{"id":4046,"date":"2012-12-16T18:21:51","date_gmt":"2012-12-16T18:21:51","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4046"},"modified":"2012-12-16T18:21:51","modified_gmt":"2012-12-16T18:21:51","slug":"documentos-achados-em-fazenda-revelam-faces-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4046","title":{"rendered":"Documentos achados em fazenda revelam faces da ditadura"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Material chega ao p\u00fablico em livro e document\u00e1rio do projeto Mem\u00f3rias da Resist\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Aray Nabuco<\/p>\n<p>Uma casa abandonada em uma fazenda em Jaborandi (SP), regi\u00e3o de Ribeir\u00e3o Preto, que era tida como mal assombrada pelos cortadores de cana, acabou por revelar de fato muitos fantasmas do passado. Cinco anos depois da descoberta por um cortador de cana e estudante de hist\u00f3ria de documentos da ditadura militar, o material vai ganhando identidades e recompondo a hist\u00f3ria no projeto Mem\u00f3rias da Resist\u00eancia que, depois de colocar na internet um site, chega tamb\u00e9m \u00e0s livrarias e, at\u00e9 o in\u00edcio do ano que vem, um document\u00e1rio. O projeto \u00e9 empreendido por um grupo de pesquisadores do Instituto Pr\u00e1xis de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura (IPRA), de Franca, atrav\u00e9s de edital Ponto de M\u00eddias Livres, do Minist\u00e9rio da Cultura.<\/p>\n<p><strong><em><a href=\"http:\/\/www.carosamigos.com.br\/index\/index.php\/galeria-amigos\/memorias-da-resistencia\">Clique e veja galeria do projeto<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n<p>A fazenda pertencia ao ex-delegado T\u00e1cito Pinheiro Machado, citado pelo Brasil Nunca Mais como repressor, e que al\u00e9m de atuar em delegacias no interior paulista, dirigiu o Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops) e foi chefe de gabinete da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Machado morreu em 2005, aos 79 anos, e apesar de seu pedido para queimar as fichas de perseguidos pol\u00edticos, envelopes de correspond\u00eancias restritas, bilhetes e anota\u00e7\u00f5es e at\u00e9 um manual de a\u00e7\u00e3o contra &#8216;subversivos&#8217;, o material ficou largado na casa. Em parte foi realmente dado um fim &#8211; os envelopes estavam vazios, seu conte\u00fado j\u00e1 havia sido eliminado.<\/p>\n<p>Descoberta<\/p>\n<p>Foi uma associa\u00e7\u00e3o de elementos essa descoberta, diz o historiador Tito Fl\u00e1vio Bellini, que junto com o grupo de pesquisadores trabalhou no\u00a0material, limpando, separando em categorias, analisando. A descoberta come\u00e7ou quando um grupo de cortadores de cana brincava que a casa era mal assombrada. Um deles, Cleiton Oliveira (<em>camisa verde na foto nessa p\u00e1gina<\/em>), entrou e se deparou com a papelada esparramada nos c\u00f4modos abandonados. Cleiton cursava Hist\u00f3ria na Faculdades Integradas de Bebedouro (Fafibe) e levou os pap\u00e9is para um professor; teve o olhar cr\u00edtico que outros provavelmente n\u00e3o teriam, ressalta Bellini.<\/p>\n<p>A descoberta demonstra, sobretudo, que agentes da ditadura guardaram ou ainda guardam ou eliminaram documentos importantes dos Anos de Chumbo. A descoberta fez com que a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade abrisse uma nova linha de investiga\u00e7\u00e3o, solicitando documentos da \u00e9poca a todas as delegacias. Depois de tornar p\u00fablica a hist\u00f3ria de Jaborandi, ao menos duas outras pessoas entregaram documentos que estavam guardados.