{"id":375,"date":"2010-04-01T18:39:46","date_gmt":"2010-04-01T18:39:46","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=375"},"modified":"2010-04-01T18:39:46","modified_gmt":"2010-04-01T18:39:46","slug":"a-barbarie-fascista-no-iii-reich-e-o-apagamento-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/375","title":{"rendered":"A barb\u00e1rie fascista no III Reich e o apagamento da Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p>E conclui com uma pergunta: \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel que dezenas de milh\u00f5es de norte-americanos manifestem apre\u00e7o pela pol\u00edtica do governo neofascista da Col\u00f4mbia, aceitem passivamente o bloqueio a Cuba e expressem simpatia pela hist\u00e9rica campanha contra a Ilha socialista transformada, de repente, em assunto do dia?\u201d<\/p>\n<p>A morte de um delinquente cubano, mascarado de preso pol\u00edtico, ap\u00f3s prolongada greve da fome, e a entrada em greve da fome de outro cubano s\u00e3o h\u00e1 semanas tema de editoriais e reportagens nos media internacionais. O segundo, em liberdade, exige, tal como o fez o primeiro, a liberta\u00e7\u00e3o de todos os \u00abpresos pol\u00edticos cubanos\u00bb.<\/p>\n<p>Os dois cidad\u00e3os que desafiaram o governo de Havana com t\u00e3o in\u00e9dita reivindica\u00e7\u00e3o foram imediatamente guindados a her\u00f3is pela comunica\u00e7\u00e3o social, de Washington a Paris, de Londres a Otawa. Simultaneamente, chovem sobre Cuba violentas cr\u00edticas, acusando o seu governo de ditadura desumana e desrespeitadora dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Os mesmos \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social que participam dessa campanha anti-cubana, de \u00e2mbito mundial, raramente dedicam um m\u00ednimo de aten\u00e7\u00e3o aos crimes, esses sim, muito reais diariamente praticados no Afeganist\u00e3o e no Iraque pelas for\u00e7as dos EUA e da NATO que ocupam esses pa\u00edses. Quanto \u00e0 tortura de prisioneiros em Guant\u00e1namo e aos horrores do pres\u00eddio de Abu Ghrabi s\u00e3o temas h\u00e1 muito esquecidos pelos grandes jornais e emissoras de televis\u00e3o do Ocidente.<\/p>\n<p>O denominador comum nesta campanha anti-cubana \u00e9 um anti-comunismo transparente. Tudo serve aos analistas e polit\u00f3logos de servi\u00e7o para deturpar os factos, de modo a despejaram cal\u00fanias contra a Ilha, com tempero de ataques a Fidel, Marx e Lenine.<\/p>\n<p>O objectivo desta gritaria reaccion\u00e1ria \u00e9, afinal, o mesmo das campanhas que visam criminalizar o comunismo, equiparando-o ao fascismo.<\/p>\n<p>Nestes tempos em que na Rep\u00fablica Checa tentam proibir o Partido Comunista, e em Riga a direita desfila prestando homenagem aos let\u00f5es que combateram nas SS de Hitler contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a imprensa \u00abbem pensante\u00bb, que se apresenta como democr\u00e1tica e anti-comunista, mant\u00e9m um sil\u00eancio praticamente total sobre os crimes do fascismo.<\/p>\n<p>Se a Alemanha da Sra. Merkel \u00e9 o motor da Uni\u00e3o Europeia, para que recordar o que foi o III Reich, desaparecido h\u00e1 65 anos?