{"id":3986,"date":"2012-12-06T13:46:00","date_gmt":"2012-12-06T13:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3986"},"modified":"2012-12-06T13:46:00","modified_gmt":"2012-12-06T13:46:00","slug":"oscar-niemeyer-um-arquiteto-comunista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3986","title":{"rendered":"Oscar Niemeyer, um arquiteto comunista"},"content":{"rendered":"\n<p>Nasci em Belo Horizonte, em 1934. Dezesseis anos ap\u00f3s tinha minha carteira de trabalho. De dia trabalhava como apontador de obra numa pequena empresa de constru\u00e7\u00e3o civil. \u00c0 noite cursava o cient\u00edfico, preparando-me para ingressar nalgum curso superior. Natural ser-me-ia escolher engenharia civil. Na minha fam\u00edlia n\u00e3o havia ningu\u00e9m com forma\u00e7\u00e3o superior, e eu temia as disciplinas das \u201cci\u00eancias exatas\u201d. Como havia ouvido que cursar arquitetura era menos dif\u00edcil, concorri em 1957 ao exame vestibular na Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Minas Gerais. Fui reprovado em desenho art\u00edstico, o que me fez matricular-me numa Escola de Belas Artes. No ano seguinte fui admitido em arquitetura.<\/p>\n<p>Antes eu havia acompanhado a constru\u00e7\u00e3o dos edif\u00edcios do conjunto da Pampulha. Surpreendiam-me as formas curvas das obras de Niemeyer. Contrastavam com a retilineidade das obras da empresa em que eu trabalhava. Soube que ele, no in\u00edcio de sua carreira, trabalhara com L\u00facio Costa. Sabia tamb\u00e9m que Bela Bartok fazia levantamentos de m\u00fasica popular h\u00fangara para depois reinterpret\u00e1-las em composi\u00e7\u00f5es modernas. \u2013 N\u00e3o seria o mesmo caso de Niemeyer?<\/p>\n<p>Hoje percebo tratar-se de algo muito mais significativo. A geometria euclidiana surge do movimento das ferramentas: a linha reta do ato de serrar, o c\u00edrculo do ato de tornear etc. Aproxima-se da matem\u00e1tica permitindo o c\u00e1lculo das formas. Sou do tempo das m\u00e1quinas de calcular. Permitiam-nos at\u00e9 tr\u00eas inc\u00f3gnitas, no m\u00e1ximo quatro. Que trabalheira&#8230; Com a ajuda do s\u00e1bio Joaquim Cardoso, Niemeyer movia uma luta intensa para aproximar o conhecimento das formas \u00e0 assimetria encontrada na natureza. \u00c9 de se reconhecer o avan\u00e7o que a geometria euclidiana teve para o dom\u00ednio da natureza. Niemeyer, no entanto, procurava uma geometria mais avan\u00e7ada que a euclidiana, permitindo uma melhor integra\u00e7\u00e3o entre a sensibilidade do arquiteto, no constru\u00eddo pelo homem, e a natureza. Com o surgimento da inform\u00e1tica \u00e9 que ocorreria um salto maior em rela\u00e7\u00e3o a tal aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No fim de 1958 aceitei ser respons\u00e1vel por uma das secretarias do Centro Acad\u00eamico e no ano seguinte ingressei no PCB.\u00a0\u00a0Sab\u00edamos que Niemeyer vez por outra pernoitava em Belo Horizonte, a caminho de Bras\u00edlia.\u00a0\u00a0Eu e mais tr\u00eas alunos (todos comunistas) decidimos procur\u00e1-lo no hotel em que se hospedava. Sugeriu-nos passar as pr\u00f3ximas f\u00e9rias de fim de ano estagiando no escrit\u00f3rio que dirigia em Bras\u00edlia.