<\/p>\n<p>Livro e Document\u00e1rio<\/p>\n<p>Parte do material \u00e9 reproduzido no livro de mesmo nome do projeto, que est\u00e1 sendo lan\u00e7ado e chega \u00e0s livrarias at\u00e9 janeiro, segundo o historiador &#8211; j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel adquiri-lo atrav\u00e9s da editora Express\u00e3o Popular, selo Outras Express\u00f5es, ou em contato direto com os pesquisadores, atrav\u00e9s do portal na internet, no<strong><em><a href=\"http:\/\/www.memoriasdaresistencia.org.br\/\" target=\"_blank\">www.memoriasdaresistencia.org.br<\/a><\/em><\/strong> . Tamb\u00e9m para o in\u00edcio do ano planejam o lan\u00e7amento do document\u00e1rio, em fase de finaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Bellini, o livro \u00e9 organizado por Marco Ant\u00f4nio Escriv\u00e3o e Pedro Russo, mas conta com textos de v\u00e1rios autores, coletivos pol\u00edticos e pesquisadores &#8211; Frei Betto, o coletivo Aparecidos Pol\u00edticos, o tamb\u00e9m coletivo Quem, Aretha Amorim Bellini,\u00a0Caroline Grassi,\u00a0Clayton Romano,\u00a0Inez Stampa,\u00a0K\u00e1tia Felipini,\u00a0Leonardo Stockler,\u00a0Maria Carolina Bissoto,\u00a0Maurice Politi,\u00a0Paulo Abr\u00e3o,\u00a0Rafaela Leuchtemberger,\u00a0Tha\u00eds Barreto.<\/p>\n<p>Tito Bellini conversou com Caros Amigos sobre a pesquisa e a import\u00e2ncia do achado, cujos originais agora est\u00e3o no Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> O que esses documentos revelaram, j\u00e1 que eram in\u00e9ditos?<\/p>\n<p><strong>Tito Bellini &#8211;<\/strong> H\u00e1 dois enfoques: o primeiro, a forma como eles foram descobertos, numa fazenda, \u00e1rea rural de Jaborandi, e que pertencia a um delegado do Dops, em S\u00e3o Paulo. Depois, fazendo pesquisas &#8211; a gente entregou a documenta\u00e7\u00e3o ao Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo -, a gente percebeu que essa foi a primeira vez que se confirmou cabalmente a guarda indevida de documentos por agentes da repress\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> Isso mostra que ainda podem haver documentos nas m\u00e3os de aposentados, militares da reserva\u2026?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> Sem d\u00favida. Depois que tornamos p\u00fablicos esses documentos, o pessoal do Arquivo P\u00fablico do Estado j\u00e1 conseguiu recuperar outros documentos. Teve uma vi\u00fava que entregou do marido, que morreu e era coronel; tem outro caso no Nordeste tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Isso at\u00e9 abriu uma nova linha de investiga\u00e7\u00e3o para a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um dos enfoques. O outro enfoque \u00e9 especificamente sobre o material. Eu digitalizei 1.200 arquivos, mais ou menos, e temos 110 fichas (<em>de investigados pela ditadura<\/em>); no montande de fichas do Arquivo do Estado s\u00e3o poucas; eles t\u00eam mais de 20 mil e parece que agora foram incorporados mais de 40 mil prontu\u00e1rios daquele arquivo encontrado em Santos (<em>fichas e prontu\u00e1rios de perseguidos, encontrados por acaso em mar\u00e7o de 2010 e j\u00e1 abertos ao p\u00fablico<\/em>).<\/p>\n<p>Agora, as fichas de Jaborandi s\u00e3o \u00fanicas. Eles n\u00e3o tinham nenhuma, entre as 20 mil, desse modelo, que s\u00e3o da delegacia especializada da ordem pol\u00edtica; as que eles tinham \u00e9 da delegacia especializada da ordem social.<\/p>\n<p>\u00c9 uma ficha mesmo, de uns 15 por 10 cent\u00edmetros de formato; na frente vem a tipifica\u00e7\u00e3o, com nome, filia\u00e7\u00e3o, endere\u00e7o, profiss\u00e3o, data de nascimento, algumas com fotos, poucas; e algumas informa\u00e7\u00f5es sobre o fichado, se est\u00e1 j\u00e1 em algum processo e do que ele era acusado.<\/p>\n<p>Tem tr\u00eas fichas de mortos e desaparecidos, inclusive, do Marcio Beck, que at\u00e9 hoje est\u00e1 desaparecido, sabe-se que ele morreu por relatos, mas n\u00e3o h\u00e1 confirma\u00e7\u00e3o oficial, nem localiza\u00e7\u00e3o do corpo; Lauriberto Jos\u00e9 Reyes, que morreu em confronto com a pol\u00edcia, e Rui Carlos Vieira Berbet.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> Essas fichas eram de pessoas conhecidas em outras listagens de desaparecidos, como a do Brasil Nunca Mais?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> Ah, acho que j\u00e1 sim; essas pessoas constavam em outras fichas da delegacia de ordem social tamb\u00e9m.