<\/p>\n<p>O apagamento da Hist\u00f3ria \u00e9 imprescind\u00edvel \u00e0 sua falsifica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p> <strong> <\/p>\n<p> MENSAGENS E SONHOS DE HITLER <\/strong><\/p>\n<p>O achado pelo ex\u00e9rcito dos EUA nos \u00faltimos dias da guerra de 485 toneladas dos arquivos do Minist\u00e9rio dos Estrangeiros do III Reich, em castelos e cavernas das montanhas de Harz, permitiu o conhecimento de documenta\u00e7\u00e3o muito valiosa sobre a Hist\u00f3ria contempor\u00e2nea da Alemanha. Outros arquivos ainda mais importantes permaneceram sepultados at\u00e9 1955 num dep\u00f3sito do ex\u00e9rcito norte-americano, na Virg\u00ednia.<\/p>\n<p>Foi ap\u00f3s cinco anos de estudo de parte dessa documenta\u00e7\u00e3o que o jornalista William Schirer escreveu a sua obra The Rise and Fall of the Third Reich, editada em 1960 em Nova York, e cuja tradu\u00e7\u00e3o brasileira em quatro tomos foi publicada em 1963 pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, do Rio de Janeiro (1).<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o outro trabalho que, a partir dos arquivos secretos alem\u00e3es, ilumine t\u00e3o ampla e minuciosamente a ascens\u00e3o e o desmoronamento do nazismo e a personalidade de Hitler.<\/p>\n<p>William Shriver que viveu na Alemanha como correspondente do Chicago Tribune de 1926 a 1941, foi um observador privilegiado da Hist\u00f3ria nesse per\u00edodo.<\/p>\n<p>Quando a sua obra me chegou \u00e0s m\u00e3os eu acabava de ler uma tradu\u00e7\u00e3o do Mein Kampf (A Minha Luta), de Adolph Hitler, definido pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o nazi como \u00aba infal\u00edvel estrela polar pedag\u00f3gica\u00bb.<\/p>\n<p>Como foi poss\u00edvel, perguntava-me, que tenha chegado a chanceler do Reich (chamado pelo marechal Hindenburgo) um tresloucado ex-cabo austr\u00edaco que durante onze anos iria impor despoticamente a sua vontade a um povo de velha cultura, conduzindo a humanidade a uma hecatombe (mais de 40 milh\u00f5es de mortos, dos quais 20 sovi\u00e9ticos e 8 alem\u00e3es)?<\/p>\n<p>Shriver, um liberal americano do qual me distancio ideologicamente ajudou-me a entender melhor Hitler e a marcha para o abismo da Alemanha. Empurrou-me, ali\u00e1s, para uma releitura do Mein Kampf.<\/p>\n<p>No seu \u00fanico livro \u2013 o mais vendido no pa\u00eds durante anos \u2013 Hitler exp\u00f5e, afinal, numa linguagem prim\u00e1ria, a sua concep\u00e7\u00e3o louca e megal\u00f3mana do mundo e esbo\u00e7a o projecto que o levaria ao poder, \u00e0 guerra e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da Alemanha. <\/p>\n<p> Na sua opini\u00e3o, \u00abo Estado Tribal deve agir de modo a que tudo gire em torno da ra\u00e7a (\u2026) providenciar para que apenas \u00e0s pessoas sadias seja conferido o direito de procriar\u00bb.<\/p>\n<p>Caberia aos arianos (os alem\u00e3es seriam o seu ramo mais puro) dominar o mundo, mas as decis\u00f5es seriam tomadas por um s\u00f3 homem. Somente ele (Hitler), liderando o povo predestinado, \u00abpoder\u00e1 exercer a autoridade e o direito de comando\u00bb. <\/p>\n<p> <strong> <\/p>\n<p> A NOVA ORDEM<\/strong><\/p>\n<p>O que parecia uma impossibilidade absoluta aconteceu. E n\u00e3o \u00e9 surpreendente que, ao tomar o poder com a aprova\u00e7\u00e3o do Reichstag, Hitler tenha principiado a levar \u00e0 pr\u00e1tica, a Nova Ordem que idealizara.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o da cultura alem\u00e3 e mundial, acumulada durante s\u00e9culos, surgiu-lhe como necessidade.