{"id":4122,"date":"2013-01-03T19:30:00","date_gmt":"2013-01-03T19:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4122"},"modified":"2013-01-03T19:30:00","modified_gmt":"2013-01-03T19:30:00","slug":"115o-aniversario-natalicio-de-luiz-carlos-prestes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4122","title":{"rendered":"115\u00ba ANIVERS\u00c1RIO NATAL\u00cdCIO DE LUIZ CARLOS PRESTES"},"content":{"rendered":"\n<p>LUIZ CARLOS PRESTES: SUA ATIVIDADE COMO ENGENHEIRO<\/p>\n<p>Anita Leocadia Prestes<\/p>\n<p>A vida de Luiz Carlos Prestes ainda \u00e9 pouco conhecida do grande p\u00fablico; ao mesmo tempo, s\u00e3o constantemente distorcidas suas id\u00e9ias e caluniados muitos dos seus gestos pol\u00edticos. No texto abaixo, procura-se divulgar um aspecto pouco conhecido da trajet\u00f3ria do Cavaleiro da Esperan\u00e7a \u2013 sua atividade como engenheiro n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas tamb\u00e9m em v\u00e1rios outros pa\u00edses em que sua vida de revolucion\u00e1rio o levou a exilar-se.<\/p>\n<p>Rio de Janeiro<\/p>\n<p>Luiz Carlos Prestes colou grau como engenheiro militar em janeiro de 1920, ao concluir o curso de Engenharia na Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. Nessa ocasi\u00e3o, foi promovido a 2\u00ba tenente de Engenharia. Como fora o primeiro aluno da turma, tinha o direito de escolher o lugar onde iria servir. Sua escolha recaiu sobre a Companhia Ferrovi\u00e1ria, aquartelada em Deodoro, sub\u00farbio do Rio de Janeiro. Havia duzentos homens nessa Companhia. Prestes recordaria que era uma ferrovia de campanha, para contornar a frente e realizar o transporte na retaguarda. Mas havia grande falta de material necess\u00e1rio para realizar o trabalho previsto e o \u00fanico ano em que se realizaram manobras foi aquele em que Prestes, substituindo o comandante, que estudava medicina e s\u00f3 comparecia para assinar o expediente, passou, na pr\u00e1tica a comandar a Companhia. O jovem tenente contava que o comandante confiava inteiramente nele:<\/p>\n<p>Eu fazia tudo, dominava completamente a obra, comandava realmente a Companhia. Dirigia, fazia tudo, tinha inclusive institu\u00eddo escolas. Eu chegava no quartel de manh\u00e3 cedo, \u00e0s seis horas, e, \u00e0s vezes, s\u00f3 sa\u00eda \u00e0s oito da noite. Porque fiz escola para cabos, escola para sargentos e escola para alfabetiza\u00e7\u00e3o. Foi a primeira imagem que tive do povo brasileiro. Eu recebi uma turma de cem recrutas, todos eles origin\u00e1rios aqui dessa Baixada fluminense, a\u00ed de \u00a0Mangaratiba, etc. Analfabetos, dezoito anos. (&#8230;) Com dezoito anos se alistavam e tinham que fazer o servi\u00e7o militar. (&#8230;) Na sua maioria, 90% analfabetos. Todos eles com vermes intestinais (&#8230;) Os m\u00e9dicos tratavam com uma \u00a0brutalidade tremenda \u2013 era erva de Santa Maria e purgante de \u00f3leo de r\u00edcino. De maneira que o indiv\u00edduo levava um choque violento. (&#8230;) E um deles morreu. (&#8230;) E esses homens todos, eu consegui que aprendessem a ler, em pouco tempo, e depois tinha a Escola de cabos, Escola de sargentos. Fiquei ali na Companhia Ferrovi\u00e1ria um ano. (&#8230;) Mas, em fins de 1920, como eu tinha sido o primeiro aluno da turma, fui convidado para ser instrutor na Escola Militar.<sup>1<\/sup><\/p>\n<p>O capit\u00e3o Jos\u00e9\u00a0Rodrigues, ao exercer o comando da Companhia Ferrovi\u00e1ria por um curto per\u00edodo, testemunhou que Prestes \u201ctamb\u00e9m era um soldado\u201d, afirmando que para ele fora uma revela\u00e7\u00e3o v\u00ea-lo \u201cempunhar a picareta e o fac\u00e3o do mato e mostrar ao soldado, em linguagem simples, clara, como se fazia uma trincheira ou uma rede de arame\u201d\u00a0 e observar \u201ccomo os soldados o ouviam atentos! E como manifestavam a sua satisfa\u00e7\u00e3o!\u201d<sup>2<\/sup><\/p>\n<p>Em janeiro de 1921, Prestes, j\u00e1\u00a0promovido a 1\u00ba\u00a0tenente, a convite do coronel Monteiro de Barros, comandante da Escola Militar, assumia o posto de auxiliar de instrutor de Engenharia. Cada arma tinha um instrutor e um auxiliar. Anos mais tarde, ele recordaria que \u201ca instru\u00e7\u00e3o de Engenharia era a coisa mais complicada que havia\u201d, por que era necess\u00e1rio dar v\u00e1rios tipos de instru\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>desde abrir trincheiras (&#8230;), construir pontes (&#8230;.) telegrafia (&#8230;), radiotelegrafia, telefonia, fotografia (&#8230;.) tudo isso cabia na instru\u00e7\u00e3o de Engenharia. Para dois &#8230;[o instrutor e o auxiliar]&#8230; tinham que ser enciclop\u00e9dicos (&#8230;) E n\u00e3o havia material nenhum! De maneira que a primeira coisa que eu fiz foi pedir \u00a0material.