{"id":3775,"date":"2012-10-30T16:18:08","date_gmt":"2012-10-30T16:18:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3775"},"modified":"2017-08-25T00:55:34","modified_gmt":"2017-08-25T03:55:34","slug":"fatos-e-mitos-dos-governos-progressistas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3775","title":{"rendered":"Fatos e mitos dos governos progressistas no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>QUARTA, 24 DE OUTUBRO DE 2012<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o da realidade brasileira requer o esfor\u00e7o cr\u00edtico de contrastar a apar\u00eancia dos fen\u00f4menos e a forma como s\u00e3o interpretados pelo senso comum com a sua ess\u00eancia mais profunda, definida pelo sentido das transforma\u00e7\u00f5es inscritas no<\/p>\n<p>movimento hist\u00f3rico. Tal contraste revelar\u00e1 o abismo existente entre o mito de que o Brasil vive um surto de desenvolvimento, liderado por um governo de esquerda que teria criado condi\u00e7\u00f5es para combinar crescimento, combate \u00e0s desigualdades sociais e soberania nacional, e a dram\u00e1tica realidade de uma sociedade impotente para enfrentar as for\u00e7as externas e internas que a submetem aos terr\u00edveis efeitos do desenvolvimento desigual e combinado em tempos de crise econ\u00f4mica do sistema capitalista mundial.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de que a economia brasileira vive um momento \u00edmpar de sua hist\u00f3ria apoia-se em diversos elementos da realidade. Afinal, ap\u00f3s duas d\u00e9cadas de estagna\u00e7\u00e3o, entre 2003 e 2011, a renda\u00a0per capita dos brasileiros cresceu \u00e0 taxa m\u00e9dia de 2,8% ao ano. Nesse per\u00edodo, o pa\u00eds manteve a infla\u00e7\u00e3o sob controle e, salvo a turbul\u00eancia do \u00faltimo trimestre de 2008, no \u00e1pice da crise internacional, n\u00e3o sofreu nenhuma amea\u00e7a de estrangulamento cambial. Desde a segunda metade da primeira d\u00e9cada do mil\u00eanio, o volume de divisas internacionais supera o estoque de d\u00edvida externa com os bancos internacionais, configurando uma situa\u00e7\u00e3o na qual o Brasil aparece como credor internacional, dando a impress\u00e3o de que, finalmente, os problemas cr\u00f4nicos com as contas externas teriam sido superados. A popula\u00e7\u00e3o sentiu os efeitos da nova conjuntura de maneira bem palp\u00e1vel. Ap\u00f3s d\u00e9cadas de demanda reprimida, o aumento da massa salarial e o acesso ao cr\u00e9dito provocaram uma corrida ao consumo. O governo calcula que o n\u00famero de empregos gerados no per\u00edodo Lula \u2013 2003-2010 \u2013 tenha ultrapassado 14 milh\u00f5es. Associando grandes neg\u00f3cios, crescimento econ\u00f4mico, aumento do emprego e moderniza\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de consumo \u00e0 no\u00e7\u00e3o de desenvolvimento, a nova conjuntura \u00e9 apresentada como demonstra\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca de que o Brasil teria, finalmente, criado condi\u00e7\u00f5es objetivas para um desenvolvimento capitalista autossustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a ideia de que o crescimento econ\u00f4mico teria melhorado a desigualdade social encontra certo respaldo nos fatos. Ap\u00f3s d\u00e9cadas de absoluto imobilismo, no governo Lula, o \u00edndice de Gini, que mede o grau de concentra\u00e7\u00e3o pessoal de renda, diminuiu um pouco; e a dist\u00e2ncia entre a renda m\u00e9dia dos 10% mais pobres e a dos os 10% mais ricos do pa\u00eds foi reduzida, de 53 vezes em 2002, para 39 vezes em 2010. As autoridades vangloriam-se de que, nesse per\u00edodo, mais de 20 milh\u00f5es de brasileiros teriam deixado a pobreza. Tais fatos levaram a presidente Dilma a pavonear que o Brasil teria