<\/p>\n<p>As fogueiras de obras cl\u00e1ssicas foram realizadas nas pra\u00e7as p\u00fablicas com o aplauso da juventude nazi e a indiferen\u00e7a do novo Ex\u00e9rcito, a Wehrmacht. Os livros de autores como Heine, Thomas Mann, Einstein, Freud, Proust, Gide, Zola, H.G.Wells foram queimados perante multid\u00f5es entusiasmadas. Dirigindo-se aos estudantes, Goebells, ministro da Propaganda comentou: \u00abEstas chamas n\u00e3o s\u00f3 iluminam o final de uma velha era, mas lan\u00e7am luzes sobre a nova\u00bb.<\/p>\n<p>Nas universidades os programas de nazifica\u00e7\u00e3o inclu\u00edram o ensino daquilo a que chamavam \u00aba f\u00edsica alem\u00e3, a qu\u00edmica alem\u00e3, a matem\u00e1tica alem\u00e3\u00bb. Na revista Deutsche Mathematik um editorial proclamou que a recusa de considerar a matem\u00e1tica racialmente continha \u00abos germes da destrui\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia alem\u00e3\u00bb.<\/p>\n<p>Para Hitler, os judeus e os eslavos, sobretudo os polacos e os russos eram uma \u00abesc\u00f3ria humana\u00bb.<\/p>\n<p>Para os primeiros concebeu a solu\u00e7\u00e3o final, ou seja o exterm\u00ednio. Quanto aos eslavos, via neles um g\u00e9nero de escravos de novo tipo.<\/p>\n<p>O general Halder, que era ent\u00e3o o chefe do Estado Maior General da Wehrmacht, registou no seu di\u00e1rio, publicado ap\u00f3s a guerra \u2013 uma conversa que manteve dias ap\u00f3s a invas\u00e3o da Pol\u00f3nia com o general Eduard Wagner \u2013 que discutira com Hitler o futuro daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00abDeve-se impedir, informou Wagner que a classe culta se estabele\u00e7a como classe dirigente. Deve-se manter um baixo padr\u00e3o de vida. Escravos baratos\u2026\u00bb<\/p>\n<p>Heydrich, o lugar-tenente de Himmler, comunicou ao general Wagner que era preciso \u00ablimpar a casa dos judeus, e da classe culta, da nobreza e do clero\u00bb.<\/p>\n<p>Hanz Frank, nomeado governador da \u00e1rea do pa\u00eds n\u00e3o anexada ao Reich, declarou ao tomar posse do cargo: \u00abOs polacos dever\u00e3o ser escravos do Reich alem\u00e3o\u00bb. E, dirigindo-se a um jornalista nazi, afirmou: \u00abSe eu ordenasse que fossem afixados cartazes por cada sete polacos fuzilados n\u00e3o haveria florestas suficientes na Pol\u00f3nia para a fabrica\u00e7\u00e3o de papel para esses cartazes\u00bb<\/p>\n<p>Em l943, em Poznan, na Pol\u00f3nia, Himmler, num discurso oficial, declarou aos jovens oficiais das SS: <\/p>\n<p> \u00abSe 10.000 mulheres russas ca\u00edrem exaustas ao cavarem fossos anti\u2013 tanques, interessa-me somente que esses fossos sejam terminados para a Alemanha.\u00bb<\/p>\n<p>Em 2 de Outubro de 1940, Hitler, num relat\u00f3rio secreto, escreveu: \u00abDeve haver apenas um senhor para os polacos, um alem\u00e3o (\u2026) Todos os representantes da classe culta polaca, t\u00eam, portanto, de ser exterminados. Isso parece crueldade, mas \u00e9 a lei da vida.\u00bb<\/p>\n<p>Foi, por\u00e9m, na URSS que a barb\u00e1rie nazi atingiu o auge.<\/p>\n<p>Em 16 de Julho de 1941, poucas semanas ap\u00f3s a invas\u00e3o, Hitler, no seu quartel-general, dirigindo-se os marechais do Reich, declarou: \u00abToda a Regi\u00e3o do B\u00e1ltico ter\u00e1 de ser incorporada \u00e0 Alemanha. Todos os estrangeiros ter\u00e3o de ser evacuados da Crimeia que ser\u00e1 colonizada somente por alem\u00e3es e se transformar\u00e1 em territ\u00f3rio do Reich (\u2026) O Fuehrer arrasar\u00e1 Leninegrado e entreg\u00e1-la \u2013 \u00e1 depois aos finlandeses.\u00bb<\/p>\n<p>Falando com Ciano, genro de Mussolini, Goering afirmou: \u00abEste ano morrer\u00e3o de fome na R\u00fassia entre vinte a trinta milh\u00f5es de pessoas\u00bb.