\u00a0\u00a0Claro que aceitamos e passamos a nos preparar para isso. Uma vez em Bras\u00edlia fomos encaminhados ao arquiteto Gladson da Rocha, que voltara do M\u00e9xico e participava da equipe de Niemeyer. Pela manh\u00e3 examin\u00e1vamos os desenhos de alguma edifica\u00e7\u00e3o no Plano Piloto. Almo\u00e7\u00e1vamos no Palace Hotel e \u00e0 tarde \u00edamos ao canteiro de obras relacionar a obra com os desenhos vistos pela manh\u00e3. Disso resultaria um relat\u00f3rio para posterior considera\u00e7\u00e3o por Gladson da Rocha. Percorremos assim praticamente tudo o que estava sendo constru\u00eddo a partir de projetos feitos pela equipe.<\/p>\n<p>Soubemos que o projeto do Teatro Nacional havia sido concebido em cinco dias. Que cada uma das \u201cp\u00e9talas\u201d que configuram a catedral tem uma f\u00f4rma de madeira perdida em seu interior. Que para a catedral havia sido feito um projeto anterior mais adequado \u00e0 liturgia cat\u00f3lica. Era o papado de Jo\u00e3o XXIII, propondo grandes mudan\u00e7as na Igreja. Decidiu-se por um projeto ecum\u00eanico, permitindo distintos tipos de culto. Da\u00ed a forma atual. Para calcular a forma das f\u00f4rmas de concreto armado recorreu-se a um padre alem\u00e3o, professor de geometria descritiva. Aprendemos muito!<\/p>\n<p>Como militante de um partido com um enfoque materialista dial\u00e9tico hist\u00f3rico somos levados a sempre relacionar o espec\u00edfico com o geral, a parte com o todo, o l\u00f3gico com o hist\u00f3rico, o regional com o nacional e o nacional com o internacional. Relacionar as obras espec\u00edficas de um profissional como Oscar Niemeyer com categorias abrangentes como cultura brasileira, democracia, riqueza, liberdade, esp\u00edrito de partido etc. Era natural que em face de seu engajamento pol\u00edtico-partid\u00e1rio nos pergunt\u00e1ssemos que rela\u00e7\u00e3o isso poderia ter com sua produ\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica.<\/p>\n<p>A escola que eu cursara n\u00e3o me dera clareza quanto a isso. Meus est\u00e1gios em Bras\u00edlia limitaram-se \u00e0 curiosidade quanto aos edif\u00edcios em si, bem como \u00e0 cidade quase como uma maquete. Foi meu trabalho na SUDENE, em equipes interdisciplinares formadas para a solu\u00e7\u00e3o de problemas concretos, que me for\u00e7aram a esclarecer o que seria espec\u00edfico da arquitetura. O que \u00e9 que faria com que fosse arquitetura, n\u00e3o outra coisa? Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco conheci o Professor Evaldo Coutinho.\u00a0\u00a0Seus livros evidenciaram a import\u00e2ncia da viv\u00eancia da realidade, de como de expectadores e usu\u00e1rios sermos transformados em valor arquitet\u00f4nico, em componentes espaciais. Isto era muito mais do que uma aprecia\u00e7\u00e3o e um conhecimento positivista dos lugares da vida. Sem sab\u00ea-lo, Evaldo Coutinho fez-me ainda mais marxista, enquanto a SUDENE convenceu-me da exist\u00eancia de uma consci\u00eancia coletiva que incorpora as motiva\u00e7\u00f5es de rela\u00e7\u00f5es sociais e de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir de 1968, com o esvaziamento da SUDENE, fui convidado a trazer sua experi\u00eancia para a Universidade de Bras\u00edlia, o que resultou num processo de conscientiza\u00e7\u00e3o de alunos quanto \u00e0 realidade da regi\u00e3o centro-oeste. Tornei-me inc\u00f4modo ao regime militar e fui enquadrado na lei de exce\u00e7\u00e3o 477, do ato AI5, proibindo-me de lecionar e ser funcion\u00e1rio p\u00fablico em todo o territ\u00f3rio nacional. Tive de deixar o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em 1975 recebi convite para integrar a equipe de Oscar Niemeyer em Argel. Minha conviv\u00eancia pessoal com obras de Niemeyer limitou-se a um per\u00edodo de trabalho na Arg\u00e9lia e a conhecer\u00a0<em>in loco<\/em> suas obras em Paris e Mil\u00e3o. Cheguei \u00e0 Arg\u00e9lia vindo da Fran\u00e7a, onde obtivera trabalho como professor convidado das escolas de arquitetura em Estrasburgo e Nancy.