{"id":3745,"date":"2012-10-24T14:39:11","date_gmt":"2012-10-24T14:39:11","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3745"},"modified":"2012-10-24T14:39:11","modified_gmt":"2012-10-24T14:39:11","slug":"decretem-nossa-extincao-e-nos-enterrem-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3745","title":{"rendered":"\u201cDecretem nossa extin\u00e7\u00e3o e nos enterrem aqui\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de morte coletiva feita por um grupo de Guaranis Caiov\u00e1s demonstra a incompet\u00eancia do Estado brasileiro para cumprir a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e mostra que somos todos c\u00famplices de genoc\u00eddio \u2013 uma parte de n\u00f3s por a\u00e7\u00e3o, outra por omiss\u00e3o<\/p>\n<p><strong>ELIANE BRUM*<\/strong><\/p>\n<p>Pedimos ao Governo e \u00e0 Justi\u00e7a Federal para n\u00e3o decretar a ordem de despejo\/expuls\u00e3o, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar n\u00f3s todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar nossa extin\u00e7\u00e3o\/dizima\u00e7\u00e3o total, al\u00e9m de enviar v\u00e1rios tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este \u00e9 o nosso pedido aos ju\u00edzes federais.<\/p>\n<p>O trecho pertence \u00e0\u00a0<a href=\"http:\/\/racismoambiental.net.br\/2012\/10\/justica-brasileira-ordena-expulsao-de-indigenas-guarani-kaiowa\/\" target=\"_blank\">carta<\/a> de um grupo de 170 ind\u00edgenas que vivem \u00e0 beira de um rio no munic\u00edpio de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, cercados por pistoleiros. As palavras foram ditadas em 8 de outubro ao conselho Aty Guasu (assembleia dos Guaranis Caiov\u00e1s), ap\u00f3s receberem a not\u00edcia de que a Justi\u00e7a Federal decretou sua expuls\u00e3o da terra. S\u00e3o 50 homens, 50 mulheres e 70 crian\u00e7as. Decidiram ficar. E morrer como ato de resist\u00eancia \u2013 morrer com tudo o que s\u00e3o, na terra que lhes pertence.<\/p>\n<p>H\u00e1 cartas, como a de Pero Vaz de Caminha, de 1\u00ba de maio de 1500, que s\u00e3o documentos de funda\u00e7\u00e3o do Brasil: fundam uma na\u00e7\u00e3o, ainda sequer imaginada, a partir do olhar estrangeiro do colonizador sobre a terra e sobre os habitantes que nela vivem. E h\u00e1 cartas, como a dos Guaranis Caiov\u00e1s, escritas mais de 500 anos depois, que s\u00e3o documentos de fal\u00eancia. N\u00e3o s\u00f3 no sentido da incapacidade do Estado-na\u00e7\u00e3o constitu\u00eddo nos \u00faltimos s\u00e9culos de cumprir a lei estabelecida na Constitui\u00e7\u00e3o hoje em vigor, mas tamb\u00e9m dos princ\u00edpios mais elementares que forjaram nosso ideal de humanidade na forma\u00e7\u00e3o do que se convencionou chamar de \u201co povo brasileiro\u201d. A partir da carta dos Guaranis Caiov\u00e1s, tornamo-nos c\u00famplices de genoc\u00eddio. Sempre fomos, mas tornar-se \u00e9 saber que se \u00e9.<\/p>\n<p>Os Guaranis Caiov\u00e1s avisam-nos por carta que, depois de tantas d\u00e9cadas de luta para viver, descobriram que agora s\u00f3 lhes resta morrer. Avisam a todos n\u00f3s que morrer\u00e3o como viveram: coletivamente, conjugados no plural.