{"id":4052,"date":"2012-12-18T00:37:46","date_gmt":"2012-12-18T00:37:46","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4052"},"modified":"2012-12-18T00:37:46","modified_gmt":"2012-12-18T00:37:46","slug":"delfim-netto-ainda-e-aquele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4052","title":{"rendered":"Delfim Netto ainda \u00e9 aquele"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Evento emblem\u00e1tico aconteceu em S\u00e3o Paulo na semana em que, a 13 de dezembro, completaram-se 44 anos do Ato Institucional n\u00famero 5 (AI-5), que fechou o Congresso Nacional e acirrou a repress\u00e3o e a tortura da ditadura civil militar instalada no Brasil pelo golpe de abril de 1964. Em seu encontro anual, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira da Ind\u00fastria Qu\u00edmica (ABIQUIM), fundada no ano do golpe, contratou palestra de Delfim Netto, signat\u00e1rio do AI-5, sobre perspectivas da economia brasileira.<\/strong><\/p>\n<p>Economista formado pela USP em 1952, Delfim participou com destaque de todos os governos ditatoriais, de Castello Branco (1964-1967) \u00e0 Figueiredo (1979-1984), tendo sido ministro da Fazenda com Costa e Silva (1967-1969) e M\u00e9dici (1969-1973).<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o do Estado sob a ditadura e, mais especificamente, sua orienta\u00e7\u00e3o na economia, indicam como central o aspecto repressivo, subordinando o que muitos identificam como car\u00e1ter \u201cindutor\u201d de um Estado que buscava orientar os rumos da economia.<\/p>\n<p>De forma muito direta, Delfim Netto sintetizou esta orienta\u00e7\u00e3o repressiva em sua breve declara\u00e7\u00e3o de voto, no dia 13 de dezembro de 1968, favor\u00e1vel ao AI-5:<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) Eu creio que a revolu\u00e7\u00e3o veio n\u00e3o apenas para restabelecer a moralidade administrativa neste pa\u00eds, mas, principalmente, para criar as condi\u00e7\u00f5es que permitissem uma modifica\u00e7\u00e3o de estruturas que facilitassem o desenvolvimento econ\u00f4mico. Este \u00e9 realmente o objetivo b\u00e1sico. Creio que a revolu\u00e7\u00e3o, muito cedo, meteu-se numa camisa-de-for\u00e7a que a impede, realmente, de realizar esses objetivos. Mais do que isso, creio que, institucionalizando-se t\u00e3o cedo, possibilitou toda a sorte de contesta\u00e7\u00e3o (&#8230;). \u00c9 por isso, senhor presidente, que eu estou plenamente de acordo com a proposi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo analisada no Conselho. E, se Vossa Excel\u00eancia me permitisse, direi mesmo que creio que ela n\u00e3o \u00e9 suficiente. Eu acredito que dever\u00edamos atentar e dever\u00edamos dar a Vossa Excel\u00eancia, ao presidente da Rep\u00fablica, a possibilidade de realizar certas mudan\u00e7as constitucionais, que s\u00e3o absolutamente necess\u00e1rias para que este pa\u00eds possa realizar o seu desenvolvimento com maior rapidez. Eram essas as considera\u00e7\u00f5es que eu gostaria de fazer.\u201d<\/p>\n<p>De certa forma, a exacerba\u00e7\u00e3o dos poderes concentrados no Presidente da Rep\u00fablica que advogava Delfim, deve ter contribu\u00eddo para seu apoio \u00e0 sanha repressiva fora de qualquer amarra institucional que teve na Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes (OBAN) sua s\u00edntese perfeita: o poder repressivo comandado e financiado diretamente pelos donos do capital, sem media\u00e7\u00f5es, e executado pelos agentes fardados do Estado, com intelig\u00eancia da CIA.<\/p>\n<p>O excelente document\u00e1rio \u201cCidad\u00e3o Boilesen\u201d, lan\u00e7ado em 2009 e dirigido pelo cineasta Chaim Litewski, mostra a estrutura\u00e7\u00e3o e o financiamento por empres\u00e1rios e banqueiros paulistas da OBAN, centro de investiga\u00e7\u00f5es e torturas montado pelo Ex\u00e9rcito brasileiro em 1969 para combater organiza\u00e7\u00f5es de esquerda que confrontavam o regime ditatorial. A OBAN foi o laborat\u00f3rio que geraria, pouco tempo depois, o DOI-CODI (Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00e3o do Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna).<\/p>\n<p>O caso de Henning Boilesen, o cidad\u00e3o Boilesen do t\u00edtulo, \u00e9 exemplar. Dinamarqu\u00eas naturalizado brasileiro, trabalhou durante 19 anos no grupo qu\u00edmico Ultra, tendo sido presidente da Ultragaz. Anticomunista ferrenho, ligou-se a grupos militares e paramilitares e, s\u00e1dico, tinha prazer especial em acompanhar sess\u00f5es de tortura.<\/p>\n<p>Segundo Elio Gaspari, a primeira reuni\u00e3o organizada para capta\u00e7\u00e3o de recursos para a OBAN foi convocada por Delfim Netto e contou com a participa\u00e7\u00e3o de 15 empres\u00e1rios, em sua maioria banqueiros, como Gast\u00e3o Bueno Vidigal, dono do banco Mercantil de S\u00e3o Paulo (<em>A ditadura escancarada<\/em>, p. 61-62).<\/p>\n<p>O banqueiro Vidigal era tamb\u00e9m presidente do ainda hoje elitista clube Paulistano. L\u00e1, \u00e0s quintas-feiras, costumava promover almo\u00e7os com empres\u00e1rios e n\u00e3o raro convidava Delfim Netto, ent\u00e3o ministro da Fazenda, para apresentar an\u00e1lises de conjuntura econ\u00f4mica e responder a perguntas dos presentes. Ao final da palestra, eram recolhidas as colabora\u00e7\u00f5es para a OBAN.<\/p>\n<p>Pery Igel, dono do Grupo Ultra e patr\u00e3o de Boilesen, foi certamente um dos mais destacados financiadores da OBAN, ao lado de executivos das montadoras de autom\u00f3veis estadunidenses Ford e General Motors, e da empreiteira Camargo Correa.<\/p>\n<p>Boilesen foi assassinado em 15 de abril de 1971, em S\u00e3o Paulo, numa a\u00e7\u00e3o conjunta envolvendo militantes da ALN (A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional) e do MRT (Movimento Revolucion\u00e1rio Tiradentes). Delfim compareceu ao enterro e levou consigo Roberto Campos, amigo de ambos.<\/p>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Panorama do \u201cmodelo\u201d brasileiro sob o Estado repressor<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Delfim foi o operador do modelo econ\u00f4mico da ditadura, num contexto em que as corpora\u00e7\u00f5es industriais dos EUA buscavam expandir seu dom\u00ednio sobre a Am\u00e9rica Latina, para enfrentar a crescente concorr\u00eancia das corpora\u00e7\u00f5es europeias reconstru\u00eddas no p\u00f3s II Guerra e barrar o avan\u00e7o da influ\u00eancia pol\u00edtica dos pa\u00edses comunistas.<\/p>\n<p>A entrada das transnacionais na economia brasileira representa um novo deslocamento dos centros de decis\u00e3o, do Estado para estas empresas privadas. O Estado deixa de ser o ponto de conflu\u00eancia das tens\u00f5es pol\u00edticas que condicionam a orienta\u00e7\u00e3o do desenvolvimento e, posto que essa passa ao controle das transnacionais, o Estado torna-se mero gestor t\u00e9cnico e, sobretudo, um \u00f3rg\u00e3o repressivo. Nas palavras precisas de Celso Furtado:<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) as grandes empresas norte-americanas ter\u00e3o necessariamente que transformar-se em um superpoder em qualquer pa\u00eds latino-americano. Cabendo-lhes grande parte as decis\u00f5es b\u00e1sicas com respeito \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o dos investimentos, \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o das atividades econ\u00f4micas, \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o da tecnologia, ao financiamento da pesquisa e ao grau de integra\u00e7\u00e3o das economias nacionais, \u00e9 perfeitamente claro que os centros de decis\u00e3o representados pelos atuais estados nacionais passar\u00e3o a plano cada vez mais secund\u00e1rio. (&#8230;) Em realidade, se se consegue