se transformado num pa\u00eds de \u201cclasse m\u00e9dia\u201d. Al\u00e9m de consequ\u00eancia direta da retomada do crescimento, a melhoria nos indicadores sociais \u00e9 associada: \u00e0 pol\u00edtica de recupera\u00e7\u00e3o em 60% no valor real do sal\u00e1rio m\u00ednimo entre 2003 e 2010 \u2013 tend\u00eancia que j\u00e1 havia come\u00e7ado no governo conservador de Fernando Henrique Cardoso; \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o da cobertura de previd\u00eancia social para os trabalhadores rurais \u2013 conquista da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988; e \u00e0 pol\u00edtica social do governo federal, notadamente a Bolsa Fam\u00edlia \u2013 programa de transfer\u00eancia de renda para a popula\u00e7\u00e3o carente que, em 2010 atendia cerca de 13 milh\u00f5es de fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Por fim, o sentimento relativamente generalizado, no Brasil e no exterior, de que o pa\u00eds teria adquirido maior relev\u00e2ncia no cen\u00e1rio internacional tamb\u00e9m se apoia em fatos concretos, tais como: o fracasso da ALCA (em parte devido \u00e0 resist\u00eancia do governo brasileiro); o peso do Brasil no Mercosul; o papel moderador da diplomacia brasileira nas escaramu\u00e7as da Am\u00e9rica do Sul; a participa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds no restrito grupo do G-20, que re\u00fane as principais economias do mundo a fim de pensar pol\u00edticas para administrar a crise econ\u00f4mica mundial; a forma\u00e7\u00e3o do foro que re\u00fane os chamados BRICs \u2013 Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia e China -, que congrega as maiores economias emergentes, como suposto contraponto ao G-5 \u2013 o foro das pot\u00eancias imperialistas. A escolha do Brasil para sede de dois grandes megaeventos \u2013 a Copa do Mundo de 2014 e as Olimp\u00edadas de 2016 &#8211; seria a prova material do grande prest\u00edgio do Brasil.<\/p>\n<p>Por mais convincentes que os fatos enunciados pare\u00e7am, o m\u00e9todo de ressaltar os aspectos positivos e esconder os negativos oferece uma vis\u00e3o parcial e distorcida da realidade. Pin\u00e7ando arbitrariamente os elementos postos em evid\u00eancia e ocultando os que n\u00e3o conv\u00e9m colocar \u00e0 luz, a apologia da ordem distorce a compreens\u00e3o do verdadeiro significado do padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o que impulsiona a economia brasileira, suprimindo as contradi\u00e7\u00f5es que germinam nas suas entranhas. O mito de que o Brasil estaria vivendo um surto de desenvolvimento que abriria a possibilidade de supera\u00e7\u00e3o da pobreza e da depend\u00eancia externa simplesmente ignora a fragilidade das bases que sustentam o ciclo expansivo dos \u00faltimos anos e seu efeito perverso de refor\u00e7ar a dupla articula\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pelo car\u00e1ter selvagem do capitalismo brasileiro: o controle do capital internacional sobre a economia nacional e a segrega\u00e7\u00e3o social como base da sociedade brasileira. Alguns fatos s\u00e3o suficientes para deixar patente a verdadeira natureza do modelo econ\u00f4mico brasileiro.<\/p>\n<p>O crescimento da economia brasileira entre 2003 e 2011 n\u00e3o foi nada de excepcional \u2013 apenas 3,6% ao ano \u2013, bem abaixo do que seria necess\u00e1rio para absorver o aumento vegetativo da for\u00e7a de trabalho \u2013 estimado em cerca de 5% ao ano \u2013, pouco acima do crescimento m\u00e9dio da economia latino-americana. A expans\u00e3o foi determinada pela configura\u00e7\u00e3o de uma conjuntura internacional\u00a0sui generis, que permitiu ao Brasil \u201csurfar\u201d na bolha especulativa gerada pela pol\u00edtica de administra\u00e7\u00e3o