<\/p>\n<p>Em Setembro de 44 trabalhavam para o Reich sete milh\u00f5es e meio de estrangeiros, submetidos a um regime de escravid\u00e3o. Nas deporta\u00e7\u00f5es para trabalhos for\u00e7ados as mulheres eram separadas dos maridos e os filhos dos pais. Generais da Wehrmacht colaboravam no sequestro de crian\u00e7as que eram enviadas para a Alemanha.<\/p>\n<p>Num campo da Krup, na Ren\u00e2nia, os franceses que o ocuparam em 1945 encontraram trabalhadores que dormiam em canis, mict\u00f3rios e antigos fornos. \u00c9 \u00fatil recordar que as autoridades americanas permitiram anos depois que a fam\u00edlia de Gustav Krup von Bohlen julgado como criminoso de guerra em Nuremberg \u2013 recuperasse anos depois a sua imensa fortuna.<\/p>\n<p>Os prisioneiros de guerra sovi\u00e9ticos foram tratados como animais. Dois milh\u00f5es morreram no cativeiro alem\u00e3o, de fome, frio e doen\u00e7as. Segundo Rosenberg, o fil\u00f3sofo oficial do nazismo, \u00abquanto mais prisioneiros morrerem melhor para n\u00f3s\u00bb.<\/p>\n<p><strong>OS CAMPOS DE EXTERM\u00cdNIO<\/strong><\/p>\n<p>Em todos os pa\u00edses ocupados, a Wehrmacht, e sobretudo as SS, cometeram crimes monstruosos, massacrando milh\u00f5es de pessoas. Tornaram-se s\u00edmbolos da barb\u00e1rie nazi duas aldeias, a checa Lidice, e a francesa Oradour sur Glane. Em ambas os moradores foram abatidos como gado.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas sobre a dimens\u00e3o do massacre de civis nos pa\u00edses ocupados, mas somente na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica o total de v\u00edtimas \u00e9 avaliado em alguns milh\u00f5es. As novas gera\u00e7\u00f5es quase desconhecem a hist\u00f3ria verdadeira dos campos de exterm\u00ednio, Vernichtunggslager, porque o tema \u00e9 inc\u00f3modo para as classes dominantes dos EUA e da Uni\u00e3o Europeia, que preferem falsificar a hist\u00f3ria da URSS nas suas campanhas anti-comunistas.<\/p>\n<p>Somente na Pol\u00f3nia foram instalados cinco &#8211; Aushwitz, Treblinka, Belsec, Sibibor e Chelmno \u2013 que adquiriram sinistra celebridade.<\/p>\n<p>Visitei Aushwitz em 1981 e, transcorridas quase tr\u00eas d\u00e9cadas, guardo lembran\u00e7a inapag\u00e1vel das horas de ang\u00fastia que passei no campo medonho, hoje transformado em museu.<\/p>\n<p>Quantos foram assassinados ali? N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas confi\u00e1veis porque os registos foram destru\u00eddos quando as vanguardas do Ex\u00e9rcito Vermelho se aproximavam. R. Hoess, ex-comandante do campo, ao depor em Nuremberg, como criminoso, avaliou em 3 milh\u00f5es o total dos prisioneiros ali mortos.<\/p>\n<p>Recordo que ao regressar a Vars\u00f3via, na lenta viagem nocturna, n\u00e3o consegui trocar mais de meia d\u00fazia de palavras com o tradutor que me acompanhava.<\/p>\n<p>Aushwitz \u00e9 inimagin\u00e1vel. Semanas depois, quando escrevi um artigo sobre aquela jornada no templo dos horrores nazis senti uma dificuldade enorme em encontrar palavras para expressar emo\u00e7\u00f5es e ideias. Porque Aushwitz, museu que ilumina facetas obscuras da degrada\u00e7\u00e3o humana, coloca-nos perante a quase impossibilidade de palavras criadas por humanos transmitirem o que se sente ao descobrir o que ali aconteceu.<\/p>\n<p>Diariamente nas c\u00e2maras de g\u00e1s eram abatidos 6.000 prisioneiros.