{"id":4150,"date":"2013-01-09T00:25:29","date_gmt":"2013-01-09T00:25:29","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4150"},"modified":"2013-01-09T00:25:29","modified_gmt":"2013-01-09T00:25:29","slug":"stedile-dilma-esta-cega-e-sendo-enganada-por-puxa-sacos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4150","title":{"rendered":"Stedile: Dilma est\u00e1 cega e sendo enganada por puxa-sacos"},"content":{"rendered":"\n<p>Stedile: \u201cUltimamente, inventaram at\u00e9 que seria muito caro assentar fam\u00edlias, que \u00e9 necess\u00e1rio primeiro resolver os problemas dos que j\u00e1 t\u00eam terra, e os sem-terra que esperem. Esperar o qu\u00ea? O Bolsa Fam\u00edlia, o trabalho dom\u00e9stico, migrar para S\u00e3o Paulo?\u201d<\/p>\n<p>por\u00a0<strong>Jo\u00e3o Pedro Stedile<\/strong>,\u00a0<strong>da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional do MST, em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/edicao-da-semana\/veja-os-destaques-da-edicao-impressa-de-cartacapital-71\" target=\"_blank\">CartaCapital<\/a><\/strong><\/p>\n<p>A sociedade brasileira enfrenta no meio rural problemas de natureza distintos que precisam de solu\u00e7\u00f5es diferenciadas. Temos problemas graves e emergenciais que precisam de medidas urgentes. H\u00e1 cerca de 150 mil fam\u00edlias de trabalhadores sem-terra vivendo debaixo de lonas pretas, acampadas, lutando pelo direito que est\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o de ter terra para trabalhar. Para esse problema, o governo precisa fazer um verdadeiro mutir\u00e3o entre os diversos organismos e assentar as fam\u00edlias nas terras que existem, em abund\u00e2ncia, em todo o Pa\u00eds. Lembre-se de que o Brasil utiliza para a agricultura apenas 10% de sua \u00e1rea total.<\/p>\n<p>H\u00e1 no Nordeste mais de 200 mil hectares sendo preparados em projetos de irriga\u00e7\u00e3o, com milh\u00f5es de recursos p\u00fablicos, que o governo oferece apenas aos empres\u00e1rios do Sul para produzirem para exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, a presidenta comprometeu-se durante o F\u00f3rum Social Mundial (FSM) de Porto Alegre, em 25 de janeiro de 2012, que daria prioridade ao assentamento dos sem-terra nesses projetos. S\u00f3 a\u00ed seria poss\u00edvel colocar mais de 100 mil fam\u00edlias em 2 hectares irrigados por fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Temos mais de 4 milh\u00f5es de fam\u00edlias pobres do campo que est\u00e3o recebendo o Bolsa Fam\u00edlia para n\u00e3o passar fome. Isso \u00e9 necess\u00e1rio, mas \u00e9 paliativo e deveria ser tempor\u00e1rio.<\/p>\n<p>A \u00fanica forma de tir\u00e1-las da pobreza \u00e9 viabilizar trabalho na agricultura e adjac\u00eancias, que um amplo programa de reforma agr\u00e1ria poderia resolver. Pois nem as cidades, nem o agroneg\u00f3cio dar\u00e3o emprego a essas pessoas.<\/p>\n<p>Temos milh\u00f5es de trabalhadores rurais, assalariados, expostos a todo tipo de explora\u00e7\u00e3o, desde trabalho semiescravo at\u00e9 exposi\u00e7\u00e3o inadequada aos venenos que o patr\u00e3o manda passar, que exige interven\u00e7\u00e3o do governo para criar condi\u00e7\u00f5es adequadas de trabalho, renda e vida. Garantindo inclusive a liberdade de organiza\u00e7\u00e3o sindical.<\/p>\n<p>H\u00e1 na sociedade brasileira uma estrutura de propriedade da terra, de produ\u00e7\u00e3o e de renda no meio rural hegemonizada do modelo do agroneg\u00f3cio que est\u00e1 criando problemas estruturais grav\u00edssimos para o futuro.<\/p>\n<p>Vejamos: 85% de todas as melhores terras do Brasil s\u00e3o utilizadas apenas para soja\/milho; pasto, e cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Apenas 10% dos fazendeiros que possuem \u00e1reas acima de 200 hectares controlam 85% de todo o valor da produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, destinando-a, sem nenhum valor agregado, para a exporta\u00e7\u00e3o. O agroneg\u00f3cio reprimarizou a economia brasileira.