{"id":3957,"date":"2012-12-03T02:20:58","date_gmt":"2012-12-03T02:20:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3957"},"modified":"2012-12-03T02:20:58","modified_gmt":"2012-12-03T02:20:58","slug":"primeiros-elementos-de-analise-sobre-a-ofensiva-israelense-contra-gaza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3957","title":{"rendered":"Primeiros elementos de an\u00e1lise sobre a ofensiva israelense contra Gaza"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>1) O Estado de Israel e as v\u00edtimas dos tiros de foguet\u00f5es: as profecias auto-realiz\u00e1veis <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se trata aqui de negar a realidade dos disparos de foguet\u00f5es sobre o sul de Israel, nem sequer do facto de eles terem aumentado consideravelmente durante o ano de 2012. Os n\u00fameros do ex\u00e9rcito israelense e dos grupos armados palestinos concordam quanto a este ponto. Mas um dos pontos sobre os quais o ex\u00e9rcito israelense pouco informa \u00e9 o n\u00famero de v\u00edtimas dos foguet\u00f5es e dos obuses de morteiros, e os per\u00edodos durante os quais esses civis israelenses foram mortos. \u00c9 verdade que essas estat\u00edsticas tendem a demonstrar que as fases de opera\u00e7\u00f5es militares israelenses s\u00e3o precisamente aquelas durante as quais o n\u00famero de v\u00edtimas civis \u00e9 mais elevado.<\/p>\n<p>Se nos contentarmos em observar o ciclo aberto pela tomada de controlo de Gaza pelo Hamas em Junho de 2007, contam-se de facto 13 v\u00edtimas civis (israelenses), das quais 7 (ou seja, mais de metade) durante as opera\u00e7\u00f5es &#8220;Chumbo Grosso&#8221; (inverno de 2008-2009, 4 mortos) e &#8220;Pilar Defensivo&#8221; (ofensiva m curso, 3 mortos at\u00e9 agora). No que respeita a esta \u00faltima, \u00e9 for\u00e7oso constatar que foi desencadeada quando os foguet\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o faziam qualquer v\u00edtima h\u00e1 mais de um ano e que, a partir do dia seguinte ao assass\u00ednio de Ahmad Jaabari, respons\u00e1vel militar do Hamas, foram mortos 3 civis israelenses. Israel incluiu imediatamente essas tr\u00eas v\u00edtimas na sua &#8220;contabilidade&#8221; e agora serve-se delas para justificar a prossecu\u00e7\u00e3o e alargamento da ofensiva militar.<\/p>\n<p>Na opera\u00e7\u00e3o em curso, h\u00e1 pois, do estrito ponto de vista do n\u00famero dos civis israelenses mortos por disparos de foguet\u00f5es, uma invers\u00e3o das causas e das consequ\u00eancias. Da mesma forma, no momento do desencadeamento da opera\u00e7\u00e3o &#8220;Chumbo Grosso&#8221;, h\u00e1 mais de 6 meses que os foguet\u00f5es n\u00e3o matavam ningu\u00e9m e s\u00f3 fizeram 4 v\u00edtimas nos 3 dias seguintes aos primeiros bombardeamentos israelenses. A resposta palestina \u00e0s opera\u00e7\u00f5es israelenses servem pois como pretexto, a posteriori, para legitimar estas \u00faltimas, o que confere ao discurso actual da institui\u00e7\u00e3o israelense uma evidente dimens\u00e3o de profecia auto-realizada.<\/p>\n<p><strong>2) Popula\u00e7\u00f5es feitas ref\u00e9m pelo cinismo pol\u00edtico de Netanyahou <\/strong><\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos pretextos, trata-se pois de nos interrogarmos sobre as reais motiva\u00e7\u00f5es do governo israelense. A maior parte dos analistas e comentadores sublinharam, e bem, que evidentemente o timing da opera\u00e7\u00e3o deve considerar-se em rela\u00e7\u00e3o com o prazo das futuras elei\u00e7\u00f5es israelenses, como j\u00e1 tinha acontecido aquando da opera\u00e7\u00e3o &#8220;Chumbo Grosso&#8221;. Vai haver elei\u00e7\u00f5es legislativas em Janeiro, as for\u00e7as pol\u00edticas est\u00e3o em campanha, e \u00e9 claro que a opera\u00e7\u00e3o em curso deve ser analisada nesse contexto.