<sup>3<\/sup><\/p>\n<p>O 1\u00ba\u00a0tenente Luiz Carlos havia solicitado material para poder dar aula. Mas o material n\u00e3o chegava. Apenas lhe passaram algum material de fotografia. \u201cTinha l\u00e1 uma esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio-telegrafia, tinha algum material velho de telefonia de campanha, assim, muito pouca coisa, mas com esse material eu fui andando. Mas nada de receber o material.\u201d Finalmente, ap\u00f3s uns seis meses, recebeu uma ter\u00e7a ou quarta parte do que havia pedido. \u201cFiquei t\u00e3o indignado que resolvi pedir demiss\u00e3o. Porque, como instrutor de Engenharia, eu tinha direito a uma di\u00e1ria de mil mil-r\u00e9is, al\u00e9m do soldo de 1\u00ba tenente.\u201d (Idem) Mas todos os alunos de Engenharia lhe pediram insistentemente que n\u00e3o sa\u00edsse. Nesse \u00ednterim, Prestes j\u00e1 havia sido promovido a diretor de instru\u00e7\u00e3o da arma de Engenharia, mas n\u00e3o lhe destinaram nenhum auxiliar. Ele dava aula tamb\u00e9m \u00e0s outras armas, de Infantaria e de Cavalaria. Atendendo ao pedido dos alunos, Prestes permaneceu na Escola Militar at\u00e9 o final de 1921, quando, sem receber o material solicitado, fez um requerimento pedindo demiss\u00e3o.(Idem)<\/p>\n<p>Antes disso, tanto o comandante da Escola Militar quanto o capit\u00e3o Bentes Monteiro, oficial de gabinete do Presidente da Rep\u00fablica, haviam insistido com Prestes para que n\u00e3o se demitisse. O jovem 1\u00ba\u00a0tenente respondia:<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o posso dar instru\u00e7\u00e3o. Eu estou enganando a Na\u00e7\u00e3o, fingindo que estamos formando oficiais de Engenharia, mas n\u00e3o estamos, e eu estou recebendo uma di\u00e1ria a mais por isso. N\u00e3o posso ficar nessa posi\u00e7\u00e3o, tenho que sair daqui, desde que n\u00e3o me d\u00e3o material. (Idem)<\/p>\n<p>O capit\u00e3o Bentes Monteiro sugeriu a Prestes que fizesse um requerimento especificando tudo que ele considerasse necess\u00e1rio. Nesse requerimento, ele pedia<\/p>\n<p>o que era necess\u00e1rio e o que n\u00e3o era. Menos de tr\u00eas oficiais n\u00e3o podiam ser instrutores, por que eu tinha uma por\u00e7\u00e3o de assuntos diversos. Cada um tinha que se especializar nalguma coisa para poder ensinar. E material.(&#8230;) Como n\u00e3o me deram resposta, deixei passar um m\u00eas, fiz um outro\u00a0 requerimento, \u00a0reiterando o pedido de demiss\u00e3o. Ent\u00e3o me demitiram e eu voltei para a minha Companhia, em Deodoro. (Idem)<\/p>\n<p>Rio Grande do Sul<\/p>\n<p>Prestes permaneceu 1\u00ba\u00a0tenente apenas durante um ano, tendo sido promovido a capit\u00e3o de engenheiros do Ex\u00e9rcito ainda em outubro de 1922, quando foi designado para servir no estado do Rio Grande do Sul.\u00a0A miss\u00e3o delegada ao jovem capit\u00e3o Luiz Carlos Prestes pela chefia da Comiss\u00e3o Fiscalizadora da Constru\u00e7\u00e3o de Quart\u00e9is, com sede na Capital da Rep\u00fablica, consistia em assumir a fiscaliza\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de quart\u00e9is nas cidades de Santo \u00c2ngelo, Santiago do Boqueir\u00e3o e S\u00e3o Nicolau, no Noroeste do estado do Rio Grande do Sul. Tratava-se de um contrato da administra\u00e7\u00e3o com a Companhia Construtora de Santos, de propriedade de Roberto Simonsen, conhecido empres\u00e1rio paulista. Antes de partir para o Sul, Prestes procurou saber junto ao tenente-coronel que chefiava a Comiss\u00e3o Fiscalizadora, em que consistiria sua fun\u00e7\u00e3o fiscalizadora, obtendo a resposta de que a documenta\u00e7\u00e3o se encontrava toda no local, no canteiro de obras. Ao chegar a Santo \u00c2ngelo, constatou que n\u00e3o havia documenta\u00e7\u00e3o alguma; apenas \u201csimples desenhos sobre a disposi\u00e7\u00e3o dos pavilh\u00f5es. Nada mais. Eu n\u00e3o sabia, portanto, quais eram as especifica\u00e7\u00f5es &#8230;[o que seria]&#8230; de cimento, de tijolo, de madeira (&#8230;) o telhado (&#8230;) nada\u201d. (Idem)<\/p>\n<p>Prestes ainda viajou \u00e0\u00a0Santa Maria (RS), onde estava instalado o escrit\u00f3rio central da Companhia Construtora de Santos, dirigida pelo coronel reformado Barcelos, da arma de Engenharia, nada tendo conseguido esclarecer a respeito da referida documenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, resolvi tomar um trem e voltei (&#8230;) ao Rio. (&#8230;) Informei ao