{"id":3853,"date":"2012-11-13T18:36:55","date_gmt":"2012-11-13T18:36:55","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3853"},"modified":"2012-11-13T18:36:55","modified_gmt":"2012-11-13T18:36:55","slug":"social-democracia-notas-sobre-um-percurso-desonroso-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3853","title":{"rendered":"Social-democracia &#8211; Notas sobre um percurso desonroso*"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cUm dos \u00absegredos\u00bb da social-democracia reside nas suas caracter\u00edsticas camale\u00f3nicas, no seu ecletismo, na sua composi\u00e7\u00e3o inter-classista, na sua heterogeneidade, na exist\u00eancia no seu interior de diferentes alas e correntes, na capacidade para, segundo as circunst\u00e2ncias e necessidades, ser um pouco de tudo e o seu contr\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Albano Nunes<\/p>\n<p>25.Ago.12<\/p>\n<p>Ao procurar responder \u00e0\u00a0pergunta \u00abo que \u00e9\u00a0a social-democracia hoje?\u00bb\u00a0h\u00e1\u00a0 uma quest\u00e3o pr\u00e9via de lucidez e pura higiene mental: rejeitar liminarmente a caracteriza\u00e7\u00e3o desta corrente pol\u00edtica como for\u00e7a \u00abde esquerda\u00bb e, do mesmo passo, rejeitar uma \u00abunidade de esquerda\u00bb que, em nome de um pretenso combate a uma direita \u00abideol\u00f3gica\u00bb e \u00abultraliberal\u00bb, apenas serviria para atrasar a unidade necess\u00e1ria e iludir quest\u00f5es de fundo da luta de classes.<\/p>\n<p>Faz ainda algum sentido falar em \u00absocial-democracia\u00bb?<\/p>\n<p>Se sim, o que \u00e9 a \u00absocial-democracia\u00bb hoje?<\/p>\n<p>Como caracteriz\u00e1-la de um ponto de vista de classe?<\/p>\n<p>Que lugar ocupa no xadrez pol\u00edtico internacional?<\/p>\n<p>Como se posiciona em rela\u00e7\u00e3o aos grandes problemas do nosso tempo?<\/p>\n<p>No quadro da pol\u00edtica de alian\u00e7as da classe oper\u00e1ria como encarar a \u00absocial-democracia\u00bb?<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o quest\u00f5es a que um partido revolucion\u00e1rio tem de dar resposta para determinar com rigor a sua posi\u00e7\u00e3o no combate ideol\u00f3gico e tamb\u00e9m eventuais converg\u00eancias e alian\u00e7as, por mais limitadas e conjunturais que possam ser. Resposta que \u00e9 tanto mais necess\u00e1ria quando o mundo est\u00e1 confrontado com a amea\u00e7a de uma regress\u00e3o de dimens\u00e3o civilizacional em que a social-democracia est\u00e1 profundamente comprometida e se imp\u00f5e unir na resist\u00eancia e na luta todas as for\u00e7as que, pela sua situa\u00e7\u00e3o social e pr\u00e1tica pol\u00edtica, se integram de facto na ampla frente anti-monopolista e anti-imperialista que, s\u00f3 ela, poder\u00e1 inverter o rumo destruidor que o capitalismo est\u00e1 a impor \u00e0 Humanidade.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da \u00absocial-democracia\u00bb \u00e9 uma quest\u00e3o actual e em certo sentido crucial. Os partidos socialistas \u2013 social-democratas \u2013 trabalhistas, n\u00e3o obstante a sua reconhecida evolu\u00e7\u00e3o direitista, continuam a reclamar-se de \u00abesquerda\u00bb e a dispor de apreci\u00e1vel express\u00e3o eleitoral e real influ\u00eancia em importantes segmentos da classe oper\u00e1ria e camadas populares. A luta dos comunistas pela unidade da classe oper\u00e1ria e pela hegemonia politica e ideol\u00f3gica da classe oper\u00e1ria na luta contra o grande capital, encontra pela frente esta realidade na generalidade dos pa\u00edses capitalistas desenvolvidos, nomeadamente da Europa onde a social-democracia nasceu e mais fortemente se enraizou, mas tamb\u00e9m na Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica e \u00c1sia. O combate \u00e0 ideologia da colabora\u00e7\u00e3o de classes, ao divisionismo e ao anti-comunismo, perdura como uma exig\u00eancia central do nosso tempo.