<\/p>\n<p>Provocando o Hamas e aumentando a tens\u00e3o militar, o governo de Netanyahou d\u00e1 assim uma imagem de chefe da guerra e obriga os outros partidos a calar as suas cr\u00edticas em nome da uni\u00e3o nacional. Ainda por cima, a reac\u00e7\u00e3o dos grupos armados palestinos arrasta uma radicaliza\u00e7\u00e3o da sociedade israelense que dever\u00e1 beneficiar as for\u00e7as pol\u00edticas mais extremistas, na ocorr\u00eancia o Likoud e o partido da extrema-direita Israel Beitenou, que decidiram apresentar uma lista comum para as elei\u00e7\u00f5es legislativas. A desventura que aconteceu ao partido Kadima que dirigiu o governo sa\u00eddo em 2009 e que foi ultrapassado &#8220;pela direita&#8221; aquando das elei\u00e7\u00f5es, n\u00e3o pode voltar a acontecer.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso \u00e9 essencial pensar no timing desta ofensiva no contexto do pedido palestino para admiss\u00e3o na ONU, com o t\u00edtulo de estado n\u00e3o-membro, sobre o qual a Assembleia-Geral se dever\u00e1 pronunciar a 29 de Novembro. Se o Estado de Israel sabe que, no caso de uma vota\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode impedir essa admiss\u00e3o, a opera\u00e7\u00e3o em curso, voltando a actualizar as teses do &#8220;ciclo da viol\u00eancia&#8221; e das responsabilidades partilhadas, poder\u00e1 convencer certos estados indecisos, nomeadamente na Europa, a decidir n\u00e3o decidir, abstendo-se do voto em 29 de Novembro. As primeiras declara\u00e7\u00f5es dos estados europeus, entre outros a Fran\u00e7a, que p\u00f5em as duas partes de costas viradas uma para a outra, quando n\u00e3o acusam directamente o Hamas, como a Gr\u00e3-Bretanha, parece darem raz\u00e3o a Netanyahou e aos seus c\u00e1lculos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>O cinismo de Netanyahou, que manobra mantendo como ref\u00e9ns as popula\u00e7\u00f5es de Gaza e do sul de Israel, \u00e9 denunciado pelo pr\u00f3prio Israel. Mihal Wasser, professora israelita que mora numa localidade situada a 3 quil\u00f3metros de Gaza, assinou uma corajosa carta \u00e0 aten\u00e7\u00e3o de Netanyahou no quotidiano Haaretz, na qual escreve nomeadamente o seguinte: &#8220;Se se preocupa connosco, deixe de nos defender com foguet\u00f5es, ac\u00e7\u00f5es &#8220;sobre alvos&#8221; e &#8220;voos dissuasores&#8221;. Em vez da opera\u00e7\u00e3o Pilar Defensivo, lance-se numa opera\u00e7\u00e3o Esperan\u00e7a pelo Futuro. \u00c9 mais complicado, para isso \u00e9 preciso paci\u00eancia e \u00e9 menos popular&#8221;.\u00a0<strong>[1]<\/strong><\/p>\n<p><strong>3) Israel visa o Hamas para apanhar desprevenidas as evolu\u00e7\u00f5es regionais <\/strong><\/p>\n<p>Mas \u00e9 indispens\u00e1vel ir mais longe do que as datas limite das elei\u00e7\u00f5es israelenses e das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Visando directamente o Hamas, as autoridades israelenses demonstram na verdade que mediram o perigo representado pelas evolu\u00e7\u00f5es regionais em curso apresentadas, entre outras coisas, pela altera\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Egipto. J\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios anos que o Hamas iniciou uma longa migra\u00e7\u00e3o que a levou a posicionar-se no centro do jogo pol\u00edtico palestino, incluindo nas institui\u00e7\u00f5es da autonomia que inicialmente tinha boicotado\u00a0<strong>[2]<\/strong> e no centro do jogo pol\u00edtico regional.