\u00a0Passando pela It\u00e1lia procurei meu amigo Glauco Campelo, em Mil\u00e3o, e tive oportunidade de conhecer a constru\u00e7\u00e3o da nova sede da empresa editorial Mondadori.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-RIpNCKMKDjU\/UKDZnKWvbaI\/AAAAAAAAACs\/jJBwRvBbjF4\/s1600\/Fig01.jpg\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-RIpNCKMKDjU\/UKDZnKWvbaI\/AAAAAAAAACs\/jJBwRvBbjF4\/s400\/Fig01.jpg?resize=400%2C295\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"295\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-TCDT2b-ObLU\/UKDaDmgqdlI\/AAAAAAAAAC0\/UBlIyy9XhDk\/s1600\/Fig02.jpg\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-TCDT2b-ObLU\/UKDaDmgqdlI\/AAAAAAAAAC0\/UBlIyy9XhDk\/s400\/Fig02.jpg?resize=400%2C371\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"371\" \/><\/a><\/p>\n<p>Sede da \u201cMondadori\u201d, Mil\u00e3o &#8211; projeto \u00e0 m\u00e3o livre de Oscar Niemeyer<\/p>\n<p><strong>O Pal\u00e1cio Mondadori<\/strong><\/p>\n<p>O senhor Mondadori, patriarca e fundador da empresa, estivera em Bras\u00edlia. Conhecera ali os edif\u00edcios projetados por Niemeyer. Encantara-se especialmente pelo pr\u00e9dio principal do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Manifestou que gostaria de conhecer seu arquiteto. Queria deixar algo assim como marco de sua atividade empresarial. Da\u00ed resultou o projeto e a constru\u00e7\u00e3o da nova sede da Mondadori. Confesso ser, das obras de Oscar Niemeyer, a que mais me encanta. Constitui um exemplo tardio da arquitetura filantr\u00f3pica do per\u00edodo industrial da sociedade moderna.<\/p>\n<p>Quando os arquitetos, os usu\u00e1rios e os empreendedores da arquitetura s\u00e3o oriundos de uma mesma classe social, gosto, vis\u00e3o de mundo e modo de vida, tamb\u00e9m \u00e9 comum resultar o melhor conte\u00fado art\u00edstico. Problemas quanto a isso surgem quando os interlocutores adv\u00eam de classes sociais distintas. O sindicato dos gr\u00e1ficos n\u00e3o deixou de observar sua estranheza para com a arquitetura palaciana que lhes foi destinada. Por outro lado, trata-se de uma obra que expressa a s\u00edntese perfeita entre as principais categorias da est\u00e9tica da arquitetura: \u201cescala humana, proporcionalidade e fluidez espacial\u201d, que quando atendidas subjugam ao m\u00e1ximo a tend\u00eancia de \u201ccoisifica\u00e7\u00e3o\u201d da arquitetura.<\/p>\n<p>\u00c9 Hegel quem primeiro afirma ser o espa\u00e7o a categoria que diferencia a arquitetura dos demais ramos art\u00edsticos. Seguindo o pensamento de Baumgarten, escreve uma obra classificando as artes por ramos. Faz ver que a arquitetura distingue-se da escultura por propor espa\u00e7os \u201cnecess\u00e1rios e ocupados\u201d<em>.<\/em> Busca um conhecimento das rela\u00e7\u00f5es entre a vida e seus cen\u00e1rios. Alcan\u00e7ar a plenitude do conhecimento arquitet\u00f4nico implica considerar a conquista da realidade pelo sujeito social\u00a0\u00a0tamb\u00e9m da condi\u00e7\u00e3o de sujeito desta. Para tanto \u00e9 preciso conhecer o corpo te\u00f3rico de Marx e, segundo L\u00eanin, para conhecer Marx \u00e9 preciso conhecer Hegel. Hegel afirmava que um templo s\u00f3 atingia sua plenitude arquitet\u00f4nica com a missa, com o culto. Marx e Engels \u00e9 que afirmaram serem\u00a0<strong>espa\u00e7o<\/strong> e\u00a0<strong>tempo<\/strong> categorias objetivas da mat\u00e9ria, permitindo ao usu\u00e1rio e ao observador conquistarem a condi\u00e7\u00e3o de valor arquitet\u00f4nico.