{"id":4015,"date":"2012-12-11T20:30:16","date_gmt":"2012-12-11T20:30:16","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4015"},"modified":"2012-12-11T20:30:16","modified_gmt":"2012-12-11T20:30:16","slug":"a-guerrilheira-holandesa-das-farc-ep-fala-com-o-russia-today","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4015","title":{"rendered":"A guerrilheira holandesa das FARC-EP fala com o Russia Today"},"content":{"rendered":"\n<p><em>&#8220;Um Governo n\u00e3o vai se sentar \u00e0 mesa com uma parte derrotada. Isso eles n\u00e3o fazem. Sentam-se conosco porque sabem que, militarmente, n\u00e3o podem nos derrotar&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Entrevista exclusiva com Tanja Nijmeijer, a guerrilheira holandesa das FARC.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>Com o tempo, muitos l\u00edderes revolucion\u00e1rios abandonaram a ideia da luta armada e alguns, inclusive, consideram que \u00e9 um anacronismo. Esta abertura das FARC ao di\u00e1logo evidencia esta tend\u00eancia? Voc\u00eas de desiludiram com seus m\u00e9todos de luta?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer:<\/strong> N\u00e3o, eu acredito que n\u00e3o se possa dizer dessa forma. N\u00f3s estamos aqui em Havana porque sempre pedimos o di\u00e1logo, sempre pedimos a paz, por\u00e9m o governo colombiano nunca nos permitiu participar politicamente. Ent\u00e3o, por esse fato, n\u00f3s tomamos as armas. N\u00e3o por gosto ou porque gostamos da guerra. Tomamos as armas em uma leg\u00edtima defesa contra o terrorismo do Estado colombiano. Ao longo da hist\u00f3ria ficou claro que n\u00f3s sempre quisemos o di\u00e1logo, quisemos a paz e, por isso, estamos aqui em Havana. Se o governo nos pede di\u00e1logo, dialogamos. Se nos pedem guerra, tamb\u00e9m nos defendemos.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>Nesse sentido, como v\u00ea a realidade latino-americana atual? Existem as condi\u00e7\u00f5es para outras formas de oposi\u00e7\u00e3o, sem armas?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer:<\/strong> Eu diria que na Am\u00e9rica Latina est\u00e1 ocorrendo um processo muito interessante.\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/actualidad\/view\/53764-%E2%80%B2complicidad%E2%80%B2-farc-metodo-desprestigiar-chavez-elecciones-venezuela\" target=\"_blank\">Na Venezuela<\/a>, <\/strong>no Equador e at\u00e9 na Argentina, em quase todas as partes da Am\u00e9rica Latina esses processos est\u00e3o se desenvolvendo. S\u00e3o processos muito significativos e que nos interessam. Assim, nos interessaria fazer pol\u00edtica dessa forma, por\u00e9m, infelizmente, at\u00e9 o momento, n\u00e3o foi poss\u00edvel faz\u00ea-lo na Col\u00f4mbia. Vamos ver se, o quanto antes, com este processo, conquistemos a paz e possamos participar politicamente.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>Durante d\u00e9cadas o governo colombiano tentou colocar fim a este conflito armado. Existe algo que diferencie esta nova tentativa aqui em Havana das anteriores? Existem algumas raz\u00f5es para o otimismo?<\/p>\n<p><strong>Nijmeije: <\/strong>N\u00f3s somos muito otimistas.