\u00a0Mas n\u00e3o sei te dizer porque o pessoal que acompanha um pouco aqui \u00e9 do f\u00f3rum de ex-presos pol\u00edticos; eles at\u00e9 solicitaram isso para facilitar na entrada de pedidos de indeniza\u00e7\u00e3o; teve algumas pessoas que entraram em contato por email, teve um militante que mora no Paraguai. Ent\u00e3o, n\u00e3o sei se todos constam, mas acho que sim na do Brasil Nunca Mais; mas n\u00e3o posso dizer categoricamente.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> Esses documentos j\u00e1 est\u00e3o com a Comiss\u00e3o da Verdade?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> At\u00e9 onde a gente sabe, n\u00e3o. Essa documenta\u00e7\u00e3o foi descoberta em 2007, ficou na guarda do nosso instituto, o Praxis, at\u00e9 2009 uma parte, e uma outra parte ficou na faculdade em Bebedouro, a Fafibe. Ent\u00e3o, s\u00f3 em 2009, atrav\u00e9s de um militante pol\u00edtico \u00e9 que deu prosseguimento e essa documenta\u00e7\u00e3o foi encaminhada ao Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, os originais ficaram no Arquivo P\u00fablico, que n\u00e3o est\u00e1 ainda dispon\u00edvel para consulta. E nesse per\u00edodo que ficou com a\u00a0gente, fizemos o trabalho de digitaliza\u00e7\u00e3o; no livro, a gente publica uma parte desses documentos; algumas fichas, um manual da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo, chama &#8220;Subvers\u00e3o e Contra-Subervi\u00e7\u00e3o&#8221;, onde tem umas p\u00e9rolas de marxismo e leninismo l\u00e1 que \u00e9 assustador o n\u00edvel do manique\u00edsmo e do simples; atribui frase a L\u00eanin que \u00e9 de Maquiavel, por exemplo (<em>risos<\/em>).<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> Sim, mas revela o trabalho ideol\u00f3gico da ditadura.<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> Isso era declarado; nesse manual fica evidente. Eles se colocavam como democratas; o que os democratas deviam utilizar para impedir os comunistas, inclusive, de ascender ao poder at\u00e9 por via eleitoral.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> E eles sugeriam alguma a\u00e7\u00e3o espec\u00edfica?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> Tem as linhas de a\u00e7\u00e3o que eles destacaram, que era necess\u00e1rio dar uma resposta \u00e0 t\u00e1tica subversiva comunista ou t\u00e1tica contra-revolucion\u00e1ria e realiza-se atrav\u00e9s das seguintes vias de a\u00e7\u00e3o: via eleitoral, a defesa da independ\u00eancia e equil\u00edbrio entre os poderes, repress\u00e3o a movimentos revolucion\u00e1rios de qualquer natureza.<\/p>\n<p>E tem as estrat\u00e9gias: &#8220;Anular os antagonismos, promovendo estabilidade pol\u00edtica; ativar a doutrina\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica das massas; promover aglutina\u00e7\u00e3o das for\u00e7as democr\u00e1ticas para a luta contra o PC; isolar o Partido Comunista das massas&#8221;<\/p>\n<p>A\u00ed vem &#8220;Para isso: considerar ilegais suas atividades e sua pr\u00f3pria exist\u00eancia; agir com aparelho policial, buscando a descoberta e a neutraliza\u00e7\u00e3o dos elementos comunistas que atuam na clandestinidade e identificar e agastar os elementos comunistas dos aparelhos pol\u00edtico e administrativo nacional&#8221;.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> \u00c9 importante ver esse arcabou\u00e7o ideol\u00f3gico, que tamb\u00e9m legitimava as a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> Sim, e ali eles colocam abertamente &#8220;doutrina\u00e7\u00e3o&#8221; e o curioso \u00e9 que eles colocam &#8220;doutrina\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica&#8221;, ent\u00e3o, eles estavam fazendo tudo isso em nome da democracia.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> O delegado que era o dono da fazenda, voc\u00eas chegaram a procur\u00e1-lo ou a parentes?