{"id":3850,"date":"2012-11-13T18:00:55","date_gmt":"2012-11-13T18:00:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3850"},"modified":"2012-11-13T18:00:55","modified_gmt":"2012-11-13T18:00:55","slug":"auto-destruicao-sistemica-global-insurgencias-e-utopias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3850","title":{"rendered":"Auto-destrui\u00e7\u00e3o sist\u00e9mica global, insurg\u00eancias e utopias"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Acelera\u00e7\u00e3o da crise (mudan\u00e7a de discurso) <\/strong><\/p>\n<p>O fatalismo global abandona a sua m\u00e1scara optimista neoliberal de outros tempos (que sobreviveu durante o per\u00edodo inicial da crise desencadeada em 2008) e vai assumindo um pessimismo n\u00e3o menos avassalador. No passado, os meios de comunica\u00e7\u00e3o explicavam-nos que nada era poss\u00edvel fazer diante de um planeta capitalista cada dia mais pr\u00f3spero (ainda que praguejado por crueldades), s\u00f3 nos restava a possibilidade de nos adaptarmos. Uma ruidosa massa de peritos asseverava as grandes orienta\u00e7\u00f5es com argumentos cient\u00edficos\u00a0<em>irrefut\u00e1veis <\/em>(os cr\u00edticos n\u00e3o se podiam fazer ouvidos frente \u00e0 avalanche medi\u00e1tica). Isso foi chamado de\u00a0<em>discurso \u00fanico, <\/em>surgia como um formid\u00e1vel instrumentos ideol\u00f3gico e prometia acompanhar-nos durante v\u00e1rios s\u00e9culos ainda que tenha durado umas poucas d\u00e9cadas e se tenha esfumado em menos de um lustro.<\/p>\n<p>Agora a reprodu\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do sistema mundial de poder come\u00e7a a chegar a um novo fatalismo profundamente pessimista baseado na afirma\u00e7\u00e3o de que a degrada\u00e7\u00e3o social (estendida como resultado da\u00a0<em>&#8220;crise&#8221; <\/em>) \u00e9 inevit\u00e1vel e prolongar-se-\u00e1 durante muito tempo.<\/p>\n<p>Tal como no caso anterior os meios de comunica\u00e7\u00e3o e sua corte de peritos explicam-nos que nada mais \u00e9 poss\u00edvel fazer sen\u00e3o adaptar-nos (novamente) perante fen\u00f3menos universais inevit\u00e1veis. Tal como qualquer outra civiliza\u00e7\u00e3o, a actual em \u00faltima inst\u00e2ncia controla os seus s\u00fabditos persuadindo-os acerca da presen\u00e7a de for\u00e7as imensamente superiores \u00e0s suas pequenas exist\u00eancias impondo a ordem (e o caos) perante as quais devem inclinar-se respeitosamente. O &#8220;mercado global&#8221;, &#8220;Deus&#8221; ou outra pot\u00eancia de dimens\u00e3o oce\u00e2nica cumprem a referida fun\u00e7\u00e3o e seus sacerdotes, tecnocratas, generais, empres\u00e1rios ou dirigentes pol\u00edticos n\u00e3o s\u00e3o sen\u00e3o executores ou int\u00e9rpretes do\u00a0<em>destino, <\/em>o que ali\u00e1s legitima os seus luxos e abusos.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que em Setembro de 2012 Olivier Blanchard, economista chefe do Fundo Monet\u00e1rio Internacional, anunciava que &#8220;a economia mundial precisar\u00e1 de pelo menos dez anos para sair da crise financeira que come\u00e7ou em 2008&#8221;\u00a0<strong>[1]<\/strong> . Segundo Blanchard, o resfriamento duradouros dos quatro motores da economia global (Estados Unidos, Jap\u00e3o, China e Uni\u00e3o Europeia) obriga-nos a afastar qualquer esperan\u00e7a numa recupera\u00e7\u00e3o geral a curto prazo. Ainda mais duro, em Agosto do mesmo ano o Banco Natixis, integrante de um grupo que assegura o financiamento de aproximadamente 20% da economia francesa, publicava um relat\u00f3rio intitulado &#8220;A crise da zona euro pode durar 20 anos&#8221;\u00a0<strong>[2]<\/strong> .<\/p>\n<p>Encontramo-nos diante de um problema que as elites dominantes dificilmente podem resolver: a cultura moderna \u00e9 filha do mito do progresso, repetidas vezes pode cativar os de baixo com a promessa de um futuro melhor neste mundo e ao alcance da m\u00e3o, o que a diferencia de experi\u00eancias hist\u00f3ricas anteriores. As \u00e9pocas de pen\u00faria s\u00e3o sempre descritas como provis\u00f3rias, preparat\u00f3rias de um grande salto rumo a tempos melhores. A reconvers\u00e3o da cultura dominante a um pessimismo de longa dura\u00e7\u00e3o aceite pelas maiorias n\u00e3o parece vi\u00e1vel, pelo menos \u00e9 muito dif\u00edcil realiz\u00e1-la com \u00eaxito n\u00e3o s\u00f3 nos pa\u00edses ricos como tamb\u00e9m na periferia, sobretudo nas chamadas sociedades emergentes. S\u00f3 popula\u00e7\u00f5es radicalmente degradadas poderiam aceitar passivamente um futuro negro sem sa\u00edda \u00e0 vista, as elites imperialistas golpeadas, desestabilizadas pela decad\u00eancia econ\u00f3mica, sem projectos de integra\u00e7\u00e3o social poderiam encontrar na degrada\u00e7\u00e3o integral dos de baixo (os seus pobres internos e os povo perif\u00e9ricos) uma poss\u00edvel alternativa arriscada de sobreviv\u00eancia sist\u00e9mica.<\/p>\n<p><strong>Auto-destrui\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>O capitalismo como civiliza\u00e7\u00e3o entrou num per\u00edodo de decl\u00ednio acelerado. Uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o ao tema mostra que nos encontramos perante o fracasso das tentativas de supera\u00e7\u00e3o financeira da crise desencadeada em 2008, ainda que uma avalia\u00e7\u00e3o mais profunda nos levasse \u00e0 conclus\u00e3o de que o objectivo anunciado pelos governos dos pa\u00edses ricos (a recomposi\u00e7\u00e3o da prosperidade econ\u00f3mica) ocultava o verdadeiro objectivo: impedir o derrube da actividade financeira que fora a droga milagrosa das economias durante v\u00e1rias d\u00e9cadas. Desse ponto de vista, as estrat\u00e9gias aplicadas tiveram \u00eaxito: conseguiram adiar durante cerca de um lustro um desenlace que se aproximava velozmente quando desinchou a borbulha imobili\u00e1ria norte-americana.<\/p>\n<p>Uma vis\u00e3o mais ampla nos indicaria que o ocorrido em 2008 foi o resultado de um processo iniciado entre fins dos anos 1960 e princ\u00edpios dos anos 1970, quando a maior crise econ\u00f3mica da hist\u00f3ria do capitalismo n\u00e3o seguiu o\u00a0<em>caminho cl\u00e1ssico <\/em>(tal como o mostrado no s\u00e9culo XIX e na primeira metade do s\u00e9culo XX) com gigantescas quedas empresariais e uma r\u00e1pida mega avalanche de desemprego nas pot\u00eancias centrais, e sim que foi controlada gra\u00e7as \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de poderosos instrumentos de interven\u00e7\u00e3o estatal em combina\u00e7\u00e3o com reengenharias tecnol\u00f3gicas e financeiras dos grandes grupos econ\u00f3micos.<\/p>\n<p>Essa resposta n\u00e3o permitiu superar as causas da crise, na realidade potenciou-as at\u00e9 n\u00edveis nunca antes alcan\u00e7ados, desencadeando uma onda planet\u00e1ria de parasitismo e de saqueio de recursos naturais que engendrou um estancamento produtivo global em torno da \u00e1rea imperial do mundo, impondo a contrac\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica do sistema n\u00e3o como fen\u00f3meno passageiro e sim como tend\u00eancia de longa dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se de um processo de decad\u00eancia complexo. Basta repassar dados tais como o do volume da massa financeira equivalente a vinte vezes o Produto Mundial Bruto e seu pilar principal: o super endividamento p\u00fablico-privado nos pa\u00edses ricos que bloqueia a expans\u00e3o do consumo e do investimento, o do decl\u00ednio dos recursos energ\u00e9ticos tradicionais (sem substitui\u00e7\u00e3o decisiva pr\u00f3xima) ou o da destrui\u00e7\u00e3o ambiental. E tamb\u00e9m o da transforma\u00e7\u00e3o das elites capitalistas numa teia de redes mafiosas que marcam o seu selo as estruturas de agress\u00e3o militar, convertendo-as numa combina\u00e7\u00e3o de instrumentos\u00a0<em>formais (convencionais) <\/em>e informais onde estes \u00faltimos v\u00e3o predominando atrav\u00e9s de uma articula\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de bandos de mercen\u00e1rios e manipula\u00e7\u00f5es medi\u00e1ticas de alcance global, &#8220;bombardeios humanit\u00e1rios&#8221; e outras ac\u00e7\u00f5es inscritas em estrat\u00e9gias de desestabiliza\u00e7\u00e3o integral que apontam para a desestrutura\u00e7\u00e3o de vastas zonas perif\u00e9ricas. Afeganist\u00e3o, Iraque, L\u00edbia, S\u00edria&#8230; M\u00e9xico ilustram o futuro burgu\u00eas das na\u00e7\u00f5es pobres.