subtrair ao Estado grande parte de suas fun\u00e7\u00f5es substantivas na orienta\u00e7\u00e3o do processo de desenvolvimento econ\u00f4mico e social, seria de esperar que a atual \u2018fermenta\u00e7\u00e3o\u2019 pol\u00edtica, que caracteriza muitos dos pa\u00edses latino-americanos, tenda a reduzir-se, passando os governos a atuar principalmente no plano t\u00e9cnico. (&#8230;) Com efeito, a penetra\u00e7\u00e3o indiscriminada em uma estrutura econ\u00f4mica fr\u00e1gil de grandes cons\u00f3rcios, os quais se caracterizam por elevada inflexibilidade administrativa e grande poder financeiro, tende a provocar desequil\u00edbrios estruturais de dif\u00edcil corre\u00e7\u00e3o tais como maiores disparidades de n\u00edveis de vida entre grupos da popula\u00e7\u00e3o e r\u00e1pida acumula\u00e7\u00e3o de desemprego aberto e disfar\u00e7ado. (&#8230;) O resultado \u00faltimo seria um aumento real ou potencial das tens\u00f5es sociais na Am\u00e9rica Latina. Como as decis\u00f5es econ\u00f4micas de car\u00e1ter estrat\u00e9gico estariam fora do alcance dos governos latino-americanos, tais tens\u00f5es tenderiam a ser vistas, no plano pol\u00edtico local, t\u00e3o somente pelo seu \u00e2ngulo negativo. A a\u00e7\u00e3o do Estado teria que ser de car\u00e1ter essencialmente repressivo.\u201d (<em>Subdesenvolvimento e estagna\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina<\/em>, p. 44 e 45).<\/p>\n<p>Como resultado, aprofundam-se a inadequa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e os efeitos da exist\u00eancia do excesso estrutural de trabalhadores dispon\u00edveis: os sal\u00e1rios permanecem determinados pelo custo de reprodu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o do campo \u2013 agravado pela interrup\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria \u2013 e, portanto, h\u00e1 concentra\u00e7\u00e3o de renda, que condiciona a estreiteza do mercado face aos problemas de escala de produ\u00e7\u00e3o. Por isso, a concentra\u00e7\u00e3o de renda \u00e9 pressuposto e resultado do processo e gera agravamento das tens\u00f5es sociais e a necessidade de repress\u00e3o pol\u00edtica. Da\u00ed, a conflu\u00eancia entre o sentido da pol\u00edtica econ\u00f4mica de Delfim e a repress\u00e3o da OBAN financiada pelo empresariado paulista.<\/p>\n<p>O modelo econ\u00f4mico da ditadura \u00e9 implantado logo nos primeiros meses ap\u00f3s o golpe, e pode ser analisado a partir das reformas contidas no Plano de A\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica do Governo (PAEG), inicialmente elaborado por Roberto Campos e Oct\u00e1vio Bulh\u00f5es. O sentido principal do PAEG era adequar o marco institucional ao deslocamento dos centros de decis\u00e3o, \u00e0s necessidades das transnacionais \u2013 coadunar estabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica por meio do v\u00ednculo entre militares e tecnocratas. Para isso, realizou reforma fiscal instituindo sistema tribut\u00e1rio regressivo para compensar o d\u00e9ficit p\u00fablico com redu\u00e7\u00e3o do consumo, notadamente dos trabalhadores; e reforma trabalhista que consistiu em arrocho salarial \u2013 atrav\u00e9s de pol\u00edtica salarial que substitu\u00eda as negocia\u00e7\u00f5es coletivas por \u00edndices de reajuste determinados pelo governo \u2013, fim da estabilidade no emprego e, sobretudo, interven\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o pol\u00edtica aos sindicatos.<\/p>\n<p>O PAEG completava-se com uma reforma monet\u00e1ria e financeira que, com a desculpa de aumentar a poupan\u00e7a, significou a abertura da economia nacional ao sistema financeiro internacional: fim da lei da usura que estabelecia teto \u00e0s taxas de juros e flexibilidade para institui\u00e7\u00f5es financeiras e empresas captarem recursos fora do pa\u00eds. O resultado de tamanha flexibiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o mesmo que verificamos com a eclos\u00e3o da crise de 2007 nos EUA e Europa: estavam colocadas as bases institucionais para a escalada do endividamento externo posterior, que lan\u00e7aria o Brasil na longa d\u00e9cada de estagna\u00e7\u00e3o de 1980.