es e concep\u00e7\u00f5es dos homens, em uma palavra, a consci\u00eancia humana, muda a cada mudan\u00e7a nas condi\u00e7\u00f5es de sua exist\u00eancia material, nas suas rela\u00e7\u00f5es sociais e em sua vida social?\u201d) e\u00a0<strong>(b) <\/strong>a passagem correspondente no\u00a0<em>Pref\u00e1cio \u00e0 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica <\/em>(\u201cN\u00e3o \u00e9 a consci\u00eancia do homem que determina sua exist\u00eancia, mas, ao contr\u00e1rio, \u00e9 a exist\u00eancia social que determina a consci\u00eancia\u201d.).<\/p>\n<p><strong>[xii]<\/strong> Embora seja a vers\u00e3o inglesa aprovada por Engels, n\u00e3o \u00e9 tradu\u00e7\u00e3o estritamente correta do original: \u201c<em>M\u00f6gen die herrschenden Klassen vor einer kom- munistischen Revolution zittern. Die Proletarier haben nichts\u00a0in ihr<\/em> [\u201cnela\u201d, i.e. \u201cna Revolu\u00e7\u00e3o\u201d; eu sublinhei]\u00a0<em>zu verlieren als ihre Ketten<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>[xiii]<\/strong> Para uma an\u00e1lise estil\u00edstica, ver S.S. Prawer,\u00a0<em>Karl Marx and World Literature<\/em> (Verso, New York 2011), pp. 148-9. Nenhuma das tradu\u00e7\u00f5es do\u00a0<em>Manifesto<\/em> que conhe\u00e7o tem a for\u00e7a liter\u00e1ria do texto original, em alem\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>[xiv]<\/strong> In \u201cDie Lage Englands. Das 18. Jahrhundert\u201d (<em>Marx\u2013Engels Werke I<\/em>, pp. 566\u20138).<\/p>\n<p><strong>[xv]<\/strong> Ver, por exemplo, a discuss\u00e3o do \u201ccapital\u00a0<em>fixe<\/em> e o desenvolvimento dos recursos produtivos da sociedade\u201d, nos manuscritos de 1857-58.\u00a0<em>Collected Works<\/em>, vol. 29 (1987), pp. 80\u201399.<\/p>\n<p><strong>[xvi]<\/strong> A frase em alem\u00e3o \u201c<em>sich zur nationalen Klasse erheben<\/em>\u201d tem conota\u00e7\u00f5es hegelianas que aparecem modificadas na tradu\u00e7\u00e3o ao ingl\u00eas autorizada por Engels e modificada, presumivelmente, porque sup\u00f4s que n\u00e3o seria compreendida pelos leitores, nos anos 1880s.<\/p>\n<p><strong>[xvii]<\/strong> Pauperismo n\u00e3o deve ser lido como sin\u00f4nimo de \u201cpobreza\u201d. As palavras em alem\u00e3o, tomadas do ingl\u00eas, s\u00e3o \u201c<em>Pauper\u201d<\/em> (\u2018pessoa pobre, destitu\u00edda (&#8230;) que vive de caridade ou de algum amparo p\u00fablico [Chambers\u2019\u00a0<em>Twentieth Century Dictionary<\/em>]) e \u201c<em>Pauperismus<\/em>\u201d (pauperismo: estado de quem \u00e9 ou est\u00e1 pobre) [Idem].<\/p>\n<p><strong>[xviii]<\/strong> Paradoxalmente, argumento vagamente semelhante ao argumento marxiano de 1848 tem sido amplamente usado por governos capitalistas e pregadores do livre-mercado, para provar que economias de estados cujo PIB continua a dobrar a cada uma ou duas d\u00e9cadas ir\u00e3o \u00e0 bancarrota se n\u00e3o abolirem os sistemas de transfer\u00eancia de renda (estados do bem-estar, etc.), condenados ficar cada vez mais pobres, se os que ganham tiverem de manter os incapazes de ganhar.<\/p>\n<p><strong>[xix]<\/strong> Leszek Kolakowski,\u00a0<em>Main Currents of Marxism<\/em>, vol. 1, The Founders (Oxford 1978), p. 130.<\/p>\n<p><strong>[xx]<\/strong> George Lichtheim,\u00a0<em>Marxism<\/em> (London 1964), p. 45.<\/p>\n<p><strong>[xxi]<\/strong> <em>Collected Works<\/em>, vol. 3 (1975), pp. 186-7. Nessa passagem, tenho em geral preferido a tradu\u00e7\u00e3o de Lichtheim, em<em>Marxism<\/em>. O termo alem\u00e3o \u201cStand\u201d, foi traduzido por \u201cClasse\u201d, o que hoje gera distor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>[xxii]<\/strong> Publicado como\u00a0<em>Outlines of a Critique of Political Economy<\/em> em 1844 (<em>Collected Works<\/em>, vol. 3, pp. 418-43).