<\/p>\n<p>A \u00e1rea imperial do sistema degrada-se e, ao mesmo tempo, tenta degradar, tornar ca\u00f3tico o resto do mundo quando pretende control\u00e1-lo, super-explor\u00e1-lo. \u00c9 a l\u00f3gica da morte convertida em puls\u00e3o central do capitalismo tornado senil e estendendo seu manto tan\u00e1tico (sua\u00a0<em>cultura <\/em>final) que \u00e9, em ultima inst\u00e2ncia, auto-destrui\u00e7\u00e3o, ainda que pretenda ser uma constela\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Cada passo das pot\u00eancias centrais rumo \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da sua crise \u00e9 na realidade um novo empurr\u00e3o rumo ao abismo. Os subs\u00eddios concedidos aos grupos financeiros avultaram as d\u00edvidas p\u00fablicas em conseguir a recomposi\u00e7\u00e3o dur\u00e1vel da economia e quando a seguir tentam travar o referido endividamento restringindo gastos estatais ao mesmo tempo que esmagam sal\u00e1rios com o objectivo de melhorar os lucros dos empres\u00e1rios agravam o estancamento convertendo-o em recess\u00e3o, deterioram as fontes dos recursos fiscais e eternizam o peso das d\u00edvidas. Frente ao desastre impulsionado pelas m\u00e1fias financeiras levanta-se um coro variegado de neoliberais moderados, semi-keynesianos, regulacionistas e outros grupos que exigem a suaviza\u00e7\u00e3o dos ajustes e o est\u00edmulo ao investimento e ao consumo&#8230; ou seja, continuar a inchar as d\u00edvidas p\u00fablicas e privadas&#8230; at\u00e9 que se recomponha um suposto c\u00edrculo virtuoso de crescimento (e de endividamento) encarregado de pagar as d\u00edvidas e restabelecer a prosperidade&#8230; ao que os tecnocratas duros (sobretudo na Europa) respondem que os estados, as empresas e os consumidores est\u00e3o saturados de d\u00edvidas e que o velho caminho da exuber\u00e2ncia monet\u00e1rio-consumista deixou de ser transit\u00e1vel. Ambos os lados t\u00eam raz\u00e3o porque nem os ajustes nem as reparti\u00e7\u00f5es de fundos s\u00e3o vi\u00e1veis a m\u00e9dio praxo, na realidade o sistema \u00e9 invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>As agress\u00f5es imperiais quando conseguem derrotar os seus\u00a0<em>&#8220;inimigos&#8221; <\/em>n\u00e3o conseguem instalar sistemas coloniais ou semi-coloniais est\u00e1veis como no passado e sim engendrar espa\u00e7os ca\u00f3ticos. Assim \u00e9 porque a economia mundial em declive n\u00e3o permite integrar as novas zonas perif\u00e9ricas submetidas, os espa\u00e7os conquistados n\u00e3o s\u00e3o absorvidos por neg\u00f3cios produtivos ou comerciais medianamente est\u00e1veis da metr\u00f3pole e sim saqueados por grupos mafiosos e por vezes simplesmente empurrados para a decomposi\u00e7\u00e3o. Enquanto isso os gastos militares e paramilitares dos Estados Unidos, o centro hegem\u00f3nico do capitalismo, incrementam o seu d\u00e9fice fiscal e as suas d\u00edvidas.<\/p>\n<p>Fica assim a descoberto um aspecto essencial do imperialismo do s\u00e9culo XXI em muta\u00e7\u00e3o rumo a uma din\u00e2mica de desintegra\u00e7\u00e3o geral de alcance planet\u00e1rio. Isto \u00e9 advertido n\u00e3o s\u00f3 por alguns partid\u00e1rios do anti-capitalismo como tamb\u00e9m, desde h\u00e1 algum tempo, por um n\u00famero crescente de &#8220;prestigiosos&#8221; (medi\u00e1ticos) defensores do sistema como o guru financeiro Nouriel Roubini quando proclamava em meados de 2011 que o capitalismo havia entrado num per\u00edodo de auto-destrui\u00e7\u00e3o\u00a0<strong>[3]<\/strong> .<\/p>\n<p>\u00c9 um lugar comum a afirma\u00e7\u00e3o de que o capitalismo n\u00e3o ruir\u00e1 por si s\u00f3 e sim que\u00a0<em>\u00e9 necess\u00e1rio derrub\u00e1-lo. <\/em>Em consequ\u00eancia, aqueles que assinalam a tend\u00eancia para a\u00a0<em>auto-destrui\u00e7\u00e3o do sistema <\/em>s\u00e3o acusados de ignorar suas fortalezas e sobretudo de fomentar a passividade ou as ilus\u00f5es acerca de poss\u00edveis &#8221;\u00a0<em>vit\u00f3rias f\u00e1ceis&#8221; <\/em>que desarmam, distraem os que lutam por um mundo melhor.<\/p>\n<p>Na realidade, ignorar ou subestimar o car\u00e1cter autodestrutivo do capitalismo global do s\u00e9culo XXI significa desconhecer ou subestimar fen\u00f3menos que sobredeterminam seu funcionamento, como a hegemonia do parasitismo financeiro, a cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica em curso, o decl\u00ednio dos recursos naturais especialmente os energ\u00e9ticos catalisado pela din\u00e2mica tecnol\u00f3gica dominante, a incapacidade da economia mundial para continuar a crescer, o que a leva a acelerar a concentra\u00e7\u00e3o de riquezas e a marginaliza\u00e7\u00e3o de milhares de milh\u00f5es de seres humanos que\u00a0<em>&#8220;est\u00e3o a mais&#8221; <\/em>do ponto de vista da reprodu\u00e7\u00e3o do sistema. Em suma a entrada numa era marcada pela reprodu\u00e7\u00e3o ampliada negativa das for\u00e7as produtivas da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa, amea\u00e7ando a longo prazo a sobreviv\u00eancia da maior parte da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>Presenciamos ent\u00e3o uma subestima\u00e7\u00e3o de apar\u00eancia voluntarista que oculta a devastadora radicalidade da decad\u00eancia e, em consequ\u00eancia, a necessidade da irrup\u00e7\u00e3o de um voluntarismo insurgente (anti-capitalista) capaz de impedir que o derrube nos sepulte a todos. Dito de outra maneira, n\u00e3o nos encontramos diante de uma\u00a0<em>&#8220;crise c\u00edclica&#8221; <\/em>com alternativas de recomposi\u00e7\u00e3o de uma nova prosperidade burguesa, ainda que seja elitista, e sim diante de um processo de degenera\u00e7\u00e3o sist\u00e9mica total.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das civiliza\u00e7\u00f5es recorda-nos numerosos casos (a come\u00e7ar pelo do Imp\u00e9rio Romano) em que a hegemonia civilizacional que conseguia reproduzir-se em meio a decad\u00eancia anulava as tentativas superadoras engendrando decomposi\u00e7\u00f5es que inclu\u00edam v\u00edtimas e verdugos.<\/p>\n<p>A contra-revolu\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que dominou o p\u00f3s guerra fria cunhou uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>marxismo conservador <\/em>que caricaturou a teoria da crise de Marx reduzindo-a a uma sucess\u00e3o infinita de &#8220;crises c\u00edclicas&#8221; das quais o capitalismo sempre conseguia sair gra\u00e7as \u00e0 explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e da periferia. O ogre era denunciado, ficando demonstrado uma vez\u00a0<em>mais <\/em>quem era o vil\u00e3o do filme.<\/p>\n<p>Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o se repete. Nenhuma crise c\u00edclica mundial se parece com outra e todas elas, para serem realmente entendidas, devem ser inclu\u00eddas no percurso temporal do capitalismo, no seu grande e \u00fanico super-ciclo. \u00c9 o que nos permite, por exemplo, distinguir as crises c\u00edclicas de crescimento, juvenis do s\u00e9culo XIX, das crises senis de finais do s\u00e9culo XX e do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 necess\u00e1rio descartar a ideia superficial de que a auto-destrui\u00e7\u00e3o do sistema equivale ao suic\u00eddio hist\u00f3rico isolado das elites globais libertando automaticamente das suas cadeias o resto do mundo, o qual um bom dia descobre que o amo morreu e ent\u00e3o d\u00e1 largas \u00e0 sua criatividade. \u00c9 o mundo burgu\u00eas na sua totalidade o que iniciou a sua auto-destrui\u00e7\u00e3o e n\u00e3o s\u00f3 as suas elites. \u00c9 toda uma civiliza\u00e7\u00e3o com suas hierarquias e mecanismos de reprodu\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, produtiva, etc que chega ao seu teto hist\u00f3rico e come\u00e7a a contrair-se, a desordenar-se pretendendo arrastar todos os seus integrantes, centro e periferia, privilegiados e marginais, opressores e oprimidos&#8230; O naufr\u00e1gio inclui todos os passageiros do navio.<\/p>\n<p><strong>Decad\u00eancia global <\/strong><\/p>\n<p>A auto-destrui\u00e7\u00e3o surge como o culminar da decad\u00eancia e abrange o conjunto da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa n\u00e3o como um fen\u00f3meno\u00a0<em>&#8220;estrutural&#8221; <\/em>e sim como totalidade hist\u00f3rica com todas as suas tend\u00eancias \u00e0s costas: culturais, militares, produtivas, institucionais, religiosas, tecnol\u00f3gicas, morais, cient\u00edficas, etc. Trata-se da etapa descendente de um prolongado processo civilizacional com um auge de pouco mais de duzentos anos, antecedido por uma prolongada etapa preparat\u00f3ria e que chegou a assumir uma dimens\u00e3o planet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Decad\u00eancia geral, muito mais que\u00a0<em>&#8220;crise&#8221; <\/em>(as crises que se v\u00e3o sucedendo aparecem como turbul\u00eancias, sacudidelas no percurso da enfermidade), o fen\u00f3meno inclui as duas configura\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas do sistema: a central (imperialista, &#8220;desenvolvida&#8221;, rica) e a perif\u00e9rica (&#8220;subdesenvolvida&#8221;, globalmente pobre, &#8220;emergente&#8221; ou submersa, com suas \u00e1reas de prosperidade dependente e de mis\u00e9ria extrema).<\/p>\n<p>Os primeiros anos posteriores \u00e0 ruptura de 2008 mostram o come\u00e7o do fim da prosperidade das economias dominantes, ao passo que um bom n\u00famero de pa\u00edses perif\u00e9ricos continuavam a crescer \u2013 sobretudo a China em torno da qual teceram-se ilus\u00f5es acerca de uma recomposi\u00e7\u00e3o mundial do capitalismo a partir do subdesenvolvimento convertido em avalanche industrial-exportadora. Mas a expans\u00e3o da economia chinesa dependia do poder de compra dos seus principais clientes: os Estados Unidos, Jap\u00e3o e a Uni\u00e3o Europeia. Como j\u00e1 se p\u00f4de ver em 2012, o desinchar desses compradores desincha o engendro industrial exportador da periferia (o neg\u00f3cio da super-explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra barata chinesa encontra limites significativos). Em s\u00edntese: n\u00e3o h\u00e1 nenhuma desconex\u00e3o capitalista poss\u00edvel do decl\u00ednio mundial do sistema.