<\/p>\n<p>O aspecto do lugar n\u00e3o \u00e9 o que tinha em 1944.<\/p>\n<p>Antes, relvados com flores encimavam as c\u00e2maras.<\/p>\n<p>Uma n\u00e1usea quase me fez vomitar quando o guia, falando com lentid\u00e3o, informou que uma orquestra de belas jovens vestidas de branco e azul recebia os prisioneiros \u00e0 entrada das c\u00e2maras executando trechos de operetas vienenses e francesas.<\/p>\n<p>Era ao som dessas melodias que as v\u00edtimas cruzavam a porta na convic\u00e7\u00e3o de que iriam tomar \u00abum duche\u00bb.<\/p>\n<p>Fechada a porta, serventes de turno abriam os respiradouros, invis\u00edveis nos relvados, e os cristais de Zyklon B (acido pr\u00fassico), produzido por empresas associadas da gigante da industria qu\u00edmica I B Farben, eram introduzidos na c\u00e2mara e transformavam-se no g\u00e1s letal.<\/p>\n<p>Quando os carrascos SS, que observavam tudo por vigias envidra\u00e7adas, conclu\u00edam que a matan\u00e7a, r\u00e1pida, findara, a porta era aberta.<\/p>\n<p>Prisioneiros \u2013 abatidos posteriormente \u2013 removiam os cad\u00e1veres. Em Aushwitz, ao contr\u00e1rio de outros campos, as SS pretendiam evitar \u00abpor motivos humanit\u00e1rios\u00bb que os prisioneiros soubessem que iriam ser gaseados.<\/p>\n<p>Shriver cita o depoimento de Reitlinger, uma testemunha da \u00abopera\u00e7\u00e3o de limpeza\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abA primeira tarefa deles consistia em remover o sangue e as fezes antes de separar e arrastar com cordas e ganchos aqueles corpos agarrados uns aos outros, prel\u00fadio da busca ao ouro e da remo\u00e7\u00e3o dos dentes e cabelos, considerados materiais estrat\u00e9gicos pelos alem\u00e3es. Depois, o transporte, em elevador ou vag\u00e3o, para os fornos, o moinho que os reduzia a cinzas muito finas e o cami\u00e3o que as espalhava nas aguas do Sola\u00bb.<\/p>\n<p>As cinzas, contudo, tamb\u00e9m eram utilizadas como fertilizantes. O ouro dos dentes era depositado no Reichsbank, numa conta especial das SS.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o dos fornos cremat\u00f3rios, segundo ampla documenta\u00e7\u00e3o existente nos arquivos do Reich, era atribu\u00edda por concurso a empresas que sabiam a que fim eles se destinavam.<\/p>\n<p>Mas quando o n\u00famero de execu\u00e7\u00f5es aumentou, as c\u00e2maras de g\u00e1s e os fornos n\u00e3o podiam ultrapassar a capacidade m\u00e1xima para que estavam programadas. As SS recorreram ent\u00e3o, paralelamente, a fuzilamentos em massa. Os cad\u00e1veres eram depois lan\u00e7ados em grandes fossas, a\u00ed queimados, e, depois, bulldozers, cobriam tudo com terra.<\/p>\n<p>\u00c9 insignificante hoje o n\u00famero de jovens que nos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia e nos EUA tem uma no\u00e7\u00e3o, mesmo superficial, do que foram os campos de exterm\u00ednio do III Reich. Os programas de Hist\u00f3ria nas escolas, com poucas excep\u00e7\u00f5es, s\u00e3o omissos a respeito do assunto. O apagamento da mem\u00f3ria no tocante aos crimes do fascismo \u00e9 a regra.<\/p>\n<p>Mas sobreviventes da minha gera\u00e7\u00e3o, prestes a desaparecer, aqueles que visitaram Aushwitz, n\u00e3o podem esquecer o que ali viram e ouviram evocar.