<\/p>\n<p>Nos trechos mais pungentes de sua carta de morte, os ind\u00edgenas afirmam:<\/p>\n<p>&#8211; Queremos deixar evidente ao Governo e \u00e0 Justi\u00e7a Federal que, por fim, j\u00e1 perdemos a esperan\u00e7a de sobreviver dignamente e sem viol\u00eancia em nosso territ\u00f3rio antigo. N\u00e3o acreditamos mais na Justi\u00e7a Brasileira. A quem vamos denunciar as viol\u00eancias praticadas contra nossas vidas? Para qual Justi\u00e7a do Brasil? Se a pr\u00f3pria Justi\u00e7a Federal est\u00e1 gerando e alimentando viol\u00eancias contra n\u00f3s. N\u00f3s j\u00e1 avaliamos a nossa situa\u00e7\u00e3o atual e conclu\u00edmos que vamos morrer todos, mesmo, em pouco tempo. N\u00e3o temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy, onde j\u00e1 ocorreram 4 mortes, sendo que 2 morreram por meio de suic\u00eddio, 2 em decorr\u00eancia de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy h\u00e1 mais de um ano. Estamos sem assist\u00eancia nenhuma, isolados, cercados de pistoleiros e resistimos at\u00e9 hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia a dia para recuperar o nosso territ\u00f3rio antigo Pyleito Kue\/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso territ\u00f3rio antigo est\u00e3o enterrados v\u00e1rios de nossos av\u00f4s e av\u00f3s, bisav\u00f4s e bisav\u00f3s, ali est\u00e1 o cemit\u00e9rios de todos os nossos antepassados. Cientes desse fato hist\u00f3rico, n\u00f3s j\u00e1 vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje. (\u2026) N\u00e3o temos outra op\u00e7\u00e3o, esta \u00e9 a nossa \u00faltima decis\u00e3o un\u00e2nime diante do despacho da Justi\u00e7a Federal de Navirai-MS.<\/p>\n<p>Como podemos alcan\u00e7ar o desespero de uma decis\u00e3o de morte coletiva? N\u00e3o podemos. N\u00e3o sabemos o que \u00e9 isso. Mas podemos conhecer quem morreu, morre e vai morrer por nossa a\u00e7\u00e3o \u2013 ou ina\u00e7\u00e3o. E, assim, pelo menos aproximar nossos mundos, que at\u00e9 hoje t\u00eam na viol\u00eancia sua principal intersec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde o \u00ednicio do s\u00e9culo XX, com mais afinco a partir do Estado Novo (1937-45) de Get\u00falio Vargas, iniciou-se a ocupa\u00e7\u00e3o pelos brancos da terra dos Guaranis Caiov\u00e1s. Os ind\u00edgenas, que sempre viveram l\u00e1, come\u00e7aram a ser confinados em reservas pelo governo federal, para liberar suas terras para os colonos que chegavam, no que se chamou de \u201cA Grande Marcha para o Oeste\u201d. A vis\u00e3o era a mesma que at\u00e9 hoje persiste no senso comum: \u201cterra desocupada\u201d ou \u201cn\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m l\u00e1, s\u00f3 \u00edndio\u201d.<\/p>\n<p>Era de gente que se tratava, mas o que se fez na \u00e9poca foi confin\u00e1-los como gado, num espa\u00e7o de terra pequeno demais para que pudessem viver ao seu modo \u2013 ou, na palavra que \u00e9 deles, Teko Por\u00e3 (\u201co Bem Viver\u201d). Com a chegada dos colonos, os ind\u00edgenas passaram a ter tr\u00eas destinos: ou as reservas ou trabalhar nas fazendas como m\u00e3o de obra semiescrava ou se aprofundar na mata. Quem se rebelou foi massacrado. Para os Guaranis Caiov\u00e1s, a terra a qual pertencem \u00e9 a terra onde est\u00e3o sepultados seus antepassados. Para eles, a terra n\u00e3o \u00e9 uma mercadoria \u2013 a terra \u00e9.