<\/p>\n<p>A decad\u00eancia \u00e9, antes de mais nada,\u00a0<em>decad\u00eancia ocidental, <\/em>degrada\u00e7\u00e3o do centro imperialista. Desde fins do s\u00e9culo XVIII, quando se iniciou a ascens\u00e3o industrial, at\u00e9 os primeiros anos do s\u00e9culo XIX, o capitalismo esteve marcado pela domina\u00e7\u00e3o\u00a0<em>inglesa-norte-americana. <\/em>A Inglaterra no s\u00e9culo XIX e os Estados Unidos na maior parte do s\u00e9culo XX cumpriram a fun\u00e7\u00e3o reguladora do conjunto do sistema, impondo a hegemonia ocidental e ao mesmo tempo subordinando os rivais que apareciam no interior do Ocidente. A Fran\u00e7a foi deslocada nos princ\u00edpios do s\u00e9culo XIX e a Alemanha na primeira metade do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>A marca ocidental do capitalismo \u00e9 dada n\u00e3o s\u00f3 por factores econ\u00f3micos e militares como tamb\u00e9m por um conjunto mais vasto de aspectos decisivos do sistema (estilo de consumo, arte, ci\u00eancia, perfis tecnol\u00f3gicos, concep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, etc). O que agora \u00e9 visto como despolariza\u00e7\u00e3o ou fim da unipolaridade, ou seja, como perda de peso do imperialismo norte-americano (paralelo ao decl\u00ednio europeu) sem substitutivo \u00e0 vista. Ela exprime a desarticula\u00e7\u00e3o do capitalismo enquanto sistema global que deve ser entendida n\u00e3o s\u00f3 como desestrutura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e militar como tamb\u00e9m cultural no sentido amplo do conceito. \u00c9 a hist\u00f3ria de uma civiliza\u00e7\u00e3o que entra no ocaso.<\/p>\n<p>Dito de outra maneira, a reprodu\u00e7\u00e3o ampliada universal mas n\u00e3o ocidentalista do capitalismo \u00e9 uma ilus\u00e3o sem base hist\u00f3rica, sem embri\u00f5es vis\u00edveis reais no presente. Recordemos o fiasco do chamado\u00a0<em>milagre japon\u00eas <\/em>dos anos 1960-1970-1980 e os progn\u00f3sticos dessa \u00e9poca acerca do<em>&#8220;Jap\u00e3o primeira pot\u00eancia mundial do s\u00e9culo XXI&#8221; <\/em>seguidos at\u00e9 h\u00e1 pouco por especula\u00e7\u00f5es n\u00e3o menos fantasiosas sobre a iminente ascens\u00e3o chinesa \u00e0 categoria de primeira pot\u00eancia capitalista do planeta.<\/p>\n<p><strong>Esgotamento financeiro <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel assinalar fen\u00f3menos que assinalam o decl\u00ednio sist\u00e9mico. Um deles \u00e9 o da hipertrofia financeira que, como sabemos, foi-se expandindo enquanto desciam as taxas de crescimento do Produto Mundial Bruto a partir dos anos 1970. Quando estalou a crise de 2008 a massa financeira global equivalia aproximadamente a umas vinte vezes do PMB. Sua coluna vertebral vis\u00edvel, os\u00a0<em>produtos financeiros derivados <\/em>registados pelo Banco da Basileia em Junho de 2008 representavam 11,7 o PMB (contra 2,5 vezes em Junho de 1998, 3,9 vezes em Junho de 2002, 5,5 vezes em Junho de 2004, 7,8 vezes em Junho de 2006). Mas desde meados de 2008 essa massa deixou de crescer tanto na sua rela\u00e7\u00e3o com o PMB como em termos absolutos. Havia chegado nesse momento a uns 683 milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares nominais, alcan\u00e7ou os 703 milh\u00f5es de milh\u00f5es em Junho de 2011 baixando para 647 milh\u00f5es de milh\u00f5es em Dezembro de 2011\u00a0<strong>[4]<\/strong> .<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/crise\/imagens\/beinstein_nov12_1.jpg?w=747\" border=\"0\" alt=\"Figura 1.\" \/><\/p>\n<p>Encontramo-nos agora diante de um fen\u00f3meno de esgotamento financeiro. No passado (posterior aos anos 1970) a expans\u00e3o das d\u00edvidas dos estados, das empresas e dos consumidores permitiu o crescimento das economias dos pa\u00edses ricos mas o endividamento foi chegando ao limite enquanto eram saturados mercados importantes (como os do autom\u00f3vel e outros bens duradouros). D\u00edvidas, consumos tradicionais e parasit\u00e1rios, redes comerciais, etc em torno dos quais eram inchadas as actividades especulativas alcan\u00e7aram sua fronteira em 2007-2008. A droga havia terminado por esgotar a din\u00e2mica capitalista e, ao deca\u00edrem, os clientes estancaram os neg\u00f3cios dos\u00a0<em>dealers, <\/em>ou seja, do espa\u00e7o hegem\u00f3nico do sistema.<\/p>\n<p>O capitalismo financiarizado, resultado de uma prolongada crise de super-produ\u00e7\u00e3o potencial controlada mas n\u00e3o resolvida, parasita cada dia mais voraz, finalmente esgotou a sua v\u00edtima e ao faz\u00ea-lo bloqueou a sua pr\u00f3pria expans\u00e3o.<\/p>\n<p>Visto de outro modo, a reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capitalismo ao atravessar com \u00eaxito uma longa sucess\u00e3o de crises de super-produ\u00e7\u00e3o deu finalmente asas ao filho de um dos seus pais fundadores: as finan\u00e7as. F\u00ea-lo para sobreviver, porque sem essa droga n\u00e3o teria podido sair do atoleiro dos anos 1970-1980. Iniciado o caminho, ficou aprisionado para sempre. Quanto mais dif\u00edcil era o crescimento mais droga necessitava o viciado e, depois de cada breve onda de prosperidade econ\u00f3mica global (sua euforia ef\u00e9mera) chegava o estado depressivo que exigia mais droga. As taxas de crescimento ziguezagueavam em torno de uma linha com tend\u00eancia declinante e a massa financeira mundial expandia-se em progress\u00e3o geom\u00e9trica. A festa terminou em 2008.<\/p>\n<p><strong>Bloqueio energ\u00e9tico e crise tecnol\u00f3gica. <\/strong><\/p>\n<p>Outro fen\u00f3meno importante \u00e9 o do bloqueio energ\u00e9tico. O capitalismo industrial p\u00f4de al\u00e7ar voo em finais do s\u00e9culo XVIII porque a Europa imperial acrescentou \u00e0 explora\u00e7\u00e3o colonial e \u00e0 desestrutura\u00e7\u00e3o do seu universo rural (que lhe proporcionou m\u00e3o-de-obra abundante e barata) um processo de emancipa\u00e7\u00e3o produtiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s limitadas e caras fontes de energia convencionais como as correntes dos rios que permitiam o funcionamento dos moinhos, a madeira das florestas e a energia animal. A solu\u00e7\u00e3o foi o carv\u00e3o mineral e em torno do mesmo a amplia\u00e7\u00e3o sem precedentes da explora\u00e7\u00e3o mineira. Seu p\u00f3lo din\u00e2mico foi o capitalismo ingl\u00eas.<\/p>\n<p>A depreda\u00e7\u00e3o crescente de recursos naturais atravessou todos os modelos tecnol\u00f3gicos do capitalismo e, se considerarmos a totalidade do ciclo industrial (entre fins do s\u00e9culo XVIII e a actualidade), poder\u00edamos referir-nos ao\u00a0<em>sistema tecnol\u00f3gico da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa <\/em>baseado na dissocia\u00e7\u00e3o cultural entre o homem e a &#8220;natureza&#8221; \u2013 assumindo esta \u00faltima como universo hostil, objecto de conquista e pilhagem.<\/p>\n<p>O auge do carv\u00e3o mineral do s\u00e9culo XIX foi sucedido pelo do petr\u00f3leo no s\u00e9culo XX e nos princ\u00edpios do s\u00e9culo XXI fora esgotada aproximadamente a metade da reserva original desse recurso. Isso significa que j\u00e1 n\u00e3o encontramos na zona qualificada como pico, ou n\u00edvel m\u00e1ximo poss\u00edvel de extrac\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera a partir do qual estende-se um inevit\u00e1vel decl\u00ednio extractivo. Desde meados da d\u00e9cada passada deixou de crescer a extrac\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo bruto.<\/p>\n<p>Supondo que existam substitutivos energ\u00e9ticos vi\u00e1veis em grande escala e a longo prazo quando aceitamos as promessas tecnol\u00f3gicas do sistema (para um futuro incerto) e os introduzimos no mundo real com seus ritmos de reprodu\u00e7\u00e3o concretos a m\u00e9dio e longo prazo, encontramo-nos diante de um bloqueio energ\u00e9tico insuper\u00e1vel. Se pensarmos no que resta da d\u00e9cada actual comprovaremos que n\u00e3o aparecem substitutivos energ\u00e9ticos capazes de compensar o decl\u00ednio petrol\u00edfero.<\/p>\n<p>Dito de outro modo, o pre\u00e7o do petr\u00f3leo tende a subir e a especula\u00e7\u00e3o financeira em torno do produto pressiona-o ainda mais para cima. Al\u00e9m disso, alguma vez aventura militar ocidental, como por exemplo um ataque israelense-estado-unidense contra o Ir\u00e3o e o consequente encerramento do estreito de Ormuz, levariam o pre\u00e7o \u00e0s nuvens. Tudo isso significa que os custos energ\u00e9ticos da economia converteram-se num factor decisivo limitativo da sua expans\u00e3o e num cen\u00e1rio turbulento causariam uma contrac\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica das actividades econ\u00f3micas a n\u00edvel global.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata s\u00f3 do petr\u00f3leo e sim de um amplo leque de recursos minerais que se encontram no pico da sua explora\u00e7\u00e3o, pr\u00f3ximo do mesmo ou j\u00e1 na fase de extrac\u00e7\u00e3o em decl\u00ednio\u00a0<strong>[5]<\/strong> afectando a ind\u00fastria e a agricultura. Exemplo: o decl\u00ednio da produ\u00e7\u00e3o mundial de fosfatos, componente essencial da produ\u00e7\u00e3o de alimentos, desde h\u00e1 pouco mais de duas d\u00e9cadas\u00a0<strong>[6]<\/strong> .<\/p>\n<p>Passamos ent\u00e3o do tema do bloqueio energ\u00e9tico a outro mais amplo, o do bloqueio dos recursos minerais em geral e da\u00ed ao do sistema tecnol\u00f3gico da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa que o engendrou. No referido sistema temos de incluir suas mat\u00e9rias-primas b\u00e1sicas, seus procedimentos produtivos e seu apoio t\u00e9cnico-cient\u00edfico, sua din\u00e2mica e estilo de consumo civil e de guerra, etc, ou seja, do capitalismo como civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pasamos entonces del tema del bloqueo energ\u00e9tico a otro m\u00e1s vasto, el del bloqueo de los recursos mineros en general y de all\u00ed al del sistema tecnol\u00f3gico de la civilizaci\u00f3n burguesa que lo ha engendrado. En dicho sistema tenemos que incluir a sus materias primas b\u00e1sicas, sus procedimientos productivos y su respaldo t\u00e9cnico-cient\u00edfico, su din\u00e1mica y estilo de consumo civil y de guerra, etc., es decir al capitalismo como civilizaci\u00f3n.