<\/p>\n<p>Na busca de respeitabilidade e a fim de aparecer como um interlocutor respeit\u00e1vel, o Hamas aplicou uma estrita pol\u00edtica em Gaza no que se refere aos foguet\u00f5es. Com efeito, e contrariamente \u00e0s afirma\u00e7\u00f5es repetidas das autoridades israelenses, o Hamas, no decurso destes \u00faltimos anos, n\u00e3o encorajou os grupos armados a atirar foguet\u00f5es sobre Israel, mas dissuadiu-os disso, pela for\u00e7a inclusive. A pr\u00f3pria Leila Shaid, pouco suspeita de simpatia para com o Movimento da resist\u00eancia isl\u00e2mica, reconheceu isso numa entrevista dada \u00e0 RTBF a 18 de Novembro de 2012: &#8220;n\u00e3o \u00e9 o Hamas que est\u00e1 a atirar, n\u00e3o \u00e9 verdade que seja o Hamas. \u00c9 a Jihad isl\u00e2mica e outras organiza\u00e7\u00f5es. O Hamas, (\u2026) por raz\u00f5es obviamente de oportunismo, fez respeitar um cessar-fogo integral, nunca mais houve tiros&#8221;.\u00a0<strong>[3]<\/strong><\/p>\n<p>No passado m\u00eas de Maio, o Hamas instituiu uma for\u00e7a de 300 homens encarregada de impedir disparos de foguet\u00f5es. Esta for\u00e7a procedeu a in\u00fameras deten\u00e7\u00f5es e confisca\u00e7\u00f5es de material, mesmo de grupos influentes como a Jihad Isl\u00e2mica e os Comit\u00e9s de Resist\u00eancia Popular. Como real\u00e7ou ent\u00e3o Avi Issacharoff, do Haaretz, &#8220;o facto de se ter formado esta nova for\u00e7a anti-foguet\u00f5es tende a demonstrar que o Hamas procura manter a calma na frente de seguran\u00e7a a fim de poder estabelecer melhor a autoridade do seu governo na faixa [de Gaza]&#8221;.\u00a0<strong>[4]<\/strong> O acordo t\u00e1cito entre o Hamas e grupos armados era que as autoridades n\u00e3o interviriam no caso de resposta palestina a bombardeamentos a\u00e9reos ou terrestres, mas que impediriam toda a iniciativa militar a partir de Gaza.<\/p>\n<p>Este empenho do Hamas, tal como a sua atitude pragm\u00e1tica aquando das negocia\u00e7\u00f5es que levaram \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o de Gilad Shalit, fazem parte do seu rec\u00e9m-estatuto de interlocutor reconhecido regionalmente, refor\u00e7ado pelo processo revolucion\u00e1rio em curso e nomeadamente pela conquista do poder no Egipto pela Irmandade Mu\u00e7ulmana.\u00a0<strong>[5]<\/strong> O boicote do Hamas, decretado pela grande maioria dos estados \u00e1rabes na sequ\u00eancia das elei\u00e7\u00f5es legislativas de 2006 n\u00e3o durou muito: em Janeiro passado, Isma\u00efl Haniyyah, primeiro-ministro do governo de Gaza, foi acolhido pelos novos respons\u00e1veis tunisinos; em Julho, foi oficialmente recebido pelo presidente eg\u00edpcio rec\u00e9m-eleito Mohammad Morsi, um encontro impens\u00e1vel na era de Moubarak; a visita, com grande pompa do emir do Qatar a Gaza no fim do m\u00eas de Outubro foi o \u00faltimo acontecimento consagrando o novo centralismo regional do actor pol\u00edtico Hamas.