<\/p>\n<p>Por outro lado a social-democracia, que surgiu como corrente reformista e revisionista no seio do movimento oper\u00e1rio e se desenvolveu como for\u00e7a anti-revolucion\u00e1ria, hostil \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e aos pa\u00edses socialistas, transformou-se em for\u00e7a abertamente contra-revolucion\u00e1ria, em componente fundamental do sistema de explora\u00e7\u00e3o capitalista e pilar do imperialismo. O \u00abbloco central\u00bb (\u00abcentro-direita\u00bb e \u00abcentro-esquerda\u00bb), a \u00abbipolariza\u00e7\u00e3o\u00bb, a \u00abaltern\u00e2ncia\u00bb (do \u00abora agora governo eu, governas tu, governas tu mais eu\u00bb), espelham bem esta realidade. A cavalgada da social-democracia para a direita neoliberal (que mais que \u00abrendi\u00e7\u00e3o\u00bb foi op\u00e7\u00e3o consciente e deliberada) aproximou-a, confundiu-a e em certos casos fundiu-a com a pr\u00f3pria direita burguesa, de que se tornou uma simples variante. Os entendimentos de incid\u00eancia governamental ou parlamentar, e em qualquer caso as converg\u00eancias e coincid\u00eancias em todas as quest\u00f5es fundamentais \u2013 como no caso da integra\u00e7\u00e3o capitalista europeia, da OTAN e sua estrat\u00e9gia agressiva planet\u00e1ria, das pol\u00edticas de apoio ao capital monopolista contra os trabalhadores \u2013 tornaram-se uma banalidade. Os acordos s\u00e3o formais e informais, selados \u00e0 luz do dia em nome do \u00abinteresse nacional\u00bb ou em (nem sempre) discretas comezainas de troca de favores. O que n\u00e3o dispensa o habitual recurso e manipula\u00e7\u00e3o do bin\u00f3mio \u00abesquerda\/direita\u00bb sempre que tal sirva para enganar a opini\u00e3o p\u00fablica e manter sob a sua influ\u00eancia massas descontentes, sobretudo em per\u00edodos eleitorais.<\/p>\n<p>O caso porventura mais evidente de \u00abpartido \u00fanico\u00bb\u00a0bic\u00e9falo \u00e9\u00a0o norte-americano com a dupla Partido Republicano\/Partido Democr\u00e1tico, este \u00faltimo erigido, com Clinton, em exemplo da fam\u00edlia social-democrata, mesmo n\u00e3o sendo membro da Internacional Socialista. Mas a tend\u00eancia \u00e9 geral como, nomeadamente, acontece na Gr\u00e3-Bretanha, na Alemanha, na Espanha, na Gr\u00e9cia (1) ou Portugal, e procura-se imp\u00f4-la e institucionaliz\u00e1-la com leis que marginalizem os chamados \u00abpequenos partidos\u00bb e facilitem a bipolariza\u00e7\u00e3o, num jogo perverso que visa confundir \u00abaltern\u00e2ncia\u00bb no governo com \u00abalternativa\u00bb pol\u00edtica, e assim fechar a porta a alternativas verdadeiras.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9\u00a0que, no governo ou na \u00aboposi\u00e7\u00e3o\u00bb, a social-democracia se tornou parte integrante do sistema de poder capitalista, uma for\u00e7a que, como sublinhou a Resolu\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do XVIII Congresso do PCP, est\u00e1 hoje \u00abestruturalmente comprometida\u00bb com os interesses do grande capital. \u00c9 desta realidade que o movimento comunista e revolucion\u00e1rio tem de partir para concretizar a pol\u00edtica de alian\u00e7as da classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>Sem qualquer pretens\u00e3o de fazer aqui a hist\u00f3ria da social-democracia, \u00e9 indispens\u00e1vel assinalar alguns momentos marcantes da sua evolu\u00e7\u00e3o: de corrente do movimento oper\u00e1rio (assim nasceu) a instrumento da grande burguesia; de produto da influ\u00eancia da ideologia burguesa no mundo do trabalho a simples variante do pensamento da classe dominante; de defensora da liquida\u00e7\u00e3o (\u00abpac\u00edfica\u00bb e \u00abdemocr\u00e1tica\u00bb, claro) do capitalismo e propagandista de um socialismo \u00abdemocr\u00e1tico\u00bb e de \u00abrosto humano\u00bb, a defensora do capitalismo (\u00abhumanizado\u00bb, com \u00abconsci\u00eancia social\u00bb e \u00abinclusivo\u00bb, naturalmente) e do imperialismo, com tudo quanto tal significa de reaccion\u00e1rio e criminoso.