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/crise\/imagens\/beinstein_nov12_2.jpg?w=747\" border=\"0\" alt=\"Figura 2.\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/crise\/imagens\/beinstein_nov12_3.jpg?w=747\" border=\"0\" alt=\"Figura 3.\" \/><\/p>\n<p>Assistimos agora \u00e0 busca vertiginosa de &#8220;substitutivos&#8221; energ\u00e9ticos, de diversos minerais, etc, destinados a continuar a alimentar uma estrutura social decadente cuja din\u00e2mica de reprodu\u00e7\u00e3o nos diz que mais da metade da humanidade &#8220;est\u00e1 a mais&#8221; e que em consequ\u00eancia a\u00a0<em>&#8220;civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em>tra\u00e7ou um caminho futuro assinalado por uma sucess\u00e3o de mega genoc\u00eddios.<\/p>\n<p>Mas a decad\u00eancia leva-nos a pensar que todos esses\u00a0<em>&#8220;recursos necess\u00e1rios&#8221; <\/em>para o sustento de sociedades e elites parasit\u00e1rias n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios em outro tipo de civiliza\u00e7\u00e3o ou pelo menos s\u00e3o-no em volumes muito mais reduzidos. N\u00e3o est\u00e3o a mais os pobres e exclu\u00eddos do planeta, est\u00e1 a mais o capitalismo com seus objectos de consumo luxuoso, seus sistema militares, seu desperd\u00edcio obsceno.<\/p>\n<p><strong>Da super-produ\u00e7\u00e3o controlada \u00e0 crise geral de sub-produ\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel descreve o trajecto de algo mais de quatro d\u00e9cadas que conduziu \u00e0 situa\u00e7\u00e3o actual. No come\u00e7o, entre aproximadamente 1968 e 1973, encontr\u00e1mo-nos perante uma grande crise de super-produ\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses centrais. Como j\u00e1 assinalei, esta n\u00e3o derivou num derrube generalizado de empresas nem numa avalanche de desemprego no estilo &#8220;cl\u00e1ssico&#8221; e sim num complexo processo de controle da crise que incluiu instrumentos de interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica destinados a sustentar a procura, a liberaliza\u00e7\u00e3o dos mercados financeiros, esfor\u00e7os tecnol\u00f3gicos e comerciais das grandes empresas. E tamb\u00e9m a amplia\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o do sistema, integrando por exemplo a ex Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como fornecedora de g\u00e1s e petr\u00f3leo e a China como fornecedora de m\u00e3o-de-obra industrial barata.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as n\u00e3o se verificaram de maneira instant\u00e2nea e sim gradualmente em resposta \u00e0s sucessivas conjunturas, mas finalmente converteram-se num novo modelo de gest\u00e3o do sistema chamado\u00a0<em>neoliberalismo. <\/em>Este gira em torno de tr\u00eas orienta\u00e7\u00f5es decisivas marcadas pelo parasitismo: a financiariza\u00e7\u00e3o da economia, a militariza\u00e7\u00e3o e o saqueio desenfreado de recursos naturais.<\/p>\n<p>O processo de financiariza\u00e7\u00e3o concentrou capitais parasitando sobre a produ\u00e7\u00e3o e o consumo, a incorpora\u00e7\u00e3o de centenas de milh\u00f5es de oper\u00e1rios chineses e de outras zonas perif\u00e9ricas e o saqueio de recursos naturais permitiu baixar custos, desacelerar a queda dos lucros industriais.<\/p>\n<p>O resultado vis\u00edvel ao principiar o s\u00e9culo XXI foi o afogamento financeiro do sistema, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e o come\u00e7o do decl\u00ednio da explora\u00e7\u00e3o de numerosos recursos naturais, tanto os n\u00e3o renov\u00e1veis como os renov\u00e1veis (ao serem rompidos seus ciclos de reprodu\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Finalmente, a crise de super-produ\u00e7\u00e3o controlada engendra uma crise prolongada de sub-produ\u00e7\u00e3o que agora est\u00e1 a dar os seus primeiros passos. O sistema encontra\u00a0<em>&#8220;barreiras f\u00edsicas&#8221; <\/em>para a reprodu\u00e7\u00e3o ampliada das suas for\u00e7as produtivas, os recurso naturais declinam, n\u00e3o se trata de\u00a0<em>&#8220;fronteiras ex\u00f3genas&#8221;, <\/em>de bloqueios causados por for\u00e7as sobre-humanas e sim de auto-bloqueios, dos efeitos da actividade produtiva do capitalismo, prisioneiro de um sistema tecnol\u00f3gico muito din\u00e2mico baseado na explora\u00e7\u00e3o selvagem da natureza e na expans\u00e3o acelerada das massas prolet\u00e1rias do planeta (povoa\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis da periferia, oper\u00e1rios pobres, camponeses submersos, marginais de todo tipo, etc).<\/p>\n<p>Assistimos ent\u00e3o ao paradoxo de ind\u00fastrias como a automobil\u00edstica com altos n\u00edveis de capacidade produtiva ociosa. Se por alguma magia dos mercados essas empresas chegassem a encontrar procuras adicionais significativas verificar-se-iam saltos espectaculares nos pre\u00e7os de uma ampla variedade de mat\u00e9rias-primas, como o petr\u00f3leo por exemplo, que anulariam as referidas procuras.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos a passar do crescimento ao estancamento. Este \u00faltimo n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o tr\u00e2nsito rumo \u00e0 contrac\u00e7\u00e3o, mais ou menos r\u00e1pida, mais ou menos ca\u00f3tica do sistema, rumo \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o ampliada negativa das for\u00e7as produtivas ao ritmo da concentra\u00e7\u00e3o de capitais, da marginaliza\u00e7\u00e3o social e do esgotamento dos recursos naturais. N\u00e3o tem de ser um processo de decl\u00ednio inexor\u00e1vel da esp\u00e9cie humana, trata-se da decad\u00eancia de uma civiliza\u00e7\u00e3o, dos seus sistema produtivos e perfis de consumo.<\/p>\n<p><strong>Capitalismo mafioso <\/strong><\/p>\n<p>Deste processo faz parte a muta\u00e7\u00e3o do n\u00facleo dirigente do capitalismo mundial num conglomerado de redes parasit\u00e1rias mafiosas. Uma de suas caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas \u00e9 o encurtamento temporal de expectativas, curto-prazismo que juntamente com outras perturba\u00e7\u00f5es leva-a a uma crescente crise de percep\u00e7\u00e3o da realidade. O neg\u00f3cio financeiro, enquanto cultura hegem\u00f3nica do mundo empresarial, o gigantismo tecnol\u00f3gico (especialmente no cap\u00edtulo militar), a super concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e outros factores convergentes impulsionam esta desconex\u00e3o psicol\u00f3gica libertando uma ampla variedade de projectos irracionais que servem como apoio de pol\u00edticas econ\u00f3micas, sociais, comunicacionais, militares, etc (o corpo parasit\u00e1rio engorda e a mente racional do obeso contrai-se). A elite global dominante (imperialista) vai-se convertendo num sujeito extremamente perigoso obstinado com o emprego salvador do que considera o seu instrumento imbat\u00edvel: o aparelho militar (ainda que experi\u00eancias concretas como no passado a sua derrota no Vietname e actualmente o atolamento no Afeganist\u00e3o demonstrem o contr\u00e1rio).<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas enfoques convergentes. <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel abordar a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa, sua gesta\u00e7\u00e3o, ascens\u00e3o e decad\u00eancia, a partir de tr\u00eas vis\u00f5es de longo prazo.<\/p>\n<p>A primeira delas enfoca uma traject\u00f3ria de aproximadamente quinhentos anos. Arranca entre fins do s\u00e9culo XV e princ\u00edpios do s\u00e9culo XVI europeu com a conquista da Am\u00e9rica e a pilhagem das suas riquezas gerando uma efus\u00e3o de ouro e prata sobre as sociedades imperiais europeias e impulsionando a sua expans\u00e3o econ\u00f3mica e transforma\u00e7\u00e3o burguesa.<\/p>\n<p>A seguir ao primeiro enfartamento (s\u00e9culo XVI) chegou o tempo da digest\u00e3o e da desestrutura\u00e7\u00e3o dos bloqueios pr\u00e9-capitalistas e da emerg\u00eancia de embri\u00f5es s\u00f3lidos do estado e da ci\u00eancia modernos, bem como de n\u00facleos capitalistas emergentes, tudo isso exprimido como a\u00a0<em>&#8220;longa crise do s\u00e9culo XVI&#8221;. <\/em><\/p>\n<p><em>Ao come\u00e7ar o s\u00e9culo XVIII essas sociedades j\u00e1 estavam culturalmente preparadas para a grande aventura capitalista. <\/em>Seu arranque foi assinalado por uma crise de m\u00e9dia dura\u00e7\u00e3o entre fins do s\u00e9culo XVIII e come\u00e7os do s\u00e9culo XIX marcado pela revolu\u00e7\u00e3o industrial inglesa, pela revolu\u00e7\u00e3o francesa e pelas guerras napole\u00f3nicas. Foi atravessando todo o s\u00e9culo XIX ao ritmo das expans\u00f5es coloniais e neocoloniais e das transforma\u00e7\u00f5es industriais e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Cerca de 1900 o capitalismo, com centro no Ocidente, havia estabelecido o seu sistema imperial a n\u00edvel planet\u00e1rio. At\u00e9 chegar \u00e0 primeira guerra mundial que assinala o fim da juventude do sistema e o in\u00edcio da uma nova crise de m\u00e9dia dura\u00e7\u00e3o entre 1914 e 1945, ponto de inflex\u00e3o entre a etapa juvenil ascendente e uma era de turbul\u00eancias que come\u00e7am a mostrar os limites hist\u00f3ricos de um sistema que disp\u00f5e de recursos (financeiros, tecnol\u00f3gicos, naturais, demogr\u00e1ficos, militares) para prolongar a sua exist\u00eancia em meio a amea\u00e7as como a apari\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a seguir a revolu\u00e7\u00e3o chinesa, etc.