<\/p>\n<p><strong>4) Israel n\u00e3o visa grupos armados mas um movimento pol\u00edtico e uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica <\/strong><\/p>\n<p>O primeiro alvo &#8220;oficial&#8221; da opera\u00e7\u00e3o em curso foi Ahmad Jaabari, respons\u00e1vel pelo ramo militar do Hamas, assassinado a 14 de Novembro. Esta escolha est\u00e1 longe de ser an\u00f3dina e confirma na realidade os objectivos pol\u00edticos inconfessados do governo israelense. Jaabari, pela sua posi\u00e7\u00e3o no seio do Movimento da resist\u00eancia isl\u00e2mica, ocupa na verdade um lugar central no dispositivo pol\u00edtico do Hamas no seio da faixa de Gaza. Foi ele quem supervisionou as conversa\u00e7\u00f5es que levaram, em Outubro de 2011, \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o de Gilad Shalit e \u00e0 &#8220;troca&#8221; dele por 1027 prisioneiros palestinos, e o seu papel foi saudado pelos mediadores israelenses e internacionais.<\/p>\n<p>Mais eloquente sem d\u00favida, Jaabari foi quem convenceu os grupos de Gaza a aceitar um cessar-fogo com Israel, chegando mesmo, uns dias antes do seu assass\u00ednio, a elaborar uma proposta de tr\u00e9guas duradouras, como confirmou Gershon Baskin, mediador israelense na liberta\u00e7\u00e3o de Gilda Shalit: &#8220;A. Jabari n\u00e3o estava apenas interessado num cessar-fogo duradouro; tamb\u00e9m foi ele o respons\u00e1vel por fazer respeitar os acordos precedentes de cessar-fogo obtidos pelos servi\u00e7os de seguran\u00e7a eg\u00edpcios (\u2026) Na manh\u00e3 do dia em que foi morto, A. Jabari recebeu uma minuta de proposta de cessar-fogo alargada a Israel, incluindo mecanismos que permitissem verificar as inten\u00e7\u00f5es [de uns e de outros] e de garantir a possibilidade de um entendimento&#8221;.\u00a0<strong>[6]<\/strong><\/p>\n<p>Jaabari foi uma das principais encarna\u00e7\u00f5es, ao lado do primeiro-ministro Isma\u00efl Haniyyah, da corrente &#8220;pragm\u00e1tica&#8221; do Hamas, disposto a convencer os partid\u00e1rios da op\u00e7\u00e3o militar, a base do movimento e os grupos palestinos sobre a necessidade de manter uma calma relativa entre Israel e Gaza a fim de obter um desanuviamento em torno da pequena faixa costeira, sem renunciar ao princ\u00edpio da luta para a satisfa\u00e7\u00e3o dos direitos dos palestinos: &#8220;M. Jabari compreendia a futilidade dos tiros de foguet\u00f5es contra Israel que na verdade n\u00e3o provocavam desgaste em Israel mas dezenas de v\u00edtimas em Gaza. A. Jabari n\u00e3o estava disposto a abandonar a estrat\u00e9gia de &#8220;resist\u00eancia&#8221;, ou seja, o combate contra Israel, mas tinha compreendido a necessidade duma nova estrat\u00e9gia e estava disposto a aceitar um cessar-fogo a longo prazo&#8221;.\u00a0<strong>[7]<\/strong><\/p>\n<p>Ao visar Jaabari e ao conduzir uma opera\u00e7\u00e3o de envergadura, Israel envia na realidade uma &#8220;mensagem&#8221; ao Hamas, dando-lhe a entender que ele tem que escolher entre a resist\u00eancia e a capitula\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o ser\u00e1 tolerada nenhuma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que tente misturar negocia\u00e7\u00f5es com Israel e a manuten\u00e7\u00e3o das reivindica\u00e7\u00f5es nacionais palestinas. Trata-se pois de empurrar o Hamas &#8220;para o erro&#8221; refor\u00e7ando os partid\u00e1rios da op\u00e7\u00e3o militar no seu seio, correndo o risco, para o movimento, de perder uma grande parte da sua legitimidade regional que adquiriu nos \u00faltimos anos. Com efeito, nem o Qatar, nem o Egipto