{"id":3943,"date":"2012-11-29T00:13:09","date_gmt":"2012-11-29T00:13:09","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3943"},"modified":"2012-11-29T00:13:09","modified_gmt":"2012-11-29T00:13:09","slug":"a-explosao-do-desemprego-na-zona-euro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3943","title":{"rendered":"A explos\u00e3o do desemprego na zona euro"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Na zona euro, o desemprego j\u00e1 \u00e9 estrutural&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>A verdadeira emerg\u00eancia na zona euro n\u00e3o \u00e9 o\u00a0<em>spread <\/em>[NT] e sim o desemprego. Mas o BCE admite isso no seu \u00faltimo relat\u00f3rio sobre o mercado de trabalho\u00a0<strong>[1]<\/strong> , que revela quanto esta grande taxa de desemprego constitui doravante uma caracter\u00edstica estrutural da economia europeia. Entre 2008 e 2011, a Europa perdeu 4 milh\u00f5es de empregos (-2,6%). Nos Estados Unidos, a perda \u00e9 ainda mais grave, ou seja, 6 milh\u00f5es de empregos (-4,5%), que deve ser relacionada com uma baixa semelhante do PIB (-5%). Mas ap\u00f3s 2010, quando as duas economias atingiram uma taxa de desemprego de 10%, esta come\u00e7ou a diminuir nos Estados Unidos ao passo que na Europa continua a crescer (atingindo, s\u00f3 na zona euro, em Setembro \u00faltimo, os 18,5 milh\u00f5es de desempregados). O desemprego na zona aumento dois pontos percentuais em menos de tr\u00eas anos, passando de 9,6% em 2009 para 11,6% em Setembro de 2012\u00a0<strong>[2]<\/strong> . Ao mesmo tempo, o desemprego de longa dura\u00e7\u00e3o\u00a0<strong>[3]<\/strong> aumentou, chegando aos 67,3% do n\u00famero total (sete pontos mais do que em 2008). Trata-se de um sinal evidente de que o desemprego n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno conjuntural. Entre Setembro de 2011 e Setembro de 2012, mais de 2.174.000 trabalhadores vieram somar-se \u00e0s fileiras dos desempregados.<\/p>\n<p><strong>&#8230; mas h\u00e1 diverg\u00eancia entre a Alemanha e a quase totalidade da zona euro <\/strong><\/p>\n<p>Na primeira fase da crise na Alemanha e na B\u00e9lgica, a perda de emprego foi apenas de 1%, se bem que a baixa do PIB ficasse na m\u00e9dia europeia, ao passo que na Irlanda foi da ordem dos 15%, na Espanha e na Gr\u00e9cia dos 10%. Entre 2009 e Setembro de 2012, a taxa de desemprego na Alemanha chegou a diminuir mais de dois pontos (de 7,8% para 5,4%). Ela diminuiu igualmente na B\u00e9lgica, ainda que pouco, assim como na \u00c1ustria (onde, contudo, entre Setembro de 2011 e Setembro de 2012, passou de 4% para 4,4%). Em contrapartida, nos outros pa\u00edses, que representam a maioria dos trabalhadores europeus, o aumento foi bem mais importante e por vezes impressionante. A Holanda passa de 3,7% para 5,4%, a Fran\u00e7a de 9,5% para 10,8%, a Irlanda de 11,9% para 15,1%, Portugal de 10,6% para 15,7%, a Gr\u00e9cia de 9,5% para 24,4%, a Espanha de 18,1% para 25,8%. A It\u00e1lia passa de 5,1% no princ\u00edpio de 2007 para 7,8% em 2009 e por fim para 10,8% em Setembro de 2012. As previs\u00f5es para a It\u00e1lia quanto a 2013, segundo o ISTAT, anunciam uma degrada\u00e7\u00e3o do emprego e do aumento do desemprego de longa dura\u00e7\u00e3o<strong>[4]<\/strong> . Uma percentagem assim dever\u00e1 corresponder a cerca de 3 milh\u00f5es de desempregados. Em numerosos pa\u00edses j\u00e1 se atingiu uma taxa de desemprego compar\u00e1vel \u00e0 da Grande Depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Na realidade, a taxa de desemprego\u00a0<strong>[5]<\/strong> n\u00e3o no diz tudo sobre a gravidade da crise do emprego. Em primeiro lugar, porque h\u00e1 o desemprego t\u00e9cnico e a seguir