da crise dos governos das economias centrais. De fato, o crescimento foi puxado pelo aumento das exporta\u00e7\u00f5es, impulsionado pela eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os das commodities, e pela relativa recupera\u00e7\u00e3o do mercado interno, o que s\u00f3 foi poss\u00edvel porque a abund\u00e2ncia de liquidez internacional criou a possibilidade de uma pol\u00edtica econ\u00f4mica um pouco menos restritiva. No entanto, a conjuntura mais favor\u00e1vel n\u00e3o foi aproveitada para uma recupera\u00e7\u00e3o dos investimentos \u2013 a base do crescimento end\u00f3geno. Nesse per\u00edodo, a m\u00e9dia da taxa de investimento ficou abaixo de 17% do PIB \u2013 pouco acima da verificada nos oito anos do governo anterior e bem abaixo do patamar hist\u00f3rico da economia brasileira entre 1970 e 1990.<\/p>\n<p>A nova rodada de moderniza\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de consumo somente alcan\u00e7ou uma restrita parcela da popula\u00e7\u00e3o e, mesmo assim, na sua maioria, com produtos sup\u00e9rfluos de baix\u00edssima qualidade. N\u00e3o poderia ser diferente, pois, assim como uma pessoa pobre n\u00e3o disp\u00f5e de condi\u00e7\u00f5es materiais para reproduzir o gasto de uma pessoa rica, a diferen\u00e7a de pelo menos cinco vezes na renda\u00a0per capita brasileira em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 renda\u00a0per capita das economias centrais n\u00e3o permite que o estilo de vida das sociedades afluentes seja generalizado para o conjunto da popula\u00e7\u00e3o. Para as camadas populares incorporadas ao mercado consumidor o custo foi alt\u00edssimo e ser\u00e1 pago com grandes sacrif\u00edcios em algum momento no futuro. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ser um g\u00eanio em matem\u00e1tica financeira para perceber que a corrida das fam\u00edlias pobres \u00e0s compras n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel. A cobran\u00e7a de taxas de juros reais verdadeiramente estratosf\u00e9ricas, em total assimetria com a evolu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios reais, implica em verdadeira servid\u00e3o por d\u00edvida, caracterizada pelo crescente peso dos juros e amortiza\u00e7\u00f5es na renda familiar. O aumento artificial da propens\u00e3o a consumir das fam\u00edlias \u00e9 um problema macroecon\u00f4mico grave. Quando a \u201cbolha especulativa\u201d estourar, n\u00e3o apenas as press\u00f5es recessivas tendem a ser potencializadas, como o crescente endividamento das fam\u00edlias pobres converter-se-\u00e1 numa grave crise banc\u00e1ria.<\/p>\n<p>A subordina\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0l\u00f3gica dos neg\u00f3cios do capital internacional tem provocado um processo de especializa\u00e7\u00e3o regressiva da economia brasileira na divis\u00e3o internacional do trabalho. A revitaliza\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio como for\u00e7a motriz do padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o refor\u00e7a o papel estrat\u00e9gico do latif\u00fandio. A import\u00e2ncia crescente do extrativismo mineral, potencializada pela descoberta de petr\u00f3leo na camada do pr\u00e9-sal, intensifica a explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria das vantagens competitivas naturais do territ\u00f3rio brasileiro. Por fim, a falta de competitividade din\u00e2mica (baseada em inova\u00e7\u00f5es) para enfrentar as economias desenvolvidas assim como a insuficiente competitividade esp\u00faria (baseada em sal\u00e1rio baixo) para fazer face \u00e0s economias asi\u00e1ticas levam a um processo irrevers\u00edvel de desindustrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A regress\u00e3o nas for\u00e7as produtivas