<\/p>\n<p>Em noites de ins\u00f3nia revejo-me a caminhar pelas salas do museu de horrores. Imposs\u00edvel esquecer os espa\u00e7os envidra\u00e7ados onde se acumulavam milhares de sapatos das crian\u00e7as que as SS gaseavam, e os cabelos de mulheres, cortados minutos antes de serem introduzidas nas c\u00e2maras da morte. Recordo ent\u00e3o tamb\u00e9m, com nitidez, a macabra exposi\u00e7\u00e3o de objectos e \u00abprodutos\u00bb que alguns prisioneiros eram ali obrigados a fabricar, como margarina confeccionada com gordura humana, abat-jours de candeeiros cuja mat\u00e9ria foi a pele de pessoas exterminadas no campo.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel \u2013 repito \u2013 esquecer. <\/p>\n<p> <strong> <\/p>\n<p> CONSPIRA\u00c7\u00d5ES <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um facto que na Alemanha houve desde a ascens\u00e3o de Hitler ao Poder gente que se op\u00f4s ao nazismo. Mas na pr\u00e1tica somente os comunistas o combateram frontalmente. O pre\u00e7o dessa resist\u00eancia foi ali\u00e1s muito alto. Thalmann, o secret\u00e1rio-geral do Partido, morreu num campo de concentra\u00e7\u00e3o. Na burguesia, o n\u00edvel da conspira\u00e7\u00e3o contra o regime foi sempre baixo, o que explica o desconhecimento pela Gestapo das actividades de altas personalidades que, mesmo antes de Munique, se reuniam com os objectivos de derrubar Hitler para evitar a guerra.<\/p>\n<p>Mas foi somente ap\u00f3s Stalinegrado que nas For\u00e7as Armadas surgiu uma organiza\u00e7\u00e3o conspirativa que se propunha a eliminar Hitler. A ela aderiram marechais e generais da Wehrmacht e o pr\u00f3prio chefe de estado-maior general, o general Halder.<\/p>\n<p>Muitos desses oficiais tinham durante anos apoiado Hitler sem restri\u00e7\u00f5es. Quando a derrota do Reich lhes apareceu como inevit\u00e1vel, conclu\u00edram que somente eliminando Hitler se impediria a destrui\u00e7\u00e3o total do pa\u00eds. Acreditavam ingenuamente que poderiam negociar uma paz satisfat\u00f3ria pelo menos com a Gr\u00e3-Bretanha e os EUA.<\/p>\n<p>O atentado contra o Fuhrer, em 20 Julho de 1944, no Quartel-general de Rastenburg, na Pr\u00fassia Oriental, foi preparado minuciosamente com muita anteced\u00eancia. Mas fracassou devido a um imprevisto, porque a pasta que continha a bomba foi desviada do lugar onde o coronel Stauffenberg a tinha colocado, perto de Hitler.<\/p>\n<p>A Alemanha entrara na agonia e o pr\u00f3prio Quartel-general foi apressadamente transferido para Berlim.<\/p>\n<p>Mas a repress\u00e3o assumiu propor\u00e7\u00f5es gigantescas, sem precedentes na breve hist\u00f3ria do Reich. Atingiu tr\u00eas marechais Witzleben, Kluge e Rommel \u2013 e o general Beck, ex-chefe do Estado-maior. O primeiro foi enforcado, os outros foram obrigados a suicidar-se. Os chamados Tribunais do Povo condenaram \u00e0 for\u00e7a ou ao fuzilamento, em julgamentos de farsa, milhares de militares e civis implicados na conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo uma fonte citada por William Shriver, a Gestapo prendeu 7.000 pessoas e da lista de condenados \u00e0 morte constam 4.980 nomes, entre os quais os do almirante Canaris, chefe da Abwehr, e os de dezenas de generais e oficias superiores.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de todos os historiadores do Reich, a perturba\u00e7\u00e3o mental de Hitler, que se acentuara ap\u00f3s as \u00faltimas derrotas militares agravou-se muito a partir do atentado de Julho.