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/actualidad\/view\/78840-farc-anuncian-cese-fuego\" target=\"_blank\"><strong>N\u00f3s da delega\u00e7\u00e3o da paz das FARC somos muito otimistas<\/strong><\/a>, porque pensamos que neste momento&#8230; Na Col\u00f4mbia, as mudan\u00e7as sempre se d\u00e3o como um fluxo e refluxo do movimento social, dos movimentos camponeses, oper\u00e1rios. No entanto, pensamos que, neste momento, esse movimento est\u00e1 se voltando muito grande. Se v\u00ea na Col\u00f4mbia que o povo j\u00e1 n\u00e3o aguenta mais esta guerra e que o pr\u00f3prio povo est\u00e1 pedindo paz. Se v\u00ea uma guerra de mobiliza\u00e7\u00e3o social do povo colombiano, que queremos que nos acompanhe nesta tentativa de di\u00e1logo e isso \u00e9 o que vai acontecer. Essa \u00e9 uma diferen\u00e7a que eu vejo muito grande com os processos de paz anteriores, que existe uma mobiliza\u00e7\u00e3o de paz muito grande, que se v\u00ea todos os dias na Col\u00f4mbia, gente que sai \u00e0s ruas para protestar. S\u00e3o pessoas que perderam o medo do terrorismo de Estado porque n\u00e3o aguentam mais.<\/p>\n<p>Outra coisa que eu vejo neste processo de paz \u00e9, digamos, o que j\u00e1 falamos, a situa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina que vem mudando e isso nos ajuda bastante para nos entendermos com o governo colombiano, o acompanhamento dos cubanos, da Venezuela, de todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Isso tamb\u00e9m \u00e9 um fator externo importante.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>No entanto, uma grande maioria dos colombianos considera que os membros das FARC t\u00eam que assumir a responsabilidade e receber castigo pelos crimes que cometeram. O que voc\u00ea pensa sobre esse respeito?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer: <\/strong>Bem, eu penso que \u00e9 um pouco, poderia at\u00e9 dizer absurdo, pedir castigo para as pessoas que sempre atuaram em leg\u00edtima defesa. \u00c9 o que j\u00e1 falamos antes, ou seja, n\u00f3s n\u00e3o estamos fazendo a guerra porque queremos a guerra. N\u00f3s queremos a paz, por\u00e9m a paz com justi\u00e7a social e isso nunca se deu na Col\u00f4mbia. Ent\u00e3o, n\u00e3o se pode dizer&#8230; se uma pessoa bate em voc\u00ea, como exemplo, e voc\u00ea, em leg\u00edtima defesa, revida, ent\u00e3o a pessoa que come\u00e7ou tem que receber o castigo por essa defesa. Isso \u00e9 um exemplo para mostrar como n\u00f3s vemos a guerra na Col\u00f4mbia e o papel que temos nela, como uma defesa.<\/p>\n<p><strong>RT:<\/strong> Voc\u00ea \u00e9\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/actualidad\/view\/57851-guerrillera-holandesa-farc-llega-cuba-dialogos-paz\" target=\"_blank\"><strong>uma das negociadoras neste processo de paz <\/strong><\/a>aqui em Havana. Que ambiente, que clima \u00e9 sentido na mesa das negocia\u00e7\u00f5es? \u00c9 poss\u00edvel que as FARC e o governo colombiano encontrem uma l\u00edngua comum?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer: <\/strong>Eu penso que o clima na mesa est\u00e1 bom, inclusive existe espa\u00e7o para piadas, existe espa\u00e7o para risos e existe um di\u00e1logo flu\u00eddo, bom. N\u00f3s apenas estamos come\u00e7ando. \u00c9 muito dif\u00edcil dizer at\u00e9 onde vai chegar este processo, por\u00e9m temos muito otimismo e pensamos que\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/actualidad\/view\/52378-colombia-firma-acuerdo-paz-farc-habana\" target=\"_blank\"><strong>as duas partes querem a paz para o povo colombiano<\/strong><\/a>. E onde existe vontade, existe caminho, disse um refr\u00e3o holand\u00eas. Eu penso que \u00e9 assim, onde existem duas partes que mostram sua vontade de fazer a paz, tem que existir uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>Bom, vamos imaginar que o processo de paz se conclua com \u00eaxito e chegue a hora da desmobiliza\u00e7\u00e3o. O que fariam os membros das FARC ent\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer: <\/strong>N\u00f3s somos uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar, por\u00e9m, em primeiro lugar, somos pol\u00edticos. Ou seja, para n\u00f3s os fuzis s\u00e3o coisas de ferro, uns ferros que n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios. S\u00e3o necess\u00e1rios nos momentos em que n\u00e3o nos deixam fazer pol\u00edtica de outra forma. Por\u00e9m, se nos deixam fazer pol\u00edtica de outra forma, os aposentamos e seguimos fazendo a pol\u00edtica, como movimento pol\u00edtico, porque \u00e9 o que somos. Somos o partido comunista rebelado em armas.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>H\u00e1 alguns anos, voc\u00ea, pessoalmente, esteve no centro da aten\u00e7\u00e3o mundial, depois da publica\u00e7\u00e3o dos di\u00e1rios que foram capturados pelo ex\u00e9rcito. Muitos entenderam que voc\u00ea estava criticando nestas notas o regime que existe na organiza\u00e7\u00e3o. Poderia comentar isto? E se sim, como pode ser membro da organiza\u00e7\u00e3o se n\u00e3o est\u00e1 completamente de acordo com as regras que existem nela?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer:<\/strong> Em primeiro lugar, tenho que dizer que foi uma forma anti\u00e9tica de tratar um di\u00e1rio pessoal. Penso que deveria ter sido entregue aos meus pais. Por\u00e9m, isso \u00e9 um aparte, entre aspas. As coisas que eu escrevi eram sobre a vida cotidiana. Ou seja, por exemplo, qualquer pessoa no mundo que trabalhe em uma empresa tem seus dias bons, tem seus dias ruins e tem cr\u00edticas. E estas cr\u00edticas tamb\u00e9m s\u00e3o expressas dentro da organiza\u00e7\u00e3o. E, assim, se solucionam os problemas. Por\u00e9m, para mim, esta \u00e9poca era mais dif\u00edcil porque estava em adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s montanhas, \u00e0 guerrilha, em adapta\u00e7\u00e3o cultural, \u00e0 cultura colombiana, a tudo isso. E isso nem sempre \u00e9 f\u00e1cil. Por\u00e9m, eu muitas vezes fa\u00e7o esta reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Veja, se todo mundo diz que n\u00f3s somos terroristas, que atacamos a popula\u00e7\u00e3o civil, como tantas vezes \u00e9 dito, que recrutamos crian\u00e7as \u00e0 for\u00e7a, por que isso n\u00e3o aparece no di\u00e1rio? Esta reflex\u00e3o ningu\u00e9m fez. Em nenhum meio li esta reflex\u00e3o. Ent\u00e3o, por que eu n\u00e3o escrevi no di\u00e1rio que \u201cacabo de chegar de um terr\u00edvel massacre de popula\u00e7\u00e3o civil e agora ou recrutar umas crian\u00e7as\u201d? Isso n\u00e3o est\u00e1 no di\u00e1rio. No di\u00e1rio est\u00e1 \u201cai, meu Deus, eu n\u00e3o tenho cigarros e o comandante sim\u201d. Ou seja, s\u00e3o coisas que, quando eu relia, pareciam at\u00e9 infantis. Por\u00e9m, eram pensamentos meus e reflexos de todo o processo de adapta\u00e7\u00e3o na guerrilha e na montanha.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>Por\u00e9m, al\u00e9m de todos estes pequenos detalhes, digamos, levando em conta sua experi\u00eancia nas FARC, voc\u00ea poderia fazer algumas cr\u00edticas ao funcionamento desta organiza\u00e7\u00e3o hoje em dia?