vem acompanhada de progressiva perda de autonomia dos centros internos de decis\u00e3o sobre o processo de acumula\u00e7\u00e3o. A exposi\u00e7\u00e3o do Brasil \u00e0s opera\u00e7\u00f5es especulativas do capital internacional tem intensificado a desnacionaliza\u00e7\u00e3o da economia brasileira e aumentado de maneira assustadora a sua vulnerabilidade externa. A trajet\u00f3ria explosiva do passivo externo, composto pela d\u00edvida externa com bancos internacionais e pelo estoque de investimentos estrangeiros no Brasil, evidencia a absoluta falta de sustentabilidade de um padr\u00e3o de financiamento do balan\u00e7o de pagamentos que, para n\u00e3o entrar em colapso, depende da crescente entrada de capital internacional. A magnitude do problema pode ser aquilatada pela dimens\u00e3o do passivo externo financeiro l\u00edquido \u2013 que contempla apenas recursos de estrangeiros de alt\u00edssima liquidez prontos para deixar o pa\u00eds, j\u00e1 descontadas as reservas cambiais \u2013, de US$ 542 bilh\u00f5es no final de 2011. Diante disso, h\u00e1 sempre a amea\u00e7a inescap\u00e1vel de que, quando o sentido do fluxo de capitais externos for invertido, tudo o que, hoje, parece s\u00f3lido, amanh\u00e3, se desmanche no ar, fazendo com que, de uma hora para outra, os empregos gerados desapare\u00e7am, o n\u00famero de pobres volte a crescer e o pa\u00eds volte a amargar draconianos programas de ajuste estrutural impostos pelos organismos financeiros internacionais.<\/p>\n<p>O substrato do modelo econ\u00f4mico brasileiro repousa, em \u00faltima inst\u00e2ncia, na crescente explora\u00e7\u00e3o do trabalho \u2013 a verdadeira galinha dos ovos de ouro do capitalismo brasileiro. A gritante discrep\u00e2ncia entre os ganhos de produtividade do trabalho e a evolu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios p\u00f5e em evid\u00eancia que, mesmo numa conjuntura relativamente favor\u00e1vel, o progresso n\u00e3o beneficiou os trabalhadores. N\u00e3o \u00e0 toa, a propaganda oficial omite o fato de que, no final do governo Lula, o sal\u00e1rio m\u00e9dio dos ocupados permanecia praticamente estagnado no mesmo n\u00edvel de 1995. A perversidade do padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o em curso fica patente quando se leva em considera\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia de quase quatro vezes entre o sal\u00e1rio m\u00ednimo efetivamente pago aos trabalhadores e o sal\u00e1rio m\u00ednimo estipulado pela Constitui\u00e7\u00e3o brasileira e calculado pelo Dieese.<\/p>\n<p>Posto em perspectiva hist\u00f3rica, os governos progressistas aprofundaram o processo de flexibiliza\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Nos anos Lula, a jornada m\u00e9dia do trabalhador brasileiro foi de 44 horas, eleva\u00e7\u00e3o de uma hora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia dos oito anos anteriores. A situa\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1vel da economia tamb\u00e9m n\u00e3o impediu que a rotatividade do trabalho continuasse em eleva\u00e7\u00e3o, nem significou uma revers\u00e3o da informalidade em que se encontra praticamente metade dos ocupados. O aumento do emprego tamb\u00e9m veio acompanhado de um aprofundamento do processo de deteriora\u00e7\u00e3o da qualidade dos v\u00ednculos contratuais dos trabalhadores com as empresas, com a dissemina\u00e7\u00e3o de formas esp\u00farias de subcontrata\u00e7\u00e3o. Calcula-se que 1\/3 dos empregos gerados no per\u00edodo foram para trabalhadores terceirizados, hoje mais de 10 milh\u00f5es de postos de trabalho, isto \u00e9, quase 1\/5 do total dos empregados. Por fim, cabe ressaltar a complac\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho infantil. No final da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, este trabalho continuou vitimando cerca de 1,4 milh\u00e3o de crian\u00e7as brasileiras \u2013 contingente equivalente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de Trinidad Tobago.