{"id":4185,"date":"2013-01-15T00:19:28","date_gmt":"2013-01-15T00:19:28","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=4185"},"modified":"2013-01-15T00:19:28","modified_gmt":"2013-01-15T00:19:28","slug":"a-grande-virada-da-resistencia-palestina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4185","title":{"rendered":"A grande virada da resist\u00eancia palestina"},"content":{"rendered":"\n<p>Mais de 250 mulheres e homens, sob o intenso frio do fim de madrugada de 11 de janeiro, fundaram Bab Al Shams (Porta do Sol), a mais nova vila palestina. Ali, no plat\u00f4 pedregoso de al-Tur, eles montaram, com a ajuda de ativistas de v\u00e1rias partes do mundo, dezenas de barracas para evitar a constru\u00e7\u00e3o de novas casas para colonos israelenses. A constru\u00e7\u00e3o da vila \u00e9 uma iniciativa \u00fanica e marca uma nova fase da resist\u00eancia. Os palestinos, segundo a declara\u00e7\u00e3o distribu\u00edda durante a funda\u00e7\u00e3o da vila, n\u00e3o est\u00e3o mais dispostos a esperar que o confisco de seu pa\u00eds se consume. O artigo \u00e9 de Baby Siqueira Abr\u00e3o.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia palestina acaba de entrar em nova fase. Com a funda\u00e7\u00e3o da vila de Bab Al Shams, em 11 de janeiro, ela mostra que a partir de agora vai criar fatos consumados para retomar, na pr\u00e1tica, aquilo que \u00e9 seu por direito<\/p>\n<p>Logo depois que a maioria dos pa\u00edses presentes \u00e0 Assembleia Geral da ONU de 29 de novembro de 2012 reconheceram o Estado da Palestina nos limites anteriores \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o militar israelense de 1967, com Jerusal\u00e9m oriental como capital, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyhau, decidiu desafiar a decis\u00e3o. Em repres\u00e1lia \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas, anunciou a constru\u00e7\u00e3o de tr\u00eas mil unidades habitacionais para colonos judeus, duas mil delas, al\u00e9m de centro comercial e educacional, em al-Tur, \u00e1rea pr\u00f3xima a Jerusal\u00e9m oriental que Israel denomina E1.<\/p>\n<p>Al-Tur fica no Estado da Palestina. E \u00e9 important\u00edssima do ponto de vista geoestrat\u00e9gico. Construir ali uma extens\u00e3o da col\u00f4nia judaica de Ma&#8217;ale Adumin \u2013 ela tamb\u00e9m erigida ilegalmente em territ\u00f3rio palestino \u2013, como quer o governo israelense, significaria dividir a Cisjord\u00e2nia em duas partes.<\/p>\n<p>A Palestina ficaria, ent\u00e3o, com tr\u00eas blocos geograficamente separados: Cisjord\u00e2nia do norte, Cisjord\u00e2nia do sul e Gaza. Todas elas sem nenhum tipo de comunica\u00e7\u00e3o umas com as outras. E sem acesso a Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>O impacto na popula\u00e7\u00e3o palestina, lembra o Alternative Information Center (AIC), organiza\u00e7\u00e3o fundada e dirigida por pesquisadores palestinos e israelenses que apoiam a causa palestina, seria \u201cdesastroso\u201d. As comunidades ficariam isoladas, o crescimento natural seria impedido e, como consequ\u00eancia, os moradores come\u00e7ariam a deixar as \u00e1reas vizinhas a Al-Tur. O caminho estaria aberto para o governo de Israel anexar mais terras a seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, cerca de 2,3 mil bedu\u00ednos que vivem em pequenas comunidades entre Ma&#8217;ale Adumin (localizada na Cisjord\u00e2nia) e Jerusal\u00e9m seriam expulsos. A maioria deles, diz o AIC, \u00e9 composta de refugiados for\u00e7ados a deixar o deserto de Naqab (em hebraico, Negev), ao sul da Palestina, quando os sionistas tomaram a regi\u00e3o \u00e0 for\u00e7a para fundar Israel.<\/p>\n<p>Mais: aproximadamente 50 mil palestinos das cidades de Anata, Abu Dis e Azaria ficariam praticamente isolados do resto do mundo, espremidos entre a col\u00f4nia judaica planejada em al-Tur do lado leste eo Muro do Confisco e do Apartheid a oeste. A \u00fanica comunica\u00e7\u00e3o com seu pr\u00f3prio pa\u00eds seria feita por uma estrada que corta Bel\u00e9m e Ramala.<\/p>\n<p>Hora de mudar as regras do jogo<\/p>\n<p>Pois foi exatamente nessa \u00e1rea sens\u00edvel, fundamental para a contiguidade do Estado da Palestina, que mais de 250 mulheres e homens, sob o intenso frio do fim de madrugada de 11 de janeiro, fundaram Bab Al Shams (Porta do Sol), a mais nova vila palestina.<\/p>\n<p>Ali, no plat\u00f4 pedregoso de al-Tur, eles montaram, com a ajuda de ativistas de v\u00e1rias partes do mundo, dezenas de barracas retangulares de tecido emborrachado branco e creme, estruturadas com vigas de ferro. Uma delas abriga uma cl\u00ednica m\u00e9dica. Outra anuncia, com letras enormes, em \u00e1rabe e em ingl\u00eas: \u201cBab Al Sham Village\u201d.