porque o n\u00famero total de desempregos est\u00e1 relacionado com uma m\u00e3o-de-obra dispon\u00edvel\u00a0<strong>[6]<\/strong> que est\u00e1 em progress\u00e3o. Na It\u00e1lia, por exemplo, passou-se de uma m\u00e3o-de-obra dispon\u00edvel de 24,93 trabalhadores potenciais no primeiro trimestre de 2009 para 25,73 milh\u00f5es no segundo trimestre de 2012\u00a0<strong>[7]<\/strong> . Trata-se de um aumento devido ao fen\u00f3meno do &#8220;trabalhador suplementar&#8221;, ou seja, a entrada no mercado de trabalho de jovens e em particular de mulheres que viram uma pessoa perder o emprego na sua fam\u00edlia, muitas vezes o marido. Segundo o BCE, as causas desta diverg\u00eancia de emprego nos pa\u00edses da zona euro devem-se \u00e0s estruturas diferentes das suas economias nacionais. Onde a economia est\u00e1 orientada para a exporta\u00e7\u00e3o, como na Alemanha, as empresas reduziram as horas de trabalho mas n\u00e3o os empregos, na previs\u00e3o de uma retomada do mercado mundial. Mas onde o crescimento econ\u00f3mico est\u00e1 baseado sobretudo no boom imobili\u00e1rio, como na Espanha e na It\u00e1lia, a explos\u00e3o da bolha imobili\u00e1ria levou a uma reestrutura\u00e7\u00e3o permanente do sector. Contudo, o BCE cala o papel desempenhado pela introdu\u00e7\u00e3o do euro que objectivamente beneficiou a economia alem\u00e3 e acentuou o processo de diverg\u00eancia entre as zonas centrais e perif\u00e9ricas da Europa.<\/p>\n<p><strong>As responsabilidades das pol\u00edticas de austeridade e os novos &#8220;working poor&#8221; <\/strong><\/p>\n<p>Para compreender a evolu\u00e7\u00e3o da taxa de desemprego \u00e9 preciso relacion\u00e1-la com as op\u00e7\u00f5es de fundo em termo de pol\u00edtica econ\u00f3mica. N\u00e3o \u00e9 um acaso que a situa\u00e7\u00e3o do emprego n\u00e3o se tenha tornado dif\u00edcil sen\u00e3o em 2010, quando a crise da d\u00edvida afectou a Irlanda e a Gr\u00e9cia. No princ\u00edpio da crise, havia-se reagido sustentando a procura agregada e estimulando a redu\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho.<\/p>\n<p>A seguir, com a passagem a uma pol\u00edtica centrada em golpes dr\u00e1sticos nas despesas p\u00fablicas para reduzir os d\u00e9fices p\u00fablicos, o desemprego explodiu. O fen\u00f3meno \u00e9 evidente tamb\u00e9m na It\u00e1lia. Em 24 meses, no pior per\u00edodo da crise, entre Janeiro de 2008 e Dezembro de 2009, o n\u00famero de desempregados aumentou em 463 mil. Em apenas dez meses, entre Novembro de 2011, data da posse do governo Monti, e Setembro de 2012, foram mais 416 mil trabalhadores que se juntaram \u00e0s fileiras dos desempregados, passando de 2.359.000 desempregados para 2.774.000 em Setembro de 2012\u00a0<strong>[8]<\/strong> .<\/p>\n<p>O BCE de Mario Draghi julga que a causa principal do desemprego estrutural n\u00e3o \u00e9 a crise e sim a rigidez salarial excessiva. A solu\u00e7\u00e3o, portanto, seria garantir uma maior flexibilidade salarial prosseguindo as &#8220;reformas do mercado de trabalho&#8221;, como as que est\u00e3o a ser executadas na It\u00e1lia (reforma Fornero), na Gr\u00e9cia, em Portugal, na Irlanda e na Espanha. Contudo, neste momento reduziu-se o poder de compra dos trabalhadores sem que o desemprego tenha cessado de crescer. O facto \u00e9 que hoje, tanto na Europa como nos Estados Unidos, tende-se a reconstruir um grande &#8220;ex\u00e9rcito industrial de reserva&#8221;, composto por trabalhadores a tempo parcial que podem ser integrados e despedidos \u00e0 vontade conforme os ciclos de uma economia que est\u00e1 destinada a vegetar, por n\u00e3o se sabe quanto tempo, a uma taxa de crescimento muito fraco e muito longe do pleno emprego. Uma vez que as