chefe que eu n\u00e3o podia fiscalizar. O que \u00e9 que eu ia fiscalizar se (&#8230;) n\u00e3o tinha, n\u00e3o sabia quais eram as especifica\u00e7\u00f5es? Ele disse que era isso mesmo. De maneira que eu fiz um pedido de demiss\u00e3o por (&#8230;) n\u00e3o poder fiscalizar a obra, n\u00e3o poder (&#8230;) cumprir a tarefa de que estava encarregado. Mas, como militar, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o que eu tinha era voltar para Santo \u00c2ngelo e aguardar (&#8230;) a minha demiss\u00e3o. De maneira que voltei de novo para Santo \u00c2ngelo. (Idem)<\/p>\n<p>Ao chegar a Santo \u00c2ngelo, Prestes relata que encontrou uma grande quantidade de contas da Companhia Construtora de Santos.<\/p>\n<p>Eu examinei aquelas contas, para n\u00e3o dizer que estava sabotando (&#8230;) Aquele material, que eu vi que, realmente, tinha entrado, que estava dentro dos pre\u00e7os normais, eu botava o visto nas contas. Porque, a quest\u00e3o (&#8230;) a pressa da Companhia Construtora de Santos \u00e9 que colocasse o visto, que ela cobrava. Era um contrato (&#8230;) terr\u00edvel, porque a Companhia (&#8230;) tinha 10% l\u00edquidos sobre todas as despesas. Ela pagava as contas, as despesas e, em menos de um m\u00eas, ela recebia o pagamento pelo Ex\u00e9rcito, pelo Minist\u00e9rio da Guerra, pela Diretoria de Engenharia. Quer dizer que tinha um lucro de 10% ao m\u00eas&#8230;.(risos) Esse \u00e9 que era o neg\u00f3cio da Companhia Construtora de Santos. E a pressa que ela tinha\u00a0 (&#8230;) de que o fiscal desse logo o visto para ir carregar. (Idem)<\/p>\n<p>Prestes recordaria:<\/p>\n<p>As outras contas, que eu tinha d\u00favidas, eu fazia um relat\u00f3rio para o chefe da Comiss\u00e3o, informando porque eu n\u00e3o visava, quais eram os motivos que eu tinha para n\u00e3o visar (&#8230;) porque eu n\u00e3o tinha visto o material, achava que a qualidade era inferior (&#8230;) e mandava um relat\u00f3rio detalhado, conta por conta, que eu n\u00e3o visava, e devolvia as contas. Visitei, fui a Santiago do Boqueir\u00e3o, onde a obra era dirigida por um (&#8230;) engenheiro civil. E estive tamb\u00e9m em S\u00e3o Nicolau, onde havia um pequeno quartel a construir tamb\u00e9m. (Idem)<\/p>\n<p>Prosseguindo seu relato, Prestes conta:<\/p>\n<p>Nesse \u00ednterim (&#8230;) chegou de S\u00e3o Paulo um trem, um grande trem, (&#8230;) de cinco ou seis vag\u00f5es, com madeira \u2013 portas, janelas, esquadrias, de pinho da pior qualidade (&#8230;) dessa madeira cheia de n\u00f3s, que voc\u00ea metia o dedo e ficava um buraco. (&#8230;) O que me chamava muito a aten\u00e7\u00e3o, porque Santo \u00c2ngelo \u00e9 uma regi\u00e3o de muita madeira, barata, e m\u00e3o de obra muito mais barata do que a de S\u00e3o Paulo. E o trabalho que ia dar para colocar essas portas, janelas, esquadrias (&#8230;) ia ser maior do que se fizesse l\u00e1 mesmo (&#8230;) porque estava tudo \u00a0desengon\u00e7ado, madeira verde, que n\u00e3o dava, n\u00e3o acertava direito, era uma coisa terr\u00edvel. (Idem)<\/p>\n<p>Prestes n\u00e3o teve d\u00favida de embargar esse carregamento:<\/p>\n<p>Eu, ent\u00e3o, embarguei. (&#8230;) E, embargado (&#8230;)\u00a0 dentro de poucos dias, recebi um telegrama do chefe da Comiss\u00e3o, de que as janelas, as portas (&#8230;) a madeira que havia sido enviada de S\u00e3o Paulo &#8211; e de uma oficina de carpintaria que o \u00a0Simonsen tinha em S\u00e3o Caetano \u2013 (&#8230;) eram realmente as que tinham vindo (&#8230;) e que eu, ent\u00e3o, suspendesse o embargo. Ent\u00e3o, eu fiz um of\u00edcio ao chefe\u00a0 da Comiss\u00e3o (&#8230;), uma carta, em que explicava que eu era um simples fiscal, mas que, nessas condi\u00e7\u00f5es, eu n\u00e3o poderia permitir que suspendesse o embargo, para permitir o emprego desse material, enquanto n\u00e3o viesse uma ordem expressa da chefia da Comiss\u00e3o de que as portas, as janelas, esquadrias deviam ser de pinho de p\u00e9ssima qualidade, mal confeccionadas, etc&#8230;.(risos)&#8230; De maneira que a coisa ficou embargada l\u00e1, ficou parada l\u00e1, n\u00e3o veio essa carta e o material ficou embargado.