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da vila \u00e9 uma iniciativa \u00fanica e marca uma nova fase da resist\u00eancia. Os palestinos, segundo a declara\u00e7\u00e3o distribu\u00edda durante a funda\u00e7\u00e3o da vila, n\u00e3o est\u00e3o mais dispostos a esperar que o confisco de seu pa\u00eds se consume. A uni\u00e3o entre comit\u00eas populares, movimentos de jovens, organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e os verdadeiros donos daquela \u00e1rea, fortalecidos pela decis\u00e3o da ONU de reconhecer a Palestina como Estado, efetuaram a a\u00e7\u00e3o n\u00e3o violenta mais importante e decisiva dos mais de 100 anos de resist\u00eancia ao sionismo \u2013 o movimento pol\u00edtico que tomou para si, na base do terrorismo e da for\u00e7a, a maior parte da Palestina. Mas o real objetivo, como Ben-Gurion deixou claro em carta escrita a seu filho, e como os sionistas jamais esconderam \u2013 o projeto faz parte do programa do Likud, o partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e de outros partidos de Israel \u2013, \u00e9 tomar a Palestina inteira.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje de manh\u00e3, os palestinos vinham assistindo, impotentes, o governo de Israel levar adiante esse plano, roubando suas terras, destruindo suas casas e seus meios de vida. A constru\u00e7\u00e3o de Bab Al Shams \u00e9 o ponto de virada dessa hist\u00f3ria. Nem mesmo os helic\u00f3pteros que passaram a sobrevoar a nova vila assim que a not\u00edcia chegou aos ouvidos do governo sionista, nem os numerosos soldados que cercaram o local podem mudar isso.<\/p>\n<p>Os palestinos desistiram de esperar que seu direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o lhes seja concedido. Decidiram conquist\u00e1-lo por conta pr\u00f3pria. Apropriaram-se, na pr\u00e1tica, do que sempre foi seu. Mostraram, ao retomar suas terras, a disposi\u00e7\u00e3o de lutar por elas cent\u00edmetro por cent\u00edmetro. Colocaram os sionistas contra o muro que eles mesmo constru\u00edram.<\/p>\n<p>Em Bab Al Shams, em meio \u00e0 montagem das tendas, Abdallah Abu-Rahmah, l\u00edder do Comit\u00ea Popular de Bil&#8217;in, declarava aos rep\u00f3rteres, fazendo eco ao conte\u00fado da declara\u00e7\u00e3o de Bab Al Shams, que \u201cIsrael imp\u00f4s fatos consumados durante d\u00e9cadas, diante do sil\u00eancio da comunidade internacional. Agora \u00e9 hora de mudar as regras do jogo. Somos os donos desta terra e imporemos a nossa realidade\u201d.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, Luisa Morgantini, ex-membro do Parlamento Europeu, aplaudiu a iniciativa, lamentando apenas n\u00e3o estar em Bab Al Sham. Em alguma parte do mundo, os hackerativistas do grupo Anonymous aprovaram a a\u00e7\u00e3o direta da resist\u00eancia palestina: \u201cEste assentamento \u00e9 nosso\u201d, declararam eles no Twitter. \u201cE vai permanecer de p\u00e9 at\u00e9 que os outros [as col\u00f4nias ilegais constru\u00eddas por Israel] tenham ido embora.\u201d<\/p>\n<p>Em Ramallah, a Dra. Hanan Ashrawi, membro da Comiss\u00e3o Executiva da OLP, parabenizou os organizadores e deu total apoio \u00e0 a\u00e7\u00e3o: \u201cEstimulamos a resist\u00eancia popular n\u00e3o violenta contra a ocupa\u00e7\u00e3o israelense em todo o Estado da Palestina\u201d, disse ela, lembrando as priva\u00e7\u00f5es que os palestinos enfrentam para viver em seu pr\u00f3prio pa\u00eds. \u201cA iniciativa \u00e9 uma ferramenta criativa e leg\u00edtima para proteger a Palestina dos planos coloniais de Israel. Temos o direito de viver em qualquer parte de nosso Estado. Conclamamos a comunidade internacional a apoiar a\u00e7\u00f5es como essa ea dar prote\u00e7\u00e3o \u00e0queles que s\u00e3o amea\u00e7ados pelas for\u00e7as ocupantes por exercerem seu direito de resistir pacificamente \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o ilegal de Israel.\u201d<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o do governo israelense<\/p>\n<p>Desafiado por uma a\u00e7\u00e3o baseada em seus pr\u00f3prios m\u00e9todos \u2013 criar fatos consumados para tomar terras palestinas \u2013, o governo israelense despachou soldados para instalar postos de controle (checkpoints) nos acessos \u00e0 nova vila e para cerc\u00e1-la, al\u00e9m de emitir uma ordem de \u201cevacua\u00e7\u00e3o\u201d, exigindo que os moradores deixassem a \u00e1rea. Nenhum deles fez um \u00fanico movimento no sentido de sair dali, at\u00e9 porque naquele mesmo momento a Suprema Corte de Israel decidia favoravelmente a um recurso interposto pela resist\u00eancia. Durante seis dias, declarou o tribunal, Bab Al Shams permanece onde est\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a noite descia, em torno de fogueiras, aquecidos por cobertores e pelo ch\u00e1, a tradicional bebida palestina, os moradores receberam a boa not\u00edcia de que a instala\u00e7\u00e3o el\u00e9trica da vila estava pronta. Luzes foram acesas nas tendas, e notebooks, j\u00e1 sem bateria, ligados.