<\/p>\n<p>Na ditadura militar, nos anos 60 e 70, a coloniza\u00e7\u00e3o do Mato Grosso do Sul se intensificou. Um grande n\u00famero de sulistas, ga\u00fachos mais do que todos, migrou para o territ\u00f3rio para ocupar a terra dos \u00edndios. Outros despacharam pe\u00f5es e pistoleiros, administrando a matan\u00e7a de longe, bem acomodados em suas cidades de origem, onde viviam \u2013 e vivem at\u00e9 hoje \u2013 como \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d, fingindo que n\u00e3o t\u00eam sangue nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Com a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 representou uma mudan\u00e7a de olhar e uma esperan\u00e7a de justi\u00e7a. Os territ\u00f3rios ind\u00edgenas deveriam ser demarcados pelo Estado no prazo de cinco anos. Como sabemos, n\u00e3o foi. O processo de identifica\u00e7\u00e3o, declara\u00e7\u00e3o, demarca\u00e7\u00e3o e homologa\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas tem sido lento, sens\u00edvel a press\u00f5es dos grandes propriet\u00e1rios de terras e da parcela retr\u00f3grada do agroneg\u00f3cio. E, mesmo naquelas terras que j\u00e1 est\u00e3o homologadas, em muitas o governo federal n\u00e3o completou a desintrus\u00e3o \u2013 a retirada daqueles que ocupam a terra, como posseiros e fazendeiros \u2013, aprofundando os conflitos.<\/p>\n<p>Nestas \u00faltimas d\u00e9cadas testemunhamos o genoc\u00eddio dos Guaranis Caiov\u00e1s. Em geral, a situa\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas brasileiros \u00e9 vergonhosa. A dos 43 mil Guaranis Caiov\u00e1s, o segundo grupo mais numeroso do pa\u00eds, \u00e9 considerada a pior de todas. Confinados em reservas como a de Dourados, onde cerca de 14 mil, divididos em 43 grupos familiares, ocupam 3,5 mil hectares, eles encontram-se numa situa\u00e7\u00e3o de colapso. Sem poder viver segundo a sua cultura, totalmente encurralados, imersos numa natureza degradada, corro\u00eddos pelo alcoolismo dos adultos e pela subnutri\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, os \u00edndices de homic\u00eddio da reserva s\u00e3o maiores do que em zonas em estado de guerra.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o em Dourados \u00e9 t\u00e3o aterradora que provocou a seguinte afirma\u00e7\u00e3o da vice-procuradora-geral da Rep\u00fablica, Deborah Duprat: \u201cA reserva de Dourados \u00e9 talvez a maior trag\u00e9dia conhecida da quest\u00e3o ind\u00edgena em todo o mundo\u201d. Segundo um relat\u00f3rio do\u00a0<a href=\"http:\/\/cimi.org.br\/site\/pt-br\/\" target=\"_blank\">Conselho Indigenista Mission\u00e1rio<\/a> (CIMI), que analisou os dados de 2003 a 2010, o \u00edndice de assassinatos na Reserva de Dourados \u00e9 de 145 para cada 100 mil habitantes \u2013 no Iraque, o \u00edndice \u00e9 de 93 assassinatos para cada 100 mil. Comparado \u00e0 m\u00e9dia brasileira, o \u00edndice de homic\u00eddios da Reserva de Dourados \u00e9 495% maior.<\/p>\n<p>A cada seis dias, um jovem Guarani Caiov\u00e1 se suicida. Desde 1980, cerca de 1500 tiraram a pr\u00f3pria vida. A maioria deles enforcou-se num p\u00e9 de \u00e1rvore. Entre as v\u00e1rias causas elencadas pelos pesquisadores est\u00e1 o fato de que, neste per\u00edodo da vida, os jovens precisam formar sua fam\u00edlia e as perspectivas de futuro s\u00e3o ou trabalhar na cana de a\u00e7\u00facar ou virar mendigos. O futuro, portanto, \u00e9 um n\u00e3o ser aquilo que se \u00e9. Algo que, talvez para muitos deles, seja pior do que a morte.