{"id":3849,"date":"2012-11-13T17:52:32","date_gmt":"2012-11-13T17:52:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3849"},"modified":"2012-11-13T17:52:32","modified_gmt":"2012-11-13T17:52:32","slug":"sandra-ramirez-companheira-de-marulanda-recorda-a-luta-e-sua-vida-ao-lado-guerrilheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3849","title":{"rendered":"Sandra Ram\u00edrez, companheira de Marulanda, recorda a luta e sua vida ao lado guerrilheiro"},"content":{"rendered":"\n<p>Escrito por Hernando Calvo Ospina<\/p>\n<p>Especial para La Jornada<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Foto: H.CALVO. Sandra Ram\u00edrez, nas negocia\u00e7\u00f5es de paz entre as FARC e o governo da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Noto que ela est\u00e1\u00a0nervosa. \u00c9 a primeira vez que concede uma entrevista. Eu a encontrei em Havana. \u00c9 uma das 13 mulheres que formam o grupo de 30 pessoas que negociam com o governo colombiano pelas For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (FARC), na tentativa de um poss\u00edvel \u2013 e ansiado \u2013 processo de paz. Com sua grande sensibilidade, ainda que de uma eleg\u00e2ncia natural, faz parte desses 40% de mulheres combatentes. Suas palavras s\u00e3o acompanhadas pelo movimento das m\u00e3os e pelo brilho de seus olhos negros. Seu nome \u00e9 Sandra Ram\u00edrez, \u00e9 a vi\u00fava do l\u00edder hist\u00f3rico da organiza\u00e7\u00e3o guerrilheira, Manuel Marulanda V\u00e9lez.<\/p>\n<p>Diante de minhas duas primeiras perguntas, responde como se fosse um discurso. Paro o gravador para record\u00e1-la que n\u00e3o fa\u00e7o uma entrevista: quero conversar com ela. Ent\u00e3o, sorri e deixa os olhos vagarem para um lugar distante, come\u00e7a com suas recorda\u00e7\u00f5es e presentes.<\/p>\n<p>\u201cEm 1981, na regi\u00e3o campesina em que vivia com minha fam\u00edlia, os guerrilheiros come\u00e7aram a passar. Meu pai servia de guia para que eles conhecessem a regi\u00e3o. Muito me chamou aten\u00e7\u00e3o o fato de uma mulher estar no comando. Devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas n\u00e3o pude continuar meus estudos secund\u00e1rios e como essa mulher se tornou uma refer\u00eancia para mim, decidi ingressar nas FARC.<\/p>\n<p>Entendi que n\u00e3o existe diferen\u00e7a entre homens e mulheres no combate. Tamb\u00e9m me chamou aten\u00e7\u00e3o que se travasse a luta contra o machismo e pela igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres. O que n\u00e3o era f\u00e1cil, considerando que a maioria dos combatentes s\u00e3o do campo, onde o machismo \u00e9 mais acentuado, al\u00e9m de serem oriundos de uma sociedade capitalista altamente sexista. Nas FARC, criamos mecanismos para romper com esta postura. Essa \u00e9 uma de nossas lutas di\u00e1rias ao lado dos companheiros. Porque nossa luta \u00e9 pela igualdade dos g\u00eaneros e seu bem estar.<\/p>\n<p>\u00c9 esse respeito pela mulher e a possibilidade de que avancemos como pessoas, combatentes e profissionais que faz com que tantas mulheres ingressem em suas fileiras. Aqui oferecemos o que as condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas do pa\u00eds n\u00e3o promovem \u00e0 imensa maioria, muito menos \u00e0s mulheres.<\/p>\n<p>Uma mulher nas FARC cumpre miss\u00f5es e exerce o comando, porque a partir do momento que ingressa na organiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 educada para que tome consci\u00eancia de sua condi\u00e7\u00e3o de pessoa e combatente. Aqui uma mulher pode estudar computa\u00e7\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o, ser m\u00e9dica, enfermeira ou qualquer das especialidades que temos. Aqui a mulher opina e prop\u00f5e, pois as decis\u00f5es das FARC s\u00e3o coletivas.<\/p>\n<p>Claro, n\u00e3o gostamos de perder a feminilidade. Por isso a organiza\u00e7\u00e3o nos d\u00e1 mensalmente, quando as condi\u00e7\u00f5es da guerra e as economias permitem, creme para o corpo, esmalte para as unhas, maquiagem, al\u00e9m de toalhas higi\u00eanicas e os anticoncepcionais. N\u00e3o \u00e9 incomum irmos para a linha de combate bem perfumadas e com o cabelo penteado.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es de casais s\u00e3o t\u00e3o normais como em Bogot\u00e1\u00a0ou Madri. A propaganda midi\u00e1tica do inimigo diz que as guerrilheiras s\u00e3o obrigadas a estar sexualmente com os companheiros. Isso \u00e9 mentira. N\u00f3s decidimos livremente estar com um companheiro se gostamos. Aqui nos apaixonamos, nos desapaixonamos e sofremos decep\u00e7\u00f5es, como em todas as partes do mundo.