<\/p>\n<p>O pr\u00e9dio principal considera o programa usual para atividades burocr\u00e1ticas num conjunto de quatro andares, com andar t\u00e9rreo livre e terra\u00e7o ajardinado para momentos de descontra\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios. Faz parte do conjunto uma pra\u00e7a em torno da qual se situam restaurantes e outros servi\u00e7os destinados \u00e0s necessidades dos empregados da empresa. Niemeyer quis fazer este conjunto lembrar uma aldeia italiana, com sua pra\u00e7a central.<\/p>\n<p>\u00c9 marcante em suas obras a presen\u00e7a da imagem primeira do pensamento, e como tal, sempre, de grande plenitude. N\u00e3o se trata de imagem fotogr\u00e1fica. \u00c9 mais uma atividade do que uma imagem. Tem ra\u00edzes naquilo que o arquiteto absorveu vivenciando a realidade, conhecimento obtido por seus sentidos e por distintas formas de informa\u00e7\u00e3o a respeito. No Pal\u00e1cio da Alvorada lembra-se da casa do senhor de terras do Brasil Col\u00f4nia, com sua capela. Na Catedral de Bras\u00edlia recorre a imagens do cristianismo primitivo etc. Uma primeira necessidade \u00e9 tornar a imagem diretora clara para si mesmo, e Niemeyer o faz valendo-se do desenho \u00e0 m\u00e3o livre. S\u00f3 assim consegue comunic\u00e1-la tamb\u00e9m a outrem. Seus desenhos em apresenta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas s\u00e3o disputad\u00edssimos como\u00a0<em>souvenirs<\/em> de suas palestras. A partir desses desenhos recorre a representa\u00e7\u00f5es em escala. Essas representa\u00e7\u00f5es v\u00e3o formando sucessivos projetos. Um projeto p.1 confron-tado com novos desafios por resolver vai permitir um projeto p.2 e este um p.3, e assim sucessivamente, at\u00e9 poder considerar a previs\u00e3o a mais completa poss\u00edvel. Considera, assim como L\u00eanin, que a verdade absoluta n\u00e3o existe, mas deve ser incessantemente procurada.<\/p>\n<p>Luc\u00e1ks, pensador h\u00fangaro marxista, em seu livro sobre est\u00e9tica considera que a emo\u00e7\u00e3o ante solu\u00e7\u00f5es estruturais audazes \u00e9 aparentada com a emo\u00e7\u00e3o suscitada por obras de arte. Lembro-me, por exemplo, da intensa emo\u00e7\u00e3o de quando pela primeira vez vi pinturas de Van Gogh ou dos muralistas mexicanos, bem como quando entrei no Museu Guggenheim, de Frank Lloyd Wright, ou no aeroporto de TWA, de Eero Saarinen, ambos em Nova Iorque. Um aspecto bem presente no pal\u00e1cio milan\u00eas \u00e9 sua solu\u00e7\u00e3o estrutural: uma sucess\u00e3o de p\u00f3rticos dos quais pende o conjunto de quatro andares. Uma solu\u00e7\u00e3o j\u00e1 usada por Eduardo Reidy no projeto do Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O Pal\u00e1cio Mondadori est\u00e1 situado numa \u00e1rea destinada a empresas gr\u00e1ficas. Foi-me informado que a IBM tamb\u00e9m deveria localizar sua nova sede ali. Em fun\u00e7\u00e3o disso havia procurado Niemeyer para elaborar um projeto, ao que ele teria feito ver que n\u00e3o trabalhava para empresas multinacionais. Uma vez conver-sando com ele sobre trabalhar para a burguesia, fez-me ver a import\u00e2ncia dos projetos sa\u00edrem do papel, concretiz\u00e1-los. Seus projetos s\u00e3o fundamentalmente \u2018nacionalistas\u2019, para edif\u00edcios de utilidade p\u00fablica, independentemente da filia\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-partid\u00e1ria de seus promotores.