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade mostrou, neste ano, o que chamou de \u201cdados alarmantes, se destacando tanto no cen\u00e1rio nacional quanto internacional\u201d. Desde 2000, foram 555 suic\u00eddios, 98% deles por enforcamento, 70% cometidos por homens, a maioria deles na faixa dos 15 aos 29 anos. No Brasil, o \u00edndice de suic\u00eddios em 2007 foi de 4,7 por 100 mil habitantes. Entre os ind\u00edgenas, no mesmo ano, foi de 65,68 por 100 mil. Em 2008, o \u00edndice de suic\u00eddios entre os Guaranis Caiov\u00e1s chegou a 87,97 por 100 mil, segundo dados oficiais. Os pesquisadores acreditam que os n\u00fameros devem ser ainda maiores, j\u00e1 que parte dos suic\u00eddios \u00e9 escondida pelos grupos familiares por quest\u00f5es culturais.<\/p>\n<p>As lideran\u00e7as Guaranis Caiov\u00e1s n\u00e3o permaneceram impass\u00edveis diante deste presente sem futuro. Come\u00e7aram a se organizar para denunciar o genoc\u00eddio do seu povo e reivindicar o cumprimento da Constitui\u00e7\u00e3o. At\u00e9 hoje, mais de 20 delas morreram assassinadas por ferirem os interesses privados de fazendeiros da regi\u00e3o, a come\u00e7ar por Mar\u00e7al de Souza, em 1983, cujo assassinato ganhou repercuss\u00e3o internacional. Ao mesmo tempo, grupos de Guaranis Caiov\u00e1s abandonaram o confinamento das reservas e passaram a buscar suas\u00a0<em>tekoh\u00e1<\/em>, terras originais, na luta pela retomada do territ\u00f3rio e do direito \u00e0 vida. Alguns grupos ocuparam fundos de fazendas, outros montaram 30 acampamentos \u00e0 beira da estrada, numa situa\u00e7\u00e3o de absoluta indignidade. Tanto nas reservas quanto fora delas, a desnutri\u00e7\u00e3o infantil \u00e9 avassaladora.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria dos Guaranis Caiov\u00e1s que anunciaram sua morte coletiva ilustra bem o destino ao qual o Estado brasileiro os condenou. Homens, mulheres e crian\u00e7as empreenderam um caminho em busca da terra tradicional, localizada \u00e0s margens do Rio Hovy, no munic\u00edpio de Iguatemi (MS). Acamparam em sua terra no dia 8 de agosto de 2011, nos fundos de fazendas. Em 23 de agosto foram atacados e cercados por pistoleiros, a mando dos fazendeiros. Em um ano, os pistoleiros j\u00e1 derrubaram dez vezes a ponte m\u00f3vel feitas por eles para atravessar um rio com 30 metros de largura e tr\u00eas de fundura. Em um ano, dois ind\u00edgenas foram torturados e mortos pelos pistoleiros, outros dois se suicidaram.<\/p>\n<p>Em tentativas anteriores de recupera\u00e7\u00e3o desta mesma terra, os Guaranis Caiov\u00e1s j\u00e1 tinham sido espancados e amea\u00e7ados com armas de fogo. Alguns deles tiveram seus olhos vendados e foram jogados na beira da estrada. Em outra ocasi\u00e3o, mulheres, velhos e crian\u00e7as tiveram seus bra\u00e7os e pernas fraturados. O que a Justi\u00e7a Federal fez? Deferiu uma ordem de despejo. Em nota, a FUNAI (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio) afirmou que \u201cest\u00e1 trabalhando para reverter a decis\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Os Guaranis Caiov\u00e1s est\u00e3o sendo assassinados h\u00e1 muito tempo, de todas as formas dispon\u00edveis, as concretas e as simb\u00f3licas. \u201cA impunidade \u00e9 a maior agress\u00e3o cometida contra eles\u201d, afirma Fl\u00e1vio Machado, coordenador do CIMI no Mato Grosso do Sul. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, h\u00e1 pelo menos duas formas interligadas de viol\u00eancia no processo de recupera\u00e7\u00e3o da terra tradicional dos ind\u00edgenas: uma privada, das mil\u00edcias de pistoleiros organizadas pelos fazendeiros; outra do Estado, perpetrada pela Justi\u00e7a Federal, na qual parte dos ju\u00edzes, sem qualquer conhecimento da realidade vivida na regi\u00e3o, toma decis\u00f5es que n\u00e3o s\u00f3 compactuam com a viol\u00eancia , como a acirram.