{"id":4154,"date":"2013-01-09T22:58:34","date_gmt":"2013-01-09T22:58:34","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4154"},"modified":"2015-06-09T00:09:36","modified_gmt":"2015-06-09T03:09:36","slug":"o-capitalismo-num-beco-sem-saida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4154","title":{"rendered":"O capitalismo num beco sem sa\u00edda"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png?w=747\" alt=\"\" align=\"right\" border=\"0\" \/>Manuel Raposo<\/p>\n<p>Publicamos uma recens\u00e3o do mais recente livro de Fred Goldstein, colaborador ass\u00edduo de\u00a0<a href=\"http:\/\/odiario.info\/\" target=\"_blank\">odiario.info<\/a>. Toda a an\u00e1lise marxista \u00e9 hoje necess\u00e1ria n\u00e3o apenas para compreender o desenvolvimento da crise geral do capitalismo actualmente em curso, mas tamb\u00e9m para formular as perspectivas de uma sa\u00edda anticapitalista para este quadro. E ainda mais quando a reflex\u00e3o de Goldstein incide em particular sobre a principal pot\u00eancia, os EUA.<!--more--><\/p>\n<p>O Capitalismo num Beco Sem Sa\u00edda (*) \u00e9 o expressivo t\u00edtulo de um livro publicado este ano nos EUA que analisa a presente crise do capitalismo mundial de um ponto de vista marxista. Centrado sobretudo na situa\u00e7\u00e3o dos EUA, o livro mostra o significado da destrui\u00e7\u00e3o de emprego e da sobreprodu\u00e7\u00e3o numa era de alta tecnologia e grande produtividade do trabalho. Uma obra que, a partir da actualidade, aborda n\u00e3o apenas os aspectos econ\u00f3micos da crise mas tamb\u00e9m os movimentos sociais e pol\u00edticos que ela est\u00e1 a gerar.<\/p>\n<p>O autor, o norte-americano Fred Goldstein, colabora no jornal Workers World e publicou em 2008 uma outra obra, Capitalismo de Baixos Sal\u00e1rios (**), em que aponta os efeitos do novo imperialismo globalizado e de alta tecnologia na luta de classes nos EUA.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o de O Capitalismo num Beco Sem Sa\u00edda, ao qual se dedica esta recens\u00e3o, assenta em tr\u00eas ou quatro dados decisivos para entender a actual crise, mas muito pouco falados pelas correntes de opini\u00e3o dominantes. S\u00e3o eles, a nosso ver, os seguintes:<\/p>\n<p>&#8211; Esta crise \u00e9 de longa dura\u00e7\u00e3o, estamos ainda nos seus primeiros est\u00e1gios, e, pela sua natureza, n\u00e3o se compara aos normais altos e baixos da actividade econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>&#8211; Na sua raiz est\u00e1 uma quebra na taxa de acumula\u00e7\u00e3o do capital, o que faz dos aspectos financeiros uma decorr\u00eancia e n\u00e3o uma causa dos problemas presentes.<\/p>\n<p>&#8211; A crise estalou depois de d\u00e9cadas de grande progresso tecnol\u00f3gico, de aumento da produtividade do trabalho e da concorr\u00eancia, o que desmente a ideia espalhada de falta de produ\u00e7\u00e3o e de competitividade, e mostra, pelo contr\u00e1rio, que o sistema rompe pelas costuras em resultado da sua pr\u00f3pria capacidade de produzir em larga escala.<\/p>\n<p>&#8211; Nos casos em que se pode falar de alguma retoma econ\u00f3mica ap\u00f3s o colapso de 2008 (como nos EUA), essa retoma faz-se sem recupera\u00e7\u00e3o do emprego entretanto destru\u00eddo em n\u00fameros sem precedentes.<\/p>\n<p>Da\u00ed, todo o sistema capitalista se encontrar num beco sem sa\u00edda. Ou, como diz o autor, \u201cO capitalismo chegou a um ponto em que nada de natureza econ\u00f3mica, s\u00f3 por si, poder\u00e1 fazer o sistema avan\u00e7ar e crescer mais\u201d.<\/p>\n<p>A partir destas constata\u00e7\u00f5es, e fazendo compara\u00e7\u00f5es com as grandes crises mundiais de 1873-96 e de 1929-39 \u2013 das quais o capitalismo saiu sob o impulso da guerra (guerra americana-espanhola de 1898, guerras mundiais de 1914-18 e de 1939-45), enveredando pela expans\u00e3o imperialista \u2013 a resposta do capitalismo mundial \u00e0 sua crise de hoje aponta igualmente para a \u201cdestrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de meios de produ\u00e7\u00e3o e de infraestruturas\u201d.<\/p>\n<p>Com os cataclismos verificados desde 2008, o panorama da luta de classes tamb\u00e9m se altera. A tend\u00eancia para lucrar a taxas cada vez menores, a incapacidade de recuperar, mesmo parcialmente, os n\u00edveis de emprego \u2013 traduzem-se numa quebra generalizada dos sal\u00e1rios (um \u201ccapitalismo de baixos sal\u00e1rios\u201d). E, portanto, no dizer de Fred Goldstein, \u201cA era das concess\u00f5es deu lugar \u00e0 \u00e9poca das devolu\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 como \u00e9 bem patente, dizemos n\u00f3s, do lado de c\u00e1 do Atl\u00e2ntico, n\u00e3o apenas na redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios como nos cortes dos apoios sociais, na crescente inseguran\u00e7a do emprego, no ataque aos direitos laborais e sindicais. Tudo aquilo, enfim, que na Europa do p\u00f3s-guerra e no Portugal p\u00f3s 25 de Abril era apresentado como um \u201cganho civilizacional\u201d, supostamente irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>Esta crise mostra ainda ser diferente, sublinha Goldstein, por outra raz\u00e3o. \u201cTodos os m\u00e9todos tradicionais pelos quais o sistema foi estimulado [em situa\u00e7\u00f5es anteriores] est\u00e3o as ser aplicados, mas j\u00e1 n\u00e3o funcionam\u201d. A prova est\u00e1 nos bili\u00f5es de d\u00f3lares (e de euros) injectados sobretudo no sistema financeiro com o \u00fanico efeito de arrastar a crise, mas sem sinais de uma retoma econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>Mais: o facto de os neg\u00f3cios nos EUA marcharem a passo de caracol e de a Europa e o Jap\u00e3o estarem \u00e0 beira do decl\u00ednio, faz aumentar, mesmo nos bastidores do poder, o temor de um novo retrocesso econ\u00f3mico global.