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> Ele morreu em 2005, dois anos antes da descoberta dos documentos. Um rep\u00f3rter da Isto \u00c9 conseguiu localizar o filho do delegado, inclusive \u00e9 delegado em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, parece. Ele colocou um depoimento do filho na reportagem falando que o pai dizia que os documentos da ditadura, algns tinham que ser incinerados, desaparecer porque comprometeriam algumas pessoas que ainda estavam na pol\u00edtica no per\u00edodo recente.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> E podem estar vivos&#8230;<\/p>\n<p><strong>TB &#8211; <\/strong>Com certeza ainda est\u00e3o vivos muitos deles. A gente tentou com uma filha, mas ficamos receosos de ir atr\u00e1s do filho, com medo dele colocar algum obst\u00e1culo ao andamento do projeto, ent\u00e3o, por isso a gente foi postergando, porque a gente est\u00e1 em trabalho de finaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio do projeto Mem\u00f3rias da Resist\u00eancia.<\/p>\n<table border=\"0\" width=\"40%\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<h3>&#8220;Entendemos subvers\u00e3o em um sentido mais amplo e mais atualizado, como um fen\u00f4meno psicossocial. Sociologicamente, sin\u00f4nimo de revolu\u00e7\u00e3o&#8221; &#8211; extra\u00eddo do manual &#8220;Subvers\u00e3o e Contra-Subvers\u00e3o&#8221;, achado no im\u00f3vel em Jaborandi<\/h3>\n<\/td>\n<td width=\"10%\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> Desse material in\u00e9dito, voc\u00ea chegou a considerar algum mais importante ou algum que por um motivo te chamou a aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> O material \u00e9 muito amplo. Para voc\u00ea ter uma ideia, n\u00f3s categorizamos em pastas a documenta\u00e7\u00e3o, e temos mais ou menos 39 categorias de documentos. Temos desde documentos pessoais, registros de propriedades, compra e venda de im\u00f3veis; tem uma que eu acho interessante que s\u00e3o anota\u00e7\u00f5es e bilhetes do delegado; ele anotava alguns endere\u00e7os, nomes de pessoas que parecem que eram ser do c\u00edrculo de amizade dele, ent\u00e3o aparece Erasmo Dias, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> O Fleury aparece?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> N\u00e3o vi. Eu at\u00e9 pesquisei no Google alguns desses endere\u00e7os, enfim. Para mim, a maior riqueza s\u00e3o tr\u00eas: esse manual; as fichas e por fim, envelopes. A gente encontrou em torno de 40 envelopes. Esses envelopes n\u00e3o tinham conte\u00fado e eram envelopes carimbados &#8220;secreto&#8221;, &#8220;confidencial&#8221;, &#8220;restrito&#8221;. Dois, inclusive, foram lacrados com cera quente; um da C\u00faria Metropolitana de S\u00e3o Paulo e um, que o nome no envelope estava &#8220;Relat\u00f3rio Rela\u00e7\u00e3o &#8211; Minist\u00e9rio das Comunica\u00e7\u00f5es&#8221;; tinham cinco pontos de lacre de cera.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> Qual a leitura que voc\u00ea faz disso?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> Acho que o que estava dentro foi retirado e talvez foi incinerado, porque n\u00e3o conseguimos fazer rela\u00e7\u00e3o entre os documentos que a gente encontrou com esses envelopes. Esses envelopes eram de outro delegado, Alcides Cintra Bueno. Eu localizei pelo livro do Frei Betto e ele figuraria em uma delegacia especializada em cultos, uma coisa assim; ele aparece citado assim.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> Todo esse material se refere a a\u00e7\u00f5es da repress\u00e3o na capital paulista ou tamb\u00e9m em cidades do interior e outros locais?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> Primeiro, acho que ele foi delegado em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, acho que era de Barretos, a esposa era descendente dos Junqueira l\u00e1 de Ribeir\u00e3o Preto, usineiros, bem poderosos, inclusive essa fazenda parece que era de propriedade dela, conversamos com moradores l\u00e1 de Jaborandi; n\u00e3o pegamos a escritura do im\u00f3vel; \u00edamos pedir isso no cart\u00f3rio, mas achamos que poderia levantar alguma suspeita e isso ir parar na m\u00e3o de algum parente dele.