(Idem)<\/p>\n<p>Mais tarde, o jovem capit\u00e3o verificou que n\u00e3o havia sequer um plano de esgotos para o quartel:<\/p>\n<p>Era uma rede de esgotos complicada, porque havia edif\u00edcios em altura \u2013\u00a0havia uma s\u00e9rie de coxilhas -, de maneira que eram 54 pavilh\u00f5es, era um regimento de Cavalaria, com baias e (&#8230;) para cavalos e alojamentos para os soldados e administra\u00e7\u00e3o. De maneira que, para n\u00e3o dizer tamb\u00e9m que eu estava \u00a0sabotando, eu mesmo comecei a tomar os pontos das cotas, das alturas, e iniciei um projeto de esgotos, de rede de esgotos, porque (&#8230;) sen\u00e3o (&#8230;) era poss\u00edvel que, descarregando num edif\u00edcio, se levantasse noutro &#8230; (risos)&#8230; porque os vasos comunicantes s\u00e3o&#8230; (risos)&#8230;. levam a isso. Comecei a fazer (&#8230;) a estudar e a fazer esse projeto. Mas demorava, era um projeto demorado. Eu estava l\u00e1 sozinho.(&#8230;) Chega, ent\u00e3o, uma turma de uns vinte oper\u00e1rios, especialistas (&#8230;) em esgotos, em (&#8230;) rede de esgotos, chegou de S\u00e3o Paulo. Todos eles com di\u00e1ria, tinham uma di\u00e1ria para hot\u00e9is \u2013 eles foram todos morar em hotel -, com uma determinada di\u00e1ria. De maneira que, quando eles chegaram, quando a primeira picareta levantou para abrir um local para iniciar as valetas, a \u00a0constru\u00e7\u00e3o dos esgotos, eu tamb\u00e9m embarguei, n\u00e3o permiti. (&#8230;) Sem plano. Iam fazer simplesmente (&#8230;) os locais, colocar l\u00e1 a rede de esgotos sem nenhum plano.N\u00e3o havia nenhum plano. De maneira que (&#8230;) tamb\u00e9m embarguei. Embargado isso, dentro de pouco tempo, ent\u00e3o me deram\u00a0 a minha demiss\u00e3o \u201cpor necessidade de servi\u00e7o\u201d&#8230; (risos)&#8230; Fui transferido, por necessidade de servi\u00e7o, para o Batalh\u00e3o Ferrovi\u00e1rio (&#8230;) em Santo \u00c2ngelo. (&#8230;) De maneira que essa foi a minha vida com a Companhia Construtora de Santos. (Idem)<\/p>\n<p>Prestes foi transferido para o 1\u00ba Batalh\u00e3o Ferrovi\u00e1rio (1\u00baBF) de Santo \u00c2ngelo no segundo semestre de 1923. Eis o seu relato:<\/p>\n<p>Assumi o cargo de chefe da Se\u00e7\u00e3o de Constru\u00e7\u00e3o e fui para um local a 20 quil\u00f4metros da cidade de Santo \u00c2ngelo, onde estava uma companhia do Batalh\u00e3o. Eu era o \u00fanico oficial; tinha uma companhia de 200 homens, que estavam construindo uma ponte sobre um rio, afluente do Iju\u00ed. A\u00ed est\u00e1vamos acampados. Os soldados estavam num alojamento, um barrac\u00e3o de palha, de ch\u00e3o de barro, cama de vara; terrivelmente mal alojados. Os sargentos eram uns burocratas terr\u00edveis, n\u00e3o se preocupavam (&#8230;) nunca houve instru\u00e7\u00e3o militar no batalh\u00e3o. Eu, estando conspirando, resolvi dar instru\u00e7\u00e3o aos soldados. De maneira que organizei e tive\u00a0 \u00eaxito\u00a0 no\u00a0 comando\u00a0 dessa\u00a0 companhia, \u00a0principalmente porque tinha a liberdade administrativa. Eu recebia diretamente o dinheiro e administrava a etapa desses 200 soldados. Ent\u00e3o, a primeira medida que tomei \u2013 ao contr\u00e1rio do que se faz em geral nos quart\u00e9is -, em vez de escalar um soldado para cozinheiro, eu, com a etapa, aluguei um cozinheiro, um verdadeiro cozinheiro por 400 mil-r\u00e9is ao m\u00eas, naquela \u00e9poca, e um padeiro. Mandei fazer um forno, desses fornos de campanha. Ent\u00e3o, tinha um padeiro e um cozinheiro. E estabeleci uma divis\u00e3o do trabalho. Com os soldados mesmos, eu fiz um campo de esporte. Preparamos um campo para poder dar instru\u00e7\u00e3o f\u00edsica e instru\u00e7\u00e3o militar tamb\u00e9m. Dividi os soldados em duas turmas de 100\u00a0 e, um dia sim um dia n\u00e3o, uma dessas turmas ia para o campo para receber instru\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Eu dava gin\u00e1stica e fazia instru\u00e7\u00e3o f\u00edsica para esses soldados e, depois, dava ordem-unida para os\u00a0 transformar\u00a0 realmente em solados. E a outra turma de 100 eu dividia em pequenos grupos de 15 a 20 homens, e cada um deles com um respons\u00e1vel, para os quais eu dava ordens escritas. E eles iam, ent\u00e3o, para a constru\u00e7\u00e3o dos bueiros, ou nivelamento de linha, ou extens\u00e3o de trilhos, coloca\u00e7\u00e3o de dormentes. Enfim, cada um deles tinha uma tarefa \u00a0definida. E, ao mesmo tempo, criei tr\u00eas escolas. Fiz escola de alfabetiza\u00e7\u00e3o, e eu tinha somente uns 20 analfabetos. Era um pessoal saud\u00e1vel, filhos de colonos; em geral, eram filhos de alem\u00e3es, de italianos, e um pessoal que se alimentava mais ou menos bem. Alguns tinham o primeiro grau, e eu mesmo dava \u00a0aula. (Idem)<\/p>\n<p>Prestes conta a seguir como era a vida no acampamento por ele dirigido:<\/p>\n<p>Acord\u00e1vamos pela manh\u00e3, com a alvorada, tomava-se um caf\u00e9\u00a0muito diferente desse caf\u00e9 que se d\u00e1 nos quart\u00e9is, porque, al\u00e9m de um caf\u00e9 com