apoiar\u00e3o o princ\u00edpio duma confronta\u00e7\u00e3o armada duradoura, que o digam os esfor\u00e7os feitos a partir do Cairo e de Doha para chegar a um cessar-fogo. Logo a\u00ed, a ofensiva em curso, se bem que contribua de facto para refor\u00e7ar em Gaza o prest\u00edgio do Hamas enquanto organiza\u00e7\u00e3o &#8220;de resist\u00eancia&#8221;, pode, a meio termo, enfraquecer o movimento da resist\u00eancia isl\u00e2mica. Com efeito, sob a press\u00e3o dos seus padrinhos \u00e1rabes, os pragm\u00e1ticos do movimento v\u00e3o provavelmente tentar obter um cessar-fogo que, se n\u00e3o for acompanhado pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida em Gaza e pela paragem das incurs\u00f5es e bombardeamentos israelenses\u00a0<strong>[8]<\/strong> , aprofundar\u00e1 as clivagens internas no Hamas e refor\u00e7ar\u00e1 os outros grupos palestinos partid\u00e1rios da manuten\u00e7\u00e3o duma press\u00e3o militar, por mais deris\u00f3ria que seja, sobre Israel.<\/p>\n<p><strong>5) Israel: &#8220;Por mais que mude, \u00e9 sempre a mesma coisa&#8221; <\/strong><\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o em curso n\u00e3o passa duma nova manifesta\u00e7\u00e3o da natureza real da estrat\u00e9gia do estado de Israel em rela\u00e7\u00e3o aos palestinos. Testemunho disso \u00e9 o facto que posso aqui evocar, sem o modificar, e que escrevi h\u00e1 cerca de 4 anos quando da opera\u00e7\u00e3o &#8220;Chumbo Grosso&#8221;:<strong>[9]<\/strong><\/p>\n<p>Sob falsos pretextos (\u2026), o objectivo de Israel \u00e9 pois claro: na impossibilidade de poder desembara\u00e7ar-se do povo palestino, os dirigentes sionistas podem toler\u00e1-los em cant\u00f5es isolados, na condi\u00e7\u00e3o de que esses cant\u00f5es n\u00e3o sejam controlados por for\u00e7as hostis a Israel. A ofensiva actual \u00e9 pois um sangrento &#8220;golpe de press\u00e3o&#8221; sobre o Hamas e sobre a popula\u00e7\u00e3o palestina: ou capitulam ou v\u00e3o parar ao inferno.<\/p>\n<p>A ofensiva contra Gaza situa-se pois na continuidade das pol\u00edticas israelenses desde h\u00e1 60 anos: trata-se de demonstrar ao povo palestino e aos seus dirigentes que, l\u00e1 porque s\u00e3o tolerados em reservas rodeadas de muros, n\u00e3o podem esperar obter nada mais. Trata-se de recordar que \u00e9 Israel quem define as regras do jogo, quem escolhe os dirigentes, quem assassina ou amea\u00e7a de morte os que n\u00e3o s\u00e3o suficientemente conciliadores, quem arma e desarma as for\u00e7as de seguran\u00e7a, a seu bel-prazer. Quem abre e fecha as portas da entrada dos cant\u00f5es.<\/p>\n<p>A atitude de Israel em rela\u00e7\u00e3o a Mahmoud Abbas, apesar de conciliador, que h\u00e1 muito renunciou a toda a perspectiva de confronta\u00e7\u00e3o com Israel, cujas for\u00e7as de seguran\u00e7a na Cisjord\u00e2nia cooperam diariamente com os servi\u00e7os israelenses, e que se agarra desesperadamente a uma solu\u00e7\u00e3o negociada, inscreve-se nesta din\u00e2mica. Com efeito, o estado de Israel amea\u00e7a Abbas com &#8220;repres\u00e1lias&#8221; no caso de pedido de admiss\u00e3o na ONU, havendo mesmo quem invoque a hip\u00f3tese do derrube de Abbas.