<\/p>\n<p>E depois de uma recomposi\u00e7\u00e3o que traz a prosperidade a um capitalismo amputado, acossado (entre fins dos anos 1940 e fins dos anos 1960) o sistema entra numa crise longa (que consegue apanhar os grandes ensaios proto-socialistas: a URSS e a China) que se prolonga at\u00e9 o presente. Esta \u00faltima etapa, que j\u00e1 dura mais de quatro d\u00e9cadas, caracteriza-se pela descida gradual ziguezagueaste e persistente das taxas globais de crescimento econ\u00f3mico sobredeterminado pela desacelera\u00e7\u00e3o das economias imperialistas (em primeiro lugar os Estados Unidos) e pelo incremento das mais diversas formas de parasitismo (principalmente o financeiro).<\/p>\n<p>Nesta etapa \u00e9 poss\u00edvel distinguir um primeiro per\u00edodo entre 1968-1973 e 2007-2008 de desacelera\u00e7\u00e3o relativamente lenta, de perda gradual de dinamismo, e um segundo per\u00edodo (no qual nos encontramos) de esgotamento do crescimento apontado \u00e0 contrac\u00e7\u00e3o geral do sistema.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese: a partir do primeiro impulso colonial com \u00eaxito (no s\u00e9culo XVI, o anterior das Cruzadas havia fracassado) \u00e9 poss\u00edvel fazer girar a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa em torno de quatro grandes crise; a longa crise do s\u00e9culo XVII vista como etapa preparat\u00f3ria do grande salto, a crise m\u00e9dia dura\u00e7\u00e3o de nascimento do capitalismo industrial (fins do s\u00e9culo XVIII \u2013 princ\u00edpios do XIX), uma segunda crise de m\u00e9dia dura\u00e7\u00e3o (1914-1945) seguida por uma prosperidade de aproximadamente um quarto de s\u00e9culo e finalmente uma nova crise de longa dura\u00e7\u00e3o (que se inicia nos fins dos anos 1960) de decad\u00eancia do sistema, suave primeiro e acelerada desde fins da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/crise\/imagens\/beinstein_nov12_4.jpg?w=747\" border=\"0\" alt=\"Figura 4.\" \/><\/p>\n<p>Um segundo enfoque, restrito a pouco mais de duzentos anos, arranca com a revolu\u00e7\u00e3o industrial inglesa, a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, a independ\u00eancia dos Estados Unidos, as guerras napole\u00f3nicas e outros acontecimentos que assinalam o in\u00edcio do capitalismo industrial, consolidando-se numa longa etapa juvenil do sistema abrangendo a maior parte do s\u00e9culo XIX. As turbul\u00eancias s\u00e3o curtas, as crises de super-produ\u00e7\u00e3o seguindo o modelo desenvolvido por Marx s\u00e3o &#8220;crises de crescimento&#8221; do sistema que v\u00e3o acumulando feridas, deforma\u00e7\u00f5es, problemas que acabam por provocar o grande desastre de 1914. Karl Polanyi refere-se ao papel da c\u00fapula financeira europeia na manuten\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrios econ\u00f3micos e pol\u00edticos, nessa elite est\u00e1 a base da futura hipertrofia financeira dos finais do s\u00e9culo XX\u00a0<strong>[7]<\/strong> .<\/p>\n<p>A seguir \u00e0 etapa juvenil desenvolve-se um per\u00edodo de maturidade assinalado por guerras, fortes depress\u00f5es uma prosperidade de m\u00e9dia dura\u00e7\u00e3o (1945-1970).<\/p>\n<p>Com a crise dos anos 1970, o fim do padr\u00e3o d\u00f3lar, a derrota norte-americana no Vietname, a estagfla\u00e7\u00e3o e os choques petrol\u00edferos, etc, o capitalismo entra na sua velhice que deriva em senilidade. O conceito de &#8220;capitalismo senil&#8221; foi introduzido por Roger Dangeville nos fins dos anos 1970 assinalando que a partir desse momento o sistema tornava-se senil\u00a0<strong>[8]<\/strong> , desagregava-se, perdia o rumo. Na realidade, a senilidade do sistema torna-se evidente tr\u00eas d\u00e9cadas depois, a partir da explos\u00e3o financeira-energ\u00e9tica-alimentar de 2008 quando se acelera a queda do crescimento at\u00e9 nos aproximarmos agora de crescimentos iguais a zero ou negativos no conjunto da zona central do capitalismo e quando o motor financeiro parou apontando para a queda.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/crise\/imagens\/beinstein_nov12_5.jpg?w=747\" border=\"0\" alt=\"Figura 5.\" \/><\/p>\n<p>Um terceiro enfoque, de desagrega\u00e7\u00e3o do superciclo em\u00a0<em>&#8220;ciclos parciais&#8221;, <\/em>permite pormenorizar fen\u00f3menos decisivos da hist\u00f3ria do sistema. \u00c9 necess\u00e1rio limitar os aspectos de autonomia desses &#8220;ciclos&#8221; fazendo-os interactuar entre si e referindo-os sempre \u00e0 totalidade sist\u00e9mica.<\/p>\n<p>O crep\u00fasculo do sistema arranca com as turbul\u00eancias de 2007-2008, a multiplicidade de &#8220;crises&#8221; que estalaram nesse per\u00edodo (financeira, produtiva, alimentar, energ\u00e9tica) convergiu com outras como a ambiental ou a do Complexo Industrial-Militar do Imp\u00e9rio atolado nas guerras asi\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O cancro financeiro irrompeu triunfal entre fins do s\u00e9culo XIX e princ\u00edpios do s\u00e9culo XX e obteve o controle absoluto do sistema sete ou oito d\u00e9cadas depois, mas o seus desenvolvimento havia come\u00e7ado muito tempos antes (v\u00e1rios s\u00e9culos) financiando estados imperiais onde se expandiam as burocracia civis e militares ao ritmo das aventuras coloniais-comerciais e a seguir tamb\u00e9m em neg\u00f3cios industriais cada vez mais concentrados. A hegemonia da ideologia do progresso e do discurso produtivista serviu para ocultar o fen\u00f3meno, instalou a ideia de que o capitalismo, ao contr\u00e1rio das civiliza\u00e7\u00f5es anteriores, n\u00e3o acumulava parasitismo e sim for\u00e7as produtivas que ao se expandirem criavam problemas de adapta\u00e7\u00e3o super\u00e1veis no interior do sistema mundial, resolvidos atrav\u00e9s de processo de &#8220;destrui\u00e7\u00e3o-criadora&#8221;.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/crise\/imagens\/fabrica_polvora_80pc.jpg?w=747\" border=\"0\" alt=\"Antiga F\u00e1brica da P\u00f3lvora de Barcarena, hoje museu.\" align=\"right\" \/>Pela sua parte, o militarismo moderno afunda as suas ra\u00edzes mais fortes no s\u00e9culo XIX ocidental, desde as guerras napole\u00f3nicas, chegando \u00e0 guerra franco-prussiana at\u00e9 irromper na Primeira Guerra Mundial como\u00a0<em>&#8220;Complexo Militar-Industrial&#8221; <\/em>(ainda que seja poss\u00edvel encontrar antecedentes importantes no Ocidente nas primeiras ind\u00fastrias de armamentos de tipo moderno aproximadamente a partir do s\u00e9culo XVI). Foi percebido a princ\u00edpio como um instrumento privilegiado das estrat\u00e9gias imperialistas e mais adiante como reactivador econ\u00f3mico do capitalismo. S\u00f3 se viam certos aspectos do problema mas ignorava-se ou subestimava-se sua profunda natureza parasit\u00e1ria, o facto de que por tr\u00e1s do monstro militar ao servi\u00e7o da reprodu\u00e7\u00e3o do sistema ocultava-se um monstro muito mais poderoso: o do consumo improdutivo, causador de d\u00e9fices p\u00fablicos que n\u00e3o incentivam a expans\u00e3o e sim o estancamento ou a contrac\u00e7\u00e3o da economia.<\/p>\n<p>Actualmente, o Complexo Militar-Industrial norte-americano (em torno do qual reproduzem-se os dos seus s\u00f3cios da NATO) gasta em termos reais mais de um milh\u00e3o de milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, contribui de maneira crescente para o d\u00e9fice fiscal e em consequ\u00eancia para o endividamento do Imp\u00e9rio (e para a prosperidade dos neg\u00f3cios financeiros benefici\u00e1rios do referido d\u00e9fice). Sua efic\u00e1cia militar \u00e9 declinante mas a sua burocracia \u00e9 cada vez maior, a corrup\u00e7\u00e3o penetrou em todas as suas actividades, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o grande gerador de empregos como em outras \u00e9pocas, o desenvolvimento da tecnologia industrial-militar reduziu significativamente essa fun\u00e7\u00e3o. A \u00e9poca do keynesianismo militar como estrat\u00e9gia anti-crise eficaz pertence ao passado.<\/p>\n<p>Presenciamos actualmente nos Estados Unidos \u00e0 integra\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cios entre a esfera industrial-militar, as redes financeiras, as grandes empresas energ\u00e9ticas, as camarilhas mafiosas, as &#8220;empresas&#8221; de seguran\u00e7a e outras actividades muito din\u00e2micas que formam o espa\u00e7o dominante do sistema de poder imperial. A hist\u00f3ria das decad\u00eancias de civiliza\u00e7\u00f5es, a do Imp\u00e9rio Romano por exemplo, mostram que j\u00e1 come\u00e7ado o decl\u00ednio geral e durante um longo per\u00edodo posterior a estrutura militar continua a expandir-se sustendo tentativas desesperadas e in\u00fateis de preserva\u00e7\u00e3o do sistema.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia a decad\u00eancia geral e a exacerba\u00e7\u00e3o da agressividade militarista do Imp\u00e9rio poderiam chegar a ser perfeitamente compat\u00edveis, donde se deriva a conclus\u00e3o de que ao cen\u00e1rio previs\u00edvel de desintegra\u00e7\u00e3o mais ou menos ca\u00f3tica da super-pot\u00eancia dever\u00edamos acrescentar outro cen\u00e1rio n\u00e3o menos previs\u00edvel de decl\u00ednio sanguin\u00e1rio, belicoso.