{"id":4061,"date":"2012-12-20T12:27:02","date_gmt":"2012-12-20T12:27:02","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4061"},"modified":"2012-12-20T12:27:02","modified_gmt":"2012-12-20T12:27:02","slug":"o-dia-em-que-obama-chorou-diante-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4061","title":{"rendered":"O dia em que Obama chorou diante do mundo"},"content":{"rendered":"\n<p>Barack Obama limpou com as pontas dos dedos as l\u00e1grimas que escorriam dos cantos dos olhos.<\/p>\n<p>Com ar abatido e a eleg\u00e2ncia habitual, iniciou diante da m\u00eddia lobalizada a dan\u00e7a cat\u00e1rtica encenada habitualmente para reduzir a j\u00e1 tradicional express\u00e3o da cultura estadunidense da morte em mero ato individual desviante. As l\u00e1grimas presidenciais foram seguidas pelos tradicionais cultos ecum\u00eanicos; vigias noturnas \u00e0 luz de velas; entrevistas a policiais e psiquiatras; relatos de atos her\u00f3icos durante os sucessos; declara\u00e7\u00f5es controladas de pais, familiares e amigos.<\/p>\n<p>O ataque manteve o\u00a0<em>script<\/em> de sempre, sem a dramatiza\u00e7\u00e3o das capas pretas de Littleton que, h\u00e1 doze anos, celebrizaram essa forma de explos\u00e3o juvenil nos USA, ou a fantasia do vil\u00e3o Jocker, no lan\u00e7amento do novo\u00a0<em>Batman, <\/em>h\u00e1 poucos meses. Como \u00e9 comum, o protagonista foi um jovem branco, de classe m\u00e9dia, sem precedentes de viol\u00eancia. De novo, apenas as crian\u00e7as indefesas, talvez para facilitar a conquista da primazia, nem que seja fugidia, do maior n\u00famero de v\u00edtimas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a dissemina\u00e7\u00e3o de armas a respons\u00e1vel pelos massacres peri\u00f3dicos nos Estados Unidos. Quem mata n\u00e3o \u00e9 a arma, mas quem a usa, ainda que ela facilite a obra do assassino. Na Su\u00ed\u00e7a, as armas de guerra est\u00e3o \u00e0 portada da m\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o juvenil, sem que disso resulte em mortandades habituais nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Terem sido usadas no massacre armas compradas legalmente, por uma senhora, m\u00e3e de dois jovens, coloca j\u00e1 os limites das propostas de restri\u00e7\u00e3o da posse de armas, como dissuasivo de dramas semelhantes. Medida que o presidente chor\u00e3o furtou-se cuidadosamente de propor nas passadas elei\u00e7\u00f5es, temendo as inevit\u00e1veis seq\u00fcelas eleitorais.<\/p>\n<p>A hegemonia imperialista exige a metaboliza\u00e7\u00e3o do uso da viol\u00eancia mortal como instrumento \u00e9tico e legal. Ela necessita popula\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, moral e fisicamente, da cultura da domina\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a, do direito da distribui\u00e7\u00e3o da morte como profilaxia do criminoso, do malvado, do inimigo, do desviante. Matar \u00e9 comumente dever e, sobretudo, poder.<\/p>\n<p>Desde crian\u00e7as, os estadunidenses s\u00e3o engatilhados para matar. A morte do\u00a0<em>bandido<\/em>, com dor e sofrimento se poss\u00edvel, habita o \u00e2mago da cultura nacional dominante, celebrada pela televis\u00e3o, pelo cinema, pela escola, pelas igrejas, pelo Estado. Her\u00f3is nacionais, como o xerife, o caub\u00f3i, o fuzileiro, o super-her\u00f3i, s\u00e3o glorificados na epifania da aniquila\u00e7\u00e3o f\u00edsica implac\u00e1vel do inimigo. A execu\u00e7\u00e3o de Bin Laden, sem julgamento, desarmado, em pa\u00eds estrangeiro, transformou-se em uma enorme festa nacional.<\/p>\n<p>Na seguran\u00e7a da Casa Branca, Barack Obama decide semanalmente os opositores a serem eliminados pelos avi\u00f5es n\u00e3o tripulados, no Afeganist\u00e3o, no Paquist\u00e3o, onde for necess\u00e1rio e poss\u00edvel. As execu\u00e7\u00f5es s\u00e3o divulgadas pela m\u00eddia para o regozijo nacional. Sequer os milhares de populares ceifados como perdas marginais [esperadas e inesperadas] dos\u00a0<em>drones<\/em> causam l\u00e1grimas no Crocodilo Mor e na popula\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria na distribui\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a final, extra-judici\u00e1ria e extra-territorial.<\/p>\n<p>A arma individual \u00e9 a principal liturgia da religi\u00e3o da morte. Ela entrega a quem a empunha o poder soberano de aniquilar o mal e impor o bem, de distribuir o castigo e a morte. No Brasil, o pai orgulhoso leva o filho pequeno para ver seu time preferido; nos USA, ensina o pimpolho a manejar e disparar, para matar, caso seja necess\u00e1rio. Um pouco menos da metade da popula\u00e7\u00e3o estadunidense possu\u00ed trezentos milh\u00f5es de armas individuais \u2013 e elas s\u00e3o compradas, hoje, como jamais. Os suic\u00eddios anuais com armas o s\u00e3o quase quinze mil.<\/p>\n<p>A cultura da arma e da morte facilita que jovens desavisados engajem-se periodicamente como soldados, por baixo pre\u00e7o, transformando-se fora das fronteiras em veteranos orgulhosos de matar pelo pa\u00eds. Nos USA, jovens estressados, desesperados, infelizes, mentalmente enfermos, expressam tamb\u00e9m suas ang\u00fastias no \u00e1lcool, nas drogas, em depreda\u00e7\u00f5es e agress\u00f5es mais ou menos banais e no suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Entre a juventude estadunidense, \u00e9 forte a atra\u00e7\u00e3o pela realiza\u00e7\u00e3o do poder demi\u00fargico da arma de fogo, sobre desafetos ou estranhos, forma de socializa\u00e7\u00e3o perversa e persegui\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica de supera\u00e7\u00e3o da dor individual e do vazio existencial na materializa\u00e7\u00e3o de banquete de sangue, diante dos olhos da na\u00e7\u00e3o e do mundo.<\/p>\n<p>Possivelmente, muito logo, conheceremos novos sucessos semelhantes aos ocorridos em Newtown, Connecticut, ainda mais que o suic\u00eddio difunde-se como epidemia entre a popula\u00e7\u00e3o inclinada a tais atos, quando midiatizados.<\/p>\n<p><strong>*M\u00e1rio Maestri \u00e9 historiador.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nglbimg.com\n\n\n\n\n\n\n\n\nM\u00e1rio Maestri*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4061\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-4061","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-13v","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4061","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4061"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4061\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4061"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4061"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4061"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}