<\/p>\n<p><strong>Oscar Niemeyer, um arquiteto comunista<\/strong><\/p>\n<p>Niemeyer ingressou no Partido Comunista Brasileiro em 1945.Vivia-se intensamente o t\u00e9rmino da segunda guerra mundial. O ex\u00e9rcito vermelho tomara Berlim e expulsara os ex\u00e9rcitos nazi-fascistas dos pa\u00edses do leste europeu. Os EUA, que s\u00f3 enviaram suas tropas (150 mil soldados) no fim da guerra, dedicavam-se com os soldados brit\u00e2nicos a impedir que pa\u00edses como Finl\u00e2ndia, Fran\u00e7a, Gr\u00e9cia e Dinamarca aderissem ao modelo socialista. Dresden foi submetida a intenso e destruidor bombardeio ap\u00f3s a tomada de Berlim, por tratar-se de reconhecido reduto comunista.<\/p>\n<p>No Brasil o PCB tornar-se-ia legal, participando das elei\u00e7\u00f5es presidenciais com candidato pr\u00f3prio, o engenheiro sanitarista Iedo Fi\u00faza, que obteve 14% da totalidade de votos. Lu\u00eds Carlos Prestes seria libertado e recebido por Pablo Neruda no Est\u00e1dio do Pacaembu. O poeta Vin\u00edcius de Morais publicaria uma biografia do camarada Joseph Stalin; Graciliano Ramos escreveria \u201cMem\u00f3rias do C\u00e1rcere\u201d,no qual menciona a participa\u00e7\u00e3o de um jovem arquiteto que ainda n\u00e3o consegui identificar. Jorge Amado levaria ao prelo \u201cO Cavaleiro da Esperan\u00e7a\u201d,eCarlos Drummond de Andrade faria parte da dire\u00e7\u00e3o do jornal \u201cNovos Rumos\u201d, divulgador da pol\u00edtica cultural do PCB, pouco antes de publicar \u201cA Rosa do Povo\u201d.<\/p>\n<p>Niemeyer continua a ser figura de destaque na galeria dos profissionais, artistas e intelectuais militantes do Partido Comunista Brasileiro, personalidades da nossa hist\u00f3ria que expressam dualidade ao percorrer todo o per\u00edodo da sociedade industrial capitalista. A dualidade de quem d\u00e1 de si o melhor de seu conhecimento profissional, buscando a pr\u00e1xis social ainda poss\u00edvel na sociedade capitalista e concomitantemente milita no PCB, organiza\u00e7\u00e3o de luta por uma sociedade sem contradi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas.<\/p>\n<p>S\u00f3 ingressei no PCB em 1959.\u00a0\u00a0Lembro-me muito bem da primeira tarefa de que fui incumbido. Dirigir uma reuni\u00e3o no Sindicato dos Banc\u00e1rios de Belo Horizonte, minha cidade natal. O advogado trabalhista M\u00e1rio Alves, homem fino e culto, discorreria sobre a pol\u00edtica sindical do PCB. Finda a reuni\u00e3o, eu deveria conduzi-lo ao hotel em que estava hospedado. No caminho ele procurou saber quem eu era e o que eu fazia. Informei-lhe ser estudante de arquitetura, militante na base do PCB na Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais. Jamais esqueci uma recomenda\u00e7\u00e3o dele: \u201cJovem, para ser um bom comunista \u00e9 muito importante ser um bom profissional, tornar-se indispens\u00e1vel \u00e0 sociedade pelo conhecimento do saber-fazer\u201d.