{"id":3948,"date":"2012-11-29T21:36:21","date_gmt":"2012-11-29T21:36:21","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3948"},"modified":"2012-11-29T21:36:21","modified_gmt":"2012-11-29T21:36:21","slug":"ainda-goteja-a-fonte-do-crime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3948","title":{"rendered":"Ainda goteja a fonte do crime!"},"content":{"rendered":"\n<p>Foi num 29 de novembro. Reuni\u00e3o da ONU. 1947. Bem longe da Palestina, onde F\u00e1tima colhia azeitonas, Marta recolhia as folhas do quintal e Rachid tomava seu ch\u00e1 de maravia \u00e0 sombra do alpendre da casa simples. Eles n\u00e3o sabiam, mas naquele dia estavam sendo decididos seus destinos. Destino de viol\u00eancia, morte e dor.<\/p>\n<p>Havia acabado a segunda grande guerra, guerra feia, dura, grotesca. Nela, o governo alem\u00e3o tinha promovido o massacre do povo judeu, dos ciganos e de outras gentes que apareciam a seus olhos como \u201cdiferentes\u201d. Os judeus foram os mais atingidos, em fun\u00e7\u00e3o do grande n\u00famero. Foi um holocausto. Por conta disso, no fim da guerra, os vencedores, comandados pelos Estados Unidos decidiram que havia de dar uma terra a essa gente oprimida, roubada e esfacelada.<\/p>\n<p>O lugar escolhido para a cria\u00e7\u00e3o de um estado judeu foi a regi\u00e3o da Palestina, por ali estar tamb\u00e9m o n\u00facleo origin\u00e1rio do povo hebreu. Naquele espa\u00e7o haviam nascido as 12 tribos de Jud\u00e1 e era para onde os judeus sonhavam voltar. Mas, esse desejo nunca foi discutido ou compartilhado com as gentes que ali viviam h\u00e1 outras centenas de anos, os palestinos. Ent\u00e3o, numa decis\u00e3o vinda de cima para baixo, os 57 pa\u00edses que conformavam a ONU naquele ent\u00e3o decidiram entregar 57% do territ\u00f3rio palestino para a forma\u00e7\u00e3o do Estado de Israel.<\/p>\n<p>O argumento era de que l\u00e1 n\u00e3o havia gente, era deserto, portanto, livre para ser ocupado. Mas, essa n\u00e3o era a verdade. Ali viviam milhares de seres, tal qual F\u00e1tima, Marta e Rachid. Ainda assim, numa sess\u00e3o dirigida pelo brasileiro Osvaldo Aranha \u2013 qualificado por Alfredo Braga como um desonesto &#8211; 25 pa\u00edses votaram pelo sim, 13 foram contra e 17 se abstiveram. Nascia ent\u00e3o, por desejo dos vencedores da grande guerra, o estado de Israel. J\u00e1 para os palestinos, aquele dia ficou conhecido como o &#8220;dia da cat\u00e1strofe&#8221;.<\/p>\n<p>Contam os historiadores que, naqueles dias que antecederam a vota\u00e7\u00e3o \u2013 bastante tumultuada \u2013 diplomatas receberam cheques em branco, outros foram amea\u00e7ados e as mulheres dos pol\u00edticos receberam casacos de vison. Portanto, foi alavancado na corrup\u00e7\u00e3o que vingou Israel.<\/p>\n<p>A proposta da ONU foi de metade do territ\u00f3rio, o que deixa bem claro que todos sabiam que aquela n\u00e3o era uma terra vazia. A conversa nos corredores \u00e9 de que tamb\u00e9m seria criado um Estado Palestino e cada povo seguiria seu rumo. Para os que viviam na terra doada aos judeus, os meses que se seguiram foram de terror. Fam\u00edlias inteiras tiveram de deixar suas casas, seus olivais, sua hist\u00f3ria. A maioria foi desalojada na for\u00e7a, e muitos n\u00e3o entendiam o que se passava. Como suas terras tinham sido doadas? Naqueles tristes dias de nada adiantou o grito da gente palestina, n\u00e3o se soube dos mortos, nem da destrui\u00e7\u00e3o. A informa\u00e7\u00e3o demorava a chegar nos lugares. Quando o mundo se deu conta do terror, j\u00e1 era tarde demais.<\/p>\n<p>T\u00e3o logo se instalou, o governo israelense decidiu ampliar seus dom\u00ednios. N\u00e3o aceitou a metade, queria mais e abocanhou, na for\u00e7a das armas, 78% do territ\u00f3rio. Os palestinos tiveram de migrar, abandonar suas vidas e tudo o que era seu. O Estado da Palestina nunca foi criado.<\/p>\n<p>Todo o terror imposto por Israel ao povo palestino n\u00e3o terminou por a\u00ed. No ano de 1967, o governo sionista, de novo com a for\u00e7a dos canh\u00f5es, expandiu ainda mais o territ\u00f3rio em busca do dom\u00ednio das regi\u00f5es mais f\u00e9rteis, passando a ocupar mais de 80% da \u00e1rea, massacrando outras tantas milhares de fam\u00edlias palestinas.<\/p>\n<p>Ao longo desses anos todos, por v\u00e1rias vezes Israel arremeteu contra o povo palestino, numa tentativa de dizimar a popula\u00e7\u00e3o. Sem conseguir, decidiu criar ent\u00e3o um imenso campo de concentra\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto. Praticamente todo o territ\u00f3rio ocupado por palestinos est\u00e1 cercado por enormes muros de concreto. As pessoas vivem como prisioneiras, muitas fam\u00edlias foram separadas e n\u00e3o podem mais se ver. Muitos s\u00e3o os document\u00e1rios que mostram as fam\u00edlias se comunicando atrav\u00e9s dos muros e cercas de arame farpado, aos gritos, sem poderem se abra\u00e7ar.