<\/p>\n<p>\u201cQuando os pistoleiros n\u00e3o conseguem consumar os despejos e massacres truculentos dos ind\u00edgenas, os fazendeiros contratam advogados para conseguir a ordem de despejo na Justi\u00e7a\u201d, afirma Egon Heck, indigenista e cientista pol\u00edtico, num artigo publicado em relat\u00f3rio do CIMI. \u201cNo momento em que ocorre a ordem de despejo, os agentes policiais agem de modo similar ao dos pistoleiros, visto que utilizam armas pesadas, queimam as ocas, amea\u00e7am e assustam as crian\u00e7as, mulheres e idosos.\u201d<\/p>\n<p>Ao fundo, o quadro maior: os sucessivos governos que se alternaram no poder ap\u00f3s a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 foram incompetentes para cumpri-la. Ao final de seus dois mandatos, Lula reconheceu que deixava o governo com essa d\u00edvida junto ao povo Guarani Caiov\u00e1. Legava a tarefa \u00e0 sua sucessora, Dilma Rousseff. Os ind\u00edgenas escreveram, ent\u00e3o, uma carta: \u201cPresidente Dilma, a quest\u00e3o das nossas terras j\u00e1 era para ter sido resolvida h\u00e1 d\u00e9cadas. Mas todos os governos lavaram as m\u00e3os e foram deixando a situa\u00e7\u00e3o se agravar. Por ultimo, o ex-presidente Lula prometeu, se comprometeu, mas n\u00e3o resolveu. Reconheceu que ficou com essa d\u00edvida para com nosso povo Guarani Caiov\u00e1 e passou a solu\u00e7\u00e3o para suas m\u00e3os. E n\u00f3s n\u00e3o podemos mais esperar. N\u00e3o nos deixe sofrer e ficar chorando nossos mortos quase todos os dias. N\u00e3o deixe que nossos filhos continuem enchendo as cadeias ou se suicidem por falta de esperan\u00e7a de futuro (\u2026) Devolvam nossas condi\u00e7\u00f5es de vida que s\u00e3o nossos\u00a0<em>tekoh\u00e1<\/em>, nossas terras tradicionais. N\u00e3o estamos pedindo nada demais, apenas os nossos direitos que est\u00e3o nas leis do Brasil e internacionais\u201d.<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de morte dos Guaranis Caiov\u00e1s ecoou nas redes sociais na semana passada. Gerou uma como\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que ind\u00edgenas anunciam seu desespero e seu genoc\u00eddio. Em geral, quase ningu\u00e9m escuta, para al\u00e9m dos mesmos de sempre, e o que era morte anunciada vira morte consumada. Talvez a diferen\u00e7a desta carta \u00e9 o fato de ela ecoar algo que \u00e9 repetido nas mais variadas esferas da sociedade brasileira, em ambientes os mais diversos, considerado at\u00e9 um coment\u00e1rio espirituoso em certos espa\u00e7os intelectualizados: a ideia de que a sociedade brasileira estaria melhor sem os \u00edndios.<\/p>\n<p>Desqualificar os \u00edndios, sua cultura e a situa\u00e7\u00e3o de indignidade na qual vive boa parte das etnias \u00e9 uma piada cl\u00e1ssica em alguns meios, t\u00e3o recorrente que se tornou quase um clich\u00ea. Para parte da elite escolarizada, apesar do esfor\u00e7o empreendido pelos antrop\u00f3logos, entre eles L\u00e9vi-Strauss, as culturas ind\u00edgenas ainda s\u00e3o vistas como \u201catrasadas\u201d, numa cadeia evolutiva \u00fanica e inescap\u00e1vel entre a pedra lascada e o Ipad \u2013 e n\u00e3o como uma escolha diversa e um caminho poss\u00edvel. Assim, essa parcela da elite descarta, em nome da ignor\u00e2ncia, a imensa riqueza contida na linguagem, no conhecimento e nas vis\u00f5es de mundo das 230 etnias ind\u00edgenas que ainda sobrevivem por aqui.