<\/p>\n<p>O \u201cpartid\u00e3o\u201d solicitava a todos os seus membros a melhor habilita\u00e7\u00e3o profissional poss\u00edvel. Isso explica a galeria de cientistas e intelectuais que sua hist\u00f3ria pode ostentar. N\u00e3o bastava saber ganhar elei\u00e7\u00f5es. Era fundamental saber-fazer. O PCB \u00e9 aquele partido que por mais tempo \u2013 56 anos \u2013 no mundo inteiro resta for\u00e7adamente clandestino. Muitos de seus membros foram assassinados, perseguidos, presos. Como exemplo basta citar os oito membros desaparecidos de seu comit\u00ea central. Greg\u00f3rio Bezerra, somados os diferentes per\u00edodos, passou 26 anos em pris\u00f5es. Prestes esteve 10 anos preso no Brasil e foi depois for\u00e7ado a ex\u00edlio.<\/p>\n<p>Entre os perseguidos podemos destacar Josu\u00e9 de Castro, o m\u00e9dico que despertou o mundo para a quest\u00e3o da fome, prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o da FAO\/ONU e foi seu primeiro presidente. Foi cassado e impedido de voltar ao Brasil ainda em vida. Mario Schemberg, f\u00edsico, tamb\u00e9m pernambucano, tornou-se internacionalmente reconhecido como tal. Graciliano Ramos, Jorge Amado e Raquel de Queiroz foram grandes nomes no campo da literatura. Caio Prado, por seus escritos filos\u00f3ficos e hist\u00f3ricos. Jo\u00e3o Saldanha, na \u00e1rea do esporte, e muitos artistas da antiga R\u00e1dio Nacional, isso sem enumerar militantes artes\u00e3os e oper\u00e1rios a cuja mem\u00f3ria a hist\u00f3ria do Brasil um dia far\u00e1 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Entre arquitetos posso testemunhar que em cada uma das sete primeiras escolas de arquitetura no pa\u00eds funcionou \u2013 entre 1950 e 1964 \u2013 um departamento do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) e uma c\u00e9lula-base do PCB, composta de arquitetos e alunos de arquitetura. A destacar est\u00e3o Dem\u00e9trio Ribeiro, renomado urbanista autor dos planos diretores das principais cidades do Rio Grande do Sul, Jo\u00e3o Vilanova Artigas, em S\u00e3o Paulo, e Jorge Cury em Minas Gerais, entre outros.<\/p>\n<p>A \u201cEditora Revan\u201d, que publicava revistas sobre a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e a revista \u201cM\u00f3dulo\u201d, artigos sobre a nova arquitetura brasileira, tiveram em Niemeyer, no Rio de Janeiro, s\u00f3lido ponto de apoio. Entre os militantes que se dedicaram ao trabalho editorial no Brasil podemos citar Caio Prado, com a \u201cBrasiliense\u201d, \u00canio da Silveira \u2013 \u201cCiviliza\u00e7\u00e3o Brasileira\u201d e M\u00e1rio Zahar \u2013 \u201cZahar Editores\u201d. Todos do PCB, dedicando-se \u00e0 difus\u00e3o da literatura progressista no Brasil. Niemeyer foi candidato a senador pelo PCB e presidente de associa\u00e7\u00f5es de amizade com pa\u00edses socialistas. Recebeu o pr\u00eamio L\u00eanin, acolheu Prestes em sua resid\u00eancia na G\u00e1vea, quando este voltou ao Brasil e evoluiu na milit\u00e2ncia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Do PCB como tronco inicial cresceram muitos \u201cramos furtivos\u201d,principal-mentepor discord\u00e2ncia com o car\u00e1ter leninista. Numa entrevista dada em 9.11.98 a Anabela Paiva, da Revista \u00c9poca \u2013 \u201cA Intimidade Comovente\u201d \u2013 Niemeyer declarou: \u201c Voto na esquerda. Sa\u00ed do Partido Comunista quando tiraram a foice e o martelo e virou PPS. Criamos outro partido comunista. Mas tamb\u00e9m sou ligado ao PC do B. N\u00e3o acredito no que dizem sobre Stalin. \u00c9 l\u00f3gico que, na briga, a pessoa tem de tomar uma posi\u00e7\u00e3o, guardar a unidade que a luta exige.