\u00a0<strong>[10]<\/strong> Uma hip\u00f3tese pouco plaus\u00edvel, mas que demonstra at\u00e9 que ponto mesmo o dirigente mais d\u00f3cil \u00e9 imediatamente chamado \u00e0 pedra quando sai da agenda fixada pelo \u00fanico Estado de Israel e at\u00e9 que ponto o alegado &#8220;processo de paz&#8221; n\u00e3o passa de um isco destinado a alimentar a ilus\u00e3o duma &#8220;negocia\u00e7\u00e3o&#8221; poss\u00edvel enquanto, no terreno, Israel prossegue o seu empreendimento de coloniza\u00e7\u00e3o e espolia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Leila Shahid, na entrevista j\u00e1 citada, parece reconhecer assim (finalmente) que o quadro do &#8220;processo de paz&#8221; est\u00e1 caduco, e que a estrat\u00e9gia da direc\u00e7\u00e3o da OLP, a saber, a procura duma solu\u00e7\u00e3o negociada entre Israel e os palestinos sob a \u00e9gide dos Estados Unidos fracassou: &#8220;decidimos, h\u00e1 19 anos, suspender toda a luta militar para decidir negociar a solu\u00e7\u00e3o dos dois estados. Mas, sejamos honestos, falh\u00e1mos. H\u00e1 j\u00e1 20 anos que negociamos a solu\u00e7\u00e3o preconizada pelo presidente Mahmoud Abbas, pelo primeiro-ministro, por Yasser Arafat antes da sua morte, por assim dizer, a solu\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o militar dos nossos territ\u00f3rios h\u00e1 45 anos. E o que \u00e9 que fizemos? Nem sequer conseguimos fazer retirar o ex\u00e9rcito israelense nem de Gaza nem da Cisjord\u00e2nia, nem de Jerusal\u00e9m ocidental. (\u2026) A estrat\u00e9gia da minha direc\u00e7\u00e3o, a minha, a que eu continuo a defender desde h\u00e1 45 anos, falhou. Digam-me, para que serviram as negocia\u00e7\u00f5es durante 20 anos? Come\u00e7\u00e1mos a negociar em Madrid em 1990. Continu\u00e1mos em 1993, fizemos parar a luta armada, quisemos mostrar que respeit\u00e1vamos o direito internacional e Israel deu-nos uma bofetada&#8221;.<strong>[11]<\/strong><\/p>\n<p><strong>6) Um novo dado regional? <\/strong><\/p>\n<p>Estas declara\u00e7\u00f5es revelam na realidade que \u00e9 cada vez mais evidente, aos olhos de todos os actores implicados, que os &#8220;par\u00eanteses de Oslo&#8221;, abertos no in\u00edcio dos anos 1990, est\u00e3o em vias de se fechar. O impasse inerente ao &#8220;processo de paz&#8221; e a prossecu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica expansionista israelense est\u00e1 hoje redobrado por uma mudan\u00e7a do dispositivo regional que abre outras perspectivas pol\u00edticas aos palestinos para al\u00e9m de um t\u00eate-\u00e0-t\u00eate com Israel sob a supervis\u00e3o dos Estados Unidos, em que os pa\u00edses \u00e1rabes actuam como clientes ausentes. Atirando-se ao Hamas e tentando p\u00f4-lo em discord\u00e2ncia com os seus padrinhos \u00e1rabes, o estado de Israel reconhece, paradoxalmente, que tomou consci\u00eancia do fecho programado dos par\u00eanteses de Oslo e dos riscos que isso lhe acarreta.<\/p>\n<p>Longe de ser uma reac\u00e7\u00e3o aos disparos de foguet\u00f5es, a ofensiva em curso pode ser considerada assim como um &#8220;ataque preventivo&#8221; contra as consequ\u00eancias prov\u00e1veis do reequil\u00edbrio regional em curso. Israel j\u00e1 n\u00e3o pode contar, como anteriormente, com regimes \u00e1rabes submissos \u00e0 agenda dos Estados Unidos e portanto n\u00e3o \u00e9 arriscado emitir a hip\u00f3tese segundo a qual um dos alvos indirectos do ataque \u00e9 o Egipto.\u00a0<strong>[12]<\/strong>Embora este \u00faltimo n\u00e3o tenha rompido com a pol\u00edtica externa da era de Mubarak, nomeadamente no que se refere ao Tratado de Campo David e aos la\u00e7os com os Estados Unidos, pretende ocupar no entanto um lugar significativo no seio do dispositivo regional, passando nomeadamente por um papel novo no &#8220;dossier&#8221; palestino.