<\/p>\n<p>Somos produtores de mat\u00e9rias-primas, vendidas e apropriadas por apenas 50 empresas transnacionais que controlam os pre\u00e7os, a taxa de lucro e o mercado mundial.<\/p>\n<p>Se os fazendeiros tivessem consci\u00eancia de classe, se dariam conta de que tamb\u00e9m s\u00e3o marionetes das empresas transnacionais,<\/p>\n<p>A matriz produtiva imposta pelo modelo do agroneg\u00f3cio \u00e9 socialmente injusta, pois ela desemprega cada vez mais pessoas a cada ano, substituindo-as pelas m\u00e1quinas e venenos. Ela \u00e9 economicamente invi\u00e1vel, pois depende da importa\u00e7\u00e3o, anotem, todos os anos, de 23 milh\u00f5es de toneladas de fertilizantes qu\u00edmicos que v\u00eam da China, Uzbequist\u00e3o, Ucr\u00e2nia etc.\u00a0Est\u00e1 totalmente dependente do capital financeiro que precisa todo ano repassar: 120 bilh\u00f5es de reais para que possa plantar. E subordinada aos grupos estrangeiros que controlam as sementes, os insumos agr\u00edcolas, os pre\u00e7os, o mercado e ficam com a maior parte do lucro da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Essa depend\u00eancia gera distor\u00e7\u00f5es de todo tipo: em 2012 faltou milho no Nordeste e aos avicultores, mas a Cargill, que controla o mercado, exportou 2 milh\u00f5es de toneladas de milho brasileiro para os Estados Unidos. E o governo deve ter lido nos jornais, como eu\u2026<\/p>\n<p>Por outro lado, importamos feij\u00e3o-preto da China, para manter nossos h\u00e1bitos alimentares.<\/p>\n<p>Esse modelo \u00e9 insustent\u00e1vel para o meio ambiente, pois pratica a monocultura e destr\u00f3i toda a biodiversidade existente na natureza, usando agrot\u00f3xicos de forma exagerada. E isso desequilibra o ecossistema, envenena o solo, as \u00e1guas, a chuva e os alimentos.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que o Brasil responde por apenas 5% da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola mundial, mas consome 20% de todos os venenos do mundo. O Instituto Nacional do C\u00e2ncer (Inca) revelou que a cada ano surgem 400 mil novos casos de c\u00e2ncer, a maior parte origin\u00e1ria de alimentos contaminados pelos agrot\u00f3xicos. E 40% deles ir\u00e3o a \u00f3bito.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o ped\u00e1gio que o agroneg\u00f3cio das multinacionais est\u00e1 cobrando de todos os brasileiros! E aten\u00e7\u00e3o: o c\u00e2ncer pode atingir a qualquer pessoa, independentemente de seu cargo e conta banc\u00e1ria.<\/p>\n<p>Uma pol\u00edtica de reforma agr\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 apenas a simples distribui\u00e7\u00e3o de terras para os pobres. Isso pode ser feito de forma emergencial para resolver problemas sociais localizados. Embora nem por isso o governo se interesse.<\/p>\n<p>No atual est\u00e1gio do capitalismo, reforma agr\u00e1ria \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de um novo modelo de produ\u00e7\u00e3o na agricultura brasileira. Que comece pela necess\u00e1ria democratiza\u00e7\u00e3o da propriedade da terra e que reorganize a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola em outros par\u00e2metros.<\/p>\n<p>Em agosto de 2012, reunimos os 33 movimentos sociais que atuam no campo, desde a Contag at\u00e9 o movimento dos pescadores, quilombolas, MST etc., e constru\u00edmos uma plataforma unit\u00e1ria de propostas de mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que a agricultura seja reorganizada para produzir, em primeiro lugar, alimentos sadios para o mercado interno e para toda a popula\u00e7\u00e3o brasileira. E isso \u00e9 necess\u00e1rio e poss\u00edvel, criando pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam o est\u00edmulo a uma agricultura diversificada em cada bioma, produzindo com t\u00e9cnicas de agroecologia. E o governo precisa garantir a compra dessa produ\u00e7\u00e3o por meio da Conab.