<\/p>\n<p>T\u00e3o pouco a crise energ\u00e9tica em torno da chegada do\u00a0&#8220;Peak Oil&#8221; deveria ser restrita \u00e0 hist\u00f3ria das \u00faltimas d\u00e9cadas. \u00c9 necess\u00e1rio entend\u00ea-la como fase declinante do longo ciclo da explora\u00e7\u00e3o moderna dos recursos naturais n\u00e3o renov\u00e1veis. Esse ciclo energ\u00e9tico de dois s\u00e9culos condicionou todo o desenvolvimento tecnol\u00f3gico do sistema e exprimiu-o, foi a vanguarda da din\u00e2mica depredadora do capitalismo estendida ao conjunto dos recursos naturais e do ecosistema em geral.<\/p>\n<p>Aquilo que durante quase dois s\u00e9culos foi considerado como uma das grandes proezas da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa, a sua aventura industrial e tecnol\u00f3gica, aparece agora como a m\u00e3e de todos os desastres, como uma expans\u00e3o depredadora que p\u00f5e em perigo a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa durante os \u00faltimos dois s\u00e9culos (com ra\u00edzes num passado ocidental muito mais prolongado) acabou por engendrar um processo irrevers\u00edvel de decad\u00eancia, a depreda\u00e7\u00e3o ambiental e a expans\u00e3o parasit\u00e1ria est\u00e3o na base do fen\u00f3meno.<\/p>\n<p>Existe uma inter-rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica perversa entre a expans\u00e3o da massa global de lucros, sua velocidade crescente, a multiplica\u00e7\u00e3o das estruturas burocr\u00e1ticas civis e militares de controle social, a concentra\u00e7\u00e3o mundial de rendimentos, a ascens\u00e3o da mar\u00e9 parasit\u00e1ria e a depreda\u00e7\u00e3o do ecosistema.<\/p>\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas do capitalismo aparentemente foram as suas t\u00e1buas de salva\u00e7\u00e3o. Assim aconteceu durante muito tempo incrementando a produtividade industrial e agr\u00e1ria, melhorando as comunica\u00e7\u00f5es e os transportes, mas o longo prazo hist\u00f3rico, no balan\u00e7o de v\u00e1rios s\u00e9culos constituem sua armadilha mortal, acabaram por degradar o desenvolvimento que impulsionaram por estarem estruturalmente baseadas na depreda\u00e7\u00e3o ambiental, ao gerar um crescimento exponencial de massas humanas super-exploradas e marginalizadas.<\/p>\n<p>O progresso t\u00e9cnico integra assim o processo de auto-destrui\u00e7\u00e3o geral do capitalismo (\u00e9 sua coluna vertebral) na rota em direc\u00e7\u00e3o a um horizonte de barb\u00e1rie. N\u00e3o se trata da incapacidade do actual sistema tecnol\u00f3gico para continuar a desenvolver for\u00e7as produtivas e sim da sua alta capacidade enquanto instrumento de destrui\u00e7\u00e3o l\u00edquida de for\u00e7as produtivas. Confirma-se assim o sombrio progn\u00f3stico formulado por Marx e Engels em pleno auge juvenil do capitalismo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 60px;\" align=\"justify\">&#8220;Dado um certo n\u00edvel de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, surgem for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o e de meios de comunica\u00e7\u00e3o tais que, nas condi\u00e7\u00f5es existentes s\u00f3 provocam cat\u00e1strofes, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o e sim de destrui\u00e7\u00e3o&#8221;\u00a0[9] .<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Finalmente, o ciclo hist\u00f3rico iniciado em fins do s\u00e9culo XVIII contou com dois grandes articuladores hoje em decl\u00ednio: a domina\u00e7\u00e3o imperialista anglo-norte-americana (etapa inglesa no s\u00e9culo XIX e norte-americana no s\u00e9culo XX) e o ciclo do estado burgu\u00eas desde a sua etapa &#8220;liberal industrial&#8221; no s\u00e9culo XX, passando pela sua etapa intervencionista produtiva (keynesiana cl\u00e1ssica) em boa parte do s\u00e9culo XX para chegar \u00e0 sua degrada\u00e7\u00e3o &#8220;neoliberal&#8221; a partir dos anos 1970-1980.<\/p>\n<p>Capitalismo mundial, imperialismo e predom\u00ednio anglo-norte-americano constituem um s\u00f3 fen\u00f3meno. Uma primeira conclus\u00e3o \u00e9 que a articula\u00e7\u00e3o sist\u00e9mica do capitalismo surge historicamente indissoci\u00e1vel do articulador imperial (hist\u00f3ria imperialista do capitalismo). Uma segunda conclus\u00e3o \u00e9 que ao tornar-se cada vez mais evidente que no futuro previs\u00edvel n\u00e3o surge nenhum novo articulador imperial ascendente \u00e0 escala global, ent\u00e3o desaparece do futuro uma pe\u00e7a decisiva da reprodu\u00e7\u00e3o capitalista global \u2013 a menos que suponhamos o surgimento de uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>m\u00e3o invis\u00edvel universal <\/em>(e burguesa) capaz de impor a ordem (monet\u00e1ria, comercial, pol\u00edtico-militar, etc). Nesse caso estar\u00edamos a extrapolar ao n\u00edvel da humanidade futura a refer\u00eancia \u00e0 m\u00e3o invis\u00edvel (realmente inexistente) do mercado capitalista apregoada pela teoria econ\u00f3mica liberal.<\/p>\n<p>O decl\u00ednio imperial do Ocidente inclui o do seu suporte estatal abrangendo uma primeira etapa (neoliberalismo) marcada pelo endividamento p\u00fablico, a submiss\u00e3o do estado aos grupos financeiros, a concentra\u00e7\u00e3o de rendimentos, a elitiza\u00e7\u00e3o e perda de representatividade dos sistemas pol\u00edticos e uma segunda etapa de satura\u00e7\u00e3o do endividamento p\u00fablico, arrefecimento econ\u00f3mico e crise de legitimidade do estado.<\/p>\n<p>O colonialismo-imperialismo e o estado moderno, em termos hist\u00f3ricos, foram pilares essenciais da constru\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa. Sobre os antecedentes coloniais do capitalismo n\u00e3o h\u00e1 muito mais a acrescentar. Quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o estado-burguesia \u00e9 evidente sobretudo a partir do s\u00e9culo XVI na Europa a estreita interac\u00e7\u00e3o entre ambos os fen\u00f3menos. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender a ascens\u00e3o do estado moderno sem o apoio financeiro e de toda a articula\u00e7\u00e3o social emergente da burguesia nascentes cujo nascimento e consolida\u00e7\u00e3o teriam sido imposs\u00edveis sem o aparelho de coer\u00e7\u00e3o e o espa\u00e7o de neg\u00f3cios oferecido pelas monarquias militaristas. E tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio levar em conta o m\u00fatuo apoio legitimador, cultural, social que permitiu a ambos crescer, transforma-se at\u00e9 chegar \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o do capitalismo industrial e sua contrapartida estatal. A hist\u00f3ria da modernidade sugere-nos trat\u00e1-los como partes de um \u00fanico sistema (heterog\u00e9neo) de poder.<\/p>\n<p>No final, na fase descendente do capitalismo enviesado pela financiariza\u00e7\u00e3o integral da economia, o Estado (em primeiro lugar os estados da grandes pot\u00eancias) tamb\u00e9m se financiariza, vai-se convertendo numa estrutura parasit\u00e1ria (uma componente das redes parasit\u00e1rias), entra em decad\u00eancia.<\/p>\n<p>A converg\u00eancia de numerosas &#8220;crises&#8221; mundiais pode indicar a exist\u00eancia de uma perturba\u00e7\u00e3o grave mas n\u00e3o necessariamente o arranque de um processo de decad\u00eancia geral do sistema. A decad\u00eancia surge como a \u00faltima etapa de um longo super ciclo hist\u00f3rico, sua fase declinante, seu envelhecimento irrevers\u00edvel (sua senilidade). Extremando os reducionismo t\u00e3o praticados pela &#8220;ci\u00eancias sociais&#8221; poder\u00edamos falar de &#8220;ciclos&#8221; parciais: energ\u00e9tico, alimentar, financeiro, produtivo, estatal e outros, e assim descrever em cada caso traject\u00f3rias que t\u00eam in\u00edcio no Ocidente entre fins do s\u00e9culo XVIII e princ\u00edpios do s\u00e9culo XIX com ra\u00edzes anteriores e envolvendo espa\u00e7os geogr\u00e1ficos crescentes at\u00e9 assumir finalmente uma dimens\u00e3o planet\u00e1ria para a seguir declinar cada um deles. A coincid\u00eancia hist\u00f3rica de todas essas declina\u00e7\u00f5es e detec\u00e7\u00e3o f\u00e1cil de densas inter-rela\u00e7\u00f5es entre todos esses &#8220;ciclos&#8221; sugere-nos a exist\u00eancia de um \u00fanico super ciclo que os inclui a todos. Dito de outro modo, trata-se do ciclo da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa que se exprime atrav\u00e9s de uma multiplicidade de aspectos parciais.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resistir.info\/crise\/imagens\/beinstein_nov12_6.jpg?w=747\" border=\"0\" alt=\"Figura 6.\" \/><\/p>\n<p><strong>O s\u00e9culo XX <\/strong><\/p>\n<p>A partir de um enfoque multi-secular do capitalismo \u00e9 poss\u00edvel avan\u00e7ar uma explica\u00e7\u00e3o da ascens\u00e3o e derrota da onda anti-capitalista que abalou o s\u00e9culo XX. A Revolu\u00e7\u00e3o Russa inaugurou em 1917 uma longa sucess\u00e3o de rupturas que amea\u00e7aram erradicar o capitalismo como sistema universal. O arranque revolucion\u00e1rio apoiava-se numa crise profunda e prolongada do sistema que poder\u00edamos localizar aproximadamente entre 1914 e 1945 e cujas sequelas estenderam-se para al\u00e9m desse per\u00edodo.