<\/p>\n<p>Ao precipitar os acontecimentos desencadeando uma opera\u00e7\u00e3o militar de envergadura contra Gaza, que parece visar prioritariamente o Hamas, o governo israelense p\u00f5e \u00e0 prova o novo regime eg\u00edpcio. Este n\u00e3o pode continuar a contentar-se com uma solidariedade de princ\u00edpio, que passa pelas declara\u00e7\u00f5es de apoio aos palestinos ou pelos votos que exigem a revis\u00e3o do Tratado de Campo David. O presidente Morsi tem que agir a fim de demonstrar, por actos, que a era Moubarak passou, sen\u00e3o arrisca-se a perder uma parte do seu apoio popular, sem que isso encoraje a hostilidade regional contra Israel, uma atitude que poderia levar os Estados Unidos, cuja ajuda financeira continua consider\u00e1vel, a sancionar o novo regime.<\/p>\n<p>O Egipto encontra-se na verdade no centro do jogo, mas Mohammad Morsi vai ter que dar provas da sua capacidade em manejar a pol\u00edtica real. O presidente eg\u00edpcio \u00e9 obrigado a enfrentar as contradi\u00e7\u00f5es do Egipto p\u00f3s-Moubarak, e a acelera\u00e7\u00e3o provocada por Israel vai necessariamente influenciar as reconfigura\u00e7\u00f5es em curso a n\u00edvel regional. O ciclo de Oslo est\u00e1 em vias de se fechar e com ele o princ\u00edpio duma &#8220;regulamenta\u00e7\u00e3o&#8221; da quest\u00e3o palestina imposta pelos Estados Unidos e por Israel, com o assentimento dos pa\u00edses \u00e1rabes. J\u00e1 est\u00e1 aberto um novo ciclo, produto do fracasso de Oslo e dos processos revolucion\u00e1rios \u00e1rabes. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a ofensiva israelense em curso, cuja evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 incerta, e as suas consequ\u00eancias pol\u00edticas e diplom\u00e1ticas contribuir\u00e3o para definir as coordenadas deste novo ciclo que ser\u00e1 manchado, como sempre na Palestina, com o sangue dos habitantes de Gaza.<\/p>\n<p>18\/Novembro\/2012<\/p>\n<p>[1] Ver a carta traduzida em franc\u00eas no site da Union Juive Fran\u00e7aise pour la Paix [3] e o original em ingl\u00eas no site do Haaretz. [4]<\/p>\n<p>[2] Sobre as muta\u00e7\u00f5es internas do Hamas reveladas pela sua participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es de 2006, ver nomeadamente Khaled Hroub &#8220;Un Hamas nouveau?&#8221;, Revue d&#8217;\u00e9tudes palestiniennes, n\u00b0102, hiver 2007<\/p>\n<p>[3] Entrevista on-line no site da RTBF [5]<\/p>\n<p>[4] Avi Issacharoff, &#8220;New Hamas force in Gaza is foiling rocket attacks against Israel&#8221;. Haaretz, 10 Maio 2012. On-line no site do Haaretz [6]<\/p>\n<p>[5] O Hamas, lembremos, saiu do ramo palestino da Irmandade Mu\u00e7ulmana<\/p>\n<p>[6] Gershon Baskin, &#8220;Israel&#8217;s Shortsighted Assassination&#8221;, The New York Times, 16 Novembro 2012, on-line no site New York Times [7]<\/p>\n<p>[7] Ibid.