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer:<\/strong> Claro, voc\u00ea pode fazer suas cr\u00edticas nos espa\u00e7os adequados. Para mim, o importante \u00e9 que, em todos esses anos que estou nas FARC, eu vi que as cr\u00edticas que fazemos, cedo ou tarde, s\u00e3o escutadas e s\u00e3o resolvidas. Por exemplo, notamos que em tal unidade existe muito machismo por parte dos homens e tamb\u00e9m pode existir por parte das mulheres. Ent\u00e3o, vamos come\u00e7ar uma campanha educativa, para que as pessoas compreendam e adotem o nosso pensamento. Ou em tal unidade existe o caso, por exemplo, do tratamento dispensado por um comandante que n\u00e3o est\u00e1 bem claro ou existe d\u00favida sobre o que est\u00e1 fazendo. Ent\u00e3o, recorremos ao comandante, o enviamos a outro comandante, lhe damos educa\u00e7\u00e3o\/ forma\u00e7\u00e3o e dizemos como deve fazer as coisas. Ent\u00e3o, um v\u00ea que existem problemas. Em todas as organiza\u00e7\u00f5es existem problemas e contradi\u00e7\u00f5es. Isto se v\u00ea at\u00e9 em estados, isto se v\u00ea em todas as partes. At\u00e9 em um clube de futebol voc\u00ea v\u00ea contradi\u00e7\u00f5es. A coisa est\u00e1 em como se resolvem essas contradi\u00e7\u00f5es. E eu tenho visto que nas FARC as contradi\u00e7\u00f5es se resolvem de uma forma dial\u00e9tica. Uma forma que eu gosto: se resolvem os problemas. Ent\u00e3o, isto para mim \u00e9 importante.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>J\u00e1 que falamos do dia a dia da organiza\u00e7\u00e3o, durante os \u00faltimos anos, a guerrilha perdeu v\u00e1rios de seus l\u00edderes, o que a enfraqueceu. Como voc\u00ea v\u00ea hoje o movimento, qu\u00e3o numeroso \u00e9 e como est\u00e1 organizado?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer:<\/strong> Bom, eu penso que, hoje em dia, ou seja, como j\u00e1 est\u00e1 falando do movimento de fluxos e refluxos&#8230; Sempre existem altos e baixos. Um dos refluxos para a organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 que o terrorismo de estado e o imperialismo agem com toda a for\u00e7a. Por exemplo, vimos no Plano Col\u00f4mbia, no Plano Patriota, onde nos envolvem e acusam de tudo: bombardeios, imensos operativos. Ent\u00e3o, o movimento est\u00e1 se defendendo. Por\u00e9m, eu penso que \u00e9 preciso enxergar as coisas em longo prazo. N\u00f3s come\u00e7amos com 48 homens. Se, hoje em dia, estiv\u00e9ssemos com 48 homens, n\u00e3o estar\u00edamos sentados aqui em Havana. Estamos aqui j\u00e1 que, militarmente, um Governo n\u00e3o vai se sentar \u00e0 mesa com uma parte derrotada. Isso eles n\u00e3o fazem. Sentam-se conosco porque sabem que, militarmente, n\u00e3o podem nos derrotar e isso \u00e9 importante.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>E na organiza\u00e7\u00e3o, os membros das FARC vivem segundo as normas comunistas, como se programava no in\u00edcio ou, talvez, algo do capitalismo penetrou nas fileiras?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer: <\/strong>N\u00f3s temos um regulamento, um estatuto, temos uma cartilha militar que s\u00e3o as normas e as regras para os guerrilheiros das FARC em todos os escal\u00f5es, desde o comandante Timole\u00f3n at\u00e9 o guerrilheiro que ingressou ontem. Ent\u00e3o, essas normas s\u00e3o de cumprimento obrigat\u00f3rio. Claro que muitas vezes ocorrem infra\u00e7\u00f5es dessas normas, ou seja, pessoas que&#8230; por exemplo, na guerrilha \u00e9 muito complicado comprar um MP3 ou uma r\u00e1dio, porque, atrav\u00e9s deles \u00e9 poss\u00edvel nos localizarem e, assim, nos bombardearem.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando um guerrilheiro infringe a disciplina, tratamos de educa-lo. Pode ser com um castigo, pode ser com a escrita de algumas p\u00e1ginas, fazendo uma cr\u00edtica na reuni\u00e3o do partido. N\u00f3s fazemos a reuni\u00e3o do partido a cada 8 dias. Ent\u00e3o, se critica ao companheiro. Por exemplo, se algum camarada tem algum comportamento que se v\u00ea como prejudicial, como n\u00e3o muito bom, pode ser de machismo ou de coisas, como voc\u00ea disso, do capitalismo, de querer ter coisas, n\u00e3o pensar no coletivo, ent\u00e3o, ali se chama a aten\u00e7\u00e3o e os outros camaradas v\u00e3o criticando-o e \u00e9 feita a autocr\u00edtica correspondente e resolvidos os problemas.