<\/p>\n<p>Os resultados do PAEG, portanto, s\u00f3 poderiam ser a concentra\u00e7\u00e3o de renda, pela queda dos sal\u00e1rios reais, e o estreitamento do v\u00ednculo do sistema econ\u00f4mico nacional com o sistema financeiro internacional, que viabiliza o financiamento das transnacionais e as remessas de lucros para suas matrizes no estrangeiro.<\/p>\n<p>A partir destas \u201ccontra-reformas de base\u201d, pavimentou-se o caminho para a gest\u00e3o de Delfim Netto na economia durante o governo M\u00e9dici, os anos do chamado \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, que cabe aqui, brevemente, recuperar em seu sentido mais amplo. Tratava-se de fazer avan\u00e7ar a industrializa\u00e7\u00e3o fundada na mimetiza\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de consumo (bens dur\u00e1veis) combinado a uma necess\u00e1ria mudan\u00e7a no perfil da demanda atrav\u00e9s de transfer\u00eancias de renda dos trabalhadores \u00e0s classes m\u00e9dias mais elevadas para viabilizar um mercado ao novo padr\u00e3o de industrializa\u00e7\u00e3o. Para tanto, expandiu-se o gasto p\u00fablico e o cr\u00e9dito ao consumo das classes m\u00e9dias via nexos com o sistema financeiro internacional e aumentou a press\u00e3o pelo rebaixamento dos sal\u00e1rios.<\/p>\n<p>O \u201cmilagre\u201d resultou em aumento da concentra\u00e7\u00e3o de renda e crescimento desproporcional da produ\u00e7\u00e3o de bens n\u00e3o-dur\u00e1veis, que estimulou importa\u00e7\u00f5es igualmente excessivas de bens de capital (m\u00e1quinas e equipamentos para a ind\u00fastria), que expressam o nexo das filiais brasileiras das transnacionais com as unidades produtoras de tecnologia no exterior.<\/p>\n<p>A c\u00f3pia dos padr\u00f5es de consumo (mimetiza\u00e7\u00e3o) leva a um crescimento econ\u00f4mico que reproduz os mesmos desequil\u00edbrios: sup\u00f5e e reproduz a concentra\u00e7\u00e3o de renda nas classes m\u00e9dias para consumirem os autom\u00f3veis, as geladeiras, as televis\u00f5es, e o endividamento financia o crescimento do consumo e das importa\u00e7\u00f5es de bens de capital sem elevar a capacidade de autotransforma\u00e7\u00e3o do sistema. Em suma, na an\u00e1lise precisa de Celso Furtado, a velha heran\u00e7a colonial se atualiza: depend\u00eancia e subdesenvolvimento refor\u00e7am suas conex\u00f5es fundamentais.<\/p>\n<p>O ato final da gest\u00e3o econ\u00f4mica da ditadura foi o II Plano Nacional de Desenvolvimento, uma resposta \u00e0 crise gerada pela eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do petr\u00f3leo e que procurava enfrentar os estrangulamentos causados pelo d\u00e9ficit comercial e avan\u00e7ar na industria de bens de capital e intermedi\u00e1rios, tentando reorientar a inser\u00e7\u00e3o externa da economia brasileira para a exporta\u00e7\u00e3o de produtos industrializados. Para isso, o II PND contou com eleva\u00e7\u00e3o do financiamento p\u00fablico atrav\u00e9s das estatais e mais concentra\u00e7\u00e3o de renda para viabilizar investimentos. Gasto p\u00fablico para empresas privadas e repress\u00e3o sempre caminhando juntos.<\/p>\n<p>O II PND acirrou a mimetiza\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de consumo e a depend\u00eancia tecnol\u00f3gica e financeira, resultando em aumento do endividamento e das importa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o desse padr\u00e3o de industrializa\u00e7\u00e3o, em total conson\u00e2ncia com as estrat\u00e9gias das transnacionais.