<\/p>\n<p>Agora as fichas, a gente agrupou em dois grandes grupos, dois grandes blocos. Uma parte dizia respeito a um processo de Ribeir\u00e3o Preto, que \u00e9 relacionado \u00e0s Faln, For\u00e7as Armadas de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, que era um grupo guerrilheiro, que foi estourado muito cedo, que era sediado em Ribeir\u00e3o, mas tinha bra\u00e7o em S\u00e3o Joaquim da Barra, Franca, Orl\u00e2ndia, Barretos (<em>cidades no entorno de Ribeir\u00e3o Preto<\/em>).<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> Mas era uma organiza\u00e7\u00e3o da\u00ed\u2026<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> Sim, daqui, independente, sem liga\u00e7\u00e3o nenhuma com outra organiza\u00e7\u00e3o. Inclusive morreu h\u00e1 tr\u00eas<\/p>\n<table border=\"0\" width=\"40%\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"10%\"><\/td>\n<td>\n<h3>&#8220;Mudan\u00e7a que afeta de tal forma a estrutura social existente, que n\u00e3o somente a camada dominante \u00e9 apeada do poder, mas todas as camadas se desintegram, para reintegrar-se de novo de forma diferente&#8221;, defini\u00e7\u00e3o de subvers\u00e3o de Emilio Willens, que consta no manual &#8220;A Subvers\u00e3o e a Contra-Subvers\u00e3o&#8221;, achado em Jaborandi<\/h3>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>semanas um de seus mentores, que era o Vanderley Caixe (<em>advogado, morreu dia 13 de novembro, aos 68 anos<\/em>), um militante de direitos humanos, foi preso, torturado, lutou tamb\u00e9m junto com as Ligas Camponesas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o esse \u00e9 um bloco das fichas, o outro bloco \u00e9 relativo \u00e0 invas\u00e3o do Crusp (<em>moradia estudantil da USP, em S\u00e3o Paulo<\/em>) pelo Ex\u00e9rcito, no final dos anos 60; inclusive esse foi o mote que a gente encontrou para o document\u00e1rio. A gente priorizou esses grupos de fichados e pessoas envolvidas nesses eventos.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o os dois grandes blocos; a\u00ed tinham outras fichas de pessoas mais dispersas, de outras regi\u00f5es, tinha pessoas fichadas que estudavam na USP; a maior parte eram estudantes.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> Algum documento incrimina algum agente da ditadura diretamente?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> N\u00e3o encontrei nada que incriminasse algu\u00e9m mais diretamente. N\u00e3o deu para verificar tudo, que \u00e9 muito material.<\/p>\n<p>Mas por exemplo, o T\u00e1cito foi corregedor da pol\u00edcia tamb\u00e9m e l\u00e1 na fazenda, a gente encontrou documentos da Corregedoria tamb\u00e9m. Eu colocaria isso como um quarto grupo de documentos, em grande quantidade e muito interessante, porque ele vai julgando a\u00e7\u00f5es de policiais dos mais diversos tipo. Uma, por exemplo, era de uma prostituta que foi espancada e eles colocaram no cambur\u00e3o e ela morreu em decorr\u00eancia dos traumatismos. Nesse processo, ele condenou os policiais, mas tem v\u00e1rios de furto, de extors\u00e3o, torturas, espancamentos\u2026 Ele n\u00e3o usa o termo tortura, mas\u2026<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> O rapaz que encontrou esse material, o Cleiton, est\u00e1 no document\u00e1rio. Mas fiquei curioso de saber o que deu a vida dele. Ele estava estudando hist\u00f3ria quando encontrou o material. O que ele faz hoje?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> Ele se formou recentemente, mas n\u00e3o est\u00e1 trabalhando na \u00e1rea. Ele \u00e9 um dos membros do projeto, assim que saiu o projeto aprovado no edital Ponto de M\u00eddias Livres, a gente convidou ele a integrar a equipe permanente.