{"id":3998,"date":"2012-12-09T17:01:33","date_gmt":"2012-12-09T17:01:33","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=3998"},"modified":"2012-12-09T17:01:33","modified_gmt":"2012-12-09T17:01:33","slug":"sobre-o-antissemitismo-como-chantagem-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/3998","title":{"rendered":"Sobre o antissemitismo como chantagem pol\u00edtica:"},"content":{"rendered":"\n<p>Atilio A. Boron<\/p>\n<p>ALAI AMLATINA, 18\/11\/2012.- Todo aquele que condene a nova agress\u00e3o perpetrada por Israel contra a Faixa de Gaza se exp\u00f5e a receber uma reiterada desqualifica\u00e7\u00e3o: \u201cantissemita\u201d. Para estes racistas inveterados, qualquer cr\u00edtica \u00e0s pol\u00edticas genocidas do Estado de Israel, qualquer den\u00fancia de suas atrocidades e de sua barb\u00e1rie s\u00f3 pode nascer de um \u00f3dio intenso ao povo judeu. Tamanha confus\u00e3o entre povo e regime pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 casual nem gratuita. Constitui, na verdade, a absurda chantagem metodicamente utilizada pela direita recion\u00e1ria israelita e seus aliados no imp\u00e9rio para desacreditar qualquer den\u00fancia dos crimes de Estado perpetrados por Israel e de seu caminho de a\u00e7\u00e3o suicida, que, no longo prazo, ter\u00e1 como v\u00edtima o pr\u00f3prio povo judeu.<\/p>\n<p>Esta postura est\u00e1\u00a0longe de ser exclusiva dos fascistas israelenses: recordemos a posi\u00e7\u00e3o de seus cong\u00eaneres argentinos quando qualificavam de \u201cantiargentinas\u201d as cr\u00edticas que recebiam de dentro e de fora do pa\u00eds, contra a ditadura terrorista civil-militar que semeou destrui\u00e7\u00e3o e morte na segunda metade dos anos 70. Eles tamb\u00e9m equiparavam, maliciosamente, povo e governo \u2013 como fazem hoje os racistas judeus \u2013 para desvirtuar qualquer ataque contra o Estado terrorista, tratando-o como se fosse uma agress\u00e3o ao povo argentino.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, o que se pretende \u00e9\u00a0defender um regime pol\u00edtico nefasto que, no caso de Israel, j\u00e1\u00a0foi denunciado por eminentes personalidades da comunidade judia, tanto dentro como fora do pa\u00eds. S\u00e3o conhecidas \u2013 ainda que silenciadas oficialmente \u2013 as d\u00favidas que Albert Einstein e que o grande fil\u00f3sofo judeu Martin Buber tinham em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma concreta que estava tomando a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel j\u00e1 em seus primeiros anos de vida. Pouco antes do desencadeamento da opera\u00e7\u00e3o \u201cPilar Defensivo\u201d, Noam Chomsky informava sobre o que p\u00f4de ver em sua recente visita \u00e0 Faixa de Gaza, e suas cr\u00edticas foram demolidoras. Pode-se acessar o v\u00eddeo correspondente em:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.democracynow.org\/2012\/11\/14\/noam_chomsky_on_gaza_and_the\" target=\"_blank\">http:\/\/www.democracynow.org\/2012\/11\/14\/noam_chomsky_on_gaza_and_the<\/a>.<\/p>\n<p>Uma lista de judeus eminentes que n\u00e3o est\u00e3o de acordo com as pol\u00edticas do estado israelense seria intermin\u00e1vel: Daniel Barenboim e sua nobre cruzada pacifista com o palestino Edward Said nos v\u00eam imediatamente \u00e0 mente, assim como o testemunho vibrante de Norman Finkelstein, polit\u00f3logo norte-americano, filho de sobreviventes de campos de concentra\u00e7\u00e3o do nazismo, que em uma confer\u00eancia oferecida em 2010 na Universidade de Waterloo (Canad\u00e1) disse que \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada mais desprez\u00edvel que usar o sofrimento e o mart\u00edrio deles (os que morreram nos campos de concentra\u00e7\u00e3o) para justificar a tortura, a brutalidade, a destrui\u00e7\u00e3o de lares que Israel comete diariamente contra os palestinos. Portanto, me nego a ser pressionado ou intimidado por suas l\u00e1grimas de crocodilo (em refer\u00eancia a uma mo\u00e7a da audi\u00eancia presente \u00e0 confer\u00eancia [que havia considerado ofensivas aos judeus as afirma\u00e7\u00f5es do palestrante condenando as a\u00e7\u00f5es do Estado de Israel contra os palestinos \u2013 N. do T.])