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias, Israel come\u00e7ou nova escala de viol\u00eancia, com bombardeios \u00e0 Faixa de Gaza, onde se concentram os palestinos. O argumento que a televis\u00e3o e as empresas de jornalismo passam \u00e9 o que fala de &#8220;direito de defesa&#8221; de Israel. Vendem a ideia de que \u00e9 esse estado militarizado e terrorista o que est\u00e1 sendo agredido.<\/p>\n<p>Ora, qualquer pessoa de mediana intelig\u00eancia sabe que a for\u00e7a de um menino com uma pedra \u00e9 abissalmente inferior \u00e0 de um canh\u00e3o ou m\u00edsseis teleguiados. Israel quer destruir o povo palestino, quer &#8220;limpar a \u00e1rea&#8221;, regi\u00e3o absolutamente estrat\u00e9gica para a proposta de poder dos Estados Unidos, principal parceiro de Israel nesse massacre continuado.<\/p>\n<p>A resposta dos palestinos \u00e9 a resposta dos desesperados. Pessoas como F\u00e1tima, Rachid, Hadija ou Kaleb nada mais querem do que viver suas vidas, estudar, sonhar com algum amor, casar, ter filhos, comer azeitonas no cair da tarde. Uma vida como a de qualquer ser humano no mundo. Mas, eles n\u00e3o podem fazer isso. Est\u00e3o continuamente humilhados, \u00a0amea\u00e7ados pelas balas, pelos soldados, pelos tanques, pelos bombardeios. Vivem em alerta 24 horas ao dia. Quando podem, reagem. Com pedras, com bombas caseiras, com autoimola\u00e7\u00e3o. Sim, respondem \u00e0s vezes com viol\u00eancia extrema, mas nada menos do que o que aprendem no cotidiano de uma vida de prisioneiro em sua pr\u00f3pria casa, acossado pelo ex\u00e9rcito invasor.<\/p>\n<p>Agora, nesses dias, as fam\u00edlias palestinas est\u00e3o vendo morrer seus filhos, crian\u00e7as despeda\u00e7adas, jovens estra\u00e7alhados. Morrem m\u00e3es e pais, av\u00f3s, gente simples, que est\u00e1 no quintal varrendo as folhas. Garotinhos que brincam nas ruas de terra. N\u00e3o s\u00e3o terroristas, nem carregam armas. S\u00e3o pessoas comuns, calejadas na opress\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma guerra, onde se batem os ex\u00e9rcitos. \u00c9 um genoc\u00eddio, um massacre, no qual perecem as pessoas comuns.<\/p>\n<p>Pelo mundo inteiro gritam as gentes, as imagens de dor se espalham pela internet, o mundo inteiro sabe o que acontece \u00a0no imenso campo de concentra\u00e7\u00e3o que Israel criou. Mas, toda a a\u00e7\u00e3o das gente \u00e9 in\u00fatil. As bombas seguem caindo, armas qu\u00edmicas s\u00e3o usadas (o f\u00f3sforo, que queima inteira a pessoa) e o que se v\u00ea s\u00e3o os governantes do chamado &#8220;mundo livre&#8221; apoiando a a\u00e7\u00e3o de Israel. Os Estados Unidos, que invadiram o Iraque por uma &#8220;suspeita&#8221; de que estavam fabricando armas qu\u00edmicas por l\u00e1, observa o uso das mesmas sobre os palestinos e diz que \u00e9 um &#8220;direito de defesa&#8221; de Israel. Ou seja, se quem usa armas qu\u00edmicas \u00e9 amigo dos EUA, est\u00e1 tudo bem. Hipocrisia, cinismo.<\/p>\n<p>Para os movimentos sociais e militantes da causa humana, o que fica \u00e9 o absurdo sentimento de impot\u00eancia. Desde t\u00e3o longe s\u00f3 o que se pode fazer \u00e9 gritar, denunciar, contar essa velha hist\u00f3ria para que ela n\u00e3o se perca no meio da mentiras que os notici\u00e1rios contam todos os dias. O conflito Israel x Palestina nada tem de religioso. Usa-se a religi\u00e3o para legitimar determinadas a\u00e7\u00f5es, os judeus julgam-se o &#8220;povo eleito&#8221;. Mas, o que se esconde por tr\u00e1s da apar\u00eancia \u00e9 a configura\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica de poder. Os palestinos est\u00e3o num espa\u00e7o da terra que \u00e9 muito importante para o projeto de domina\u00e7\u00e3o do Oriente M\u00e9dio. Ficam na entrada principal e n\u00e3o s\u00e3o amigos dos Estados Unidos. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio que sejam extintos.<\/p>\n<p>As bombas seguem caindo sobre as fam\u00edlias palestinas, dor e morte \u00e9 o que t\u00eam. Mas, os palestinos seguem defendendo sua terra e suas vidas. N\u00e3o haver\u00e3o de se extinguir. Est\u00e3o por todo o mundo e nunca esquecer\u00e3o sua hist\u00f3ria. \u00a0Cabe a n\u00f3s solidarizar com esse povo valente porque nada no mundo justifica o que acontece hoje na Palestina ocupada. Israel haver\u00e1 de responder \u00e0 hist\u00f3ria pelos seus crimes. Mais dia, menos dia. Porque, se como dizia o grande poeta Mahmud Darwish, &#8220;ainda goteja a fonte do crime&#8221;, h\u00e1 que estanc\u00e1-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nElaine Tavares\n\n\n\n\n\n\n\n\nElaine Tavares\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3948\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-3948","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-11G","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3948","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3948"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3948\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}