<\/p>\n<p>Falamos da social-democracia, claro est\u00e1, em termos gerais, globais. Falamos da posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica adoptada e posta em pr\u00e1tica pelos seus chefes e ide\u00f3logos. \u00c9\u00a0grande a diversidade dos partidos que a comp\u00f5em. As condi\u00e7\u00f5es de lugar e tempo talham em grande medida o perfil dos partidos socialistas \u2013 social-democratas \u2013 trabalhistas. A social-democracia sempre teve rostos diferentes na Europa Ocidental (h\u00e1 muito hegemonizada pelo SPD alem\u00e3o e pelo Partido Trabalhista brit\u00e2nico), ou na Am\u00e9rica Latina, onde, conforme as circunst\u00e2ncias, tanto adquiriu tonalidades \u00abrevolucion\u00e1rias\u00bb de fachada nacionalista, como constituiu instrumento decisivo para servir o imperialismo ianque e derrotar o desenvolvimento de processos democr\u00e1ticos, anti-imperialistas e revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Um dos \u00absegredos\u00bb\u00a0da social-democracia reside nas suas caracter\u00edsticas camale\u00f3nicas, no seu ecletismo, na sua composi\u00e7\u00e3o inter-classista, na sua heterogeneidade, na exist\u00eancia no seu interior de diferentes alas e correntes, na capacidade para, segundo as circunst\u00e2ncias e necessidades, ser um pouco de tudo e o seu contr\u00e1rio. Aquilo que para um partido comunista \u00e9 mortal (correntes de opini\u00e3o cristalizadas, grupos, frac\u00e7\u00f5es, pol\u00e9micas p\u00fablicas) para a social-democracia \u00e9 um modo natural de ser, indispens\u00e1vel para alimentar a ideia de que a alternativa \u00e0s pol\u00edticas de direita se encontra dentro dos pr\u00f3prios partidos socialistas \u2013 social-democratas \u2013 trabalhistas, mesmo quando praticam uma pol\u00edtica claramente de direita e o seu programa \u00e9 abertamente capitalista. \u00c9 essa a miss\u00e3o de todos os Alegres deste mundo.<\/p>\n<p>Em qualquer caso a social-democracia n\u00e3o existe nem age no v\u00e1cuo da luta de classes. Posiciona-se desde sempre, desde o hist\u00f3rico corte revisionista simbolizado por Bernstein (2) (\u00abo movimento \u00e9 tudo, o objectivo final n\u00e3o \u00e9 nada\u00bb), do lado da adapta\u00e7\u00e3o, consolida\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do capitalismo e n\u00e3o hesitou diante dos maiores crimes para cortar o passo a transforma\u00e7\u00f5es sociais profundas, como aconteceu com a trai\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de Novembro de 1918 e a abertura do caminho ao nazismo pela pol\u00edtica conciliadora dos dirigentes social-democratas da Rep\u00fablica de Weimar. O cruel assassiOTAN de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht fica a assinalar uma das p\u00e1ginas mais negras do reformismo contra-revolucion\u00e1rio social-democrata.<\/p>\n<p>Mas o posicionamento pr\u00e1tico da social-democracia foi tamb\u00e9m influenciado pela luta popular de massas, pela press\u00e3o das suas bases oper\u00e1rias e pela ac\u00e7\u00e3o independente dos comunistas. Assim foram poss\u00edveis, por exemplo, os grandes \u00eaxitos das Frentes Populares, como nos casos da Espanha e da Fran\u00e7a. Assim foram poss\u00edveis, com a projec\u00e7\u00e3o poderosa das realiza\u00e7\u00f5es da URSS e dos pa\u00edses socialistas, os avan\u00e7os do chamado \u00abEstado social\u00bb, que nos pa\u00edses n\u00f3rdicos chegaram a cobrir-se abusivamente com o ep\u00edteto de \u00absocialismo n\u00f3rdico\u00bb. Foi a ac\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da classe oper\u00e1ria e das massas trabalhadoras, antes e depois do 25 de Abril, que empurrou M\u00e1rio Soares e o PS, entretanto fundado na Rep\u00fablica Federal Alem\u00e3, para posi\u00e7\u00f5es e converg\u00eancias \u00e0 esquerda, que, como rapidamente se veio a comprovar, contrariavam a sua natureza liberal-burguesa.