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>O Governo colombiano, assim como o governo dos EUA, sempre insistiu que as FARC vivem do narcotr\u00e1fico, o que sempre foi negado pela guerrilha. Se n\u00e3o \u00e9 esta a fonte, qual \u00e9 o apoio recebido pela luta revolucion\u00e1ria?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer: <\/strong>N\u00f3s temos uma lei que se chama Lei 002. Todo colombiano tem que pagar impostos ao Estado colombiano, que faz guerra contra o pr\u00f3prio povo. Ent\u00e3o, ao criarmos a Lei 002, n\u00f3s pensamos que seria justo cada pessoa que ganhe mais de um milh\u00e3o de d\u00f3lares pague um imposto revolucion\u00e1rio \u00e0 guerrilha. Assim, n\u00f3s cobramos esses impostos e nas zonas \u201ccocaleras\u201d, onde somente existe coca, n\u00f3s pedimos imposto revolucion\u00e1rio aos mafiosos, \u00e0s pessoas que ganham muito dinheiro com este neg\u00f3cio. N\u00f3s n\u00e3o vamos pedir impostos a um campon\u00eas que tem um hectare com coca. N\u00e3o. Ent\u00e3o, esse \u00e9 o la\u00e7o entre a guerrilha e a coca. Em outras zonas, onde existem outros neg\u00f3cios, s\u00e3o levantados outros impostos. Por\u00e9m, essa \u00e9 a l\u00f3gica utilizada quando cobramos impostos em um pa\u00eds, onde todas as institui\u00e7\u00f5es e todas as partes est\u00e3o impregnadas de narcotr\u00e1fico. Na Col\u00f4mbia existem mafiosos e narcotraficantes que t\u00eam que nos pagar os impostos. Porque uma guerra sem financiamento n\u00e3o possui motor.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>Este ano, as FARC anunciaram o abandono da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/actualidad\/view\/45830-Periodista-franc%C3%A9s-asegura-que-FARC-le-trataron-como-a-un-invitado\" target=\"_blank\"><strong>a pr\u00e1tica dos sequestros<\/strong><\/a>. No entanto, existem alguns ref\u00e9ns. Como ser\u00e1 o futuro destas pessoas? Existe algum plano para libert\u00e1-los?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer:<\/strong> H\u00e1 algum tempo existia uma funda\u00e7\u00e3o, cujo nome n\u00e3o me recordo. Acho que era Nuevo Arco\u00edris (Novo Arco-\u00edris). Ela dizia que n\u00f3s t\u00ednhamos 3.000 ref\u00e9ns em nosso poder. Isso foi antes de fevereiro deste ano, quando dissemos que n\u00e3o \u00edamos manter ref\u00e9ns por quest\u00f5es econ\u00f4micas. Na \u00e9poca, n\u00f3s fizemos uma contagem e chegamos ao n\u00famero de nove detidos, em todas as frentes. Seria muito bom, penso eu, \u00e9 uma reflex\u00e3o minha, que o governo fizesse um cessar fogo. Assim, poder\u00edamos solicitar que comiss\u00f5es da Cruz Vermelha ou comiss\u00f5es de direitos humanos inspecionassem nossas frentes e vissem quais s\u00e3o os detidos que temos em nosso poder e ver que j\u00e1 n\u00e3o existem tantos ref\u00e9ns. Em compensa\u00e7\u00e3o, em uma guerra de tantos anos, existem hoje mais de 50.000 desaparecidos do estado. Eu imagino que uma parte desses 50.000 est\u00e1, supostamente, em nosso poder. Ent\u00e3o, vamos ver a verdade, vamos fazer com que a verdade venha \u00e0 tona.