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o apolog\u00e9tica de que os governos de Lula e Dilma est\u00e3o empenhados no combate \u00e0s desigualdades sociais n\u00e3o leva em conta a rela\u00e7\u00e3o de causalidade \u2013 h\u00e1 d\u00e9cadas desvendada pelo pensamento cr\u00edtico latino-americano \u2013 entre: mimetismo dos padr\u00f5es de consumo das economias centrais, desemprego estrutural e tend\u00eancia \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o da renda &#8211; fen\u00f4menos t\u00edpicos do capitalismo dependente. Na realidade, as tend\u00eancias estruturais respons\u00e1veis pela perpetua\u00e7\u00e3o da pobreza e da desigualdade social n\u00e3o foram alteradas. Mesmo com a expressiva amplia\u00e7\u00e3o dos empregos, aproximadamente 40% da for\u00e7a de trabalho brasileira ainda permanece desempregada ou subempregada, isto \u00e9, sem renda de trabalho ou com trabalho que remunera menos do que um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Nessas condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o surpreende que a concentra\u00e7\u00e3o funcional da renda, que mede a divis\u00e3o da renda entre sal\u00e1rio e lucro, tenha permanecido praticamente inalterada durante o governo Lula num dos piores patamares do mundo. A pequena melhoria na distribui\u00e7\u00e3o pessoal da renda (que mede a reparti\u00e7\u00e3o da massa salarial), apontada como prova cabal do processo de \u201cinclus\u00e3o\u201d social, na realidade apenas registra uma ligeira diminui\u00e7\u00e3o no grau de concentra\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, reduzindo a dist\u00e2ncia entre a renda da m\u00e3o-de-obra qualificada e da n\u00e3o qualificada. A persist\u00eancia de um estoque de pobres da ordem de 30 milh\u00f5es de brasileiros \u2013 contingente superior \u00e0 popula\u00e7\u00e3o do Peru e mais de quatro vezes os habitantes de El Salvador \u2013 revela o total disparate de imaginar o Brasil um pa\u00eds de \u201cclasse m\u00e9dia\u201d, ainda mais quando se leva em considera\u00e7\u00e3o que o fim do ciclo expansivo far\u00e1 a nova \u201cclasse m\u00e9dia\u201d percorrer o caminho de volta para a pobreza.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de que os governos progressistas representam uma mudan\u00e7a qualitativa nas pol\u00edticas sociais n\u00e3o coaduna com as prioridades manifestadas na composi\u00e7\u00e3o dos gastos p\u00fablicos. Convertidos \u00e0\u00a0filosofia da pol\u00edtica compensat\u00f3ria do Banco Mundial, Lula e Dilma passaram a atuar sobre os efeitos dos problemas sociais e n\u00e3o sobre suas causas, contentando-se em minorar o sofrimento do povo, dentro das limitad\u00edssimas possibilidades or\u00e7ament\u00e1rias de uma pol\u00edtica macroecon\u00f4mica pautada pela obsess\u00e3o em preservar o ajuste fiscal permanente. A evolu\u00e7\u00e3o na composi\u00e7\u00e3o do gasto social do governo federal entre 1995 e 2010 comprova que n\u00e3o houve mudan\u00e7as relevantes na pol\u00edtica social de Lula em rela\u00e7\u00e3o a seu antecessor. Nos principais itens de gastos, como, por exemplo, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o relativa dos gastos sociais do governo federal no PIB permaneceu praticamente inalterada. Existem duas exce\u00e7\u00f5es. A primeira diz respeito aos gastos com Previd\u00eancia Social, cujo aumento, como j\u00e1 mencionamos, deve ser atribu\u00eddo basicamente aos efeitos da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. A