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, sem o envolvimento das massas e o empurr\u00e3o das suas bases atra\u00eddas \u00e0\u00a0unidade da ac\u00e7\u00e3o com os comunistas, tirando raras e honrosas excep\u00e7\u00f5es configuradas por percursos de luta peculiares (como o velho Partido Socialista Italiano de Pietro Nenni, ou o Partido Socialista do Chile de Salvador Allende), a op\u00e7\u00e3o das c\u00fapulas social-democratas foi invariavelmente por alian\u00e7as com os partidos da direita e da reac\u00e7\u00e3o para impedir qualquer avan\u00e7o revolucion\u00e1rio e preservar o sistema capitalista em qualquer das suas variantes, keynesiana, liberal ou mesmo fascista, neste caso at\u00e9 ao momento em que os pr\u00f3prios partidos social democratas se tornaram tamb\u00e9m v\u00edtimas da persegui\u00e7\u00e3o e ilegaliza\u00e7\u00e3o, que, numa primeira fase, se direccionara fundamentalmente contra os comunistas.<\/p>\n<p>No que respeita \u00e0\u00a0experi\u00eancia portuguesa \u00e9\u00a0oportuno recordar \u2013 sem ir aos tempos da auto-dissolu\u00e7\u00e3o do velho e desacreditado Partido Socialista e da colabora\u00e7\u00e3o de um seu chefe, Ramada Curto, com Salazar na elabora\u00e7\u00e3o da Carta do Trabalho fascista e a posi\u00e7\u00e3o da direc\u00e7\u00e3o do PS portugu\u00eas. Passado o curto per\u00edodo de colagem \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o, M\u00e1rio Soares rapidamente se transformou em b\u00f3ia de salva\u00e7\u00e3o do grande capital e p\u00f3lo aglutinador de todas as for\u00e7as contra-revolucion\u00e1rias, e a pol\u00edtica de alian\u00e7as do PS, com excep\u00e7\u00f5es localizadas e pontuais, fez-se sempre \u00e0 direita (3). A assinatura do pacto de agress\u00e3o pelo PS, PSD e CDS com a troika estrangeira \u00e9 o corol\u00e1rio l\u00f3gico da enraizada posi\u00e7\u00e3o de classe de um partido que, depois de ter \u00abmetido o socialismo na gaveta\u00bb, se tornou uma for\u00e7a pol\u00edtica profundamente identificada com os interesses do grande capital e do imperialismo estrangeiro.<\/p>\n<p>Claro que a capacidade, cada vez mais questionada, de haver for\u00e7as que, como o PS, conseguem ano ap\u00f3s ano recuperar o descontentamento de largos sectores da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai durar sempre. S\u00e3o previs\u00edveis situa\u00e7\u00f5es de conflito, enfraquecimento e divis\u00e3o, e o aparecimento de novas for\u00e7as talhadas pela agudiza\u00e7\u00e3o da luta de classes. S\u00e3o inevit\u00e1veis processos de recomposi\u00e7\u00e3o do quadro pol\u00edtico-partid\u00e1rio, impulsionados pelo desenvolvimento da luta de massas, que abram a possibilidade de a arruma\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no plano social encontrar correspond\u00eancia no plano pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Em qualquer caso n\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0com este PS e a sua continuada orienta\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica pol\u00edticas que pensamos ser poss\u00edvel a pol\u00edtica patri\u00f3tica e de esquerda que preconizamos como via para romper com trinta e seis anos de pol\u00edticas de direita e avan\u00e7ar na solu\u00e7\u00e3o dos problemas dos trabalhadores, do povo e do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para