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>Em diferentes meios de comunica\u00e7\u00e3o circula a informa\u00e7\u00e3o de que as FARC ajudam, apoiam os governos socialistas, vizinhos e, inclusive, hospedam alguns de seus membros em seu territ\u00f3rio. \u00c9 verdade que existe este tipo de colabora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer:<\/strong> Eu penso que, para n\u00f3s, esses governos s\u00e3o um exemplo, nos d\u00e3o moral, s\u00e3o muito importantes e, neste processo de paz nos brindam com uma colabora\u00e7\u00e3o muito grande sim, por\u00e9m, como mediadores. Eu penso que n\u00e3o se pode falar&#8230; N\u00f3s das FARC nunca recebemos colabora\u00e7\u00e3o, em nenhum sentido, de nenhum governo, por exemplo, nem da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica quando existia, nem da Venezuela, nem do Equador. N\u00f3s somos um movimento com um pensamento pr\u00f3prio, por\u00e9m tamb\u00e9m com ideias pr\u00f3prias. Ent\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o temos&#8230; Eles s\u00e3o estados. N\u00f3s somos um estado, mas em forma\u00e7\u00e3o. Assim, n\u00e3o existem rela\u00e7\u00f5es. Eles t\u00eam rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas, mas com o estado colombiano.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>Voc\u00ea declarou estar orgulhosa de ser guerrilheira, de ser membro das FARC. O que alimenta este orgulho?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer: <\/strong>PO orgulho de ser guerrilheira das FARC \u00e9 o orgulho de pertencer a uma organiza\u00e7\u00e3o que, apesar de tanta raiva midi\u00e1tica, apesar de um terrorismo de estado, apesar de tanto dinheiro gasto para guerrear contra n\u00f3s, nunca nos rendemos e sempre continuamos lutando pelo que acreditamos que \u00e9 justo e isso faz com que eu me sinta muito orgulhosa. Sinto-me orgulhosa por tudo que temos. O fato de sermos farianos, de termos cultura, termos livros, termos can\u00e7\u00f5es, centenas de can\u00e7\u00f5es, termos gente, gente boa, capacitada, mulheres lindas, revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>RT:<\/strong> Voc\u00ea me disse que \u00e9 melhor chama-la de Alexandra. Por que \u00e9 t\u00e3o importante para os guerrilheiros ter outro nome?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer:<\/strong> Porque \u00e9 o nome de guerra e, ent\u00e3o, quando se chega \u00e0 montanha, voc\u00ea adota outro nome. Isso ocorre porque em uma guerra \u00e9 preciso existir clandestinidade. Para uma guerrilha \u00e9 muito importante o segredo, a clandestinidade. Assim, n\u00f3s n\u00e3o nos conhecemos e n\u00e3o nos tratamos pelos nomes civis para guardar o segredo. Eu acredito que isso aconte\u00e7a em todas as guerras.<\/p>\n<p><strong>RT:<\/strong> \u00c9 como uma norma, n\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer:<\/strong> Sim, \u00e9 uma norma. Todo o tempo, a imprensa me chama pelo nome civil e isso n\u00e3o me importa. No entanto, prefiro meu nome guerrilheiro. \u00c9 assim que meus companheiros chamam e ele expressa o sentir revolucion\u00e1rio e guerrilheiro.<\/p>\n<p><strong>RT: <\/strong>O que voc\u00ea conquistou ap\u00f3s ingressar nas fileiras dos guerrilheiros e que n\u00e3o podia receber na Europa, onde, segundo muitas pessoas, tinha o futuro seguro?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer: <\/strong>Eu penso que o mais importante para mim \u00e9 estar dentro das fileiras guerrilheiras, o fato de receber o reconhecimento dos pr\u00f3prios guerrilheiros pela solidariedade internacional. Muitas vezes eu chego a qualquer parte, estou fazendo qualquer tarefa e me chega algu\u00e9m e diz: \u201cSinto-me orgulhoso de que voc\u00ea esteja aqui. Sinto-me feliz ao saber que n\u00e3o estamos s\u00f3s nesta luta. Mesmo com tudo o que dizem as m\u00eddias, com toda a m\u00e1 propaganda que nos fazem, voc\u00ea veio para c\u00e1 nos apoiar\u201d. Isso \u00e9 o mais importante para mim. Eu n\u00e3o teria recebido isso na Holanda.