segunda se refere aos programas assistenciais, que receberam um acr\u00e9scimo de recursos da ordem de 1% do PIB, mais do que o dobro da propor\u00e7\u00e3o destinada pelo governo anterior. Mesmo assim, um volume insignificante quando comparado com os recursos transferidos aos credores da d\u00edvida p\u00fablica &#8211; menos de 1\/3 do super\u00e1vit prim\u00e1rio e menos de 1\/6 do total das despesas do setor p\u00fablico com o pagamento de juros (as quais, entre 2003 e 2010, ficaram em torno de 3,24% do PIB ao ano). Na realidade, o que marca a pol\u00edtica social da era Lula, como a de FHC e seus antecessores, diga-se de passagem, \u00e9 o absoluto imobilismo para superar a enorme dist\u00e2ncia entre os recursos necess\u00e1rios para suprir as car\u00eancias das pol\u00edticas sociais e a disponibilidade efetiva de recursos para financi\u00e1-los.<\/p>\n<p>Mesmo a pol\u00edtica externa, apresentada por alguns como a frente mais ousada da administra\u00e7\u00e3o petista, mal dissimula a subservi\u00eancia aos c\u00e2nones da ordem global e \u00e0s exig\u00eancias do imp\u00e9rio norte-americano. Na busca desesperada por novos mercados e por capitais estrangeiros, a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica foi instrumentalizada para vender o Brasil como se fosse\u00a0commodities pelo mundo afora. Tamb\u00e9m foi fartamente utilizada, principalmente na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1frica, como representante especial de grandes grupos empresariais, basicamente empreiteiras e bancos, em busca de novos mercados nas franjas perif\u00e9ricas do sistema capitalista mundial. O discreto e vacilante apoio a Hugo Ch\u00e1vez, a maior aproxima\u00e7\u00e3o com Cuba, os flertes com o mundo \u00e1rabe e a busca de uma rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mais intensa com a \u00cdndia, a R\u00fassia e a China respondem a interesses comerciais bem concretos e n\u00e3o devem gerar qualquer tipo de ilus\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 articula\u00e7\u00e3o de alternativas que signifiquem um desafio \u00e0 ordem global. Nos f\u00f3runs internacionais, Lula e Dilma transformaram-se em verdadeiros paladinos do liberalismo. Suas interven\u00e7\u00f5es se restringem a cobrar coer\u00eancia neoliberal dos governos dos pa\u00edses ricos \u2013 felizmente, sem nenhuma consequ\u00eancia pr\u00e1tica. Nos bastidores, a diplomacia brasileira transige em seus princ\u00edpios em troca de um eventual assento no Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas. O caso mais vergonhoso foi o envio de tropas ao Haiti para cumprir o pat\u00e9tico papel de gendarme do intervencionismo norte-americano, protegendo um governo ileg\u00edtimo, corrupto e violento.<\/p>\n<p>At\u00e9\u00a0no plano ideol\u00f3gico os governos Lula e Dilma permaneceram perfeitamente enquadrados no ide\u00e1rio do neoliberalismo. A cartilha neoliberal ganhou nova credibilidade no discurso e na pr\u00e1tica de lideran\u00e7as que tinham um passado vinculado \u00e0s lutas sociais, refor\u00e7ando ainda mais os valores e o padr\u00e3o de sociabilidade neoliberal. Ao tomar como um fato consumado as exig\u00eancias da ordem, as lideran\u00e7as pol\u00edticas que deveriam iniciar um processo de transforma\u00e7\u00e3o social acabaram colaborando para refor\u00e7ar a aliena\u00e7\u00e3o do povo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza de seus problemas \u2013 a depend\u00eancia externa e a desigualdade social \u2013, bem como \u00e0s reais alternativas para a sua solu\u00e7\u00e3o \u2013 a luta pela transforma\u00e7\u00e3o social. N\u00e3o \u00e9 de estranhar o refluxo do movimento de massas e o processo de desorganiza\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o que atingiu, sem exce\u00e7\u00e3o, todas as organiza\u00e7\u00f5es populares.