leite, com p\u00e3o e manteiga, ainda tinha, pelo menos, um peda\u00e7o de carne com batata e o p\u00e3o fresco que saia do forno. Depois que voltavam\u00a0 da instru\u00e7\u00e3o ou do trabalho, mais ou menos ao meio-dia, tinham um almo\u00e7o e, depois do almo\u00e7o, uma meia hora depois, se iniciava a escola regimental, que ia at\u00e9 as tr\u00eas horas da tarde. \u00c0s tr\u00eas horas davam um mate, e todos \u00edamos para o trabalho, inclusive eu, que tamb\u00e9m ia para o trabalho na constru\u00e7\u00e3o da linha. Quando volt\u00e1vamos, \u00e0 tarde, est\u00e1vamos esgotados do trabalho. Eu exigia trabalho. Tomavam banho, \u00a0jantavam, e o pessoal ia era tratar de dormir. Eu ficava de tal maneira fatigado (&#8230;) tinha uma pequena casa onde eu vivia sozinho (&#8230;)\u00a0 Eu comia a mesma comida dos soldados (&#8230;) Houve noite em que eu acordei com o toque de alvorada (&#8230;) Tinha dormido fardado, na mesa em que estava trabalhando &#8230; (risos)&#8230; de t\u00e3o fatigado que estava (&#8230;) Porque eu escrevia as ordens todas durante a noite (&#8230;) cada ordem para cada turma. (Idem)<\/p>\n<p>Prosseguindo em seu relato, Prestes conta:<\/p>\n<p>Na alfabetiza\u00e7\u00e3o, eu empreguei o seguinte: cada soldado analfabeto entreguei a um soldado que sabia ler e escrever. E ensinava a ele como \u00e9 que ele devia ensinar o analfabeto. Com grande \u00eaxito, n\u00e3o \u00e9? Em tr\u00eas meses, estavam todos j\u00e1 assinando o nome. Fizemos at\u00e9 uma festa para entrega de diploma aos que ficaram alfabetizados. Fizeram uma bandeira brasileira com as assinaturas, com uma dedicat\u00f3ria para mim, que eles me davam. E os outros graus (&#8230;) eu fiz um primeiro e um segundo grau, preparando os soldados para poderem fazer exame para cabo, com o objetivo de elevar o n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o desse grupo que eu pretendia levar \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, queria levar para a luta armada. (Idem)<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Prestes assinalava que esse novo tipo de instru\u00e7\u00e3o militar por ele adotado no comando da sua companhia levou a que \u201ca disciplina e o entusiasmo dos soldados &#8230;. [fosse]&#8230; imensa\u201d. (Idem) Seu prest\u00edgio se tornaria enorme, garantindo-lhe a fidelidade do 1\u00baBF no momento do levante em prepara\u00e7\u00e3o. Nascia um novo tipo de relacionamento, desconhecido at\u00e9\u00a0ent\u00e3o nas fileiras do Ex\u00e9rcito brasileiro, entre os soldados e o comandante. Prestes conseguia estimular a iniciativa dos soldados &#8211; sem desprezar a disciplina -, que era alcan\u00e7ada com o exemplo do seu pr\u00f3prio comportamento, exclu\u00edda a pr\u00e1tica da viol\u00eancia e dos castigos corporais.<\/p>\n<p>Em abril de 1924, ocorreu um incidente entre Prestes e o comandante do 1\u00baBF, envolvido em desvio de verba p\u00fablica e, por isso, denunciado por Prestes \u00e0s autoridades competentes. Esse comandante acabou sendo substitu\u00eddo por outro, que, ao chegar a Santo \u00c2ngelo, passou a perseguir o capit\u00e3o Prestes. Diante de tal situa\u00e7\u00e3o, Prestes achou melhor encaminhar um pedido de licen\u00e7a para tratamento de sa\u00fade. (Idem)<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ter dado parte de doente, Prestes entrou em entendimento com o engenheiro Alexandre Rosa, que trabalhara antes para a Companhia Construtora de Santos e havia criado uma empresa para instalar a luz el\u00e9trica em Santo \u00c2ngelo.<\/p>\n<p>Era uma (&#8230;) instala\u00e7\u00e3o velha, muito m\u00e1\u00a0(&#8230;) a cidade muito mal iluminada, e (&#8230;) como fora inaugurada uma usina hidrel\u00e9trica em Iju\u00ed, ele &#8230; [o Alexandre Rosa] &#8230;fez um contrato para trazer a energia el\u00e9trica de Iju\u00ed para Santo \u00c2ngelo. Eu fiquei encarregado (&#8230;) ele me encarregou, eu passei ao servi\u00e7o da empresa, que ele organizou, para instalar (&#8230;) o servi\u00e7o urbano, quer dizer, as linhas de transmiss\u00e3o dentro da cidade. (Idem)<\/p>\n<p>O material para a obra era fornecido pela empresa alem\u00e3\u00a0Siemens e havia um t\u00e9cnico alem\u00e3o a servi\u00e7o dessa empresa, encarregado da constru\u00e7\u00e3o da linha de transmiss\u00e3o de Iju\u00ed\u00a0a Santo \u00c2ngelo, uma linha de vinte mil volts. Esse t\u00e9cnico alem\u00e3o se chocava com os oper\u00e1rios e o trabalho n\u00e3o avan\u00e7ava. Alexandre Rosa pensou que, no estado em que se encontrava a obra, Prestes n\u00e3o aceitaria lev\u00e1-la adiante. Prestes conta como enfrentou o novo desafio:<\/p>\n<p>Eu disse: &#8211; Eu tomo conta disso a\u00ed, eu fa\u00e7o essa linha a\u00ed. Em tr\u00eas meses eu fa\u00e7o isso funcionar. &#8211; Ele &#8230;.