<\/p>\n<p>A Conab precisa ser transformada na grande empresa p\u00fablica de abastecimento, que garante o mercado aos pequenos agricultores e entregue no mercado interno a pre\u00e7os controlados. Hoje j\u00e1 temos programas embrion\u00e1rios como o PAA (programa de compra antecipada) e a obrigatoriedade de 30% da merenda escolar ser comprada de agricultores locais. Mas isso atinge apenas 300 mil agricultores e est\u00e1 longe dos 4 milh\u00f5es existentes.<\/p>\n<p>O governo precisa colocar muito mais recursos em pesquisa agropecu\u00e1ria para alimentos e n\u00e3o apenas servir \u00e0s multinacionais, como a Embrapa est\u00e1 fazendo, em que apenas 10% dos recursos de pesquisa s\u00e3o para alimentos da agricultura familiar. Criar um grande programa de investimento em tecnologias alternativas, de mecaniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola para pequenas unidades e de pequenas agroind\u00fastrias no Minist\u00e9rio de Ci\u00eancia e Tecnologia.\u00a0Criar um grande programa de implanta\u00e7\u00e3o de pequenas e m\u00e9dias agroind\u00fastrias na forma de cooperativas, para que os pequenos agricultores, em todas as comunidades e munic\u00edpios do Brasil, possam ter suas agroind\u00fastrias, agregando valor e criando mercado aos produtos locais.<\/p>\n<p>O BNDES, em vez de seguir financiando as grandes empresas com projetos bilion\u00e1rios e concentradores de renda, deveria criar um grande programa de pequenas e m\u00e9dias agroind\u00fastrias para todos os munic\u00edpios brasileiros.<\/p>\n<p>J\u00e1 apresentamos tamb\u00e9m ao governo propostas concretas para um programa efetivo de fomento \u00e0 agroecologia e um programa nacional de reflorestamento das \u00e1reas degradadas, montanhas e beira de rios nas pequenas unidades de produ\u00e7\u00e3o, sob controle das mulheres camponesas.<\/p>\n<p>Seria um programa barato e ajudaria a resolver os problemas das fam\u00edlias e da sociedade brasileira para o reequil\u00edbrio do meio ambiente.<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o h\u00e1 motiva\u00e7\u00e3o no governo para tratar seriamente esses temas.<\/p>\n<p>Por um lado, est\u00e3o cegos pelo sucesso burro das exporta\u00e7\u00f5es do agroneg\u00f3cio, que n\u00e3o tem nada a ver com projeto de pa\u00eds, e, por outro lado, h\u00e1 um contingente de t\u00e9cnicos bajuladores que cercam os ministros, sem experi\u00eancia da vida real, que apenas analisam sob o vi\u00e9s eleitoral ou se \u00e9 caro ou barato\u2026<\/p>\n<p>Ultimamente, inventaram at\u00e9 que seria muito caro assentar fam\u00edlias, que \u00e9 necess\u00e1rio primeiro resolver os problemas dos que j\u00e1 t\u00eam terra, e os sem-terra que esperem. Esperar o qu\u00ea? O Bolsa Fam\u00edlia, o trabalho dom\u00e9stico, migrar para S\u00e3o Paulo?<\/p>\n<p>Presidenta Dilma, como a senhora l\u00ea a\u00a0<strong>CartaCapital<\/strong>, espero que leia este artigo, porque dificilmente algum puxa-saco que a cerca o colocaria no clipping do dia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.viomundo.com.br\/denuncias\/stedile-dilma-esta-cega-e-sendo-enganada-por-puxa-sacos.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.viomundo.com.br\/denuncias\/stedile-dilma-esta-cega-e-sendo-enganada-por-puxa-sacos.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nViomundo\n\n\n\n\n\n\n\n\npublicado em 7 de janeiro de 2013 \u00e0s 11:24\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4150\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[54],"tags":[],"class_list":["post-4150","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c65-lulismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-14W","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4150","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4150"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4150\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}