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, o controle de natalidade \u00e9\u00a0obrigat\u00f3rio. N\u00e3o se pode ser m\u00e3e e guerrilheira. Quando ingressamos, aceitamos esta condi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode esquecer que n\u00f3s somos parte de um ex\u00e9rcito. Quando ocorre a gravidez, a guerrilheira pode escolher entre abortar ou sair e ter seu filho. O inimigo nos menospreza por sermos mulheres, por\u00e9m tamb\u00e9m nos teme. No geral, quando capturam companheiras, as mesmas s\u00e3o violadas, torturadas e chegam a cortar-lhes os seios, a mutil\u00e1-las. Existem casos atrozes. Nos tratam como esp\u00f3lios de guerra. Nos temem porque os enfrentamos de igual para igual, demonstrando que podemos ser muito aguerridas no combate. Por isso, descarregam sobre n\u00f3s seu medo, raiva e impot\u00eancia ao capturar uma camarada.<\/p>\n<p>E chegou o momento de fazer a \u00faltima pergunta. Quando ela escutou sua voz mudou, surgindo um n\u00f3 na garganta e passou a olhar o ch\u00e3o enquanto juntava as m\u00e3os. Respirou fundo e respondeu, sem que lhe faltassem sorrisos travessos em v\u00e1rios momentos de seu relato.<\/p>\n<p>\u201cEm 1983, eu tinha 20 anos. Foi com essa idade que vi no acampamento um senhor com um sombreiro, rev\u00f3lver na cintura, uma carabina e sem uniforme. Ent\u00e3o, perguntei quem era. Fiquei paralisada. O camarada Marulanda era a pessoa mais simples que voc\u00ea pode imaginar. Ele n\u00e3o impunha sua presen\u00e7a como chefe. N\u00f3s que v\u00edamos nele a autoridade.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o fazia parte de seu grupo de seguran\u00e7a, ainda que estivesse no acampamento do Secretariado, m\u00e1xima inst\u00e2ncia de dire\u00e7\u00e3o das FARC. Em maio de 1984, eu fazia parte do grupo de apoio que recebia as comiss\u00f5es, pol\u00edticos, jornalistas e demais pessoas que vinham ao acampamento de La Uribe para discutir sobre os acordos de paz que estavam sendo negociados com o governo. Um dia o camarada sofreu um acidente e fissurou uma costela. Como enfermeira, fiquei com a tarefa de aplicar-lhe os medicamentos e a fisioterapia. E durante o tratamento, a nossa aproxima\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o afetiva come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Vivi com ele uma rela\u00e7\u00e3o absolutamente normal. Eu n\u00e3o tinha privil\u00e9gios por ser sua companheira. Ele sim era muito especial comigo. Claro que t\u00ednhamos discuss\u00f5es e dificuldades como todo casal, por\u00e9m foram muitas as alegrias. Eu contribu\u00eda em suas responsabilidades. Por exemplo, me encarregava das comunica\u00e7\u00f5es, muitas vezes assumia a tarefa de secret\u00e1ria ou preparava-lhe comidas como ele gostava.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, viv\u00edamos situa\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a, pr\u00f3prias da guerra. Ele era o homem mais procurado do pa\u00eds. Por muitas vezes tivemos o ex\u00e9rcito bem pr\u00f3ximo, mas ele, com sua calma e experi\u00eancia, sempre soube resguardar sua tropa. Ele era muito precavido e tudo planejava. N\u00f3s r\u00edamos quando escut\u00e1vamos not\u00edcias de que o tinham matado, enquanto beb\u00edamos caf\u00e9. Porque o mataram muitas vezes.<\/p>\n<p>Minhas \u00faltimas horas com ele? Ainda tenho dificuldade para falar sobre esta parte de nossa vida em casal. Mas bem&#8230; Pelos sintomas, acredit\u00e1vamos que tinha um problema de gastrite. E nesse dia (26 de mar\u00e7o de 2008, NdA), tinha escrito um documento, enquanto escutava cumbias colombianas. Depois, o acompanhei para que tomasse banho, tomou chocolate e acreditamos que estava superado o problema. \u00c0s cinco da tarde, jantou o pouco de costume. Uma hora depois, recebeu os informes da guarda e deu orienta\u00e7\u00f5es. Logo ap\u00f3s, pediu que eu o acompanhasse ao banheiro. Eu levei o fac\u00e3o e o cinto com a pistola, pertences que nunca abandonava. Ent\u00e3o, me disse que se sentia tonto. Vi que estava quase caindo e o contive. Comecei a chamar os que estavam de guarda. O camarada desabou. \u00c9 terr\u00edvel ver assim aquele que sempre foi t\u00e3o forte. O levamos para cama e lhe demos massagens card\u00edacas e respira\u00e7\u00e3o, por\u00e9m n\u00e3o voltou. Tudo foi t\u00e3o inesperado. N\u00e3o sofreu: at\u00e9 nisso perdeu o inimigo. Nem esse gosto deu aos seus inimigos.<\/p>\n<p>Eu me senti triste, s\u00f3\u00a0e desamparada, ainda que toda organiza\u00e7\u00e3o estivesse comigo\u201d.<\/p>\n<p>(*) Hernando Calvo Ospina \u00e9 jornalista colombiano residente na Fran\u00e7a. Colaborador do\u00a0Le Monde Diplomatique.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nlh3\n\n\n\n\n\n\n\n\n&#8220;Nas FARC, combatemos o machismo e lutamos pela igualdade de direito entre os g\u00eaneros&#8221;.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3849\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-3849","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-105","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3849","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3849"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3849\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3849"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3849"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3849"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}