[ o Alexandre Rosa]&#8230; ficou muito admirado de eu aceitar (&#8230;) porque o m\u00eas de junho, julho, no Rio Grande \u00e9 de vento (&#8230;) s\u00e3o meses de muito frio, muita chuva nessa \u00e9poca. Mas, botei l\u00e1 uma barraca, acampei e comecei a construir a linha de transmiss\u00e3o (&#8230;) e aproveitei o alem\u00e3o, que era t\u00e9cnico e conhecia mais do que eu &#8230; (risos)&#8230; na quest\u00e3o da \u00a0transmiss\u00e3o, da constru\u00e7\u00e3o da linha. Era uma linha de tr\u00eas fases (&#8230;) tr\u00eas fios que tinha-se que colocar, levantar os postes, etc. Eu botei a coisa em ordem (&#8230;) e um desastre terr\u00edvel, porque, logo no primeiro dia de trabalho, caiu um poste em cima do joelho&#8230;(risos)&#8230; Passei uma semana de perna estendida (&#8230;) felizmente n\u00e3o quebrou nada. (&#8230;) No fim de uma semana, eu j\u00e1 estava bom e fui para a minha barraca. E houve dias em que n\u00e3o se podia acender um fogo para aquecer um ch\u00e1, um caf\u00e9. E um frio terr\u00edvel. Mas trabalhamos a\u00ed e, \u00a0realmente (&#8230;) isso foi, mais ou menos, em julho, agosto, setembro (&#8230;) Dia 28 de setembro, ou 29, inauguramos a luz el\u00e9trica em Santo \u00c2ngelo.(&#8230;)\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Inauguramos, ainda eu me lembro da linha (&#8230;) constru\u00edmos l\u00e1 duas esta\u00e7\u00f5es transformadoras. (Idem)<\/p>\n<p>Em Santo \u00c2ngelo, o prest\u00edgio do capit\u00e3o engenheiro Luiz Carlos Prestes era muito grande, principalmente ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o da luz el\u00e9trica na cidade, \u201cuma luz el\u00e9trica melhor que a anterior, (&#8230;) a anterior era p\u00e9ssima (&#8230;) uma usina t\u00e9rmica que estava parando quase sempre (&#8230;) a luz apagava a toda hora. De maneira que foi um grande \u00eaxito (&#8230;)\u201d\u00a0(Idem)<\/p>\n<p>Bol\u00edvia<\/p>\n<p>Com o ex\u00edlio da Coluna Prestes na Bol\u00edvia (fevereiro\/1927), a preocupa\u00e7\u00e3o de Prestes foi procurar trabalho para assegurar a sobreviv\u00eancia dos combatentes da Coluna, cuja situa\u00e7\u00e3o era de total pen\u00faria, e, pouco a pouco, garantir seu regresso \u00e0 p\u00e1tria. A companhia inglesa de coloniza\u00e7\u00e3o de terras, Bolivian\u2019s Concession Limited, sediada na vila de Gaiba, que at\u00e9 aquele momento vinha explorando brutalmente os ind\u00edgenas locais, prop\u00f4s a Prestes realizar, com seus homens, a abertura de uma estrada no meio da mata e a constru\u00e7\u00e3o de pontilh\u00f5es, para depois plantar caf\u00e9 e outras culturas, assim como construir dep\u00f3sitos para armazenamento dos produtos. O sal\u00e1rio seria pequeno, de cinco mil r\u00e9is por 8 horas de trabalho, mas aceit\u00e1vel naquelas condi\u00e7\u00f5es. Entretanto, quando a dire\u00e7\u00e3o da empresa percebeu que se tratava de um n\u00famero consider\u00e1vel de trabalhadores \u2013 cerca de 400 ex-combatentes da Coluna -, mudou de id\u00e9ia, fazendo a Prestes a proposta de um contrato por empreitada, em que lhe seriam pagos 200 mil r\u00e9is por quil\u00f4metro de estrada. A proposta era rid\u00edcula, pois significaria um grande preju\u00edzo, uma vez que assim n\u00e3o seria poss\u00edvel pagar cinco mil r\u00e9is a cada trabalhador. Prestes recusou-se a aceit\u00e1-la, propondo que os pr\u00f3prios ingleses tomassem a dire\u00e7\u00e3o, enquanto ele se comprometeria a ajudar, mantendo a disciplina dos empregados. Diante disso, a empresa aceitou a contraproposta de um conto de r\u00e9is (mil mil r\u00e9is) por dia, feita por Prestes. Mesmo assim n\u00e3o cobria o total das despesas, uma vez que estas cresciam com o aumento do n\u00famero de enfermos entre os ex-combatentes da Coluna, todos mantidos com esses recursos. O d\u00e9ficit seria grande, mas era coberto em parte com o dinheiro das subscri\u00e7\u00f5es feitas no Brasil por v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os da imprensa do pa\u00eds.<sup>4<\/sup> Prestes permaneceu na Bol\u00edvia at\u00e9 abril de 1928.<\/p>\n<p>Argentina<\/p>\n<p>Em novembro de 1928, Prestes, j\u00e1 em Buenos Aires, foi procurado por um empres\u00e1rio brasileiro, Dr. Ot\u00e1vio Botelho, que trabalhava com pavimenta\u00e7\u00e3o de estradas e lhe ofereceu trabalho em Santa F\u00e9 (Argentina). Tratava-se de pavimentar uma grande avenida marginal do Rio Paran\u00e1 nessa cidade. Prestes ficaria com a administra\u00e7\u00e3o dessa obra, enquanto a parte t\u00e9cnica era de responsabilidade da Texaco.