<\/p>\n<p><strong>EP\u00cdLOGO DA TRAG\u00c9DIA<\/strong><\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas da guerra, todos os hierarcas do Reich estavam conscientes de que a guerra estava perdida e prestes a findar com a tomada de Berlim. Excepto Hitler. Doente, desesperado, mergulhara num estado de histeria permanente, imaginando planos loucos de vit\u00f3ria. Acreditava que as V1 e V2, as bombas voadoras, destruiriam Londres (as rampas de lan\u00e7amento j\u00e1 haviam sido destru\u00eddas pela Royal Air Force) e que os primeiros avi\u00f5es de combate a jacto varreriam dos c\u00e9us a avia\u00e7\u00e3o anglo-americana (a maioria desses ca\u00e7as pioneiros foram destru\u00eddos no solo pelos bombardeamentos).<\/p>\n<p>Hitler emitia as ordens mais estapaf\u00fardias, admitindo inclusive que o cerco de Berlim findaria com a chegada do ex\u00e9rcito do general Steiner (que j\u00e1 se desintegrara). Mas ningu\u00e9m, ent\u00e3o, o escutava.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias acusou de trai\u00e7\u00e3o Goering e Himmler. A 30 de Abril suicidou-se no bunker da chancelaria.<\/p>\n<p>Como foi poss\u00edvel \u2013 insisto \u2013 que tal homem tomasse o Poder na Alemanha, instaurasse nela um regime de terror e desencadeasse a mais mort\u00edfera guerra da Hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel \u2013 coloco a quest\u00e3o \u2013 que governantes e intelectuais que se apresentam como paladinos da liberdade e da democracia se empenhem hoje em deformar e falsificar a Hist\u00f3ria, esfor\u00e7ando-se por apagar a mem\u00f3ria do fascismo reichiano, enquanto tudo fazem para satanizar o socialismo (e o comunismo), \u00fanica alternativa \u00e0 barb\u00e1rie do capitalismo em crise?<\/p>\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel que os governos e os grandes media da Europa assistam com indiferen\u00e7a \u00e0 ascens\u00e3o na Holanda, na \u00c1ustria e nos pa\u00edses b\u00e1lticos de organiza\u00e7\u00f5es fascistas e despejem cal\u00fanias contra os trabalhadores gregos que lutam nas ruas em defesa dos seus direitos?<\/p>\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel que dezenas de milh\u00f5es de norte-americanos manifestem apre\u00e7o pela pol\u00edtica do governo neofascista da Col\u00f4mbia, aceitem passivamente o bloqueio a Cuba e expressem simpatia pela hist\u00e9rica campanha contra a Ilha socialista transformada, de repente, em assunto do dia? <\/p>\n<p> <em> <\/p>\n<p> (1) Todas as cita\u00e7\u00f5es deste artigo foram extra\u00eddas do livro de William Shirer.<\/em><\/p>\n<p><em>V.N. de Gaia, 23 de Mar\u00e7o de 2010. <\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=1538\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=1538<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: pt.wikipedia.org\n\n\n\n\nMiguel Urbano Rodrigues\nNeste texto, Miguel Urbano Rodrigues fala-nos dum tempo, o presente, \u201cem que na Rep\u00fablica Checa tentam proibir o Partido Comunista, e em Riga a direita desfila prestando homenagem aos let\u00f5es que combateram nas SS de Hitler contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a imprensa \u00abbem pensante\u00bb, que se apresenta como democr\u00e1tica e anti-comunista, mant\u00e9m um sil\u00eancio praticamente total sobre os crimes do fascismo\u201d.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/375\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-375","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-63","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=375"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}