<\/p>\n<p>A referida crise foi interpretada pelos revolucion\u00e1rios russos como o come\u00e7o do fim do sistema mas este, ainda que sofrendo sucessivas amputa\u00e7\u00f5es &#8220;socialistas&#8221; (Europa do Leste, China, Cuba, Vietname&#8230;) e a prolifera\u00e7\u00e3o de rebeldias e autonomiza\u00e7\u00f5es nacionalistas na periferia p\u00f4de finalmente recompor-se e seus inimigos foram caindo um ap\u00f3s o outro atrav\u00e9s de restaura\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas como no caso sovi\u00e9tico ou sinuosas como no caso chin\u00eas. As elites ocidentais puderam ent\u00e3o afirmar que o t\u00e3o anunciado decl\u00ednio do capitalismo e sua substitui\u00e7\u00e3o socialista n\u00e3o foi mais que uma ilus\u00e3o alimentada pela crise mas que esta ao ser superada a ilus\u00e3o se foi esfumando. E alguns gurus, como o agora esquecido Francis Fukuyama, at\u00e9 proclamavam o fim da hist\u00f3ria e o pleno desenvolvimento de um mil\u00e9nio capitalista liberal.<\/p>\n<p>Existe uma vis\u00e3o falsa (mas n\u00e3o totalmente falsa) da decad\u00eancia ocidental frente \u00e0 emerg\u00eancia do mundo novo a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Mesmo se entendida como\u00a0<em>&#8220;decad\u00eancia hegem\u00f3nica&#8221;, <\/em>essa vis\u00e3o pareceu ficar desmentida pela realidade com o submetimento chin\u00eas (1978) e o derrube sovi\u00e9tico (1991). Contudo era sustentada desde 1958-73 quando come\u00e7aram a declinar as taxas de crescimento do Produto Mundial Bruto e parcialmente confirmada desde 2008 porque o sistema degrada-se velozmente (condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a sua supera\u00e7\u00e3o) ainda que seu coveiro n\u00e3o apare\u00e7a ou apare\u00e7a numa dispers\u00e3o de pequenas doses historicamente insuficientes.<\/p>\n<p><strong>Insurg\u00eancias (rumo \u00e0 nega\u00e7\u00e3o absoluta do sistema) <\/strong><\/p>\n<p>A contrapartida positiva da decad\u00eancia poderia ser sintetizada como a combina\u00e7\u00e3o de resist\u00eancias e ofensivas de todo tipo contra o sistema a operarem como um fen\u00f3meno de dimens\u00e3o global e a actuarem em ordem dispersa, exprimindo uma grande diversidade de culturas, diferentes n\u00edveis de consci\u00eancia e de formas de luta.<\/p>\n<p>Desde os indignados europeus ou norte-americanos que (por agora) s\u00f3 pretendem depurar o capitalismo dos seus tumores financeiros e elitistas, at\u00e9 os combatentes afeg\u00e3os a lutarem contra o invasor ocidental ou a insurg\u00eancia colombiana animada pela perspectivas anti-capitalista passando um muito complexo leque de movimentos sociais, minorias e pequenos grupos cr\u00edticos e rebeldes.<\/p>\n<p>Oposi\u00e7\u00f5es a governos abertamente reaccion\u00e1rios e a ocupa\u00e7\u00f5es mas tamb\u00e9m \u00e0s fachadas democr\u00e1ticas mais ou menos deterioradas que tentam dar governabilidade ao capitalismo. O que coloca a hip\u00f3tese da converg\u00eancia e radicaliza\u00e7\u00e3o desses processos e ent\u00e3o a possibilidade de aprofundar o conceito de\u00a0<em>insurg\u00eancia global <\/em>pensado como realidade em forma\u00e7\u00e3o alimentada pelo decl\u00ednio da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa. A alternativa insurgente a emergir como recusa e a apontar \u00e0 nega\u00e7\u00e3o radical do sistema e ao mesmo tempo a abrir o espa\u00e7o das utopias p\u00f3s capitalistas.<\/p>\n<p>O sujeito central da insurg\u00eancia \u00e9 a humanidade \u00e0 qual a din\u00e2mica da marginaliza\u00e7\u00e3o e da super-explora\u00e7\u00e3o (a din\u00e2mica da decad\u00eancia) empurra \u00e0 rebeli\u00e3o como alternativa \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o extrema. Trata-se de milhares de milh\u00f5es de habitantes dos espa\u00e7os rurais e urbanos. Este proletariado \u00e9 muito mais extenso e variado do que a massa de oper\u00e1rios industriais (inclui suas franjas perif\u00e9ricas e empobrecidas), n\u00e3o \u00e9 o novo portador da tocha do progresso constru\u00edda pela modernidade e sim seu negador potencial absoluto o qual, na medida em que v\u00e1 destruindo as posi\u00e7\u00f5es inimigas (suas estruturas de domina\u00e7\u00e3o), estar\u00e1 construindo uma nova cultura libert\u00e1ria.<\/p>\n<p>Contudo, a irrup\u00e7\u00e3o universal desse sujeita demora, um gigantesco muro de ilus\u00f5es bloqueia sua rebeli\u00e3o. \u00c9 que a auto-destrui\u00e7\u00e3o do sistema global mal est\u00e1 no seu in\u00edcio, sua hegemonia civilizacional ainda \u00e9 muito forte, \u00e9 quase imposs\u00edvel prognosticar, estabelecer teoricamente o percurso temporal, o calend\u00e1rio da sua desarticula\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel sim estabelecer teoricamente a traject\u00f3ria descendente, ainda que sem etiquet\u00e1-la com datas.<\/p>\n<p><strong>Utopias (o retorno do fantasma) <\/strong><\/p>\n<p>Aqui surge o p\u00f3s capitalismo como necessidade e possibilidade hist\u00f3rica concreta, como utopia radical lan\u00e7a suas ra\u00edzes nos passado revolucion\u00e1rio dos s\u00e9culos XIX e XX e muito mais al\u00e9m, na culturas comunit\u00e1rias pr\u00e9 capitalistas da \u00c1sia, \u00c1frica, Am\u00e9rica Latina e da Europa anterior \u00e0 modernidade. N\u00e3o se trata de uma etapa inevit\u00e1vel (uma esp\u00e9cie de &#8220;resultado inexor\u00e1vel&#8221; do decl\u00ednio do sistema decidido por alguma &#8220;lei da hist\u00f3ria&#8221;) e sim do resultado poss\u00edvel, vi\u00e1vel, do desenvolvimento da vontade das maiorias oprimidas.<\/p>\n<p>Na g\u00e9nese do sistema j\u00e1 existia o seu inimigo absoluto, negando, recusando sua expans\u00e3o opressora. Na Europa, em torno do s\u00e9culo XVI, emergiam os desdobramentos coloniais, a ind\u00fastria de guerra sob moldes p\u00f3s artesanais, as primeiras formas estatais modernas, os capitalistas comerciais e financeiros associados \u00e0s aventuras militares das monarquias. E a super-explora\u00e7\u00e3o dos camponeses, a destrui\u00e7\u00e3o das suas culturas, dos seus sistemas comunit\u00e1rios gerando rebeli\u00f5es como a encabe\u00e7ada pelo comunista crist\u00e3o Tomas M\u00fcntzer no cora\u00e7\u00e3o da Europa sob a palavra-de-ordem:\u00a0<em>&#8220;Omnia sunt communia&#8221; (Todo es de todos, todas las cosas nos son comunes). <\/em><\/p>\n<p>O amanhecer da modernidade burguesa foi tamb\u00e9m o da sua nega\u00e7\u00e3o absoluta. Ambos os lados traziam novas culturas mas ao mesmo tempo herdavam velhas culturas de opress\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a de banqueiros, latifundi\u00e1rios e pr\u00edncipes que derrotou os camponeses na batalha de Frankenhausen (Maio de 1525) e assassinou M\u00fcntzer unia seus novos apetites burgueses aos velhos privil\u00e9gios feudais (convertidos em base de acumula\u00e7\u00e3o das novas formas de poder) enquanto os camponeses rebeldes reinterpretavam os evangelhos de maneira comunista e assumiam a heran\u00e7a da liberdade comunit\u00e1ria do passado, inclu\u00eddas valiosas tradi\u00e7\u00f5es pr\u00e9-crist\u00e3s. A constru\u00e7\u00e3o de alternativas inovadoras (de opress\u00e3o e de emancipa\u00e7\u00e3o) lan\u00e7ava suas ra\u00edzes no passado.<\/p>\n<p>Revendo a seguir o s\u00e9culo XIX europeu e mais adiante a crise ocidental entre 1914 e 1945 e suas consequ\u00eancias vemos como reiteradas vezes o dem\u00f3nio burgu\u00eas derrota o seu inimigo mortal, que renasce mais adiante para novamente apresentar batalha. Desde as insurg\u00eancias oper\u00e1rias europeias at\u00e9 chegar \u00e0 derrota da Comuna de Paris na era do capitalismo juvenil que j\u00e1 assumia uma dimens\u00e3o imperialista planet\u00e1ria at\u00e9 chegar \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es comunistas russa e chinesa concluindo com a degenera\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e a implos\u00e3o da primeira e a muta\u00e7\u00e3o capitalista selvagem da segunda.<\/p>\n<p>Na sua prolongada hist\u00f3ria a civiliza\u00e7\u00e3o burguesa passou pela sua inf\u00e2ncia europeia at\u00e9 a sua maturidade no s\u00e9culo XX e finalmente a sua velhice e degrada\u00e7\u00e3o senil desde fins do s\u00e9culo XX at\u00e9 os nossos dias.<\/p>\n<p>Na era da decad\u00eancia do capitalismo vai assomando novamente a figura do seu inimigo. Trata-se de um novo fantasma herdeiro e ao mesmo tempo superador dos anteriores. Um olhar pessimista nos diria que ser\u00e1 novamente derrotado. Se isso ocorrer esta civiliza\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria ir-se-\u00e1 submergindo em n\u00edveis de barb\u00e1rie nunca antes vistos uma vez que a sua capacidade (auto)destrutiva supera qualquer outra decad\u00eancia civilizacional. Agora n\u00e3o est\u00e1 em jogo a sobreviv\u00eancia de alguns milh\u00f5es de seres humanos e sim de mais de sete mil milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas esse pessimismo apoia-se na hist\u00f3ria da modernidade pensada como uma infinita repeti\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios onde muda a dimens\u00e3o, a complexidade tecnol\u00f3gica, os modelos de consumo, etc mas fica intacta a din\u00e2mica senhor-escravo, o primeiro controlando os instrumentos que lhe permitem renovar sua domina\u00e7\u00e3o e o segundo embarcado em batalhas perdidas de antem\u00e3o. Dessa maneira \u00e9 ocultado o facto de que a modernidade burguesa entrou em decad\u00eancia o que abre a possibilidade da ruptura, do colapso da referida din\u00e2mica perversa, abrindo o horizonte \u00e0 vit\u00f3ria dos oprimidos. Isso n\u00e3o foi poss\u00edvel nas etapas da adolesc\u00eancia, juventude ou maturidade do sistema, mas \u00e9 poss\u00edvel agora.