\u00a0 Atravessando dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o financeira e sem saber que o empres\u00e1rio era amigo de Get\u00falio Vargas &#8211; e que a oferta de emprego consistia numa forma de tentar conquistar seu apoio \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o olig\u00e1rquica<sup>5<\/sup> -, Prestes aceitou a proposta e partiu imediatamente para Santa F\u00e9.<\/p>\n<p>Eis o seu relato sobre o trabalho em Santa F\u00e9:<\/p>\n<p>Quando eu cheguei l\u00e1, em novembro, j\u00e1\u00a0fazia um calor terr\u00edvel (&#8230;) \u00c0s duas horas da tarde, fazia 42\u00ba \u00e0 sombra. E eu via os oper\u00e1rios caindo, insolados (sic.), porque a insola\u00e7\u00e3o \u00e9 depois do almo\u00e7o. (&#8230;) O hor\u00e1rio era: de manh\u00e3, come\u00e7avam \u00e0s oito\u00a0 at\u00e9 o meio-dia; iam almo\u00e7ar e \u00e0s duas horas da tarde, justamente no maior sol, voltavam para o trabalho. E a\u00ed ca\u00edam &#8230; diversos\u00a0 oper\u00e1rios ca\u00edam com insola\u00e7\u00e3o. Eu resolvi, ent\u00e3o, mudar o hor\u00e1rio. Consultei os oper\u00e1rios. Eles concordaram. Eram argentinos &#8230;. poucos, a maior parte eram estrangeiros \u2013 iugoslavos, checos, imigrantes. (&#8230;) E o ingl\u00eas, que era o \u00a0encarregado t\u00e9cnico (&#8230;) estava puxando os cabelos, porque os oper\u00e1rios sabotavam o ingl\u00eas.(&#8230;) A primeira vez que ele fez o asfalto, saiu todo ruim. Ele teve que mandar desmanchar (&#8230;) e j\u00e1 estava meio desesperado. (&#8230;) Mudamos o hor\u00e1rio: come\u00e7ar \u00e0s quatro da manh\u00e3, numa tirada s\u00f3, at\u00e9 o meio-dia&#8230; de oito horas. E eu dava, \u00e0s nove horas, quinze minutos para tomar um caf\u00e9, sem descontar do hor\u00e1rio. (&#8230;) O patr\u00e3o, quando soube disso, ficou indignado comigo, porque eu dei esses quinze minutos! S\u00f3 depois \u00e9 que ele percebeu que ganhava mais com quinze minutos. Eu fui &#8230;(risos)&#8230; bom explorador dos trabalhadores, porque o rendimento era muito maior.<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>Como o ingl\u00eas, encarregado t\u00e9cnico da obra, sofreu um acidente, que o impossibilitou de trabalhar por algum tempo, Prestes n\u00e3o s\u00f3\u00a0 cuidou dele como estudou com ele o processo de prepara\u00e7\u00e3o do concreto asf\u00e1ltico e, de posse do manual com as instru\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, que lhe foi fornecido pelo pr\u00f3prio ingl\u00eas, tornou-se \u201cdono da situa\u00e7\u00e3o\u201d, segundo suas palavras. (Idem)<\/p>\n<p>Durante mais de um ano, Prestes trabalhou em Santa F\u00e9\u00a0e, quando a avenida j\u00e1\u00a0estava quase pronta, ele cedeu o lugar ao seu amigo Vitor C\u00e9sar da Cunha Cruz, \u201ctenente\u201d\u00a0revolucion\u00e1rio, que, perseguido no Rio de Janeiro, atravessava dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o financeira. O Dr. Botelho prometera a Prestes empregar seu amigo, mas quando este chegou, acompanhado de numerosa fam\u00edlia, n\u00e3o havia trabalho para ele. Prestes n\u00e3o vacilou em ceder o lugar ao amigo, voltando para Buenos Aires, onde continuou empregado no escrit\u00f3rio da mesma firma, pois o patr\u00e3o, que era getulista, estava interessado em atra\u00ed-lo para a \u201ccausa\u201d\u00a0dos \u201crevolucion\u00e1rios de 30\u201d. (Idem) Prestes permaneceu na Argentina at\u00e9 outubro de 1930, quando foi expulso do pa\u00eds e transferiu-se para Montevid\u00e9u.<\/p>\n<p>Uruguai<\/p>\n<p>Prestes estava desempregado, em plena crise mundial do capitalismo, com a fam\u00edlia passando dificuldades em Buenos Aires. Em Montevid\u00e9u, arrumou um trabalho de capataz numa empresa que fazia canaliza\u00e7\u00f5es para \u00e1guas pluviais. \u201cEram de cimento armado, grandes galerias de cimento armado. Eu trabalhava como engenheiro (&#8230;) mas me pagavam como capataz. Era um trabalho pesad\u00edssimo.\u201d<sup>7<\/sup><\/p>\n<p>Em Montevid\u00e9u, a situa\u00e7\u00e3o financeira de Prestes era muito dif\u00edcil; ganhava pouco \u201cnum trabalho pesad\u00edssimo (&#8230;) Chegava em casa ultraliquidado. Com a roupa coberta de cimento (&#8230;) e morando na casa de um oper\u00e1rio\u201d\u00a0 num sub\u00farbio da cidade, \u201cuma casa cheia de frestas\u201d, onde \u201co frio era tremendo\u201d\u00a0devido ao vento que vinha do Polo Sul.