concretizar a unidade que a situa\u00e7\u00e3o reclama n\u00e3o basta uma \u00abguinada \u00e0\u00a0esquerda\u00bb\u00a0num corpo apodrecido pelo oportunismo e pela identifica\u00e7\u00e3o com o poder econ\u00f3mico. Nem sequer, como pretendem o BE (Bloco de Esquerda), em Portugal, ou o PEE (Partido da Esquerda Europeia) na Europa, a simples apropria\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o eleitoral alienado pela correria para a direita das actuais c\u00fapulas social-democratas. Na pr\u00e1tica isso representaria fundamentalmente o fortalecimento de uma \u00abala esquerda\u00bb da social-democracia (que \u00e9 aquilo que, na Gr\u00e9cia, o Syriza \u00e9) com a miss\u00e3o de ganhar tempo para travar o avan\u00e7o de for\u00e7as anti-capitalistas e revolucion\u00e1rias, e n\u00e3o a emerg\u00eancia de for\u00e7as realmente comprometidas com a ruptura com o sistema, ainda que influenciadas por maiores ou menores ilus\u00f5es reformistas. Nem \u00e9 preciso ir mais longe do que a quest\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o capitalista europeia \u2013 com o \u00abeurope\u00edsmo de esquerda\u00bb do BE, ou a umbilical liga\u00e7\u00e3o do \u00abpee\u00bb \u00e0 UE \u2013 para rejeitar a ilus\u00e3o de que seja por a\u00ed que possa ultrapassar-se a aliena\u00e7\u00e3o eleitoral de amplas massas entretanto objectivamente interessadas em politicas anti-monopolistas e na transforma\u00e7\u00e3o socialista da sociedade.<\/p>\n<p>Ao procurar responder \u00e0\u00a0pergunta \u00abo que \u00e9\u00a0a social-democracia hoje?\u00bb\u00a0h\u00e1\u00a0uma quest\u00e3o pr\u00e9via de lucidez e pura higiene mental: rejeitar liminarmente a caracteriza\u00e7\u00e3o desta corrente pol\u00edtica como for\u00e7a\u00a0\u00abde esquerda\u00bb\u00a0e, do mesmo passo, rejeitar uma \u00abunidade de esquerda\u00bb que, em nome de um pretenso combate a uma direita \u00abideol\u00f3gica\u00bb e \u00abultraliberal\u00bb, apenas serviria para atrasar a unidade necess\u00e1ria e iludir quest\u00f5es de fundo da luta de classes.<\/p>\n<p>\u00c9 ver, ali\u00e1s, como por essa Europa afora os partidos socialistas \u2013 social-democratas \u2013 trabalhistas, sem excep\u00e7\u00e3o, est\u00e3o comprometidos at\u00e9 ao tutano com a ofensiva do capital visando arrebatar aos trabalhadores direitos e conquistas alcan\u00e7adas por muitas d\u00e9cadas de duras lutas e \u00e0 custa de pesados sacrif\u00edcios. E como desenvolvem uma coopera\u00e7\u00e3o estruturada e oficial com os partidos da direita \u2013 veja-se o bin\u00f3mio Partido Socialista Europeu\/Partido Popular Europeu \u2013 para congeminar estrat\u00e9gias comuns e repartir pastas e postas nas estruturas da UE. E por a\u00ed abaixo, ao n\u00edvel dos diferentes pa\u00edses, \u00e9 o que se v\u00ea.<\/p>\n<p>Para chegar at\u00e9\u00a0aqui foi preciso percorrer um longo caminho desde o tempo em que, desmascarados por L\u00e9nine e pelos jovens partidos comunistas, os velhos partidos da II Internacional se consideram eles os genu\u00ednos int\u00e9rpretes de Marx e Engels, cuja obra entretanto falsificam e despojam da sua ess\u00eancia revolucion\u00e1ria (4).<\/p>\n<p>Neste processo, h\u00e1\u00a0momentos paradigm\u00e1ticos de que aqui se deixam alguns exemplos: a condena\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro; a pol\u00edtica de \u00abn\u00e3o interven\u00e7\u00e3o\u00bb contra a Rep\u00fablica espanhola capitaneada por L\u00e9on Blum; a recusa \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o com os comunistas para fazer frente ao ascenso do nazi-fascismo; a ruptura da unidade democr\u00e1tica anti-fascista depois da Vit\u00f3ria na II Guerra Mundial; a activa participa\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio imperialista da \u00abguerra fria\u00bb com o \u00absocialista\u00bb belga Paul-Henry Spaak escolhido para primeiro Secret\u00e1rio-geral da OTAN; a pol\u00edtica colonialista da SFIO em Fran\u00e7a profundamente respons\u00e1vel pelas guerras da Indochina e da Arg\u00e9lia (1956); o Congresso de Bad-Godesberg do SPD alem\u00e3o, que, em 1959, oficializa a sua ruptura com o marxismo e o rep\u00fadio da luta de classes; a guinada direitista e anti-comunista ligada com as derrotas do socialismo na URSS e no Leste da Europa e a empenhada participa\u00e7\u00e3o no salto imperialista da Uni\u00e3o Europeia de Maastricht; a \u00abterceira via\u00bb de Tony Blair, liquidando o que ainda pudesse restar da refer\u00eancia oper\u00e1ria e da pol\u00edtica social do Partido Trabalhista brit\u00e2nico, e a introdu\u00e7\u00e3o do Partido Democr\u00e1tico dos EUA no redil social-democrata; a conspira\u00e7\u00e3o aberta contra a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa sob o disfarce hip\u00f3crita da \u00abEuropa connosco\u00bb; o percurso emblem\u00e1tico de Javier Solana, de dirigente do PSOE espanhol e do poderoso movimento contra a entrada da Espanha na OTAN a Secret\u00e1rio-geral desta alian\u00e7a agressiva; a brutal ofensiva do Governo do SPD Gerard Schr\u00f6der, \u00abo amigo dos patr\u00f5es\u00bb, contra os sal\u00e1rios e direitos dos trabalhadores alem\u00e3es atrav\u00e9s da \u00abAgenda 2010\u00bb e do \u00abHartz IV\u00bb (5); a activa participa\u00e7\u00e3o dos respectivos partidos socialistas, PS e PASOK respectivamente, no impiedoso processo de extors\u00e3o de que os povos portugu\u00eas e grego est\u00e3o a ser v\u00edtimas.<\/p>\n<p>A deriva direitista da social-democracia internacional n\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0 um processo linear. L\u00e1 onde os partidos comunistas e o movimento oper\u00e1rio e popular eram fortes foram poss\u00edveis momentos de converg\u00eancia e coopera\u00e7\u00e3o progressista. Mas a contradi\u00e7\u00e3o entre social-democratas e comunistas que, simplificadamente, era na altura da cis\u00e3o do movimento oper\u00e1rio \u00abreforma\/revolu\u00e7\u00e3o\u00bb, tornou-se nos dias de hoje \u00abgest\u00e3o do capitalismo\/revolu\u00e7\u00e3o\u00bb e a ideologia da colabora\u00e7\u00e3o de classes t\u00edpica do reformismo acabou por conduzir a social-democracia a tomar partido aberto pelo capital em geral e pelo grande capital monopolista em particular. E nem mesmo nas diferentes formas de gest\u00e3o do capitalismo \u2013 como sucede com a \u00abliberal\u00bb ou a \u00abkeynesiana\u00bb \u2013 \u00e9 j\u00e1 f\u00e1cil distinguir a social-democracia da direita propriamente dita.<\/p>\n<p>Este desonroso percurso da social-democracia internacional \u00e9 afinal consequ\u00eancia l\u00f3gica do pecado original seu: o desprezo pelas massas, o temor e nega\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o, a rejei\u00e7\u00e3o da conquista do poder pela classe oper\u00e1ria como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a liquida\u00e7\u00e3o do capitalismo e da\u00ed a nega\u00e7\u00e3o revisionista e oportunista do pensamento de Marx, a come\u00e7ar pela rejei\u00e7\u00e3o do conceito de \u00abditadura do proletariado\u00bb. Pecado que contaminou importantes partidos comunistas, nomeadamente aqueles que nos anos 70 desenvolveram a linha do \u00abeurocomunismo\u00bb e que, come\u00e7ando tamb\u00e9m eles por abandonar o conceito de ditadura do proletariado, de abandono em abandono \u2013 centralismo democr\u00e1tico, papel da classe oper\u00e1ria, marxismo-leninismo, internacionalismo prolet\u00e1rio \u2013 ca\u00edram no mais vulgar parlamentarismo e chegaram mesmo \u00e0 auto-liquida\u00e7\u00e3o, como no dram\u00e1tico caso do Partido Comunista Italiano.