<\/p>\n<p>Toda a Hist\u00f3ria do Brasil, a partir da \u201cdescoberta\u201d e da coloniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 marcada pelo olhar de que o \u00edndio \u00e9 um entrave no caminho do \u201cprogresso\u201d ou do \u201cdesenvolvimento\u201d. Entrave desde os prim\u00f3rdios \u2013 primeiro, porque teve a deseleg\u00e2ncia de estar aqui antes dos portugueses; em seguida, porque se rebelava ao ser escravizado pelos invasores europeus. A sociedade brasileira se constituiu com essa ideia e ainda que a pr\u00f3pria sociedade tenha mudado em muitos aspectos, a concep\u00e7\u00e3o do \u00edndio como um entrave persiste. E persiste de forma impressionante, n\u00e3o s\u00f3 para uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o, mas para setores do Estado, tanto no governo atual quanto nas gest\u00f5es passadas.<\/p>\n<p>\u201cEntraves\u201d precisam ser removidos. E t\u00eam sido, de v\u00e1rias maneiras, como a Hist\u00f3ria, a passada e a presente, nos mostra. Talvez essa seja uma das explica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para o impacto da carta de morte ter alcan\u00e7ado um universo maior de pessoas. Desta vez, s\u00e3o os \u00edndios que nos dizem algo que pode ser compreendido da seguinte forma: \u201c\u00c9 isso o que voc\u00eas querem? Nos matar a todos? Ent\u00e3o n\u00f3s decidimos: vamos morrer\u201d. Ao devolver o desejo a quem o deseja, o impacto \u00e9 grande.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar que carta \u00e9 palavra. A declara\u00e7\u00e3o de morte coletiva surge como palavra dita. Por isso precisamos compreender, pelo menos um pouco, o que \u00e9 a palavra para os Guaranis Caiov\u00e1s. Em um texto muito bonito, intitulado\u00a0<em>\u00d1e&#8217;\u1ebd\u00a0\u2013 a palavra alma<\/em>, a antrop\u00f3loga Graciela Chamorro, da Universidade Federal da Grande Dourados, nos d\u00e1 algumas pistas:<\/p>\n<p>\u201cA palavra \u00e9 a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As experi\u00eancias da vida s\u00e3o experi\u00eancias de palavra. Deus \u00e9 palavra. (&#8230;) O nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou prov\u00ea para si um lugar no corpo da crian\u00e7a. A palavra circula pelo esqueleto humano. Ela \u00e9 justamente o que nos mant\u00e9m em p\u00e9, que nos humaniza. (&#8230;) Na cerim\u00f4nia de nomina\u00e7\u00e3o, o xam\u00e3 revelar\u00e1 o nome da crian\u00e7a, marcando com isso a recep\u00e7\u00e3o oficial da nova palavra na comunidade. (&#8230;) As crises da vida \u2013 doen\u00e7as, tristezas, inimizades etc. \u2013 s\u00e3o explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os rezadores e as rezadoras se esfor\u00e7am para \u2018trazer de volta\u2019, \u2018voltar a sentar\u2019 a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a sa\u00fade.(&#8230;) Quando a palavra n\u00e3o tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um devir, um n\u00e3o-ser, uma palavra-que-n\u00e3o-\u00e9-mais. (&#8230;)\u00a0<em>\u00d1e&#8217;\u1ebd<\/em> e\u00a0<em>ayvu<\/em> podem ser traduzidos tanto como \u2018palavra\u2019 como por \u2018alma\u2019, com o mesmo significado de \u2018minha palavra sou eu\u2019 ou \u2018minha alma sou eu\u2019. (&#8230;) Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma n\u00e3o uma parte, mas a vida como um todo.