<sup>8<\/sup> Ao Brasil, n\u00e3o era poss\u00edvel voltar, pois se havia intensificado a persegui\u00e7\u00e3o aos comunistas. Nessa situa\u00e7\u00e3o, os companheiros do Partido Comunista do Uruguai lhe propuseram que fosse para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, onde poderia trabalhar como engenheiro<sup>9<\/sup>, teria a possibilidade de conhecer a experi\u00eancia sovi\u00e9tica e lhe ofereceriam maiores oportunidades para estudar o marxismo-leninismo.<\/p>\n<p>Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica<\/p>\n<p>Em Moscou (novembro\/1931), ficou acertado que Prestes seria designado para um \u201ctruste\u201d de constru\u00e7\u00e3o ligado ao Minist\u00e9rio da Ind\u00fastria Pesada.<\/p>\n<p>Reportando-se aos tempos em que trabalhou no \u201ctruste\u201d\u00a0de constru\u00e7\u00e3o, Prestes contava:<\/p>\n<p>Havia sabotagem dos engenheiros estrangeiros, particularmente dos franceses e ingleses, que eram os piores nessa \u00e9poca. Os americanos eram os melhores, porque eram os mais democratas (&#8230;) o americano tinha mais facilidade (&#8230;) mas se desesperava, porque o americano est\u00e1 habituado a fazer uma ordenzinha para o contra-mestre e (..) ele decide. Mas l\u00e1 tinha que formar o contra-mestre, porque os oper\u00e1rios que vinham fazer as constru\u00e7\u00f5es \u2013 eu estive em diversas constru\u00e7\u00f5es \u2013 os oper\u00e1rios (&#8230;) eram camponeses, que nunca tinham visto uma colher de pedreiro. Porque a melhor parte do\u00a0 proletariado tinha morrido na guerra (&#8230;) tinha sido sacrificado na guerra. (Idem)<\/p>\n<p>Comentando o panorama da capital da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, \u201cque parecia desolador\u201d, no in\u00edcio dos anos 1930, Prestes registrou que,<\/p>\n<p>apesar das dificuldades da vida, suscitavam verdadeira admira\u00e7\u00e3o os ingentes esfor\u00e7os do povo sovi\u00e9tico para cumprir em quatro anos o primeiro Plano Quinquenal e, de modo particular, a grande atividade desenvolvida pelo Partido Comunista, que explicava pacientemente ao povo as causas das dificuldades que atravessava.<sup>10<\/sup><\/p>\n<p>Prestes trabalhou nesse \u201ctruste\u201d pouco mais de um ano. Em 1933, conseguiu transfer\u00eancia do \u201ctruste\u201d de engenharia para o Instituto Agr\u00e1rio, uma institui\u00e7\u00e3o anexa \u00e0 Internacional Comunista. Com isso, estava encerrada a carreira de engenheiro de Luiz Carlos Prestes.<\/p>\n<hr \/>\n<p><sup>1<\/sup> LCP (Entrevistas concedidas por Luiz Carlos Prestes a Anita Leocadia Prestes e Marly de Almeida Gomes Vianna, gravadas em fita magn\u00e9tica e transcritas para o papel; RJ, 1981-83). LCP, fita n\u00ba 1.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> RODRIGUES, Jos\u00e9 (capit\u00e3o).\u00a0Luiz Carlos Prestes; sua passagem pela Escola Militar. Fortaleza (Cear\u00e1), Typ. Minerva, de Assis Bezerra, 1927.<\/p>\n<p><sup>3<\/sup> LCP, fita n\u00ba 2.<\/p>\n<p><sup>4<\/sup> LCP, fita n\u00ba 6; fita n\u00ba F(B).<\/p>\n<p><sup>5<\/sup> Em outubro de 1930, quando Vargas percebeu que n\u00e3o iria contar\u00a0 com a participa\u00e7\u00e3o de Prestes na \u201cRevolu\u00e7\u00e3o de 30\u201d, este foi despedido pelo Dr. Botelho.<\/p>\n<p><sup>6<\/sup> LCP, fita n\u00ba 8.<\/p>\n<p><sup>7<\/sup> LCP, fita n\u00ba 9.<\/p>\n<p><sup>8<\/sup> LCP, fita n\u00ba 9; Entrevista de L. C. Prestes concedida a Edgard Carone, Rio de Janeiro, 24 e 25\u00a0 de mar\u00e7o de 1982; texto original (Arquivo particular da autora).<\/p>\n<p><sup>9<\/sup> O governo sovi\u00e9tico contratava engenheiros estrangeiros para as obras do Primeiro Plano Quinquenal, pois os profissionais nacionais, fugindo do poder sovi\u00e9tico, haviam , em grande parte, sa\u00eddo do pa\u00eds.<\/p>\n<p><sup>10<\/sup> PRESTES, Luiz Carlos, \u201cComo cheguei ao comunismo\u201d,\u00a0Cultura Vozes, n\u00ba2, Mar\u00e7o-abril\/1998, p. 150-151.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nlh4\n\n\n\n\n\n\n\n\n(3\/1\/1898-7\/3\/1990)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4122\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-4122","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-14u","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4122","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4122"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4122\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4122"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4122"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4122"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}