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> Como historiador?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> \u00c9, a gente colocou como assistente de pesquisa, ent\u00e3o, ele fazia levantamento de contatos, dados, \u00e0s vezes ele fazia pesquisa na internet, enfim. Mas atualmente, se n\u00e3o me engano, ele trabalha numa academia de muscula\u00e7\u00e3o, em Moro Agudo (<em>vizinha a Ribeir\u00e3o Preto<\/em>).<\/p>\n<p>A gente faz quest\u00e3o sempre de frisar que sem o Cleiton isso n\u00e3o existiria. Era algu\u00e9m que estava no lugar certo e tinha informa\u00e7\u00f5es m\u00ednimas por estar fazendo hist\u00f3ria, que levaram ele a resgatar esses documentos. Depois a gente fez mais duas buscas com ele na fazenda e encontramos mais alguns documentos.<\/p>\n<p>Outros entraram l\u00e1, olharam aquilo e n\u00e3o deram import\u00e2ncia alguma; ele deu porque estava fazendo hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, foi um conjunto de elementos. Uma das entrevistadas do document\u00e1rio fala que n\u00e3o acredita que foi ao acaso, n\u00e3o (<em>risos<\/em>). Voc\u00ea v\u00ea que h\u00e1 tantas coincid\u00eancias, um local hermo, afastado, ele entrou l\u00e1 por uma brincadeira porque falaram que a casa era mal assombrada, outros j\u00e1 tinham entrado&#8230; Ele entrou e percebeu que aquilo talvez tivesse alguma import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O pessoal do Arquivo P\u00fablico aponta que essa descoberta poderia reorientar as investiga\u00e7\u00f5es da ditadura militar no Estado de S\u00e3o Paulo. A gente tem percebido que, na verdade, essa descoberta pode reorientar as investiga\u00e7\u00f5es em todo o Brasil, n\u00e3o apenas em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> Voc\u00ea vai fazer esses documentos chegarem \u00e0s m\u00e3os da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade ou a Estadual?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> O Ivan Seixas (<em>do\u00a0Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Condepe<\/em>)\u00a0est\u00e1 acompanhando o projeto desde 2010. Parece que ele ia oficializar isso para encaminhamentos. Mas a Comiss\u00e3o j\u00e1 solicitou \u00e0s delegacias comuns que enviassem a eles toda a documenta\u00e7\u00e3o do per\u00edodo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, esse j\u00e1 \u00e9 um primeiro desdobramento dessa descoberta.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211;<\/strong> O que \u00e9 exatamente esse projeto inteiro?<\/p>\n<p><strong>TB &#8211;<\/strong> O Mem\u00f3rias da Resist\u00eancia, que surge a partir do edital de M\u00eddias Livres, do Minist\u00e9rio da Cultura, tem quatro focos, um \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de boletins; a gente j\u00e1 produziu quatro boletins, distribu\u00eddos gratuitamente para centros de pesquisas, bibliotecas, enfim, em catorze estados. Esse projeto tem tamb\u00e9m uma parceria com o Mem\u00f3rias Reveladas, do Arquivo Nacional, ent\u00e3o, a gente integra o banco de entidades do Mem\u00f3rias Reveladas.<\/p>\n<p>A gente tamb\u00e9m produziu um portal na internet, e agora, creio que a partir de janeiro, a gente vai disponibilizar gradualmente o acesso a toda essa documenta\u00e7\u00e3o; o livro, que est\u00e1 sendo lan\u00e7ado agora e, por fim, o document\u00e1rio que \u00e9 o \u00faltimo eixo de a\u00e7\u00e3o do projeto.<\/p>\n<p>http:\/\/carosamigos.terra.com.br\/index\/index.php\/politica\/2842-documentos-achados-em-fazenda-revelam-faces-da-ditadura<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCaros Amigos\n\n\n\n\n\n\n\n\nCaros Amigos\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4046\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-4046","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-13g","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4046"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4046\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}