<\/p>\n<p>Vistas em perspectiva hist\u00f3rica, as semelhan\u00e7as entre os governos progressistas e conservadores s\u00e3o muito maiores do que as diferen\u00e7as. Dilma, Lula, FHC, Itamar Franco e Collor de Mello fazem parte da mesma fam\u00edlia \u2013 o neoliberalismo -, cada um respons\u00e1vel por um determinado momento do ajuste do Brasil aos imperativos da ordem global. Numa sociedade sujeita a um processo de revers\u00e3o neocolonial, a dist\u00e2ncia entre a esquerda e a direita da ordem \u00e9 pequena porque o raio de manobra da burguesia \u00e9 \u00ednfimo. O grau de liberdade se reduz, basicamente, \u00e0s seguintes op\u00e7\u00f5es: maior ou menor crescimento, num padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o d\u00e1 margem para a expans\u00e3o sustent\u00e1vel do mercado interno; maior ou menor concentra\u00e7\u00e3o de renda, dentro dos limites de uma sociedade marcada pela segrega\u00e7\u00e3o social; maior ou menor participa\u00e7\u00e3o do Estado na economia, dentro de um esquema que impede qualquer possibilidade de pol\u00edticas p\u00fablicas universais; maior ou menor depend\u00eancia externa, dentro de um tipo de inser\u00e7\u00e3o na economia mundial que coloca o pa\u00eds a reboque do capital internacional; e, como consequ\u00eancia, maior ou menor repress\u00e3o \u00e0s lutas sociais, dentro de um regime de \u201cdemocracia restrita\u201d, sob controle absoluto de uma plutocracia que n\u00e3o tolera a emerg\u00eancia do povo como sujeito hist\u00f3rico &#8211; seja pelo recurso ao esmagamento, que caracteriza os governos \u00e0 direita da ordem; seja pelo recurso \u00e0 coopta\u00e7\u00e3o, como fazem os governos que se posicionam \u00e0 esquerda da ordem.<\/p>\n<p>Em suma, a modesta prosperidade material dos \u00faltimos anos, que levou uma parcela da popula\u00e7\u00e3o brasileira a ter acesso aos bens de consumo consp\u00edcuo de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, \u00e9 ef\u00eamera e nociva. A euforia que alimenta a ilus\u00e3o de um neodesenvolvimentismo brasileiro \u00e9 insustent\u00e1vel. Ao solapar as bases materiais, sociais, pol\u00edticas e culturais do Estado nacional, \u201cprogressistas\u201d e \u201cconservadores\u201d s\u00e3o respons\u00e1veis, cada um \u00e0 sua maneira, pelo processo de revers\u00e3o neocolonial que compromete irremediavelmente a capacidade de a sociedade brasileira enfrentar suas mazelas hist\u00f3ricas e controlar seu destino, de modo a definir o sentido, o ritmo e a intensidade do desenvolvimento em fun\u00e7\u00e3o das necessidades do povo e das possibilidades de sua economia.<\/p>\n<p>Pl\u00ednio de Arruda Sampaio J\u00fanior\u00a0\u00e9 professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas \u2013 IE\/UNICAMP e membro do conselho editorial do jornal eletr\u00f4nico Correio da Cidadania \u2013 <a href=\"http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/\" target=\"_blank\">www.correiocidadania.com.br <\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nlh3\n\n\n\n\n\n\n\n\nPL\u00cdNIO DE ARRUDA SAMPAIO J\u00daNIOR\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3775\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-3775","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-YT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3775","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3775"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3775\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3775"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3775"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3775"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}