<\/p>\n<p>Aconchegados uns nos outros, palestinas, palestinos e ativistas estrangeiros preparavam-se para a primeira noite da nova vila. A primeira noite de um dia muito especial, marco da virada de um povo at\u00e9 ent\u00e3o imobilizado por circunst\u00e2ncias externas.<\/p>\n<p>Em 11 de janeiro os palestinos decidiram fazer as pr\u00f3prias circunst\u00e2ncias. A nova fase da luta contra o ocupa\u00e7\u00e3o prosseguir\u00e1, como afirma a hist\u00f3rica Declara\u00e7\u00e3o de Bab Al Shams, cuja tradu\u00e7\u00e3o vem a seguir.<\/p>\n<p>Declara\u00e7\u00e3o de Bab Al Shams<\/p>\n<p>N\u00f3s, filhas e filhos da Palestina, de todas as partes do pa\u00eds, anunciamos o estabelecimento da vila de Bab Al Shams. N\u00f3s, o povo, sem permiss\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o, sem permiss\u00e3o de ningu\u00e9m, estamos aqui hoje porque este \u00e9 nosso pa\u00eds e habit\u00e1-lo \u00e9 um direito nosso.<\/p>\n<p>Poucos meses atr\u00e1s o governo israelense anunciou sua inten\u00e7\u00e3o de construir cerca de 4 mil unidades habitacionais na \u00e1rea que denomina E1.<\/p>\n<p>Trata-se de uma \u00e1rea de 13 km2 que fica no territ\u00f3rio palestino confiscado de Jerusal\u00e9m oriental, entre a col\u00f4nia de Ma&#8217;ale Adumin, constru\u00edda na Cisjord\u00e2nia ocupada, e Jerusal\u00e9m. N\u00e3o permaneceremos calados enquanto a expans\u00e3o das col\u00f4nias eo confisco de nosso pa\u00eds continua. Portanto, pela presente declara\u00e7\u00e3o, estabelecemos a vila de Bab Al Shams para proclamar nossa cren\u00e7a na a\u00e7\u00e3o direta e na resist\u00eancia popular.<\/p>\n<p>Declaramos que a vila permanecer\u00e1 em p\u00e9 at\u00e9 que os donos destas terras tenham o direito de construir nelas.<\/p>\n<p>O nome da vila foi retirado da novela Bab Alshams, do escritor liban\u00eas Elias Khoury. O livro descreve a hist\u00f3ria da Palestina por meio do amor entre um palestino, Younis, e sua esposa Nahila. Younis deixa a esposa para unir-se \u00e0 resist\u00eancia no L\u00edbano enquanto Nahila permanece firme no que restou da vila de ambos, na Galileia. Durante os anos 1950 e 1960 Younis sai \u00e0s escondidas do L\u00edbano e volta \u00e0 Galileia para encontrar a esposa na caverna de Bab Al Shams, onde ela d\u00e1 \u00e0 luz os tr\u00eas filhos do casal. Younis retorna \u00e0 resist\u00eancia e Nahila fica na caverna.<\/p>\n<p>Bab Al Shams \u00e9 a porta para nossa liberdade, \u00e9 nossa firmeza. Bab Al Shams \u00e9 nossa porta para Jerusal\u00e9m. Bab Al Shams \u00e9 a porta para o nosso retorno.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas Israel tem criado fatos consumados enquanto a comunidade internacional permanece calada em resposta a essas viola\u00e7\u00f5es. Chegou a hora de mudar as regras do jogo, de estabelecermos fatos consumados em nosso pa\u00eds. Esta a\u00e7\u00e3o, envolvendo mulheres e homens de norte a sul [da Palestina] \u00e9 uma forma de resist\u00eancia popular.<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos dias criaremos v\u00e1rios grupos de discuss\u00e3o, faremos apresenta\u00e7\u00f5es educacionais e art\u00edsticas, passaremos filmes nesta vila. Os moradores de Bab Al Shams convidam todas as filhas e todos os filhos de nosso povo para participar e juntar-se \u00e0 vila, a fim de dar apoio a nossa resist\u00eancia.<\/p>\n<p>O artigo original encontra-se em:\u00a0http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=21489<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n4.bp.blogspot\n\n\n\n\n\n\n\n\nBaby Siqueira Abr\u00e3o\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/4185\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-4185","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-15v","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4185","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4185"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4185\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4185"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4185"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4185"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}