<\/p>\n<p><strong>RT:<\/strong> E nunca se arrependeu, pensando como muitas mulheres jovens: ser\u00e1 que, talvez, me case, forme uma fam\u00edlia, tenha filhos?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer: <\/strong>N\u00e3o, nunca. Na verdade, eu me arrependi v\u00e1rias vezes quando pensava que n\u00e3o conseguiria mais participar das marchas. Eu dizia \u201ceu n\u00e3o vou conseguir, n\u00e3o posso, n\u00e3o posso\u201d. Por\u00e9m, cada vez que chegava de uma marcha, estava feliz novamente por ter conseguido. S\u00e3o barreiras que existem e que voc\u00ea vai superando, cada vez mais, cada vez mais. Mas, estar arrependida porque gostaria de ter uma fam\u00edlia, n\u00e3o. Eu n\u00e3o desejo essa vida.<\/p>\n<p><strong>RT:<\/strong> N\u00e3o sente falta de nada de sua vida anterior, da fam\u00edlia, de algumas coisas com as quais estava acostumada?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer:<\/strong> Minha fam\u00edlia, claro. Eu acredito que qualquer guerrilheiro que esteja neste momento na montanha sente falta de sua fam\u00edlia. Claro que as FARC s\u00e3o como minha segunda fam\u00edlia. Uma fam\u00edlia com a qual voc\u00ea vive coisas mais intensas e muito diferentes das vividas com uma fam\u00edlia normal. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel, sempre fica na cabe\u00e7a o retrato da fam\u00edlia. \u00c9 uma grande alegria quando voc\u00ea tem a possibilidade de v\u00ea-los, de chama-los, por\u00e9m \u00e9 um sacrif\u00edcio que todos somos conscientes que temos que fazer, porque, caso contr\u00e1rio, n\u00e3o fazemos nada.<\/p>\n<p><strong>RT:<\/strong> E como v\u00ea seu futuro? Voc\u00ea se v\u00ea inserida na pol\u00edtica colombiana, por exemplo?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer:<\/strong> Eu vejo meu futuro dentro das FARC e empregando-me no que for necess\u00e1rio, no que a organiza\u00e7\u00e3o necessite. Se a organiza\u00e7\u00e3o necessitar de uma professora, serei professora. Se necessitarem de uma pol\u00edtica, estarei \u00e0s ordens.<\/p>\n<p><strong>RT:<\/strong> As FARC protagonizam o conflito armado, que j\u00e1 dura d\u00e9cadas, e custou milhares de vidas. Voc\u00ea assume esta responsabilidade? Existe algo pelo qual pediria perd\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Nijmeijer: <\/strong>Eu n\u00e3o gostaria de pedir perd\u00e3o. Gostaria de pedir justi\u00e7a. Isso e nada mais.<\/p>\n<p><strong>RT<\/strong>: Muito obrigado pela entrevista, Tanja.<\/p>\n<p>Fonte: Russia Today (RT)<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/index.php?option=com_content&amp;task=view&amp;id=3346&amp;Itemid=1&amp;lang=en\" target=\"_blank\">http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nRLA\n\n\n\n\n\n\n\n\nRESUMEN LATINOAMERICANO\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4015\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-4015","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-12L","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4015","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4015"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4015\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4015"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4015"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4015"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}