\u201d \u2013 Hoje \u00e9 presidente de honra do PCB, que sobrevive e renasce das cinzas por necessidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Durante certo tempo, o PCB valeu-se de \u201cbols\u00f5es\u201d no sistema capitalista brasileiro para apoiar avan\u00e7os progressistas, inclusive no que diz respeito a arquitetura e urbanismo. Apoiamos distintas tend\u00eancias pol\u00edticas em todo o mundo, desde que apontassem para avan\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00f5es vigentes.\u00a0\u00a0Fomos v\u00edtimas, muitas vezes, de posi\u00e7\u00f5es social-darwinistas. T\u00ednhamos o desen-volvimento como unidirecional. Custou-nos chegar \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que uma sociedade mais justa, igualit\u00e1ria e fraterna constitui uma possibilidade, n\u00e3o uma fatalidade hist\u00f3rica. Ter\u00e1 de ser conquistada. Exige de cada um uma postura revolucion\u00e1ria. N\u00e3o bastam meras reformas. \u00c9 por isso que o PCB insiste em n\u00e3o ser um partido reformista, mas marxista e leninista. Marxista por reconhecer ser necess\u00e1rio considerar o corpo te\u00f3rico deixado por Marx para o conhecimento da mudan\u00e7a e da transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. Leninista por considerar o legado de L\u00eanin fundamental para compreender as implica\u00e7\u00f5es da constru\u00e7\u00e3o de um estado prolet\u00e1rio. N\u00e3o se trata de copiar particularidades de situa\u00e7\u00f5es havidas. Trata-se de n\u00e3o perder de vista aspectos essenciais j\u00e1 esclarecidos em experi\u00eancias historicamente significativas.<\/p>\n<p>O planejamento ordenador de situa\u00e7\u00f5es \u00e9 a \u201ct\u00e1bua desalva\u00e7\u00e3o\u201d dos reformistas. Desde sua descoberta o Brasil foi objeto de planos: os da metr\u00f3pole portuguesa, loteando o Brasil em capitanias heredit\u00e1rias, com sete cidades administrativas iniciais; os do Marqu\u00eas de Pombal, introduzindo a retilineidade de 37 novas cidades; os do Brasil Imp\u00e9rio, implantando novas capitais provinciais; a pol\u00edtica de planejamento regional liderada por Celso Furtado etc. P\u00f4r em ordem o existente n\u00e3o deixa de implicar progresso, mas sem garantia de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade colonial ou da capitalista. Igualmente buscar o diferente pelo diferente, n\u00e3o passando do inusitado, do ex\u00f3tico do cosmopolitismo extravagante, tamb\u00e9m n\u00e3o leva \u00e0 mudan\u00e7a das atuais categorias de totalidade. Ser revolucion\u00e1rio \u00e9 ser transformador, colocar-se em sintonia com o movimento hist\u00f3rico de fazer com que o objeto social da hist\u00f3ria adquira tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o de sujeito de si mesmo. Al\u00e9m de profissional competente, \u00e9 indispens\u00e1vel militar pol\u00edtico-partidariamente. \u00c9 o exemplo dado por Oscar Niemeyer.<\/p>\n<p><strong>Edif\u00edcio-Sede do Partido Comunista Franc\u00eas<\/strong><\/p>\n<p>Em Paris, sua obra mais significativa \u00e9 a sede do Partido Comunista Franc\u00eas. Transcrevo um artigo de Lu\u00eds Felipe Alencastro, professor titular de Hist\u00f3ria do Brasil \u00e0 \u00e9poca, na Sorbonne, sobre Niemeyer em Paris:<\/p>\n<p>Nos anos 70, na \u00e9poca em que morou em Paris, escorra\u00e7ado pela ditadura brasileira, Oscar Niemeyer concebeu v\u00e1rias obras importantes, entre as quais a sede do Partido Comunista Franc\u00eas. Disse-me um amigo franc\u00eas, muito bem informado sobre o assunto, que ele jamais quis ser pago pelo trabalho feito para os companheiros do PCF, nem mesmo quando o PCF quis oferecer-lhe um pequeno apartamento