\u201d<\/p>\n<p>A fala, diz o antrop\u00f3logo Spensy Pimentel, pesquisador do Centro de Estudos Amer\u00edndios da Universidade de S\u00e3o Paulo, \u00e9 a parte mais sublime do ser humano para os Guaranis Caiov\u00e1s. \u201cA palavra \u00e9 o cerne da resist\u00eancia. Tem uma a\u00e7\u00e3o no mundo \u2013 \u00e9 uma palavra que age. Faz as coisas acontecerem, faz o futuro. O limite entre o discurso e a profecia \u00e9 t\u00eanue.\u201d<\/p>\n<p>Se a carta de Pero Vaz de Caminha marca o nascimento do Brasil pela palavra escrita, \u00e9 interessante pensar o que marca a carta dos Guaranis Caiov\u00e1s mais de 500 anos depois. Na carta-fundadora, \u00e9 o invasor\/colonizador\/conquistador\/estrangeiro quem estranha e olha para os \u00edndios, para sua cultura e para sua terra. Na dos Guaranis Caiov\u00e1s, s\u00e3o os \u00edndios que olham para n\u00f3s. O que nos dizem aqueles que nos veem? (Ou o que veem aqueles que nos dizem?)<\/p>\n<p>A declara\u00e7\u00e3o de morte dos Guaranis Caiov\u00e1s \u00e9 \u201cpalavra que age\u201d. Antes que o espasmo de nossa como\u00e7\u00e3o de sof\u00e1 migre para outra trag\u00e9dia, talvez valha a pena uma \u00faltima pergunta: para n\u00f3s, o que \u00e9 a palavra?<\/p>\n<hr \/>\n<p>*Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 pr\u00eamios nacionais e internacionais de reportagem. \u00c9 autora de um romance &#8211; <em>Uma Duas<\/em> (LeYa) &#8211; e de tr\u00eas livros de reportagem: <em>Coluna Prestes \u2013 O Avesso da Lenda<\/em> (Artes e Of\u00edcios), <em>A Vida Que Ningu\u00e9m V\u00ea<\/em> (Arquip\u00e9lago Editorial, Pr\u00eamio Jabuti 2007) e <em>O Olho da Rua<\/em> (Globo). E codiretora de dois document\u00e1rios: <em>Uma Hist\u00f3ria Severina<\/em> e <em>Gretchen Filme Estrada<\/em>.<a href=\"mailto:elianebrum@uol.com.br\" target=\"_blank\">elianebrum@uol.com.br<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/twitter.com\/#!\/@brumelianebrum\" target=\"_blank\">@brumelianebrum<\/a> (Foto: \u00c9POCA)<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/revistaepoca.globo.com\/Sociedade\/eliane-brum\/noticia\/2012\/10\/decretem-nossa-extincao-e-nos-enterrem-aqui.html\">http:\/\/revistaepoca.globo.com\/Sociedade\/eliane-brum\/noticia\/2012\/10\/decretem-nossa-extincao-e-nos-enterrem-aqui.html<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p>V\u00eddeo sobre o assunto:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?&amp;v=NlPEZ3qKp1s\" target=\"_blank\">http:\/\/www.youtube.com\/watch?&amp;v=NlPEZ3qKp1s <\/a><\/p>\n<p> <object width=\"100%\" height=\"385\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/NlPEZ3qKp1s\" \/><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><\/object> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: e.glbimg.com\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3745\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[81],"tags":[],"class_list":["post-3745","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c94-ruralistas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-Yp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3745","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3745"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3745\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3745"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3745"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3745"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}