baixas de sal\u00e1rios e do custo do trabalho jamais criaram novos empregos, o verdadeiro objectivo das reforma do trabalho \u00e9 enfrentar a concorr\u00eancia mundial cada vez mais aguda, comprimindo os sal\u00e1rios de milh\u00f5es de trabalhadores a n\u00edveis de subsist\u00eancia ou mesmo abaixo deste patamar. \u00c9 remetida \u00e0 hist\u00f3ria a sociedade do bem-estar e do consumo, sob o benepl\u00e1cito dos te\u00f3ricos do &#8220;decrescimento feliz&#8221;, enquanto retorna \u00e0 cena social a figura do trabalhador pobre, v\u00edtima da chantagem e disposto a aceitar condi\u00e7\u00f5es e ritmos de trabalho ainda piores. De resto, que importa se baixa o sal\u00e1rio real? N\u00e3o \u00e9 o mercado interno que interessa \u00e0 grandes empresas multinacionais mas sim o mundial. \u00c9 o modelo alem\u00e3o que se imp\u00f5e. O problema \u00e9 que, se todo o mundo o copiar, o mercado mundial entrar\u00e1 em colapso, tal como est\u00e1 a afundar-se o da zona euro. Um cen\u00e1rio que se poderia em breve tornar realidade, em particular se os Estados Unidos, ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es presidenciais, renunciassem ao instrumento das altas de impostos para enfrentar o abismo fiscal\u00a0<em>(fiscal cliff).<\/em><\/p>\n<p>25\/Novembro\/2012<\/p>\n<p>[NT] Spread: Diferencial entre taxas de juro, neste caso entre aquelas praticadas na Alemanha e os paises da periferia da Europa.<\/p>\n<p>[1] BCE, Euro area labour market and the crisis, Octobre 2012.<\/p>\n<p>[2] Para os dados entre Setembro 2011 e Setembro 2012 ver Eurostat, Euro area unemployment rate at 11.6. 31 Octobre 2012.<\/p>\n<p>[3] Para o BCE h\u00e1 desemprego de longa dura\u00e7\u00e3o quando este excede os seis meses. Para o ISTAT \u00e9 quando ultrapassa um ano.<\/p>\n<p>[4] Le prospettive per l&#8217;economia italiana nel 2012-2013, 5 novembre 2012.<\/p>\n<p>[5] A taxa de desemprego \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas que est\u00e3o \u00e0 procura de um emprego (quer aquelas que perderam o seu emprego ou das que procuram o primeiro emprego) e as for\u00e7as de trabalho total. A taxa de actividade, em contrapartida, trata da rela\u00e7\u00e3o entre a for\u00e7a de trabalho e a popula\u00e7\u00e3o total entre 15 e 64 anos.<\/p>\n<p>[7] Istat, Julho 2012 Occupati e disoccupati.<\/p>\n<p>[8] Istat, Setembro 2012 Occupati e disoccupati<\/p>\n<p><strong>[*] Economista, do Partido dos Comunistas Italianos (PdCI), consultor da CGIL <\/strong><\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nessunoescluso.org\/res\/site62391\/res645144_Lavoro-e-sindacato.pdf\" target=\"_blank\">www.nessunoescluso.org\/&#8230;<\/a> e a vers\u00e3o em franc\u00eas em <\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/solidarite-internationale-pcf.over-blog.net\/article-une-analyse-marxiste-de-l-explosion-du-chomage-dans-la-zone-euro-par-l-economiste-italien-domenico-m-112796810.html\" target=\"_blank\">solidarite-internationale-pcf.over-blog.net\/&#8230;<\/a> <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nResistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nDomenico Moro*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3943\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-3943","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-11B","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3943","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3943"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3943\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3943"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3943"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3943"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}