<\/p>\n<p>Ora, uma crise de extens\u00e3o mundial, que n\u00e3o se resume a uma quebra c\u00edclica dos neg\u00f3cios nem tem \u00e0 vista nenhuma verdadeira recupera\u00e7\u00e3o, assume ent\u00e3o, parece-nos, um sentido hist\u00f3rico de fim de \u00e9poca.<\/p>\n<p>Na verdade, afirma o autor, \u201cO sistema do lucro entra num est\u00e1dio no qual s\u00f3 consegue arrastar para tr\u00e1s a humanidade\u201d. Ent\u00e3o, \u201cAs massas da popula\u00e7\u00e3o h\u00e3o-de chegar a um ponto em que n\u00e3o poder\u00e3o continuar a seguir o mesmo caminho porque o capitalismo lhes bloqueia todas as vias de sobreviv\u00eancia\u201d. E, chegada a este ponto, \u201ca humanidade s\u00f3 pode avan\u00e7ar limpando a estrada da sobreviv\u00eancia, o que significa nada menos do que destruir o pr\u00f3prio capitalismo\u201d.<\/p>\n<p>As teses do livro de Fred Goldstein, conduzem-nos, com efeito, a uma quest\u00e3o a que os marxistas e o movimento comunista ter\u00e3o de prestar a maior aten\u00e7\u00e3o: com esta crise encerrou-se a \u00e9poca de expans\u00e3o do capitalismo iniciada ap\u00f3s a segunda grande guerra; e, consequentemente, est\u00e3o a criar-se as condi\u00e7\u00f5es para um novo ciclo de revolu\u00e7\u00f5es sociais \u00e0 escala mundial.<\/p>\n<p>Devem, portanto, em nossa opini\u00e3o, ser lidas como sendo da maior actualidade as palavras de Karl Marx no balan\u00e7o que fez \u00e0 crise econ\u00f3mica de 1847. Reflectindo sobre a recupera\u00e7\u00e3o do capitalismo nos anos de 1848 e 1849, uma vez vencidas as revolu\u00e7\u00f5es verificadas na Europa em 1848, dizia ele:<\/p>\n<p>\u201cNesta prosperidade geral, em que as for\u00e7as produtivas da sociedade burguesa se desenvolvem com toda a exuber\u00e2ncia de que s\u00e3o capazes no quadro das rela\u00e7\u00f5es burguesas, n\u00e3o se pode dar nenhuma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o. Uma tal revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel em per\u00edodos em que estes dois factores, as for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o modernas e as formas de produ\u00e7\u00e3o burguesas, entram em conflito.\u201d<\/p>\n<p>E conclui Marx: \u201cUma nova revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel na sequ\u00eancia de uma nova crise. Mas aquela \u00e9 t\u00e3o certa como esta.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a crise que estamos a viver, afinal, a evid\u00eancia do conflito entre as for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o modernas e as formas de produ\u00e7\u00e3o burguesas?<\/p>\n<p><em>(*) Capitalism at a dead end \u2013 Job destruction, overproduction and crisis in the high tech era. A marxist view. Fred Goldstein. World View F\u00f3rum, New York, 2012.<\/em><\/p>\n<p><em>(**)Low-wage capitalism: colossus with feet of clay \u2013 what the new globalized, high-tech imperialism means for the class struggle in the US. Fred Goldstein. World View F\u00f3rum, New York, 2008.<\/em><\/p>\n<p><em>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.jornalmudardevida.net\/\" target=\"_blank\">www.jornalmudardevida.net<\/a><\/em><\/p>\n<p><em>O livro est\u00e1 no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.lowwagecapitalism.com\/\" target=\"_blank\">www.lowwagecapitalism.com\/<\/a> em Ingl\u00eas e est\u00e1 no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.rosa-blindada.info\/b2-img\/Capitalismo.pdf\" target=\"_blank\">www.rosa-blindada.info\/b2-img\/Capitalismo.pdf<\/a> em espanhol.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nOdiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nUma vis\u00e3o marxista da actual crise\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4154\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[104],"tags":[],"class_list":["post-4154","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c117-outras-opinioes"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-150","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4154","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4154"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4154\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4154"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4154"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4154"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}