<\/p>\n<p>\u00c9 o decl\u00ednio do Ocidente (entendido como civiliza\u00e7\u00e3o burguesa universal) o que abre o espa\u00e7o para o novo fantasma anti-capitalista que para se impor precisa irromper sob a forma de um vasto, plural, processo de des-ocidentaliza\u00e7\u00e3o, de cr\u00edtica radical \u00e0 modernidade imperialista, seus modelos de consumo e produ\u00e7\u00e3o, de organiza\u00e7\u00e3o institucional, etc. Trata-se ent\u00e3o da\u00a0<em>aboli\u00e7\u00e3o <\/em>do sistema no sentido hegeliano do conceito: negar, destruir, anular as bases da civiliza\u00e7\u00e3o declinante e ao mesmo tempo recuperar positivamente em outro contexto cultura tudo aquilo que possa ser utiliz\u00e1vel.<\/p>\n<p>Voltando a Hegel, para super\u00e1-lo \u00e9 necess\u00e1rio afirmar que a marcha da liberdade que ele supunha avan\u00e7ar desde o &#8220;Oriente&#8221; (entendido como a periferia do mundo ocidental-moderno) para realizar-se plenamente no Ocidente, na realidade avan\u00e7a a partir do subsolo do mundo e pode chegar a dar um salto gigantesco esmagando, ultrapassando os baluartes da opress\u00e3o ocidental, irrompendo como uma onda universal de povos insurgentes.<\/p>\n<p>O primeiro fantasma foi europeu de corpo e alma e travou sua \u00faltima batalha em 1871 na Comuna de Paris. O segundo fantasma assumiu uma envergadura planet\u00e1ria, levantou sua bandeira vermelha na R\u00fassia e na China alentando um amplo espectro de rebeli\u00f5es perif\u00e9ricas. Tinha um corpo universal mas a sua cabe\u00e7a estava impregnada de ilus\u00f5es progressistas ocidentais (o tecnologismo, o aparelhismo, o estatismo, o consumismo). Sua data ou per\u00edodo de falecimento pode ser fixada entre 1978 quando a China entra na via capitalista e 1991 (derrube da URSS).<\/p>\n<p>O que o s\u00e9culo XXI necessita \u00e9 o desenvolvimento de um terceiro fantasma revolucion\u00e1rio, completamente des-ocidentalizado, ou seja, negador absoluto da modernidade burguesa e por conseguinte universal de corpo e alma, anti-capitalista radical, construindo a nova cultura p\u00f3s capitalista a partir da confronta\u00e7\u00e3o intransigente com o sistema. Herdando os antigos combates, levantando a bandeira multicolor da rebeldia de todos os povos escravizados do planeta, das suas identidades esmagadas, submergidas, convertidas gra\u00e7as aos seus combates e contra-culturas opostas ao capitalismo.<\/p>\n<p>Em suma, a emerg\u00eancia, a avalanche plural de povos submetidos, da humanidade verdadeira, libertada (em processo de emancipa\u00e7\u00e3o) da pr\u00e9 hist\u00f3ria, da hist\u00f3ria inferior do homem inimigo do seu entorno ambiental, do espa\u00e7o que lhe permite viver e, em consequ\u00eancia, do homem inimigo de si mesmo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma utopia universal \u00fanica a apontar a uma humanidade homog\u00e9nea e sim de uma ampla variedade de utopias comunit\u00e1rias ancoradas em identidades populares inter-relacionadas, conformando um grande espa\u00e7o plural marcado pela aboli\u00e7\u00e3o das classes sociais e do estado.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>(1) Blanchard, do FMI, diz que a crise durar\u00e1 uma d\u00e9cada,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.que.es\/ultimas-noticias\/internacionales\/201210031112-blanchard-dice-crisis-durara-decada-reut.html\" target=\"_blank\">www.que.es\/&#8230;<\/a><\/p>\n<p>(2) Natixis &#8211; Banque de financement &amp; d&#8217;investissement,\u00a0<a href=\"http:\/\/cib.natixis.com\/flushdoc.aspx?id=65421\" target=\"_blank\">La crise de la zone euro peut durer 20 ans<\/a> , Flash \u00c9conomie \u2013 Recherche \u00c9conomique, 8 Ao\u00fbt 2012 \u2013 N\u00b0. 534.<\/p>\n<p>(3) Ansuya Harjan, &#8220;Roubini: My &#8216;Perfect Storm&#8217; Scenario Is Unfolding Now&#8221;, CNBC 9 Jul 2012,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cnbc.com\/id\/48116835\" target=\"_blank\">http:\/\/www.cnbc.com\/id\/48116835<\/a> y Nouriel Roubini, &#8220;A Global Perfect Storm&#8221;, Proyect Syndicate, 15 June 2012,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.project-syndicate.org\/print\/a-global-perfect-storm\" target=\"_blank\">http:\/\/www.project-syndicate.org\/print\/a-global-perfect-storm<\/a> .<\/p>\n<p>(4) &#8220;Banco de Basilea&#8221;, Bank for International Settlements, Monetary and Economic Department, OTC derivatives market activity. (\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bis.org\/\" target=\"_blank\">www.bis.org<\/a> ).<\/p>\n<p>(5) Ugo Bardi and Marco Pagani. &#8220;Peak Minerals&#8221;, The Oil Drum:Europe, October 15, 2007,\u00a0<a href=\"http:\/\/europe.theoildrum.com\/node\/3086\" target=\"_blank\">http:\/\/europe.theoildrum.com\/node\/3086<\/a> .<\/p>\n<p>(6) Patrick D\u00e9ry and Bart Anderson, &#8220;Peak Phosphorus&#8221;, The Oil Drum:Europe , August 17, 2007,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.theoildrum.com\/node\/2882\" target=\"_blank\">http:\/\/www.theoildrum.com\/node\/2882<\/a> .<\/p>\n<p>(7) Karl Polanyi, &#8220;La gran transformaci\u00f3n. Los or\u00edgenes econ\u00f3micos y pol\u00edticos de nuestro tiempo&#8221;, Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, Mexico DF, 2011.<\/p>\n<p>(8) Roger Dangeville, &#8220;Marx-Engels, La Crise&#8221;, Union G\u00e9n\u00e9rale D`Editions-10\/18, Paris 1978.<\/p>\n<p>(9) (Marx-Engels, &#8220;La ideolog\u00eda alemana&#8221;, 1845-46) en Marx &amp; Engels, Obras Escogidas, Editorial Progreso, Mosc\u00fa, 1974.<\/p>\n<p><strong>Textos do autor em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">resistir.info<\/a>: <\/strong><\/p>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/beinstein_17dez09_p.html\" target=\"_blank\">No princ\u00edpio de uma longa viagem<\/a> , 28\/Dez\/09<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/beinstein_vtopo_fev09.html\" target=\"_blank\">A crise na era senil do capitalismo<\/a> , 16\/Mar\/09<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/beinstein_mar09.html\" target=\"_blank\">Rumo \u00e0 desintegra\u00e7\u00e3o do sistema global<\/a> , 04\/Mar\/09<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/beinstein_14fev09_p.html\" target=\"_blank\">A jun\u00e7\u00e3o depressiva global (radicaliza\u00e7\u00e3o da crise)<\/a> , 18\/Fev\/09<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/beinstein_04nov08_p.html#asterisco\" target=\"_blank\">Rostos da crise: Reflex\u00f5es sobre o colapso da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa<\/a> , 12\/Nov\/08<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/beinstein_11jul08.html\" target=\"_blank\">Infla\u00e7\u00e3o, agroneg\u00f3cios e crise de governabilidade<\/a> , 21\/Jul\/08<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/beinstein_colapso_mai08.html\" target=\"_blank\">O naufr\u00e1gio do centro do mundo: Os EUA entre a recess\u00e3o e o colapso<\/a> , 08\/Mai\/08<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/beinstein_2a_etapa.html\" target=\"_blank\">No princ\u00edpio da segunda etapa da crise global<\/a> , 13\/Fev\/08<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/eua\/beinstein_06jun07.html\" target=\"_blank\">Estados Unidos: a irresist\u00edvel chegada da recess\u00e3o<\/a> , 06\/Jun\/07<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/eua\/beinstein_17jan07.html\" target=\"_blank\">O decl\u00ednio do d\u00f3lar\u2026 e dos Estados Unidos<\/a> , 18\/Jan\/07<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/beinstein_terra_incognita.html\" target=\"_blank\">A solid\u00e3o de Bush, o fracasso dos falc\u00f5es e o desinchar das bolhas<\/a> , 27\/Ago\/07<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/beinstein_ouro.html\" target=\"_blank\">A irresist\u00edvel ascens\u00e3o do ouro<\/a> , 03\/Jul\/06<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/argentina\/beinstein_progressismo_p.html\" target=\"_blank\">O reinado do poder confuso<\/a> , 12\/Abr\/06<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/crise_mundial_jan06.html\" target=\"_blank\">Os primeiros passos da megacrise<\/a> , 24\/Jan\/06<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/beinstein_petroguerra.html\" target=\"_blank\">As m\u00e1s not\u00edcias da petroguerra<\/a> , 20\/Jul\/05<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/argentina\/beinstein_crise_decadencia.html\" target=\"_blank\">Pensar a decad\u00eancia: O conceito de crise em princ\u00edpios do s\u00e9culo XXI<\/a> , 11\/Abr\/05<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/argentina\/beinstein_28out04.html\" target=\"_blank\">Os Estados Unidos no centro da crise mundial<\/a> , 01\/Nov\/04<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/argentina\/beinstein_06out04.html\" target=\"_blank\">A segunda etapa do governo Kirchner<\/a> , 07\/Out\/04<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.resistir.info\/argentina\/beinstein_set04_port.html\" target=\"_blank\">A vida depois da morte: A viabilidade do p\u00f3s-capitalismo<\/a> , 07\/Set\/04 <strong>[*] Economista, professor na Universidade de Buenos Aires. \u00a0 Interven\u00e7\u00e3o no Ciclo de Conferencias &#8220;Los retos de la humanidad: la construcci\u00f3n social alternativa&#8221;, promovido pelo Centro de Investigaciones Interdisciplinarias en Ciencias y Humanidades (CEIICH) da Universidad Nacional Aut\u00f3noma de M\u00e9xico, 23-25\/Outubro\/2012. <\/strong> <strong>Este ensaio encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/li>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nGalizacig\n\n\n\n\n\n\n\n\npor Jorge Beinstein\u00a0[*]\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3850\"> 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