<\/p>\n<p>Eis o legado da gest\u00e3o econ\u00f4mica de Delfim: a pol\u00edtica econ\u00f4mica torna-se fun\u00e7\u00e3o da reciclagem da crescente d\u00edvida externa acumulada no per\u00edodo; as garantias cambiais ao fluxo financeiro retira autonomia da pol\u00edtica cambial; pol\u00edtica de subs\u00eddios para o setor exportador retira parte da autonomia da pol\u00edtica fiscal; endividamento manipulado por institui\u00e7\u00f5es financeiras comprometem o controle do Estado sobre a liquidez e retiram autonomia da pol\u00edtica monet\u00e1ria. De forma estrutural, a centralidade do endividamento e a perda de autonomia da pol\u00edtica econ\u00f4mica tornam a economia brasileira prisioneira da pol\u00edtica monet\u00e1ria dos EUA. A crise da d\u00edvida dos anos 80 foi o destino desta marcha da insensatez.<\/p>\n<p>O modelo econ\u00f4mico da ditadura significou, em s\u00edntese, a consuma\u00e7\u00e3o do deslocamento dos centros de decis\u00e3o em favor das corpora\u00e7\u00f5es transnacionais e do sistema financeiro internacionalizado. Isso potencializou os desequil\u00edbrios estruturais herdados do per\u00edodo precedente: depend\u00eancia tecnol\u00f3gica e financeira e concentra\u00e7\u00e3o de renda \u2013 na base da inadequa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e da mimetiza\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de consumo. H\u00e1 crescimento, mas n\u00e3o desenvolvimento. O Estado \u2013 n\u00e3o mais centro de decis\u00e3o \u2013 tornou-se \u00f3rg\u00e3o t\u00e9cnico para gerir o modelo ditado pelas transnacionais e \u00f3rg\u00e3o repressivo para sufocar os conflitos pol\u00edticos da\u00ed decorrentes. O saldo foi o crescimento moment\u00e2neo, funcional \u00e0 transnacionaliza\u00e7\u00e3o produtiva e financeira, e subordinada \u00e0 pol\u00edtica dos EUA; a crise da d\u00edvida no momento de revers\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica dos EUA; e duas d\u00e9cadas posteriores de estagna\u00e7\u00e3o. Evidentemente, o modelo corroeu as bases da sociabilidade no Brasil e fez avan\u00e7ar a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p><strong><em>Em resumo, Delfim Netto ainda \u00e9 aquele<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Que Delfim siga sendo refer\u00eancia para o empresariado no Brasil n\u00e3o \u00e9 de espantar. Causa espanto, entretanto, que sindicatos de trabalhadores e lideran\u00e7as pol\u00edticas que sofreram com a repress\u00e3o da ditadura o tenham como analista progressista da economia. Causa estranhamento que tenha espa\u00e7o para publicar artigos numa revista que se prop\u00f5e cr\u00edtica e contra o arb\u00edtrio, como Carta Capital.<\/p>\n<p>Delfim apresenta-se hoje \u2013 como o fez no encontro da ABIQUIM \u2013 como defensor do modelo de desenvolvimento estabelecido pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, que ele define como tendo objetivo de \u201cmelhorar o padr\u00e3o de vida numa sociedade aberta\u201d em que se soma Estado e economia de mercado. Para Delfim, Rep\u00fablica significa todos os cidad\u00e3os sujeitos \u00e0 lei, \u201csob comando do STF\u201d; democracia resume-se a elei\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas e justi\u00e7a social equivale a igualdade de oportunidades num ambiente de plena liberdade de iniciativa e garantia de apropria\u00e7\u00e3o privada dos direitos da\u00ed decorrentes.<\/p>\n<p>A hegemonia do capital sobre o Estado e o trabalho, resultado de anos de ditadura e propaganda ideol\u00f3gica liberal, fez enfraquecer a contesta\u00e7\u00e3o sindical e popular ao modelo econ\u00f4mico brasileiro, ao passo que naturalizou o car\u00e1ter repressor do Estado, fazendo-o prescindir de aparatos clandestinos como a OBAN.