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do poder e da sua natureza de classe \u00e9\u00a0a quest\u00e3o central da revolu\u00e7\u00e3o (6). Abandonando o objectivo da conquista do poder pelos trabalhadores e declarando guerra \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, os partidos revisionistas da II Internacional colocaram-se objectivamente do lado da contra-revolu\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca da passagem do capitalismo ao socialismo e em tempos de aprofundamento da crise do capitalismo e agudiza\u00e7\u00e3o da luta de classes, \u00e9 compreens\u00edvel que a op\u00e7\u00e3o fundadora da social-democracia tenha conduzido \u00e0 sua transforma\u00e7\u00e3o em instrumento do capital e pilar do imperialismo.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>(1) Onde sofreu um golpe muito s\u00e9rio em 6 de Maio com o descalabro eleitoral dos dois partidos do \u00abcentr\u00e3o\u00bb respons\u00e1veis pela trag\u00e9dia que se abateu sobre o povo grego: o PASOK e a Nova Democracia que nas anteriores elei\u00e7\u00f5es somavam 77,5% tombaram para 32,1%.<\/p>\n<p>(2) Bernstein (1850\/1932), destacado te\u00f3rico da II Internacional, pai do \u00abrevisionismo\u00bb, revis\u00e3o oportunista das teorias de Marx e Engels. Kautsky, que inicialmente o criticou duramente de um ponto de vista marxista, tornou-se por sua vez expoente do revisionismo, tendo sido combatido por L\u00e9nine, nomeadamente em A Revolu\u00e7\u00e3o Prolet\u00e1ria e o Renegado Kautsky, que se tornou num cl\u00e1ssico do marxismo-leninismo. Ver Obras Escolhidas em 6 tomos, t. 4 Edi\u00e7\u00f5es \u00abAvante!\u00bb-Edi\u00e7\u00f5es Progresso, Lisboa-Moscovo, 1986.<\/p>\n<p>(3) Ver a obra do camarada \u00c1lvaro Cunhal, A Verdade e a Mentira sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Portuguesa, A Contra-Revolu\u00e7\u00e3o Confessa-se, Edi\u00e7\u00f5es \u00abAvante!\u00bb, Lisboa,1999<\/p>\n<p>(4) O grande momento de clarifica\u00e7\u00e3o entre a corrente oportunista e a corrente revolucion\u00e1ria marxista no movimento oper\u00e1rio d\u00e1-se quando em v\u00e9speras da I Guerra Mundial, traindo as pr\u00f3prias orienta\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es da II Internacional, os deputados da social-democracia alem\u00e3 votam os cr\u00e9ditos de guerra, enquanto na Duma russa os deputados bolcheviques votavam contra e eram deportados para a Sib\u00e9ria.<\/p>\n<p>(5) Ver em O Militante n.\u00ba 308, de Setembro-Outubro de 2010, o artigo \u00abAlemanha, 20 anos de contra-revolu\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>(6) Recomenda-se vivamente a leitura e estudo de O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o, de V. I. L\u00e9nine, Edi\u00e7\u00f5es \u00abAvante!\u00bb, Lisboa, 2011; e de A Quest\u00e3o do Estado, Quest\u00e3o Central de cada Revolu\u00e7\u00e3o, de \u00c1lvaro Cunhal, 2\u00ba de., Edi\u00e7\u00f5es \u00abAvante!\u00bb, Lisboa, 2007<\/p>\n<p>*Este artigo foi publicado em \u201cO Militante\u201d n\u00ba 319, Julho\/Agosto 2012<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2593\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2593<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3853\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-3853","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-109","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3853","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3853"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3853\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3853"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3853"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3853"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}