\u201d. Esta passagem de sua apresenta\u00e7\u00e3o pode ser vista em:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?feature=player_embedded&amp;v=gE8GESi35Yw\" target=\"_blank\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?feature=player_embedded&amp;v=gE8GESi35Yw<\/a><\/p>\n<p>Ao que j\u00e1 foi dito, poderiam ser agregadas as m\u00faltiplas organiza\u00e7\u00f5es judias que recha\u00e7am esta identifica\u00e7\u00e3o esp\u00faria entre povo e regime. Uma delas, denominada Judeus por Justi\u00e7a para os Palestinos. Dois povos-Um futuro, tem como divisa uma cita\u00e7\u00e3o do Rabino Hillel, dos s\u00e9culo I antes de Cristo, que para horror dos ultraortodoxos de hoje em dia diz assim: \u201cO que n\u00e3o queres para ti, n\u00e3o o fa\u00e7as a teu vizinho. Isto \u00e9 toda a Torah. O resto s\u00e3o coment\u00e1rios\u201d. Hillel se antecipou em nada menos que 1800 anos ao c\u00e9lebre imperativo categ\u00f3rico que popularizou Immanuel Kant: \u201cAge como se a m\u00e1xima de tua a\u00e7\u00e3o devesse tornar-se, atrav\u00e9s da tua vontade, uma lei universal\u201d. Com certeza, n\u00e3o ser\u00e3o os ensinamentos do s\u00e1bio judeu ou do fil\u00f3sofo prussiano que ser\u00e3o assimilados por Netanyahu, seu chanceler fascista Avigdor Lieberman e os falc\u00f5es israelitas; preferir\u00e3o dar ouvidos aos balb\u00facios torpes de alguns decr\u00e9pitos sucessores de Hillel, movidos por um \u00f3dio incomensur\u00e1vel pelo povo de cujas terras se apoderaram, os palestinos, e dos quais veladamente se p\u00f5e em d\u00favida sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>O anterior permite compreender as raz\u00f5es pelas quais o governo de Israel p\u00f4de mobilizar sem nenhum escr\u00fapulo sua infernal m\u00e1quina guerreira contra um povo indefeso, sem ex\u00e9rcito, sem avia\u00e7\u00e3o, sem marinha militar, sem\u00a0status internacional reconhecido, bloqueado por terra, mar e ar, impossibilitado de receber ajuda externa (medicamentos, roupas, alimentos etc.) e encerrado \u201ccomo animais em uma jaula\u201d, como lembra Chomsky na entrevista supracitada.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1\u00a0algo mais: segundo informa Walter Goobar, o jornalista israelense Aluf Benn publicou no jornal di\u00e1rio Haaretz uma nota na qual assegura que Ahmed Yabari \u2013 o chefe militar do Hamas cujo assassinato desencadeou a viol\u00eancia \u2013 era o \u201crespons\u00e1vel pela manuten\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a de Israel na Faixa de Gaza\u201d. Em uma reviravolta por demais sinistra dos acontecimentos, Yabari n\u00e3o teria sido eliminado por ser um chefe terrorista como disse a propaganda sionista, mas porque estava negociando um acordo de paz. Como afirma Goobar, \u201cisto n\u00e3o \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica nem \u00e9 obra de qualquer manobra de vitimiza\u00e7\u00e3o do Hamas, at\u00e9 porque quem o afirma \u00e9 ningu\u00e9m menos que Gershon Baskin, mediador israelense que levava e trazia propostas entre Yabari e os altos cargos israelenses\u201d. Tem sentido: nem o complexo militar-industrial estadounidense nem o fundamentalismo racista israelita est\u00e3o minimamente interessados em chegar a um acordo de paz nesta parte do mundo.<\/p>\n<p>A guerra \u00e9\u00a0um grande neg\u00f3cio, e, al\u00e9m do mais, um recurso para tratar de estabilizar a cambaleante situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que impera no Oriente M\u00e9dio. Ainda, neste caso, a opera\u00e7\u00e3o quase n\u00e3o tem custos para Israel, pois n\u00e3o s\u00e3o dois ex\u00e9rcitos que se enfrentam \u2013 caso em que poderiam infligir-se danos relativamente semelhantes \u2013, mas uma formid\u00e1vel for\u00e7a militar que conta com todo o apoio da maior pot\u00eancia militar da hist\u00f3ria da humanidade e uma popula\u00e7\u00e3o civil encurralada e inerme, que s\u00f3 pode lutar com o voluntarismo de seus milicianos que mal pode esconder a fenomenal despropor\u00e7\u00e3o existente entre os armamentos de ambas as partes. A contagem de v\u00edtimas de um lado e do outro exime de coment\u00e1rios mais extensos.