onde ele pudesse morar enquanto estivesse em Paris. Sempre foi amigo e solid\u00e1rio com quem estava exilado aqui. Uma vez marcou um encontro comigo num caf\u00e9 dos Champs-Elys\u00e9es. Sa\u00eda de uma comiss\u00e3o que julgava projetos arquitet\u00f4nicos destinados a serem constru\u00eddos em Paris. Estava meio irritado. As discuss\u00f5es entre os membros do j\u00fari do qual ele fazia parte haviam-se prolongado al\u00e9m da medida, e a decis\u00e3o n\u00e3o lhe tinha agradado. Para ele, todos os projetos eram ruins. Contudo, os outros membros do j\u00fari for\u00e7aram a barra para aprovar um dos projetos, sob o argumento de que ele era bom \u201cem certas partes\u201d. Oscar absteve-se sem dizer nada. No caf\u00e9, explicou-me o motivo com o seu certeiro sotaque carioca: \u201cP\u00f4, quando um projeto \u00e9 ruim, ele \u00e9 todo ruim! Se tem partes boas, elas est\u00e3o no lugar errado, ent\u00e3o s\u00e3o ruins tamb\u00e9m; tudo \u00e9 ruim!\u201d.<\/p>\n<p>Na Universidade tamb\u00e9m acontecem essas coisas. \u00c0s vezes, a gente l\u00ea teses, artigos ou livros nos quais n\u00e3o d\u00e1 para salvar nada. O trabalho foi mal concebido e est\u00e1 ruim do come\u00e7o ao fim. N\u00e3o tem conserto. Mas este \u00e9 o tipo de reflex\u00e3o delicada, sobre a qual n\u00e3o se pode citar nomes ou t\u00edtulos, sob pena de atingir reputa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es gerais<\/strong><\/p>\n<p>Na atividade de projetar de Oscar Niemeyer \u00e9 constante a busca da melhor a\u00e7\u00e3o rec\u00edproca entre as partes e o todo, ou seja, a aplica\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo dial\u00e9tico de projetar. J\u00e1 o vi, depois de v\u00e1rias tentativas, reformular o projeto inteiro para encontrar o melhor resultado.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-jpi-CrQmzqg\/UKDbJjP6O3I\/AAAAAAAAADE\/8z4fyXt4j1Q\/s1600\/Fig04.jpg\" target=\"_blank\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/2.bp.blogspot.com\/-jpi-CrQmzqg\/UKDbJjP6O3I\/AAAAAAAAADE\/8z4fyXt4j1Q\/s640\/Fig04.jpg?resize=640%2C475\" border=\"0\" width=\"640\" height=\"475\" \/><\/a><\/p>\n<p>S\u00e9de do PCF Partido Comunista Franc\u00eas em Paris. Projeto de Oscar Niemeyer<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/franksvensson.blogspot.com.br\/2012\/11\/oscar-niemeyer-um-arquiteto-comunista.html\" target=\"_blank\">http:\/\/franksvensson.blogspot.com.br\/2012\/11\/oscar-niemeyer-um-arquiteto-comunista.html<\/a><\/p>\n<p><a href=\"..\/fdr\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=322\" target=\"_blank\">http:\/\/pcb.org.br\/fdr\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=322<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nPCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nDepoimento dado por Frank Svensson quando do anivers\u00e1rio de 100 anos do arquiteto Oscar Niemeyer\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3986\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-3986","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-12i","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3986","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3986"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3986\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3986"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3986"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3986"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}