<\/p>\n<p><strong>[xxiii]<\/strong> \u201cOn the History of the Communist League\u201d (<em>Collected Works<\/em>, vol. 26, 1990), p. 318.<\/p>\n<p><strong>[xxiv]<\/strong> \u201cOutlines of a Critique\u201d (<em>Collected Works<\/em>, vol. 3, pp. 433 ff). Parece ter sido derivado de autores brit\u00e2nicos radicais, principalmente John Wade,\u00a0<em>History of the Middle and Working Classes<\/em> (London 1835), ao qual Engels refere-se nessa conex\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>[xxv]<\/strong> Aparece ainda mais claramente nas formula\u00e7\u00f5es de Engels, em dois escritos que s\u00e3o, de fato, dois rascunhos preliminares do\u00a0<em>Manifesto<\/em>, \u201c<em>Draft of a Communist Confession of Faith<\/em>\u201d (<em>Collected Works<\/em>, vol. 6, p. 102) e \u201c<em>Principles of Communism<\/em>\u201d (ibid., p. 350).<\/p>\n<p><strong>[xxvi]<\/strong> De \u201c<em>Historical Tendency of Capitalist Accumulation<\/em>\u201d, in\u00a0<em>Capital<\/em>, vol. I (<em>Collected Works<\/em>, vol. 35, 1996), p. 750.<\/p>\n<p><strong>[xxvii]<\/strong> Lichtheim,\u00a0<em>Marxism<\/em>, pp. 58-60.<\/p>\n<hr width=\"33%\" size=\"1\" \/>\n<p><strong>Notas dos tradutores<\/strong><\/p>\n<p><strong>*<\/strong>Em portugu\u00eas, pode ser lido em: <strong>\u201c<a href=\"http:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1848\/ManifestoDoPartidoComunista\/index.htm\">Manifesto do Partido Comunista<\/a>\u201d<\/strong> ou em ingl\u00eas, ENGELS, Frederick e MARX, Karl, <strong>\u201c<em><a href=\"http:\/\/www.versobooks.com\/books\/1109-the-communist-manifesto\">The Communist Manifesto: A Modern Edition\u201d<\/a><\/em><\/strong>, Verso Books, New York, 2012 (abril), Introdu\u00e7\u00e3o de Eric Hobsbawm.<\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong>Em portugu\u00eas do Brasil, <strong>\u201c<a href=\"http:\/\/houaiss.uol.com.br\/busca.jhtm?verbete=idiotia&amp;cod=1052850\">idiotia<\/a>\u201d<\/strong> (Dicion\u00e1rio Houaiss) designa uma doen\u00e7a gen\u00e9tica . Tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel seria, nesse caso, do mesmo v\u00edcio que Hobsbawm comenta, <strong>\u201c<a href=\"http:\/\/houaiss.uol.com.br\/busca.jhtm?verbete=idiotice&amp;cod=105286\">idiotice<\/a>\u201d<\/strong>(Dicion\u00e1rio Houaiss).<\/p>\n<p><strong>[2]<\/strong>Em todos os trechos citados, acompanha-se aqui a edi\u00e7\u00e3o, em portugu\u00eas de <strong><em><a href=\"http:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1848\/ManifestoDoPartidoComunista\/index.htm\">Manifesto<\/a><\/em><\/strong><strong><em><a href=\"http:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1848\/ManifestoDoPartidoComunista\/index.htm\"> do Partido Comunista<\/a><\/em><\/strong>, Lisboa: Editorial Avante, 1997, trad. de Jos\u00e9 Barata Moura.<\/p>\n<p><strong>[3]<\/strong> Ver nota\u00a0<strong>[xxi]<\/strong>, do autor .<\/p>\n<p><strong>[4]<\/strong>Ver tamb\u00e9m, interessante: Terry Eagleton, 23\/3\/2011, <em>The Times Literary Supplement<\/em> ,<em>redecastorphoto<\/em>, em portugu\u00eas: <strong><a href=\"http:\/\/redecastorphoto.blogspot.com.br\/2011\/06\/era-dos-manifestos-adolescencia-como.html\">A<\/a><\/strong><a href=\"http:\/\/redecastorphoto.blogspot.com.br\/2011\/06\/era-dos-manifestos-adolescencia-como.html\"><strong> era dos manifestos: \u201cA adolesc\u00eancia como ideologia\u201d<\/strong> <\/a><\/p>\n<p><strong>[5]<\/strong> No Brasil tamb\u00e9m h\u00e1 Partido dos Trabalhadores (PT), fundado em 1980.