<\/p>\n<p>Tendo em vista estes antecedentes, \u00e9\u00a0apropriado caracterizar o Estado de Israel como um \u201cEstado canalha\u201d, que viola flagrantemente, com o incondicional apoio do amo imperial, a legisla\u00e7\u00e3o internacional, as resolu\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas, os direitos dos povos. Tal como assinala Finkelstein, nenhuma chantagem de \u201cantissemitismo\u201d pode maquiar o car\u00e1ter genocida destas pol\u00edticas; nenhum ardil extorsivo, cuja efic\u00e1cia obedece aos imperdo\u00e1veis horrores da shoah [palavra de origem i\u00eddiche, cujo significado \u00e9 \u201ccalamidade\u201d, utilizada por judeus em refer\u00eancia ao Holocausto nazista \u2013 N. do T.] perpetrada pelo regime nazista (e condenado pelas pot\u00eancias imperialistas da \u00e9poca) pode operar o milagre de transformar o v\u00edcio em virtude ou o crime em bondade.<\/p>\n<p>E diante disso nenhum homem ou mulher deve permanecer calado. O sil\u00eancio c\u00famplice dos anos 1930 e 40 possibilitou o exterm\u00ednio dos judeus na Alemanha nazista. A comunidade internacional n\u00e3o pode incorrer outra vez em erro semelhante, sobretudo quando sabemos que os governos das principais pot\u00eancias, sob a dire\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, n\u00e3o far\u00e3o absolutamente nada para deter esta canificina, pois t\u00eam sido c\u00famplices e part\u00edcipes, de 1948 at\u00e9 hoje, de todos os crimes cometidos pelo Estado de Israel. Se existe isso que alguns chamam de \u201csociedade civil mundial\u201d, ela deve se manifestar agora, antes que seja demasiado tarde.<\/p>\n<p>Encerramos esta breve reflex\u00e3o citando as atual\u00edssimas palavras de Le\u00f3n Rozitchner, grande fil\u00f3sofo marxista, judeu, argentino, falecido h\u00e1 pouco mais de um ano. Um mestre no sentido mais geral do termo, que no \u201cEp\u00edlogo\u201d de um livro not\u00e1vel de sua autoria, Ser Judeu, se perguntava o seguinte:<\/p>\n<p>\u201cQue estranha invers\u00e3o se produziu nas entranhas deste povo humilhado, perseguido, assassinado, para que viesse a humilhar, perseguir e assassinar \u00e0queles que reclamam o mesmo que os judeus reclamavam para si mesmos? Que estranha vit\u00f3ria p\u00f3stuma do nazismo, que estranha destrui\u00e7\u00e3o inseminou a barb\u00e1rie nazi no esp\u00edrito judeu? Que estranha capacidade volta a despertar neste apoderamento para si dos territ\u00f3rios alheios, onde a seguran\u00e7a que se reclama \u00e9 erguida sobre a base da destrui\u00e7\u00e3o e da domin\u00e7\u00e3o do outro pela for\u00e7a do terror! Ent\u00e3o podemos ver que quando o Estado de Israel enviava suas armas aos regimes da Am\u00e9rica Latina e da \u00c1frica, j\u00e1 ali era vis\u00edvel a nova e est\u00fapida coer\u00eancia dos que se identificam com seus pr\u00f3prios perseguidores. N\u00f3s, os judeus latinoamericanos, n\u00e3o o esquecemos. N\u00e3o esque\u00e7amos tampouco Sabra e Chatila\u201d. [massacre de refugiados palestinos em \u00e1rea diretamente controlada pelo ex\u00e9rcito israelense em setembro de 1982, condenado pela ONU como &#8216;genoc\u00eddio&#8217; &#8211; N. do T.].<\/p>\n<p>&#8211; Dr. Atilio Boron, diretor do Programa Latinoamericano de Educa\u00e7\u00e3o \u00e0 Dist\u00e2ncia em Ci\u00eancias Sociais (PLED), de Buenos Aires, Argentina. <a href=\"http:\/\/www.atilioboron.com.ar\/\" target=\"_blank\">www.atilioboron.com.ar<\/a><\/p>\n<p>Facebook: <a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=596730002\" target=\"_blank\">http:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=596730002<\/a><\/p>\n<p>Twitter: <a href=\"http:\/\/twitter.com\/atilioboron\" target=\"_blank\">http:\/\/twitter.com\/atilioboron<\/a><\/p>\n<p>URL deste artigo: <a href=\"http:\/\/www.alainet.org\/active\/59683\" target=\"_blank\">http:\/\/www.alainet.org\/active\/59683<\/a><\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00e3o: <a href=\"http:\/\/alainet.org\/\" target=\"_blank\">http:\/\/alainet.org<\/a><\/p>\n<p>RSS: <a href=\"http:\/\/alainet.org\/rss.phtml\" target=\"_blank\">http:\/\/alainet.org\/rss.phtml<\/a><\/p>\n<p>Twitter: <a href=\"http:\/\/twitter.com\/ALAIinfo\" target=\"_blank\">http:\/\/twitter.com\/ALAIinfo<\/a><\/p>\n<p>Te convidamos a apoiar o trabalho da ALAI. 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