<\/p>\n<p>[8] Lembremos que, apenas para o ano de 2012, as for\u00e7as armadas israelenses mataram nada menos de 70 palestinos de Gaza, e isso antes do desencadeamento da opera\u00e7\u00e3o &#8220;Pilar Defensivo&#8221;<\/p>\n<p>[9] Julien Salingue, &#8220;Offensive isra\u00e9lienne contre Gaza : une mise en perspective&#8221;, publicado no site de Contretemps [8] a 6 de Janeiro de 2009<\/p>\n<p>[10] Ver, por exemplo, Harriet Sherwood, &#8220;Israel threatens to overthrow Abbas over Palestinian statehood bid&#8221;, The Guardian, 14 Novembro 2012, on-line no site do Guardian [9]<\/p>\n<p>[11] Entrevista on-line no site da RTBF [5]<\/p>\n<p>[12] De notar que o nome hebreu da opera\u00e7\u00e3o israelense contra Gaza n\u00e3o \u00e9 &#8220;Pilar Defensivo&#8221; mas &#8220;Amud Anan&#8221;, ou seja, &#8220;Coluna de nuvens&#8221;, referindo-se a um epis\u00f3dio b\u00edblico em que Deus protege, por meio duma &#8220;coluna de nuvens&#8221;, os israelitas aquando da travessia do deserto, contra os povos do Egipto.<\/p>\n<p>Liga\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>[1]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.contretemps.eu\/interventions\" target=\"_blank\">http:\/\/www.contretemps.eu\/interventions<\/a><\/p>\n<p>[2]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.contretemps.eu\/interventions\/premiers-%C3%A9l%C3%A9ments-analyse-sur-offensive-isra%C3%A9lienne-contre-gaza\" target=\"_blank\">www.contretemps.eu\/<\/a><\/p>\n<p>[3]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ujfp.org\/spip.php?article2462\" target=\"_blank\">http:\/\/www.ujfp.org\/spip.php?article2462<\/a><\/p>\n<p>[4]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.haaretz.com\/opinion\/a-message-to-israel-s-leaders-don-t-defend-me-not-like-this.premium-1.478105\" target=\"_blank\">www.haaretz.com\/&#8230;<\/a><\/p>\n<p>[5]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.rtbf.be\/info\/monde\/detail_violences-a-gaza-entretien-exclusif-avec-leila-shahid?id=7876355\" target=\"_blank\">www.rtbf.be\/&#8230;<\/a><\/p>\n<p>[6]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.haaretz.com\/news\/diplomacy-defense\/new-hamas-force-in-gaza-is-foiling-rocket-attacks-against-israel-1.429297\" target=\"_blank\">www.haaretz.com\/&#8230;<\/a><\/p>\n<p>[7]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2012\/11\/17\/opinion\/israels-shortsighted-assassination.html\" target=\"_blank\">www.nytimes.com\/2012\/11\/17\/opinion\/israels-shortsighted-assassination.html<\/a><\/p>\n<p>[8]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.contretemps.eu\/interventions\/offensive-israelienne-contre-gaza%C2%A0-mise-en-perspective\" target=\"_blank\">www.contretemps.eu\/&#8230;<\/a><\/p>\n<p>[9]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.guardian.co.uk\/world\/2012\/nov\/14\/israeli-minister-threatens-abbas-un\" target=\"_blank\">http:\/\/www.guardian.co.uk\/world\/2012\/nov\/14\/israeli-minister-threatens-abbas-un<\/a><\/p>\n<p>[10]\u00a0<a href=\"http:\/\/www.contretemps.eu\/auteurs\/julien-salingue\" target=\"_blank\">http:\/\/www.contretemps.eu\/auteurs\/julien-salingue<\/a><\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.contretemps.eu\/interventions\/premiers-%C3%A9l%C3%A9ments-analyse-sur-offensive-isra%C3%A9lienne-contre-gaza\" target=\"_blank\">www.contretemps.eu\/&#8230;<\/a> . Tradu\u00e7\u00e3o de Margarida Ferreira. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nResistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nJulien Salingue\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3957\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-3957","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-11P","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3957","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3957"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3957\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}