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, instalada em mar\u00e7o de 2012 pela presidenta Dilma Rousseff, deveria convocar Delfim Netto para que fale sobre sua participa\u00e7\u00e3o no financiamento \u00e0 OBAN. O exemplo j\u00e1 foi dado pela Comiss\u00e3o Municipal da Verdade Vladimir Herzog, de S\u00e3o Paulo, que aprovou convoca\u00e7\u00e3o de Delfim em agosto de 2012, seguindo sugest\u00e3o do advogado Fabio Konder Comparato: \u201cA comiss\u00e3o municipal da verdade n\u00e3o deve se limitar a ouvir advogados, deputados e agentes pol\u00edticos. O objetivo dela deve ser desmoralizar a oligarquia dominante, os empres\u00e1rios coligados a militares. \u00c9 preciso mostrar o car\u00e1ter hediondo da tortura, pois \u00e9 isso que acaba desmoralizando. Al\u00e9m disso, a tortura continua acontecendo nas delegacias\u201d.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Nacional tem manifestado que pretende dar aten\u00e7\u00e3o e identificar os rastros do financiamento da OBAN pelos banqueiros e industriais paulistas. Se assim fizer, legar\u00e1 um servi\u00e7o inestim\u00e1vel ao Brasil, sobretudo aos que hoje enfrentam os mesmos grupos econ\u00f4micos forjados e impulsionados pelo Estado repressor de Delfim. Sejam os grupos nacionais \u2013 como o Ultra de Boilesen e Igel, e a Braskem, bra\u00e7o petroqu\u00edmico da empreiteira Odebrecht, criado no final da d\u00e9cada de 1990 no rastro das privatiza\u00e7\u00f5es de FHC e que hoje monopoliza importantes segmentos industriais no setor \u2013 sejam os transnacionais: a alem\u00e3 BASF, maior ind\u00fastria qu\u00edmica global, que no Brasil fatura alto com os agrot\u00f3xicos que produz, assim como Monsanto, Bayer, Syngenta, entre outros.<\/p>\n<p>Talvez o rastro que ligue o Estado repressor \u00e0s fabricantes de agrot\u00f3xicos possa tamb\u00e9m ser explicado por Delfim, nem tanto por sua breve passagem de quatro meses como ministro da Agricultura no governo Figueiredo, mas pela subordina\u00e7\u00e3o da economia nacional aos interesses do capital estrangeiro que imp\u00f4s ao Brasil como agente do Estado repressor. Esta orienta\u00e7\u00e3o impulsionou a mal chamada \u201crevolu\u00e7\u00e3o verde\u201d no campo, o que deu as bases para o agroneg\u00f3cio que hoje \u00e9 comandado pelos grandes produtores de\u00a0<em>commodities<\/em>, como soja, pelas transnacionais fabricantes de agrot\u00f3xicos e sementes transg\u00eanicas, e pelas corpora\u00e7\u00f5es que comercializam as exporta\u00e7\u00f5es para o resto do mundo.<\/p>\n<p>Para manter a hegemonia deste modelo de crescimento econ\u00f4mico fundado numa agricultura dependente de quantidades cada vez maiores de agrot\u00f3xicos \u2013 que afetam a sa\u00fade do solo, dos trabalhadores rurais e dos consumidores \u2013 as ind\u00fastrias utilizam diversos meios de propaganda. Por exemplo, no Carnaval carioca de 2013, o desfile da Vila Isabel ser\u00e1 bancado com 18 milh\u00f5es de Reais por uma transacional alem\u00e3 fabricante de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Delfim, a barb\u00e1rie e o capitalismo dependente seguem sendo os mesmos no Brasil. At\u00e9 quando?<\/p>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Jo\u00e3o Paulo Stuart<\/em><\/strong> \u00e9 escritor.<\/p>\n<p>Boilesen, o s\u00e1dico, e Delfim Netto, o c\u00ednico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nuol.com.br\n\n\n\n\n\n\n\n\nJo\u00e3o Paulo Stuart\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4052\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-4052","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-13m","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4052","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4052"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4052\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4052"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4052"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4052"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}