<\/p>\n<p><strong>[6]<\/strong>Em portugu\u00eas ver em: <strong>\u201c<a href=\"http:\/\/www.lusosofia.net\/textos\/marx_karl_para_a_critica_da_filosofia_do_direito_de_hegel.pdf\">Para a Cr\u00edtica da Filosofia do Direito de Hegel<\/a>\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>[7]<\/strong> Loc. cit. p\u00e1g. 10.<\/p>\n<p><strong>[8]<\/strong> \u201cO proletariado est\u00e1 ainda s\u00f3 a come\u00e7ar a formar-se, como resultado do movimento industrial; pois o que constitui o proletariado n\u00e3o \u00e9 a pobreza naturalmente existente, mas a pobreza artificialmente produzida, n\u00e3o \u00e9 a massa do povo mecanicamente oprimida pelo peso da sociedade, mas a massa que prov\u00e9m da desintegra\u00e7\u00e3o aguda da sociedade e, acima de tudo, da desintegra\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia\u201d (Loc. cit., p\u00e1g. 20).<\/p>\n<p><strong>[9]<\/strong> Essa \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>capitalist intertegument<\/em> que se l\u00ea\u00a0em HOBSBAWM, Eric,\u00a0<em>Sobre Hist\u00f3ria: ensaios<\/em>, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras [1998], 2006, trad. Cyd Knipel Moreira, p. 178.<\/p>\n<p><strong>[10]<\/strong>Sobre isso ver em:\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/combate.info\/index.php\/biblioteca-marxista-mainmenu-41\/23-forma-marxista\/42-rosa-luxemburgo-um-comunismo-para-o-sulo-xxi\">ROSA LUXEMBURGO: UM COMUNISMO PARA O S\u00c9CULO XXI<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>___________________________<\/strong><\/p>\n<p><strong>Leia mais sobre Eric Hobsbawn (em portugu\u00eas):<\/strong><\/p>\n<p>16\/6\/2011,\u00a0<em>redecastorphoto<\/em>, em:\u00a0<strong>\u201c<a href=\"http:\/\/migre.me\/aXLfA\">Marxismo hoje: Beppe Grilo entrevista Hobsbawm,<\/a><a href=\"http:\/\/migre.me\/aXLfA\">94<\/a>\u201d<\/strong><\/p>\n<p>23\/12\/2011,\u00a0<em>redecastorphoto<\/em>, entrevista a\u00a0<strong>Andrew Whitehead<\/strong>, em:\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/migre.me\/aXLps\">Eric Hobsbawm sobre 2011: \u201cFez-me lembrar 1848&#8230;<\/a>\u201d<\/strong><\/p>\n<p>10\/3\/2012,\u00a0<em>redecastorphoto<\/em>,\u00a0<em>The Spiked Review of Books<\/em>,\u00a0<strong>Tim Black<\/strong>, em:\u00a0<strong>\u201c<a href=\"http:\/\/migre.me\/aXM56\">Lord Byron, no Parlamento, em defesa dos luditas<\/a>\u201d<\/strong><\/p>\n<p>22\/4\/2012,\u00a0<em>redecastorphoto<\/em>,\u00a0<strong>Eric Hobsbawn<\/strong>,\u00a0<em>London Review of Books<\/em>, em:\u00a0<strong>\u201c<a href=\"http:\/\/migre.me\/aXLw7\">Depois da Guerra Fria &#8211; Eric Hobsbawm sobre Tony Judt<\/a>\u201d<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/redecastorphoto.blogspot.com.br\/2012\/10\/introducao-ao-manifesto-comunista-de.html\">http:\/\/redecastorphoto.blogspot.com.br\/2012\/10\/introducao-ao-manifesto-comunista-de.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: RCF\n\n\n\n\n\n\n\n\nEric Hobsbawn (1917-2012)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3721\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-3721","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Y1","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3721","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3721"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3721\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3721"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3721"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3721"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}